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<journal-title specific-use="original" xml:lang="es">Theomai</journal-title>
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<publisher-name>Red Internacional de Estudios sobre Sociedad, Naturaleza y Desarrollo</publisher-name>
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<subject>Experiencias internacionales de construcción social de la calidad en la producción agroalimentaria</subject>
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<article-title xml:lang="es">Comida relacional: produção de sentidos e sociabilidades nas práticas alimentares da quinta da videira</article-title>
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<institution content-type="original">Doutor em Ciências Sociais. Professor dos Programas de Pós-Gradução em Sociologia (PPGS) e Desenvolvimento
Rural (PGDR) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) </institution>
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<title>Revista THEOMAI / THEOMAI Journal
Estudios críticos sobre Sociedad y Desarrollo / Critical Studies about Society and
Development</title>
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<title>número 38 (segundo semestre 2018) - number 38 (second semester 2018) </title>
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<title>1. Introdução </title>
<p>Há cerca de cinco anos, pesquisando redes de produção e consumo de alimentos orgânicos na
região metropolitana de Curitiba, detivemo-nos sobre uma pequena experiência de agricultura
urbana chamada Quinta da Videira. Vinculada a uma organização social denominada Casa da
Videira, esta experiência era, à primeira vista, uma casa, rodeada por um quintal, com
tamanho similar à maioria dos lotes urbanos das grandes cidades. No entanto, ali
desenvolviam-se dezenas de experimentos de agricultura ecológica, incluindo criação animal.</p>
<p>Naquele momento procuramos compreender, desde uma perspectiva comunicacional, os
sentidos que permeavam as interpretações de diferentes atores sobre a experiência e, mais
amplamente, sobre agricultura urbana (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref20">Schneider, Niederle e Lima, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref19">Schneider, 2014</xref>). </p>
<p>Dentre as inúmeras particularidades que esta experiência viria a revelar ao longo da pesquisa,
uma delas dizia respeito à relação das pessoas com a alimentação, ou, mais precisamente, com
o modo de produzir e comer (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref12">Poulain, 2013</xref>). Diante das primeiras questões colocadas aos
entrevistados, quanto ao tipo de alimento produzido naquele pequeno espaço, a expectativa
era de que a resposta remetesse aos alimentos agroecológicos – não apenas por se tratar de um
dos focos de nossa pesquisa, mas porque era uma opção lógica no interior de uma grande
metrópole (em vista da proibição do uso de inúmeros insumos químicos). Todavia, a resposta
foi outra: “comida relacional”... um termo com um sentido mais profundo do que, à época,
nossos interesses de pesquisa permitiram interpretar. Agora, estimulados por novos
desdobramentos analíticos decorrentes de uma aproximação com a sociologia das práticas
(<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref18">Schatzki, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref13">Reckwitz, 2002</xref>), retomamos a interpretação deste fenômeno com a devida
atenção. </p>
<p>Neste artigo buscamos apreender a construção do sentido de “comida relacional” pelos
participantes da Quinta da Videira, analisando como tal noção, derivada de uma cosmovisão
específica, orienta e se evidencia nas práticas por eles desenvolvidas. As questões que guiam
o trabalho são relativamente simples, mas estão na base de algumas das mais sofisticadas
abordagens contemporâneas da sociologia da alimentação: o que se come? onde se come?
como se come? com quem se come? quando se come? (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref25">Warde, 2016</xref>). Nossa premissa sugere
que a resposta a essas questões permite compreender os sentidos que são atribuídos a tais
práticas, elucidando como elas podem ser apropriadas para além de seus fins utilitários
imediatos. No caso específico da Quinta da Videira, isto nos permitiria acercar-se do sentido
relacional atribuído pelos praticantes dessa forma de produzir, trocar e comer. </p>
<p>Os resultados apresentados recuperam dados recolhidos em diferentes momentos, inclusive
após o fim da Quinta da Videira, a qual teve suas atividades encerradas em virtude de pressões
institucionais advindas do regime alimentar dominante (sobretudo no que tange à legislação
sanitária), em paralelo à iniciativa do grupo em desenvolver experiências no meio rural<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn1">4</xref>
</sup>. A
pesquisa pode ser definida como uma espécie de etnografia sistemática. Mas isto não
traduziria adequadamente o conjunto de procedimentos utilizados. Talvez a ideia de
“convívio” seja mais adequada ao caso em questão, que iniciou com uma parceria de trabalho
pessoal, passou por uma vivência de voluntariado e se desdobrou em uma pesquisa coletiva
formal, envolvendo entrevistas e observação direta. Que tipo de nome é apropriado a um
método que envolve não apenas aplicar entrevistas e questionários, mas capinar, colher,
preparar, rezar e comer em conjunto com os sujeitos da pesquisa? A definição recorrente de
observação participante se aproxima, mas não capta a natureza desta imersão etnográfica. </p>
