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<journal-title specific-use="original" xml:lang="es">Theomai</journal-title>
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<publisher-name>Red Internacional de Estudios sobre Sociedad, Naturaleza y Desarrollo</publisher-name>
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<country>Argentina</country>
<email>theomai@unq.edu.ar</email>
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<subject>Experiencias internacionales de construcción social de la calidad en la producción agroalimentaria</subject>
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<article-title xml:lang="es">Dilemas das certificações e diferenças entre processos de qualificação de produtos: uma análise da Alianza del Pastizal e da Rede Ecovida de Agroecologia</article-title>
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<institution content-type="original">Doutoranda em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Bolsista UAB/CAPES. Endereço: Rua Dr. Sebastião Leão, 321, Azenha. Porto Alegre, RS, Brasil.  </institution>
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Grande do Sul</institution>
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<institution content-type="original">Mestrando em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bolsista CAPES.</institution>
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<institution content-type="original">Doutor em Antropologia Social. Professor dos programas de pós-graduação em Sociologia (PPGS) e em
Desenvolvimento Rural (PGDR), Universidade Federal do Rio Grande do Sul. </institution>
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<season>July-December</season>
<year>2018</year>
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<title>Revista THEOMAI / THEOMAI Journal
Estudios críticos sobre Sociedad y Desarrollo / Critical Studies about Society and
Development</title>
<p>
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<title>número 38 (segundo semestre 2018) - number 38 (second semester 2018)</title>
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<title>1. Introdução </title>
<p>
<italic>Ingrediente orgânico.
Feito de argila.
Fábrica sustentável.
Não testado em animais.
Vegan love.
Não contém corante sintético.
Não contém glúten.
Não contém fragrância sintética.</italic>
</p>
<p>A descrição acima foi encontrada em um produto cosmético cuja embalagem não tem
mais que cinco centímetros de cada lado. Embora não sejam certificações, ela nos aponta
alguns dos elementos que rondam os motivos da escrita deste texto, tais como a necessidade
de informar e prestar contas à sociedade a respeito do processo de fabricação, das qualidades
valorizadas socialmente e dos possíveis efeitos socioambientais dos produtos. </p>
<p> Desde os últimos anos, estamos em melhores condições de examinar aspectos
relacionados a certificações em um espectro mais amplo, uma vez que se observou um
crescimento importante dos processos sociais relativos à criação e à consolidação de selos, bem
como o número de pesquisas sobre o tema. </p>
<p> As certificações assumiram grande importância no mundo atual e podemos observar o
fenômeno de diferentes ângulos. Embora não seja assunto deste artigo, o sistema de
certificação de Fair Trade, por exemplo, cresceu enormemente no período recente, atingindo a
taxa de 47% no mundo entre 2007 e 2008 (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref11">Fairtrade Osterreich, 2008</xref>). Embora mais
recentemente a evolução não tenha sido tão exponencial, entre 2013 e 2014 o volume chegou a
uma taxa de 15% de crescimento (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref34">Voinea, 2014</xref>). Este avanço na demanda por produtos não
pode ser separado do crescimento das certificações e organismos certificadores de Fair Trade.
O sistema de certificações de orgânicos também observou aumentos razoáveis e não se pode
deixar de perceber que no sistema alimentar mundial o Fair Trade e a certificação de orgânicos
representam dois segmentos “gigantes”, com enormes efeitos nas vidas de produtores e
consumidores. </p>
<p>Uma notícia publicada em 2014 no portal do Ministério da Agricultura do Brasil
mostrava que além da ampliação da quantidade de agricultores orgânicos no país
testemunhou-se também que havia aumentado o número de entidades certificadoras, tanto
para agricultura ecológica como para os orgânicos. Chama a atenção, entretanto, que há uma
evolução mais intensa nos organismos participativos de conformidade orgânica: </p>
<p>O número de organismos avaliadores de conformidade do setor mais
que dobrou e o montante de produtores e unidades produtivas teve
um aumento de 22%, comparado a 2012 (Ministério da Agricultura,
2014). </p>
<p>Em uma entrevista na mesma página lemos o seguinte depoimento: </p>
<p>Atualmente, temos mais produtores avaliados por controle social que
por certificação por auditoria. A criação destes mecanismos facilitou a
transição dos produtores convencionais para o modelo agroecológico,
porque diminui a distância e reduz os custos de certificação [...]. </p>
<p>Que tipos de situações se colocam quando observamos o relevante crescimento e a
institucionalização de organizações certificadoras participativas? Nosso estudo irá mostrar
que há um conjunto de características em experiências participativas que demarcam diferenças quando comparadas com as iniciativas de certificação por auditoria, também chamado de
certificação por terceira parte (third-party system). Ainda assim, é preciso ter em vista que isto
não significa perda da eficácia dos formatos de controle por terceira parte; ao contrário, o
panorama geral está se complexificando e há muitas novidades neste campo. Mas, quais
implicações da adoção de formas de certificação por auditoria e por sistemas participativos? E
quais as relações entre sistemas de certificação e os processos de qualificação de produtos que
se fazem presentes nestes processos? </p>