<p>A interpretação à qual chegamos ao final do trabalho é que a Quinta da Videira constituiu não
apenas uma experiência de agricultura urbana, mas, sobretudo, de comensalidade. Em uma
frase famosa nos movimentos alimentares americanos, o ativista Wendell Berry afirmou:
“Comer é um ato agrícola”. Na mesma linha, o jornalista Michael Pollan (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref11">2007</xref>) complementou:
“É também um ato ecológico, além de um ato político.” A experiência que analisamos a seguir
sugere que os sentidos atribuídos não apenas ao alimento, mas ao conjunto das práticas
alimentares, expressam uma cosmologia distinta daquela que orienta as compreensões mais
recorrentes nas análises do sistema alimentar. Por isso a resposta à nossa questão inicial foi um tanto desconcertante. Enquanto a sociologia relacional nos ensina que os sentidos são
produzidos no curso das interações sociais, na Quinta da Videira a produção de relações
sociais ou, mais amplamente, socioambientais, é o sentido que orienta o conjunto das práticas
alimentares.  </p>
</sec>
<sec>
<title>2. Práticas produtoras de sentidos: do interacionismo à teoria das práticas </title>
<p>A alimentação se tornou objeto de estudo de diversas disciplinas. Se ponto de vista fisiológico
ela é estudada como um processo de transmissão de energia e nutrientes entre diferentes
espécies, com a finalidade de suprir necessidades vitais, para as ciências sociais trata-se de um
fenômeno sociocultural com diversas dimensões subjetivas e simbólicas, as quais mobilizam
o conjunto das instituições sociais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref12">Poulain, 2013</xref>). A alimentação é um “fato social total”
(<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref8">Mauss, 2003</xref>). E, mais do que isso, é um fenômeno biocultural ou um “fato biopsicossocial”
(<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref4">Contreras e Gracia, 201</xref>1). </p>
<p>Epistemologicamente, todavia, muitas abordagens das ciências sociais que analisam este
fenômeno costumam partir de uma interpretação do indivíduo como uma espécie de
“consumidor soberano”, que define racionalmente suas necessidades e os modos de supri-las.
Este é o caso das disciplinas que se desenvolvem a partir da tradição racional-utilitarista. De
outro modo, os estudos que se dedicaram a analisar os temas alimentares a partir de uma
perspectiva estrutural-funcionalista, que destaca o peso das instituições sociais na definição
das ações dos consumidores, concebe-os como uma espécie de ‘marionete cultural’. Essas
posturas sub ou supersocializadas falham, todavia, em analisar como e em quais
circunstâncias os atos alimentares se processam, aquilo que o sociólogo francês Jean-Pierre
Poulain (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref12">2013</xref>) chama de "espaço social alimentar". </p>
<p>Intimamente associada à alimentação, a comensalidade (comer em conjunto) é uma forma de
moldar este fenômeno de uma maneira específica, assim como os atos de produzir e de trocar,
que abarcam sentidos próprios, na medida em que expõem o alimento a uma teia de relações
socioambientais. Tais práticas – o comer, o produzir e o trocar – estão associadas a fatores
econômicos, políticos, ecológicos e culturais próprios de cada organização social. Como
destacam Canesqui e Garcia (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref3">2005, p. 11</xref>), comemos “conforme o meio e a sociedade em que
vivemos”. É verdade que as instituições estruturam as relações sociais, conformando padrões
mais ou menos generalizados de comportamento. “Comemos também de acordo com a
distribuição da riqueza na sociedade, os grupos e classes de pertencimento, marcados por
diferenças, hierarquias, estilos e modos de comer, atravessados por representações coletivas,
imaginários e crenças.” (Ibidem). Mas, ao mesmo tempo, é necessário reconhecer a habilidade
social dos atores não apenas para reagir às prescrições culturais, como para construir
novos quadros valorativos-cognitivos. E, de acordo com a perspectiva praxiológica, eles fazem
isso manejando um conjunto de práticas sociais. </p>
<p>É neste sentido que cabe questionar como são criadas, estabelecidas, reproduzidas e
transformadas as práticas alimentares, e como elas configuram sentidos para a realidade
social. Não temos a pretensão de responder integralmente esta questão neste artigo. Afinal,
trata-se de um dos temas mais atuais e intricados da agenda de pesquisa social nesta área
(<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref21">Shoven e Spurling, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref5">Evans, 2011</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref25">Warde, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref22">Southerton, 2012</xref>). No entanto, esperamos
apontar algumas pistas para a continuidade destas investigações, amparados por uma
interpretação praxiológica sobre a construção do sentido de “comida relacional” pela
experiência da Quinta da Videira, evidenciando como o mesmo orienta e se manifesta em um conjunto de práticas direcionadas, mais que à finalidade imediata de prover a alimentação, a
gerar relações sociais. </p>
<p>Cabe, assim, um breve apanhado sobre como diferentes perspectivas sociológicas tratam da
questão dos sentidos em relação às práticas sociais. A começar pelo entendimento de sentido,
cuja etimologia vem dos termos latinos sensus (perceber) e sentire (sentir), que remetem aos
sentidos do organismo como sistemas de captação de estímulos. Semanticamente, o termo
também é considerado sinônimo de significado, orientação e direção. Peruzzolo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref10">2006, p. 127</xref>),
em diálogo com as reflexões dos lingüistas Julien Greimas e Joseph Courtés (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref6">1979</xref>), esclarece
que o conceito engloba essas duas dimensões: “O sentido, além do que se quer dizer com uma
palavra ou frase (o que é expresso pela categoria de significado), assume as feições de gosto,
sentimento, ideologia, finalidade, valor, etc. Por isso, ele se compõe tanto de significado
quanto de orientação”. </p>
<p>Na perspectiva formulada pelo pragmatista americano George Mead (1967), sociedade e
indivíduo se constituem de forma reflexiva por meio de conversações no nível da elaboração
simbólica. Isso pressupõe a partilha de símbolos e sentidos comuns, o que se dá sobretudo por
meio da linguagem, mas, de modo mais amplo, pelo todo da ação humana. Para o autor, nas
diversas interações sociais, ao mesmo tempo em que os indivíduos (descritos por ele a partir
dos conceitos de I, me, mind e self) percebem seus próprios atos e os dos demais, assumindo
papéis uns dos outros (role taking) e orientando-se por sentidos estabelecidos em um dado
grupo ou situação social, eles também negociam e transformam estes sentidos por meio de sua
ação criativa. </p>
<p>Com base nas formulações de Mead (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref9">1967</xref>), Herbert Blumer (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref2">1969</xref>) postula as principais
premissas do interacionismo simbólico. A primeira é que as pessoas agem com relação às
coisas de acordo com os sentidos que atribuem a elas – entendendo-se por coisas tudo o que é
perceptível em seu mundo, como objetos, pessoas, instituições, atividades, valores, etc. Por sua
vez, os sentidos emergem da interação entre os indivíduos, não sendo, portanto, intrínsecos
nem a eles nem às coisas. Ao agir em relação às coisas, as pessoas acionam, manejam e
modificam esses sentidos. “Assim, o interacionismo simbólico vê os sentidos como produtos
sociais, como criações que são formadas nas e através das atividades definidoras das pessoas
enquanto elas interagem”. (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref2">Blumer, 1969, p.</xref> 5, tradução nossa).
Para Maines (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref7">2000</xref>), grande parte das teorias contemporâneas que tratam da produção dos
sentidos compartilham dessa perspectiva cultural-construtivista, a qual ganhou força a partir
da década de 1960 com as proposições de Peter Berger e Thomas Luckmann. Tomando tais
noções como base, mas criticando sua postura super-simbolizada, que reduz as implicações
do contexto material em que as ações se desenvolvem, autores como Schatzki, Cetina e Savigny
(<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref16">2001</xref>) acentuam o papel das práticas como instâncias de produção de sentidos. </p>
<p>Schatzki (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref15">1996</xref>) define as práticas como as entidades primárias do mundo social, sendo
a sociedade em si o “campo das práticas”. Com isso, por um lado, o autor rompe com o
dualismo até então prevalecente na teoria social entre habitus (Bourdieu) e reflexidade
(Giddens), reprodução e transformação. Por outro lado, encontra uma alternativa
epistemológica para o dilema que se impõe a todas as tentativas de compreender quais
elementos valorativos e cognitivos orientam a ação social. Assumindo uma perspectiva
claramente pragmatista, assume que o único modo de apreender como as normas, regras, leis,
crenças, costumes etc. adentram ao mundo da vida é a partir do escrutínio das práticas sociais,
onde esses elementos são embaralhados, criando comportamentos complexos, que não podem
ser reduzidos nem à ação estratégica intencional, nem à perpetuação de disposições culturais.
De acordo com o autor, para compreender como as práticas conformam a realidade social é
necessário, primeiramente, estabelecer um conceito de “ordem social”, o qual busca situar o fato de que as práticas sociais são sempre localizadas no tempo e no espaço, de forma
articulada e ordenada. Para Schatzki (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref17">2002, p. 22</xref>) “ordens sociais são, assim, arranjos de
pessoas, artefatos, organismos e coisas, através e dentro dos quais a vida social transpira, na
qual essas entidades se relacionam, ocupam posições e possuem sentidos." Nota-se, portanto,
que o conceito engloba qualquer fenômeno que incorpore a coexistência humana mediada
pelos arranjos de humanos e não humanos, ambos com sentidos e identidades, com posições
e relações específicas. </p>
<p>Assim, pode-se inferir que as ordens sociais são estabelecidas por meio das práticas
sociais e que os arranjos, os sentidos e as identidades, bem como as relações entre as entidades
(pessoas, coisas, artefatos e organismos), são determinados pelos “nexus” entre as práticas. Isso
torna as práticas uma cadeia de ações conectadas pela “inteligibilidade” dos atores, conceito
que expressa o modo como se define uma estrutura de sentidos para as pessoas fazerem o que
fazem do modo como fazem. Mas as práticas sociais não são reduzidas ao nível individual,
pois se configuram como uma propriedade emergente em que o compartilhamento faz parte
da sua gênese e da sua reprodução. Por isso autores como Barnes (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref1">2001</xref>) falam em “práticas