<p>O presente artigo se propõe a uma análise de problemas contemporâneos que rondam
o tema das certificações relacionando-os a dimensões da qualidade dos alimentos, processos
sociais de qualificação e formas de conhecimento implicadas nestes processos. Examinam-se,
para tal, dois casos no sul do Brasil que expressam de maneira muito significativa experiências
de adoção de selos de certificação que objetivam associar e atestar qualidades de produtos e
processos sociais de construção desta qualidade. Estes casos também demonstram dilemas e
avanços quanto às formas de conhecimento que se veem articulados a ambos os formatos de
certificação. </p>
<p>O primeiro caso é o da Alianza del Pastizal, consórcio transnacional voltado para
certificação das carnes do pampa da América do Sul e de sua conservação ambiental. O
segundo é o da Rede Ecovida de Agroecologia, conhecida organização em rede que envolve
agricultores familiares da região sul do Brasil e possui um sistema participativo de garantia na
forma de selo ecológico. Ambas as organizações estão voltadas a certificar produtos da
agropecuária presentes em distintos espaços geográficos. Todavia, neste artigo somente serão
examinados aspectos e atividades envolvendo o estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul
do Brasil. </p>
<p>Os casos são oriundos de estudos independentes e que, ainda assim, experimentando
uma comparação global, sugerem pontos de contato e diferenças expressivas. Foram estudos
de cunho qualitativo utilizando-se de análises de documentos (textos programáticos, escritos
emitidos por organizações, documentos de analistas do tema) e de entrevistas
semiestruturadas realizadas com uma gama variada de atores no ano de 2015. </p>
<p>Após esta introdução, abordamos alguns aspectos recentes no debate sobre
certificações e algumas consequências políticas apontadas pelos pesquisadores. Na parte
seguinte, examinam-se alguns tópicos sobre qualidade e qualificação que a literatura recente
especializada no tema da alimentação sinaliza. Na sequência os dois casos são descritos e
examinados e, por fim, tecem-se algumas considerações. 
  </p>
</sec>
<sec>
<title>2. Certificações na agricultura: eventos recentes e novas abordagens analíticas</title>
<p>Ainda que existam muitos discursos e documentos a respeito de quanto as certificações
representam melhor transparência e mais informação ao consumidor, parece haver
igualmente uma crescente insatisfação com o tipo ou modelo de selos que esta cultura de
auditorias gerou. Uma proliferação de selos? Uma corrida ou multiplicação de certificações? </p>
<p> Talvez por esta razão há autores mencionando uma segunda geração de selos
emergindo nos últimos anos. Enquanto a primeira seria marcada por um “labirinto de selos”,
isto é, a falta de clareza quanto aos propósitos de tantas certificações existentes (muitas vezes
para um único produto), a segunda apostaria na simplificação da mensagem, tal como
descrevem Ramos e Garrido (2014):</p>
<p>Algumas áreas rurais estão lançando selos de segunda geração para
simplificar a mensagem e reduzir a hipertrofia do sistema de
diferenciação da qualidade vinculado à origem. Estes selos pretendem
preservar identidade e recursos culturais, sociais e ambientais dos
territórios com vistas ao seu desenvolvimento [...]. Devido a suas
contribuições ao desenvolvimento territorial rural, o mais importante
nestes selos é que eles buscam qualidade territorial. O selo enquanto
marca guarda-chuva que identifica estes produtos do território (não
somente alimentos) contribuem para a qualidade do território como
um todo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref28">Ramos, Garrido, 2014</xref> – tradução dos autores). </p>
<p>O ponto a ser ressaltado é que esta segunda geração combina aspectos tangíveis e
intangíveis, abarcando atributos e qualidades sociais, ambientais, culturais, etc.
particularmente apostando no território como elemento unificador (ver também <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref21">Niederle e
Aguiar, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref31">Sacco dos Anjos et al., 2014</xref> para o caso de Indicações Geográficas). </p>
<p> Talvez a dificuldade de expor o caráter técnico do que faz um produto ser orgânico ou
de comércio justo (ou outra certificação com características condensadas ou sintetizadas) seja
um fenômeno relacionado, gerando efeitos importantes. Em artigo acerca de uma discussão
mais geral e teórica sobre o tema da dominação em ciências sociais, Boltanski (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref4">2013</xref>) evocou a
articulação disto com as técnicas em nosso tempo e mostrou que </p>
<p>O caráter técnico das medidas torna difícil, ou até inútil, a sua
transmissão para um público amplo. Nada, ou quase nada, vem para
garantir a coerência do conjunto a não ser precisamente o quadro
contábil e/ou juridiscional geral ao qual as medidas específicas devem
se ajustar. É o que Laurent Thévenot (1997) chama de “governo pelas
normas” (p. 453). </p>
<p>É evidente que este é só um dos efeitos, possivelmente despolitizante, do apelo às
técnicas e normas. Observe-se que em outros estudos tal problema aparece igualmente, pois
para Merry (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref20">2011</xref>), examinando indicadores multidimensionais do desenvolvimento, a
“virada” para estes indicadores no campo da governança global se relaciona a novas formas
de produção de conhecimento: ferramentas a substituir o debate político por saberes técnicos.
Ademais, o que se realça também num cenário que aos poucos legitimou diferentes sistemas
de certificação é: como não certificar? Como podem os agricultores não entrar no sistema, uma
vez que este mesmo sistema é o que permite visibilidade e acesso a mercados? </p>
<p> Para Boltanski – e esta é a razão de o autor se alongar ao discutir tal tema no mundo
global atual – é um modo de dominação totalmente diferente dos já testemunhados antes.
Domina-se pela justificação da necessidade (dos mercados, da política, de seguir normas e
regramentos) e pela crescente capacidade de especialistas traduzirem para um público amplo
que não há “saídas”, não há outros caminhos possíveis a não ser este no qual vivemos a
dominação da ciência e das dinâmicas dos mercados no capitalismo; em suas leituras da
realidade, o que fazem os especialistas parece prometer pouca distinção entre a realidade em
si e os documentos que a explicitam. O poder então não está na figura pessoal de ninguém, se
fundamenta na gestão racional dos processos, apela para a necessidade (normas e padrões
indispensáveis) e para os procedimentos burocráticos em ciência &amp; tecnologia. Ambos os casos
a serem examinados adiante mostram o quanto esta observação é pertinente. </p>
<p> Um dos resultados reside em opções para as quais estes métodos facilitam a gestão e a
governança. Para alguns pesquisadores, passamos de formas de governo (na qual é mais clara
a ideia de poder) para processos de governança, e nestas a proposta de que vivemos decisões
compartilhadas, democráticas, se torna mais elegante e atraente. Porém, num texto que abre um dossiê sobre o tema em uma revista recentemente publicada, Cris Shore e Susan Wright
sustentam que podemos ainda insistir na ideia de governo nestes casos, especialmente na
articulação entre “governar por normas e por números” nas auditorias. Shore e Wright (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref32">2015</xref>)
observam que: </p>
<p>Virtualmente todos os aspectos da vida profissional e do
comportamento organizacional são agora sujeitos a elaborarem
sistemas de auditoria e inspeção: tudo, desde provisão de serviços
públicos, educação, policiamento e segurança, até cuidados, saúde,
conservação de energia, sistemas de informação e performance de
indivíduos. Até mesmo fenômenos intangíveis tais como os níveis de
‘confiança’, ‘percepções sobre corrupção’, ‘qualidade de vida’ e
‘felicidade nacional bruta’ são frequentemente quantificados, medidos
e ranqueados em tabelas nacionais e internacionais classificatórias e
competitivas que subsidiam comparações “de relance” (2015, p. 22). </p>
<p> Além de estabelecerem formas eficientes de governo à distância, números e outras
medidas parecem promover uma nova ética de responsabilidade, e o que é ainda mais
relevante de destacar é que estas formas de comportamento corporativo ou individual passam
a se tornar “naturais”, pouco ou quase não questionadas. Shore e Wright examinam um
aspecto fundamental: não se trata de dizer que as ferramentas e as possibilidades de
comparação são novidades, mas existe um “salto” de escala, pois se antes eram confinadas a
práticas específicas e no interior de Estados-nação, as últimas décadas testemunham a
disseminação para um nível global. </p>
<p>Importa ressaltar que este fenômeno se relaciona a outros. Num texto que inaugurou
boa parte do debate sobre verificação, controle e certificação, Power (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref26">1997</xref>) havia sustentado
que lhe chamava a atenção o fato de que uma série de procedimentos originários do campo da
contabilidade e da auditoria fiscal extravasou o mundo das finanças para se tornarem, aos
poucos, corriqueiras em outras esferas da vida social e econômica. Seu texto sugestivamente
intitulado de ‘rituais de verificação’ constatou esta proliferação das auditorias e como isto se
tornou disseminado para influenciar os comportamentos sociais. Mas foi Marilyn Strathern,
num livro preocupado com a cobrança no sistema de ensino britânico (por pontos),
ranqueamentos e escalas para publicações (e competição entre docentes e instituições) que
parece ter fornecido às ciências sociais uma compreensão mais integral e preocupante
(<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref33">Strathern, 2000</xref>). A respeito deste fenômeno, a antropóloga conclui que vivemos globalmente
uma cultura de auditorias.   </p>
</sec>
<sec>
<title>3. Qualidades e processos de qualificação: a alimentação em questão</title>
<p>Autor antes mencionado, Michael Power, num foreword para a coletânea de Bostrom e
Garsten (2008), entende que a maneira como somos percebidos é mais preocupante hoje do
que aquilo que fazemos. Por esta razão, cresce a importância dos procedimentos auditados,
“mandatory” e “non-mandatory”. E nas palavras dos organizadores da obra, lemos que
“realmente, ‘responsabilização’ é a característica chave da vida social e organizacional no
mundo contemporâneo, apresentando-se com novos modos de governo da conduta
individual” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref5">Bostrom; Garsten, 2008</xref>, p. 2 – tradução dos autores).</p>
<p>Não se pode deixar de mencionar que os sistemas de inspeção e padronização acabam
por desenvolver seus próprios interesses, o que se torna uma espécie de accountability industry,
ainda conforme Bostrom e Garsten. O caso das certificações é emblemático, envolvendo
empresas, redes, Estados e organismos de acreditação de atuação global. Mas nem sempre as
dimensões que evocam qualidade(s) dos produtos alimentares respondem de modo
sintonizado a selos, normas e standards. </p>
<p>Já no ano de 2003, Goodman (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref13">2003</xref>) havia escrito um breve texto introdutório de dossiê
em que discutia a virada para qualidade na agenda dos estudos sobre alimentação. Passamos
não raramente a testemunhar um conjunto de análises sobre as características ambientais, às
vezes mencionadas como “intrínsecas” aos produtos ou lugares, e que estariam sendo
atribuídas aos alimentos – atestadas em selos em muitos casos – e para as quais a distintividade
seria marca crucial (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref15">Ilbery et al., 2005</xref>). Mas o fato é que a dimensão do processo de construção
– histórico e cultural – da qualidade acabou representando um avanço importante nos estudos
sobre a alimentação, especialmente para a sociologia. O quanto esta qualidade poderia estar
vinculada a um modo de vida do campo ou à maneira de produzir de agricultores (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref18">Mansfield,
2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref27">Radomsky, 2015</xref>), ou ainda de que forma ela é interrogada em seus possíveis riscos de
apostar em essencialismos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref10">Dupuis e Goodman, 2005</xref>), também entrou na agenda de
pesquisas. </p>
<p> Emergem neste cenário social apelos em relação à legitimidade da produção agrícola,
especialmente para produções realizadas com base em preocupações ambientais, pois
qualidades éticas, estéticas e sociais são cada vez mais articuladas a formas de produzir.