compartilhadas”, assumindo que as práticas sempre são profundamente interdependentes e
mutuamente suscetíveis aos agentes. </p>
<p>Enquanto para o interacionismo simbólico os sentidos são constituídos a partir da interação
de símbolos que emergem de atos sequenciais e conscientes de processos alocados dentro da
mente dos indivíduos, a Teoria das Práticas adiciona aos processos mentais os fenômenos
corpóreos e os arranjos materiais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref13">Reckwitz, 2002</xref>). Assim, os sentidos surgem a partir do
encaixe e da posição de alguma entidade (humanos e não humanos) em um “labirinto” de
relações que caracterizam os arranjos do qual ela faz parte. Como argumenta Schatzki (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref17">2002</xref>),
os sentidos somente podem ser compreendidos a partir da posição relativa que as entidades
ocupam nos arranjos, o que, por sua vez, é responsável por definir as condições deste
posicionamento. Assim, a autodefinição da pessoa sobre o que ela considera ser e o que
realmente é, depende da sua posição nesses arranjos. </p>
<p>Nos termos em que opera o debate, não cabe adentrar em uma análise detalhada sobre os
processos por meio dos quais os sentidos são produzidos pelas práticas. A intenção, neste
ponto, é elucidar que determinadas práticas – como as alimentares – podem ser associadas a
sentidos específicos, para além de sua finalidade primordial de garantir a reprodução
biológica. Com efeito, para analisar o sentido de “comida relacional” na Quinta da Videira, o
método empregado, fazendo analogia ao termo utilizado pelos teóricos da praxiologia, foi o
de “seguir as práticas sociais”. Doravante, nossa análise centra-se nas práticas de produzir,
trocar e comer.  </p>
</sec>
<sec>
<title>3. A construção do “relacional” na Quinta da Videira</title>
<p>A Quinta da Videira consistiu em uma iniciativa realizada entre 2009 e 2014, no bairro
do Mossunguê, em Curitiba, por três famílias vinculadas à organização Casa da Videira – uma
residente na propriedade e as demais na vizinhança. Ali, em um espaço de 350 m2, eram
desenvolvidos experimentos de agricultura e pecuária domiciliar. Pelos seus protagonistas, a
iniciativa era descrita ao mesmo tempo como uma “casa de verdade” e um centro de pesquisas
independente, que procurava fazer um diálogo entre tradição e inovação. Todo o arranjo era
orientado com vistas a “fechar o ciclo de nutrientes” na propriedade, reduzindo tanto quanto
possível a produção de resíduos e a aquisição externa de insumos. </p>
<p>O trabalho era realizado de forma colaborativa entre os membros da Casa da Videira, com a
ajuda de voluntários, bem como de estagiários de outras instituições com as quais a
organização firmava parcerias (geralmente estudantes de graduação de diversas áreas). Foi
assim que se deu nossa aproximação com o grupo: pela realização de projetos em conjunto
(2010-2011), seguida de uma vivência de voluntariado (2011-2013), que culminou na produção
de uma pesquisa de mestrado (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref19">Schneider, 2014</xref>). Ao longo desse processo, foi possível
conhecer a Quinta da Videira sob diferentes olhares. Nesta seção resgatamos dados oriundos
desses diferentes momentos. O primeiro se deu logo após o início da experiência. Nessa época,
por ocasião de algumas visitas e reuniões com o grupo, foi possível acompanhar a montagem
dos primeiros viveiros de animais e canteiros de plantas. O período de voluntariado, por sua
vez, começou com a produção de textos para o site da Casa da Videira. Com o passar do tempo,
todavia, o trabalho também se voltou às tarefas agrícolas. A rotina envolvia atividades como
cuidar das plantas, limpar os canteiros e viveiros, alimentar os animais e abastecer as
composteiras. A partir disso, surgiram as questões que motivaram uma pesquisa formal<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn2">5</xref>
</sup>. </p>
<p>O sentido de “comida relacional” que o grupo assumiu como lema começa pela
iniciativa de produzir o próprio alimento, de forma colaborativa, passa pelas formas de
adquirir, compartilhar, trocar ou vender produtos e, sobretudo, é coroada no ato de comer em
conjunto. Para o grupo, a comida é vista como um símbolo que promove a relação entre as
pessoas e, de forma mais ampla, entre diferentes espécies e seu meio<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn3">6</xref>
</sup>. Assim, segundo um dos
integrantes entrevistados, mais o que uma preocupação em produzir alimentos orgânicos ou
agroecológicos, o conceito de "comida relacional" sintetizava mais adequadamente dois
sentidos centrais para o grupo. Por um lado, a preocupação em aproximar produtores e
consumidores; por outro, uma dimensão de "cuidado" com relação ao ambiente, o que
extrapola as relações apenas entre humanos. </p>
<p>A produção agrícola articulava-se como uma crítica ao modelo alimentar convencional. A
busca por reduzir a dependência do “sistema de mercado” levou à construção de um modo
de vida marcado pela codependência entre as pessoas. Embora formalmente registrada como
uma organização social, a Casa da Videira era geralmente definida por seus membros como
um “coletivo”, salientando uma aproximação com movimentos e ideais comunitaristas. Com
efeito, as práticas de produção se organizavam para, por um lado, permitir “estar perto da
família e dos amigos no dia a dia”, e, por outro, gerar novos relacionamentos e parcerias,