Renting et al. (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref30">2003</xref>) sugeriram que para tais mudanças estariam em jogo transformações nas
cadeias produtivas, pois os circuitos curtos de produção se oporiam aos problemas (de
relações de trabalho, de impactos ambientais) das grandes cadeias de supermercados.
Argumento semelhante ao de Winter (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref35">2003</xref>), para quem a quality turn tem a ver com as
preocupações dos consumidores com saúde, bem-estar animal, comércio justo e segurança
alimentar, deslocando o foco da produção para o consumo. Uma crescente politização do
consumo passa a estar em cena e exige mudanças nas consequências socioambientais da
agricultura industrializada e globalizada. Sacco dos Anjos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref31">et al., 2014</xref>) sustentaram a
relevância de atentar-se para o tema da qualidade enquanto algo que não se refere ao produto
em si ou seus conteúdos isolados: </p>
<p>Em maior ou menor medida, espera-se dos alimentos consumidos o
atendimento a requisitos básicos de ordem nutricional sanitária que
indiquem claramente o respeito aos imperativos da sustentabilidade
em suas múltiplas dimensões (social, econômica, ecológico-ambiental,
política, ética e cultural). Em última análise, tais elementos constituem
um mosaico de fatores que se conhece como “atributos de valor”
(<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref31">Sacco dos Anjos et al., 2014, p. 23</xref>). </p>
<p>Neste panorama as certificações e os selos também entram e Ilbery e Kneafsey (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref14">2000</xref>)
haviam demonstrado que estes dispositivos podem atestar qualidade, se forem confiáveis, e
para tal, tanto a qualidade como os próprios selos são resultados de processos sociais. A
discussão anterior sobre as gerações de selos que testemunhamos mostra também a
dificuldade de esta ferramenta ser um dispositivo insuspeito, uma vez que paulatinamente
produtores e consumidores se envolvem em situações de crítica social das entidades
certificadoras. As opções mais comuns e disseminadas, de certificação por auditoria e a
realizada por organismos que utilizam métodos participativos envolvendo os próprios
produtores, parecem demonstrar limites de confiabilidade. O mais saliente é que as certificações se tornam instrumentos de medir ou atestar qualidades e diferentes selos podem
apontar para formatos e processos muito distintos. </p>
<p>Mesmo assim, em vários momentos, pesquisadores têm observado que debates sociais
sobre qualidade podem envolver disputas adicionais ou paralelas, para além dos selos, uma
vez que versam sobre autenticidade sociocultural. Nesse contexto, colocar em questão
autenticidade é sempre algo conflituoso (como atestam os estudos de <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref12">Gonzalez e Nigh, 2005</xref>;
e de<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref6"> Bowen e Valenzuela Zapata, 2008</xref>). </p>
<p>A seguir, serão examinados os dois casos mencionados na introdução deste artigo,
iniciando pela certificação para as carnes no pampa, promovidas pela Alianza del Pastizal e,
logo após, a certificação ecológica da Rede Ecovida da Agroecologia, ambos situados no estado
do Rio Grande do Sul, extremo sul do Brasil.  </p>
</sec>
<sec>
<title>4. Alianza del Pastizal: dilemas de uma certificação por expertise e seus processos
de construção da qualidade  </title>
<p>No ano de 2004, a Bird Life International, organização não governamental multilateral,
problematizou e promoveu discussões acerca da necessidade de proteção do habitat de aves
migratórias que compartilham as pradarias norte-americanas, a sua área reprodutiva e a
região campestre do cone sul da América do Sul (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref24">Parera et al, 2014</xref>). Já no ano de 2005 esta
organização promoveu um processo de engajamento e mobilização entre quatro organizações
não governamentais da região (Aves Uruguay, Aves Argentinas, Guyra Paraguay e SAVE Brasil,
ambas vinculadas à própria Bird Life International) e capitais internacionais, canadenses, norteestadunidenses,
suíços e etc. (incluindo patrocinadores como o AAGE V. Jensens Fonde; U.S.
Fish &amp; Wildlife Service; U.S. Forest Service; International Program, US Forest Service – Agriculture
Departament; Government of Canada, Global Environment Fund (GEF) e o World Bank) na
construção de um consórcio denominado Alianza del Pastizal. </p>
<p>Este consórcio tornou-se o responsável pela articulação e constituição de uma iniciativa
política compartilhada entre os governos do cone sul da América do Sul (Governo do Estado
do Rio Grande do Sul, Brasil; as províncias de Santa Fé, Formosa e Entre Ríos, Argentina; e os
governos de Uruguai e Paraguai) que ensejaram a criação do Projeto de Incentivos à Conservação
das Pastagens Naturais do Cone Sul da América do Sul. O objetivo era desenvolver instrumentos
que viabilizassem o direcionamento de incentivos aos pecuaristas que possuíssem, ao menos,
50% de pastagens naturais em seu estabelecimento produtivo, e desta forma, para seus
propositores, conservariam o ambiente campestre. Para tal, foi idealizado um processo de
certificação da produção com o selo Carnes del Pastizal, visando associar a recente identidade
criada na figura da Alianza del Pastizal aos interesses e objetivos da Bird Life International. </p>
<p>Mas, em que pilar de diferenciação pauta-se o selo Carnes del Pastizal? Através de qual
processo atesta-se esta suposta qualidade certificada? Tal procedimento de certificação, de
acordo com o protocolo estabelecido para tal, dar-se-ia mediante auditoria realizada por
entidades capacitadas e habilitadas em convênio com a Alianza del Pastizal, proprietária do
selo, através da utilização de um instrumento denominado Índice de Conservação das
Pastagens (ICP). Tal instrumento é anunciado como uma ferramenta tecnológica, objetiva e
pragmática para medir a contribuição de cada produtor para a conservação das pastagens
naturais, formulado por consultores contratados, com o apoio do grupo técnico do projeto
(composto por representantes de instituições de pesquisa e extensão indicados pelos governo envolvidos) e considerando as opiniões de uma rede de técnicos associados a este consórcio,
tendo como base conhecimentos proclamados científicos<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn1">4</xref>
</sup> (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref22">Parera e Carriquiry, 2014</xref>). </p>
<p>Conforme os critérios estabelecidos no ICP<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn2">5</xref>
</sup>, exige-se a avaliação do resultado técnico
do processo, isto é, a “condição” das pastagens, as atividades realizadas em paralelo à pecuária
e a localização do estabelecimento produtivo, sem incluir na metodologia ou no processo
questões como a forma social e o processo técnico realizado. Sendo assim, o fato dos pecuaristas
estarem envolvidos com a pecuária em campo “natural” se mostrou algo dado para este
sistema de certificação, porém, questões relacionadas com a forma como eles praticam a
pecuária e se essa forma é ou não distintiva em relação a outros modos de a praticar, não figura
nas considerações exigidas para esta certificação da produção. </p>
<p>No esteio desta certificação, portanto, está uma diferenciação limitada ao imaginário
relacionado ao pampa e em um mínimo percentual exigido de pastagens naturais. Não são as
características do processo produtivo ou do produto que ajudam a diferenciá-lo de outros não
certificados com o selo Carnes del Pastizal, mas valores simbólicos e imaginativos associados à
conservação da região campestre e da biodiversidade a ela associada, em especial as aves. </p>
<p>Além de servir como dispositivo para o direcionamento de incentivos aos produtores
certificados, como afirmam seus propositores, o ICP teria o objetivo de “medir” a contribuição
de cada propriedade para a conservação das pastagens naturais, possibilitando o
estabelecimento de registros, base de dados com fins comparativos, sistemas de
monitoramento e observação (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref24">Parera et al, 2014</xref>). Trata-se, sobretudo, de um “centro de
cálculo”, como conceitua Merry (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref20">2011</xref>), que passa a assumir para si o controle, monitoramento
e a gestão das informações geradas à distância. Todavia, e paradoxalmente, se este
monitoramento é feito pelas organizações transnacionais e nacionais responsáveis pela gestão
deste projeto e, ademais, sendo esta avaliação realizada por terceiros habilitados por este
consórcio, diferente de mecanismos participativos de certificação, um dispositivo associado ao
ICP parece reforçar uma postura de promoção de certa “autorresponsabilização”, semelhante
ao que indicaram Bostrom e Garsten (2008): o Manual de práticas rurais associados ao ICP
(<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref22">Parera e Carriquiry, 2014</xref>). </p>
<p>Através de “conselhos” e “boas práticas” a serem seguidas, espera-se que os
produtores avaliados busquem a otimização de seu índice, para quando avaliados novamente
(a ser realizado anualmente), atinjam um “valor” maior de conservação das pastagens. A
pessoa, neste sentido, buscaria se conformar nos termos fixados por este índice <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref20">(Merry, 2011</xref>),
sendo uma espécie de “autogoverno” regido por alguns critérios e normas externas, tema
também examinado por Boltanski (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref4">2013</xref>). </p>
<p>No Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, um consultor contratado
para identificar dentro do marco legal vigente os possíveis mecanismos de incentivos a serem
direcionados aos produtores certificados propôs a redução nas taxas de juros em
financiamentos contraídos por estes produtores em proporção aos resultados positivos obtidos
na avaliação via ICP, acrescida em virtude de uma possível redução na nota obtida (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref2">Alianza
del Pastizal, 2013</xref>). Esta ideia, junto a outras possibilidades, no entanto, não foi
operacionalizada. Os únicos incentivos associados aos produtores certificados com o selo
Carnes del Pastizal foram provindos da comercialização da produção em dois remates da
produção no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, promovidos pelo Sindicato de Lavras do
Sul em conjunto com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) e a Secretaria Estadual de Agricultura e Pecuária (SEAPA), ambas secretarias de estado do Rio Grande do Sul.