baseados nas trocas recíprocas de serviços e conhecimentos. Isto se expressava no caso dos
voluntários e também de uma família vizinha, a qual dividia parte do terreno com a Quinta
da Videira e colaborava com as atividades da mesma. </p>
<p>Na Quinta da Videira comia-se, sobretudo, aquilo que se produzia. Entre os vegetais
cultivados estavam espécies nativas, plantas alimentícias não convencionais, além de
diferentes cultivares de espécies comumente encontradas no mercado, como frutas e verduras
diversas. O mesmo valia para as criações de pequenos animais, que incluíam coelhos, galinhas
e cabras, englobando raças tradicionais e/ou em risco de extinção. Em relação aos métodos de produção, um princípio adotado era o da integração animal-planta, a fim, justamente, de
fechar o ciclo de nutrientes no arranjo: restos de jardinagem tornavam-se alimento para os
animais; o esterco, por sua vez, era compostado e se transformava em adubo para as plantas;
estas eram usadas na alimentação das pessoas; os restos das refeições eram destinados aos
animais e às composteiras, e assim por diante. Com isso, em um único ano, o pequeno lote
urbano era capaz de produzir cerca de três toneladas de comida, entre produtos de origem
vegetal e animal. </p>
<p>No que tange ao consumo, embora os integrantes da Quinta da Videira tivessem uma
perspectiva bastante crítica sobre esta noção, evitando-a e fazendo referência ao seu sentido
etimológico associado à doença (do latin: consumere), nota-se que suas ações se voltavam à
criação de novas práticas de consumo. À título de exemplo, o grupo promovia uma feira
semanal de agricultura urbana, em parceria com uma universidade local, aberta à participação
de interessados em oferecer, trocar, adquirir ou conhecer produtos oriundos de tal
modalidade. Nesse âmbito, a comida tornava-se mediadora de relações. Como destaca uma
das voluntárias, “os produtos da nossa horta às vezes custam um real ou qualquer coisa,
porque o objetivo não é ganhar dinheiro, é fazer com que esse outro mundo possível aconteça.
É se relacionar com outras pessoas, é talvez mostrar que tem um jeito de produzir seus
próprios alimentos.” </p>
<p> A troca de produtos também acontecia na própria Quinta da Videira. Um dos
integrantes, por exemplo, mantinha uma produção semanal de pães artesanais, os quais se
tornaram, em suas palavras, “uma forma de se relacionar com as pessoas”. Segundo ele, o ato
de trocar ou dar pães de presente, uma prática que está na base das formas de sociabilidade
de vários grupos sociais, acabou gerando novas amizades com vizinhos e outros produtores
artesanais. Ao longo do tempo, foram sendo ampliados os nós de uma importante rede de
reciprocidade, a qual não se rompia mesmo quando a troca era mediada por relações
monetárias (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref24">Zelizer, 1994</xref>). Nas ocasiões de compra de alimentos, a opção por fazê-la em
pequenos comércios do bairro ou diretamente do produtor também garantiam a construção
de laços não mercantis: “A gente vai na feira. É uma escolha. Não tem jeito de ir no
[super]mercado. [...] Porque dá para você conhecer o produtor, ou o atravessador, e ter um
pouco mais de certeza sobre os produtos, se é orgânico, se é socialmente justo. Até
relacionamento com as pessoas...” </p>
<p>Dentre todas as práticas da Quinta da Videira, comer em conjunto era, talvez, aquela
que mais claramente sintetizava a construção do sentido de “comida relacional”. De certo
modo, todo o arranjo de praticas se formava na tentativa de resgatar a sacralidade da comida,
vista como um símbolo que une as pessoas, e estas com o seu ambiente, tal qual ocorria ao
redor da mesa no momento da refeição. Não é em vão que, sempre que possível, as refeições
coletivas se organizavam no espaço externo à residência, publicamente. Chama a atenção o
modo como uma vizinha reconhecia essas práticas: “Como eu acho isso bonito, me dá até
vontade de chorar. Aquela união. Você não vai embora sem comer, porque sabem que tão com
fome, né? E de repente dão cada risada gostosa. É gostoso de ver, de ouvir.” Ademais, segundo
os próprios integrantes, havia uma intenção declarada de comunicar por meio da prática. Não
se tratava apenas de reproduzir um hábito, mas de uma ação intencional visando produzir
sentidos, estimulando a mudança nas práticas dos demais (no caso, dos vizinhos). </p>
<p>As refeições eram feitas na própria Quinta da Videira ou na casa das outras
famílias integrantes, na vizinhança. O ato de cozinhar se revestia de um forte significado
simbólico, revelando-se uma atividade voltada para os outros. “Cozinhar é dar, “causar
prazer” e “partilhar”, escreve Poulain (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref12">2013, p. 50</xref>). Em geral, cada família ficava responsável
por preparar um prato e/ou bebida. Os voluntários também ajudavam – o que levava, por vezes, a uma troca de dicas e receitas das mais variadas origens, com cada um trazendo um
pouco do que sabia. Experimentar receitas novas ou, principalmente, resgatar antigas,
tradicionais e típicas era um costume. As preparações incluíam ainda produtos artesanais de
fabricação própria, como geleias, molhos, laticínios, bebidas e massas. Todas essas práticas
denotam uma clara influência do movimento, que atualmente assume proporções globais a
partir do Slow Food, de revalorização da gastronomia local, dos produtos tradicionais e do
"bien manger" (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref12">Poulain, 2013</xref>). </p>
<p>Com todos reunidos à mesa, antes de comer, havia uma oração. Isto nos chamou a atenção
porque não é um aspecto recorrente em outras iniciativas similares. Uma referência
fundamental para a Quinta da Videira era uma orientação espiritual judaico-cristã, com base
na fé em um Deus criador e no entendimento de que cabe ao ser humano observar e cuidar da
criação, tirando dela o seu sustento. Às práticas e sentidos espirituais<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn4">7</xref>
</sup> associavam-se, ainda, a
reflexões de ordem político-acadêmicas: a busca por um modo de vida baseado na produção
própria, ecológica e cooperativa, no resgate do “saber-fazer” ao invés da compra, sob uma
perspectiva crítica do capitalismo, da sociedade de consumo e do sistema alimentar
convencional, relacionados, por exemplo, às consequências advindas da degradação
ambiental. Com efeito, enquanto o sentido espiritual constituía uma espécie de alicerce moral,
distintas referências buscadas em autores engajados em movimentos sociais ajudavam a
preencher as paredes da arquitetura de sentidos que as práticas estavam consolidando<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn5">8</xref>
</sup>. </p>
<p>Dada a intensa rotina de trabalho, as refeições também eram uma oportunidade de fazer
comunicados, falar sobre as novidades, compartilhar reflexões ou simplesmente contar
histórias: comia-se conversando. Da mesma forma fazia-se a limpeza após a refeição, assim
como qualquer outra atividade ao longo do dia, seguindo a máxima beneditina “ora et labora”.
A comida na mesa, por sua vez, ilustrava toda uma teia de práticas articuladas para que ela
chegasse até ali. Muitas vezes, o assunto das conversas durante a refeição era justamente esse:
a história de cada produto, de cada ingrediente, de quem os produziu, dos lugares de onde
vinham, de como eram feitos. Não raro, o cardápio incluía itens que alguém trouxe de uma
viagem, que alguém fez a partir de uma receita de família, que alguém descobriu ter um
talento para preparar. Várias foram as histórias de quem começou a cozinhar e a plantar, de
quem mudou perspectivas e hábitos alimentares, de quem passou a produzir, vender e trocar
comida depois de participar da Quinta da Videira, expandindo as relações ali experimentadas.
Em paralelo à rotina de trabalho, havia ainda uma preocupação do grupo em compartilhar as
técnicas desenvolvidas, os experimentos realizados, os resultados alcançados, os pratos
preparados, valendo-se para tanto de publicações na internet (site e facebook), palestras,
cursos, oficinas, entrevistas e visitas técnicas, bem como da produção de trabalhos científicos,
colocando o grupo em contato com diferentes interlocutores. A atitude dos membros em
divulgar sistematicamente o que desenvolviam também era vista como um meio de gerar
relacionamentos, manter contato com amigos, mostrar que é possível viver de forma diferente e inspirar outras pessoas, ampliando a rede de colaboração e trocas. Quando argüido sobre o
porquê da preocupação de divulgar fotos nas redes sociais e comentar o conteúdo das mesmas,
um dos integrantes salienta: “[...] porque não dá pra fazer sozinho. E quando as pessoas estão
juntas fazendo as coisas elas falam: pô, eu também posso. Nossa grande palavra é a
inspiração.” </p>
<p>Uma das motivações para produzir e preparar a própria comida na Quinta da Videira
era a possibilidade de se aproximar da origem da comida, que foi historicamente desconectada
da maior parte das pessoas pelo sistema alimentar convencional.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn6">9</xref>
</sup> Ao mesmo tempo, como já
mencionado, esse vínculo com a origem pautava-se pela ideia de fazer da agricultura urbana
uma forma de “observar e cuidar da criação”, obtendo o próprio sustento. Nesse sentido, além
das preocupações em preservar a biodiversidade e completar o ciclo de nutrientes no arranjo,
a iniciativa de cultivar plantas nativas<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn7">10</xref>
</sup>, por exemplo, se desdobrava em uma forma de se
relacionar com o local, de conhecer espécies e receitas locais, valorizar sua história e explorar
suas características. </p>
<p>Nessa concepção, o agricultor é aquele que observa o ciclo que tá ao seu redor, sua
região, as possibilidades que tem, e age a partir disso. A gente vê muito isso na
agricultura urbana, essa relação com o local, a adaptação. Tem agricultor urbano que não
tem cuidado, que quer aumentar a produtividade, usa adubo químico, veneno, que não
tá nem aí. Mas tem outros que têm uma relação com o solo, com a terra, que é diferente,
que tomam um cuidado, o cara que fala: “Eu tô tirando nutriente, tenho que devolver
nutriente orgânico, não quero usar veneno”. (Integrante da Quinta da Videira). </p>
<p>Da mesma forma, o princípio da integração animal-planta e as medidas para evitar a geração
de resíduos, mantendo os nutrientes no ciclo, constituíam maneiras de preservar as relações
naturais que existem entre as diferentes espécies em cada contexto. Isto envolve, dente outras
coisas, o tensionamento de sentidos como aquele de “lixo”: restos de comida eram descritos
como “ativos vitais” em vez de “passivos ambientais”. </p>
<p>Uma coisa importante na Quinta da Videira é o ciclo dos nutrientes. É acreditar que a
gente, como ser humano, vem da terra. Eles explicam assim que a gente não é um
bonequinho de barro, que a gente é humus, vem da terra, ser humano, da matéria
orgânica mesmo. [...] O lixo vira vida, adubo, comida pras cabras ou pras galinhas e faz
parte de todo o ciclo da vida, dos nutrientes, e você se serve daqueles produtos também.