Falando sobre este remate, para um entrevistado: </p>
<p>O remate tem um papel de dar visibilidade... Agora... De que me serve
um remate de animais, com a certificação que os animais se originam
do campo, se, quem vai comprar não tem nenhuma garantia de que
estes animais vão ser mantidos em campo, de que eles vão deixar de
ser animais para serem carne em cima desses campos... de que vai ter
uma indústria de transformação e uma estratégia de acesso aos
consumidores, toda ela organizada e planejada? Não existe isso... </p>
<p> Considerando que o interesse pela certificação e direcionamento de incentivos de
mercado foram as demandas prioritárias de organizações como o Sindicato Rural de Lavras
do Sul, a APROPAMPA e outras, responsáveis pela proposição destes remates, contando com
o suporte e a legitimidade atribuída pela Alianza del Pastizal. A dúvida recai sob a capacidade
destes remates em representar incentivos efetivos aos pecuaristas do Estado do RS, visando
promover o objetivo maior deste projeto, isto é, a conservação das pastagens naturais dos
pampas, ou se, no entanto, apenas responderiam aos interesses e os objetivos de um grupo
seleto de organizações patronais de pecuaristas da região. A restrição de uma estratégia mais
ampla, ou seja, a nula operacionalização de incentivos que não estritamente via
comercialização (anual) da produção mediante estes remates, parece indicar a segunda
“resposta”. </p>
<p>Observa-se assim que dois mecanismos entram em jogo: de um lado, o imaginário
acerca do pampa sulino e tudo o que ele envolve em termos relacionais (migração das aves,
campos, pastagens naturais, produtores de larga escala); de outro, o procedimento de
certificação por auditorias, mas que, como bem fundamentam Ramos e Garrido (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref28">2014</xref>), busca
associar aspectos simbólicos e produtivos, isto, é tangíveis e intangíveis – e estabelecer que
estas características demarcam e visibilizam qualidades do território. O primeiro caso é
ilustrado pelo trabalho de Lyon (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref17">2006</xref>) em que a autora examinou o quanto a preocupação com
a produção de café abaixo da fronteira EUA-México está mais voltada para os efeitos negativos
ambientais nos Estados Unidos do que aquilo que efetivamente ocorre nas relações de trabalho
na cafeicultura: norte-americanos de classe média que lamentavam não poder ver mais as aves
migratórias nos seus quintais, pois a produção convencional de café afetava o ciclo migratório
dos pássaros. </p>
<p>Mas particularmente ao grau de apropriação dos atores locais é perceptível que neste
cenário aparece o que Dupuis e Goodman (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref10">2005</xref>) denominam de “defesa da civilização do
rural”, indicando relações de poder para a manutenção de determinadas formas sociais no
campo, mesmo que processos orientados à qualificação dos produtos rurais fosse a meta. Se
os índices e as auditorias são factíveis com pequenos e médios criadores isto parece pouco
relevante, desde que o pampa seja preservado e que a pecuária de larga escala contribua para
isto. </p>
<p>A escolha e exaltação do conhecimento técnico-científico como único saber considerado
enquanto fundamento político para nortear as normas deste ateste, em detrimento da busca
por considerações mais amplas e participativas, como assimilar contribuições e conhecimentos
acumulados pelas populações que residem na região campestre, possibilita a problematização
do estatuto do conhecimento que baliza as normas deste ateste frente a outros. Vejamos como
tal questão emerge no fragmento textual que segue, extraído de publicação veiculada em nome
do Projeto de Incentivos à Conservação das Pastagens Naturais: </p>
<p>[...] la información científica de alta calidad, necesaria en un análisis
global de la biodiversidad y en incentivos y deberá contribuir al diseño de las medidas más apropiadas y de sus estrategias de
implementación, reduciendo los costos de aplicación, cumplimiento y
monitoreo de las mismas, así como el riesgo potencial de aplicación de
medidas inapropriadas (Parera et al, 2012 p. 43). Es importante
considerar los límites del conocimiento y de las prácticas locales. Los
ecosistemas encierran posibilidades de valoración adicionales a las
proporcionadas por el conocimiento tradicional. Por otra parte, el
saber tradicional ha pasado frecuentemente por un proceso de
deterioro, o ya no es completamente funcional a una naturaleza
degradada, porque no ha podido evolucionar y adecuarse a las nuevas
exigencias [...]. La cultura de las poblaciones locales es el punto de
acceso a su valoración de los recursos naturales y permite identificar
otras valoraciones distintas de lo ambiental, que pueden redefinir o, al
menos, complementar las percepciones externas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref23">Parera et al, 2012 p.
45</xref>). </p>
<p>A menção feita acerca dos conhecimentos tradicionais e práticas locais dos pecuaristas
da região campestre parece sugerir uma visão estática e limitada de ambos, e não atenta ao
fato de que os pecuaristas possivelmente renovem seus conhecimentos constantemente em
função das novas experiências e desafios. A utilização de informação científica é ressaltada
enquanto, no esforço de consideração, os conhecimentos dos pecuaristas locais parecem ser
vistos como secundários e/ou complementares. </p>
<p>Qual o resultado para a qualidade dos produtos que o dispositivo poderia apontar?
Não há razões para crer que a qualificação progressiva esteja no centro do projeto, uma vez
que o imaginário da beleza campestre com sua fauna e flora é produto de uma rede
transnacional – a preocupação com as aves e uma cadeia de acontecimentos, políticas públicas
e incentivos para produção de carne de um modo que conserve a natureza; o fragmento que
segue complementa estas percepções: </p>
<p>[Este selo] [...] nace para crear demanda, y no necesariamente como
una respuesta a la misma [...]. El mecanismo no se ocuparía de desarrollar
los negocios (ni de completar otros aspectos de calidad del producto). Los
negocios deben hacerlos los consorcios y grupos de ganaderos, o los
empresarios intermedios, haciendo uso de esta nueva herramienta
(Alianza del Pastizal, 2009 p. 2, grifo adicionado). </p>
<p>Questões mais amplas referentes à operação deste selo, como por exemplo, alternativas
de inserção da produção em possíveis mercados diferenciais, relações com
intermediadores/atravessadores (que atuam na relação entre produtores e frigoríficos), e etc.,
sequer são consideradas na lógica operativa deste selo. Defende-se uma dinâmica na qual,
após a criação das condições para seu funcionamento, requer que os diversos atores
interessados passem a competir em torno deste selo, havendo a crença de que produtores,
intermediários e compradores devam funcionar por si mesmos, sem grandes interferências
e/ou intervenções diretas. Discorrendo sobre tais questões, para um entrevistado: </p>
<p>O selo e o remate da Alianza, por si só, não vão mudar nada. [...] Mas,
tem a sua importância, porque... bom, é algo que está acontecendo...
pode pelo menos ser um indutor... Mas por si só, não vejo. [...] a
Alianza, para “sobreviver”, precisa mostrar que ela está inserida e que
está fazendo coisas... Agora, por si só, da forma que trabalha, isolada e
desconectada do conjunto de atores, inclusive de outras cadeias e sistemas agroalimentares da região, não a vejo com grande capacidade
de transformação [...]. </p>
<p>Observa-se que um ponto central do argumento do entrevistado é a relação entre os
selos e a capacidade desta ferramenta de transformar aspectos do mundo social. Este vem a
ser um dilema relevante, apontado na literatura, e que nos direciona a refletir sobre quais
potencialidades existem nas certificações. Caberá ver se o caso da Rede Ecovida, analisado a
seguir, pode ser mais promissor.    </p>
</sec>
<sec>
<title>5. A certificação participativa de produtos ecológicos no âmbito da Rede de
Agroecologia Ecovida</title>
<p>A certificação da produção orgânica ganha corpo na década de 1980, por iniciativa da
IFOAM<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn3">6</xref>
</sup>. No Brasil, o aparato legal para a produção e certificação orgânica implantado a partir
da década de 1990 foi influenciado pelas normativas internacionais. Até a década de 1990 a
necessidade de regulamentação da produção orgânica tinha resposta na atuação de
associações de agricultores, ONGs, cooperativas de consumidores e técnicos que estavam
atentos às normas estabelecidas no âmbito internacional. No entanto, segundo Medaets e
Fonseca (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref19">2005</xref>), a Diretriz 2.092, que trata da comercialização de alimentos orgânicos nos países
membros, promulgada pela União Europeia em 1992, aumentou as exigências para que países
como o Brasil continuassem exportando produtos orgânicos para a Europa. </p>
<p>Tomando como modelo a legislação europeia, o Brasil adota como sistema de
certificação o modelo conhecido como certificação por auditoria ou terceira parte. Esta
modalidade de avaliação ocorre por meio de uma organização, pública ou privada,
independente daquela destinada à produção que se busca verificar, onde a utilização de um
órgão independente se dá pela necessidade de que o mesmo não esteja envolvido nos
processos produtivos e comerciais. A confiança na qualidade do produto é intermediada pelo
organismo certificador (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref19">Medaets e Fonseca, 2005</xref>). Embora seja específica no que diz respeito
a normas e procedimentos, o caráter auditado e independente (por terceira parte) da
certificação dos orgânicos se aproxima ao caso das Carnes del Pastizal, antes descrito. </p>
<p>Desde o início das discussões sobre a regulamentação dos produtos orgânicos no
Brasil, os movimentos em torno da agroecologia questionavam o modelo de normalização que
vinha sendo construído a partir de padrões externos onde, entre outros aspectos, a certificação
era apresentada como única forma de atestar a conformidade orgânica dos produtos. Em
síntese, para esses atores as regulamentações levadas a cabo a partir de instituições
internacionais não refletiam a realidade brasileira, pois não levavam em conta as
especificidades dos pequenos produtores envolvidos com a produção orgânica. </p>
<p>Foi somente em 2007, que o Estado brasileiro passou a reconhecer a certificação
participativa como um sistema legítimo de garantia de produtos orgânicos. Neste sentido,
passam a ser considerados como organismos de reconhecimento da produção orgânica tanto