Então, dos valores que a gente tava falando, é uma ligação com a terra, pensando na
nossa origem, deixar de lado a individualidade, trabalhar em conjunto, não se pensar
como autossuficiente, mas interdependente. (Voluntária da Quinta da Videira). </p>
<p>Outro sentido questionado envolvia a inclusão dos “animais de produção” no ambiente
urbano. Para os entrevistados, trazer esses animais para perto das pessoas permitia promover
uma relação humano-animal mais harmônica – constituindo uma “troca de serviços”, como
ocorre na natureza – e mais respeitosa do que aquela encontrada no sistema alimentar
convencional. Isso se traduzia, por exemplo, na busca por oferecer condições de vida mais
naturais aos animais, sobretudo em termos de alimentação, e no seu trato próximo ou mesmo afetuoso. O abate, por sua vez, era feito de acordo com o tempo de vida dos animais,
priorizando os mais velhos, com técnicas que minimizassem a dor, sendo antecedido por uma
oração e agradecimento. Também em virtude disso, não eram todos os dias que as refeições
na Quinta da Videira incluíam algum tipo de carne. </p>
<p>Tem o cuidado com os animais, o respeito com os bichos. Eles não são o principal prato,
que é o que muita gente come né, a carne é o principal sempre. Aquilo que você vai
comer não é uma coisa. Você tem que ver que existe um sacrifício nisso tudo. Então é
uma coisa para se honrar. Os bichinhos têm nome, as plantas têm nome. (Voluntário da
Quinta da Videira). </p>
<p>O desenvolvimento da pecuária no universo urbano trazia consigo uma crítica entre a
distinção socialmente construída entre “animais de produção” e “domésticos”. Para os atores
envolvidos na experiência, nada justificava a interdição de galinhas, cabras e coelhos,
enquanto pouco ou nenhum controle recai sobre a proliferação de gatos e cachorros, nem todos
sob condições sanitárias adequadas. Os argumentos sugeriam que a questão não era o tipo de
animal (obviamente que respeitadas as condições do ecossistema), mas o tipo de prática social
a partir das quais estes compunham um arranjo mais amplo de entidades e práticas
produtivas. Em vista da relevância desta crítica, foi ela que desencadeou os principais conflitos
entre a Quinta da Videira e os órgãos de regulação do uso do espaço urbano, levando, como
relatado acima, ao encerramento da experiência na zona urbana<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn8">11</xref>
</sup>.   </p>
</sec>
<sec>
<title>5. Considerações finais </title>
<p>A análise da experiência da Quinta da Videira mostra como o sentido relacional atribuído à
comida esteve associado a um conjunto de práticas alimentares específicas, de produção,
comensalidade e troca. Ao fazer da própria comida um meio de promover reconexões e
sociabilidades, a iniciativa se distancia da lógica fragmentada e individualista que marca a
organização do sistema alimentar moderno. A Quinta da Videira ilustra um modo diferente
de se relacionar com a comida – e, por meio da comida, com pessoas, animais, objetos e
artefatos. Inúmeros autores traduziriam isso por uma ontologia completamente distinta de
relação sociedade-natureza. </p>
<p>A experiência constitui também um exemplo de como práticas alimentares são apropriadas
com finalidades distintas da simples satisfação da necessidade alimentar. Chama a atenção, no
caso da Quinta da Videira, a intencionalidade em expressar, por meio desse tipo de prática,
posicionamentos políticos e, sobretudo, espirituais, bem como construir novos sentidos ou
referências de ação (fato que motivou, anteriormente, o estudo da experiência por um viés
comunicacional).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn9">12</xref>
</sup> O que abre perguntas, para outros estudos, sobre como determinadas
práticas orientam outras e de que forma esses processos se desdobram na produção de
sentidos, desde uma perspectiva praxiológica. </p>
<p>Do ponto de vista das pesquisas desenvolvidas a partir da teoria das práticas, compreender
como um conjunto de ações, discursivas e corporais, e os arranjos humanos e não-humanos
estabelecem "nexus" entre diferentes práticas sociais é de extrema relevância. É isso o que impulsiona, por exemplo, Shove (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref21">2013</xref>) a rediscutir a noção de sustentabilidade, redefinindo
os termos do debate a partir da identificação de como diferentes práticas articulam-se
coerentemente para produzir uma nova ordem social (o que vai muito além do axioma um
tanto vago do ‘ecologicamente correto, socialmente justo e economicamente viável’). </p>
<p>Nesse artigo, observamos que as práticas sociais desenvolvidas na Quinta da Videira, que
envolvem a produção, a troca, o consumo e mesmo a oração, ancoram relações socais de
contestação ao sistema agroalimentar hegemônico, sendo o alimento o epicentro desse
conjunto de práticas, desde o ponto de vista da sua materialidade, no plantar, no colher e no
preparar, até o ponto de vista da espiritualidade, a partir de uma interpretação judaico-cristã
de trabalhar, compartilhar e socializar. O sentido inscrito na ideia de “comida relacional” não
‘faz sentido’ sem esse arranjo de práticas e dos demais sentidos que elas produzem. Assim
como, subscrevendo Jacques Derrida, Schatzki (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418011_ref18">2013</xref>) argumenta que um texto somente é
compreensível como parte de um contexto, qualquer sentido depende do seu lugar (site) em
face de outros sentidos. Existe uma teia de inteligibilidade que dá conteúdo à noção de
“comida relacional” para esses atores. Uma vez conformada essa teia, a noção passou a
assumir um papel aglutinador do conjunto das práticas (e do nexo de entidades que lhes
conforma). O “relacional” emergiu como sentido condensador dos demais sentidos. </p>
</sec>
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<label>23</label>
<mixed-citation>SWIDLER, Ann: “What anchors cultural practices”, em SCHATZKI, T. R.; CETINA, K. K.; SAVIGNY, E. Von (Ed.). The practice turn in contemporary theory. London/ New York: Routledge, 2001.</mixed-citation>
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<surname>SWIDLER</surname>
<given-names>Ann</given-names>
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<source>Routledge</source>
<year>2001</year>
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<label>24</label>
<mixed-citation>ZELIZER, Viviana: The social meaning of money. New York: Basic Books, 1994</mixed-citation>
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<surname>ZELIZER</surname>
<given-names>Viviana</given-names>
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<source>Basic Books</source>
<year>1994</year>
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<label>25</label>
<mixed-citation>WARDE, Alan. The practice of eating. Cambridge/UK: Polity, 2016.</mixed-citation>
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<year>2016</year>
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<title>Notas</title>
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<label>4</label>
<p>No início de 2014, as famílias envolvidas mudaram-se para a área rural de um município próximo, onde fundaram
a Estação Experimental Casa da Videira, um arranjo de agricultura domiciliar semelhante à Quinta da Videira,
porém readequado a uma propriedade rural. </p>
</fn>
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<label>5</label>
<p>Os procedimentos “mais estruturados” de coleta de dados foram levados à cabo no final de 2013, envolvendo a
observação direta das práticas e entrevistas em profundidade com os integrantes da iniciativa, bem como com
voluntários, vizinhos e participantes de visitas técnicas no local. </p>
</fn>
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<label>6</label>
<p>Cabe notar que, após o encerramento da Quinta da Videira, o grupo passou a desenvolver uma iniciativa de venda
de alimentos orgânicos chamada, justamente, Comida Relacional, oficialmente definida da seguinte forma:
“Comida Relacional é um programa da Casa da Videira que busca aproximar pessoas utilizando como instrumento
a comida. Para nós, comida tem origem, autor, história e vida. Mais que um programa de delivery de orgânicos, é
uma rede solidária em prol de uma comida saudável e justa para quem compra, quem produz e para a terra”. </p>
</fn>
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<label>7</label>
<p>Essas práticas exercem um papel de “ancoragem” na reprodução do arranjo de “discursos" e "fazeres". Como
discute Swidler (2001), há determinadas situações em que as práticas sustentam ou reproduzem regras
constitutivas, as quais definem as coisas como elas são. Algumas práticas públicas ritualizadas parecem habilitadas
a criar e ancorar novas regras constitutivas. Sendo assim, as “práticas de ancoragem” possuem forte normatividade,
sendo de longa duração no tempo e, em termos de efeito, de grande abrangência. </p>
</fn>
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<label>8</label>
<p>O fato de que uma parcela importante dos integrantes e voluntários da Quinta da Videira eram estudantes de
graduação e pós-graduação fazia com que eles procurassem em diversos autores as bases conceituais que não
apenas legitimassem suas práticas, mas lhes incentivassem a inovar. Segundo um dos entrevistados, a própria ideia
de "comida relacional", vinculando produtores e consumidores, surge a partir das formulações recentes da
sociologia da alimentação sobre "cadeias curtas de produção e consumo", ao passo que a lógica do "cuidado
ambiental" está muito presente na ecologia política e na educação ambiental.</p>
</fn>
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<label>9</label>
<p>Note-se que o próprio Movimento Slow Food fala em “co-produtores” e não simplesmente em “consumidores”. </p>
</fn>
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<label>10</label>
<p>Algo similar ocorre com relação ao preparo dos pratos a partir delas. Cabe lembrar que “a cozinha e as maneiras
à mesa de uma sociedade são uma maneira original de regular as relações entre a natureza e a cultura.” (Poulain,
2013, p. 49).</p>
</fn>
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<label>11</label>
<p>As criações animais não são permitidas no zoneamento do município de Curitiba, caracterizado em sua totalidade
como área urbana (Lei Municipal no 13.914, de 23 de dezembro de 2011).</p>
</fn>
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<label>12</label>
<p>Cabe destacar a repercussão que a mesma alcançou na imprensa local e nacional ao longo dos cinco anos em que
esteve em curso, com mais de 15 produções realizadas a respeito. </p>
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