os Sistemas de Conformidade Orgânica, quanto os Sistemas Participativos de Garantia (SPG),
passando a vigorar no país dois sistemas de certificação legalmente reconhecidos.</p>
<p>Na certificação participativa, ao invés de passar por uma auditoria realizada por
terceiros, a produção é reconhecida por um processo de credibilidade construído junto ao
consumidor e na relação com outros produtores, um controle que ocorre constantemente. A
credibilidade é construída de forma descentralizada e a qualidade dos produtos é assegurada
através da participação, compromissos e envolvimento de diversos atores num processo de
interação e controle social (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref29">Rede Ecovida de Agroecologia, 2007, p. 38</xref>). </p>
<p>O que se pretende com esse tipo de iniciativa é estabelecer um sistema
de certificação que não dependa exclusivamente do exame realizado
por um técnico ou auditor externo, e onde seja dada aos produtores a
oportunidade de participar de um processo cujo resultado lhes afeta
diretamente. A aplicação deste sistema prevê, como o próprio nome
indica, que os atores envolvidos assumam um compromisso tácito e
pleno com os princípios da produção ecológica, assim como um papel
ativo na supervisão de todas as etapas do processo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref9">Caldas et al., 2012,
p. 457</xref>) </p>
<p>Em relação à discussão que traçamos aqui, é importante considerar que a
especificidade da certificação da Ecovida consiste justamente nesse caráter participativo. Em
outras palavras, a construção da qualidade está centrada nas funções e participação de
diversos atores, ao contrário da certificação por auditoria, onde a qualidade é estabelecida a
partir da análise de auditores/técnicos contratados. Para trazer à tona as questões
apresentadas, lançamos mão de um estudo de caso realizado junto a pequenos agricultores
associados à Rede de Agroecologia Ecovida que mobilizam uma certificação participativa. A
amostra operacional da pesquisa foi composta por agricultores pertencentes à Rede de
Agroecologia Ecovida através do Núcleo Vale Rio do Pardo, Núcleo Sul e Núcleo LitoralSolidário
localizados no Rio Grande do Sul<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn4">7</xref>
</sup>. </p>
<p>A certificação participativa é compreendida pelos agricultores entrevistados como um
processo coletivo e participativo que tem a importante função de incluir o agricultor no
processo de verificação, permitindo que este desenvolva sua autonomia. É considerada um
importante espaço para trocas de conhecimentos e experiências entre esses agricultores, ao
contrário da certificação por terceira parte que é compreendida como um processo individual,
onde o agricultor não tem contato com os demais e trabalha sozinho. Ademais, ela seria
inviável para a agricultura familiar uma vez que seus custos financeiros são muito elevados,
ao contrário da certificação participativa que teria como custo a própria premissa da
participação. </p>
<p>A certificação por auditoria estaria mais voltada para a construção de um marketing
sobre a ideia do produto orgânico. Além disso, prevaleceria a compreensão dos produtos
orgânicos enquanto mercadoria, ao contrário dos agroecologistas que veem seus produtos
como alimentos. Nesse sentido, é importante destacar que a certificação participativa é vista
como um modelo que certifica processos, ao contrário da certificação por auditoria, que
certificaria produtos. Isto é preciso destacar, pois nos sistemas participativos está em jogo a
qualificação enquanto um processo social mais amplo, que envolve dimensões da troca de
experiências e das relações de proximidade e identificação com consumidores. Não se trata tão
somente de uma atividade de elaboração de marketing que visa uma ação estratégica da
qualidade como um “efeito” ou uma maquiagem; faz-se presente um processo mais dinâmico
de construção da qualidade que expõe o próprio processo, uma vez que sendo uma rede (e
não uma empresa responsável) cada “ponto” – núcleo local – da rede pode dinamizar determinados atributos da qualidade dos alimentos (e a depender também do que é produzido
em cada região). </p>
<p>Quando questionados sobre o formato participativo de certificação, os agricultores
enfatizam a importância de este processo ser realizado por agricultores e não por técnicos
(certificação por auditoria), pois segundo eles, estes não têm competência suficiente para
avaliar se a produção é ecológica. Essa distinção aponta para os dois tipos de experts definidos
por Bessy e Chateauraynaud (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref3">2014</xref>): o auditor de uma certificadora é considerado um
profissional que não pertence ao contexto que estará avaliando, aplica procedimentos
rotineiros e parte de generalizações para verificar se uma propriedade é ou não orgânica; o
agricultor que vistoria uma propriedade em grupo a partir da certificação participativa é
dotado de conhecimentos específicos sobre aquela produção e sua avaliação é contextualizada
com cada realidade que vistoria. </p>
<p>Neste sentido, pode-se perceber que a questão da expertise é muito cara à certificação
participativa, pois ela questiona a legitimidade de um auditor externo (certificação por
auditoria) – procurando inverter os termos dados de que o papel do cientista é o signo de
confiança – para avaliar a conformidade orgânica de uma propriedade. Os defensores da
certificação participativa acreditam que apenas indivíduos envolvidos com aquela atividade
podem fazer tal avaliação, por essa razão a certificação participativa tem caráter maleável e
apresenta diferentes formas de atuação, dependendo do contexto onde se aplica. Na
certificação participativa a experiência sensorial é muito valorizada, pois o conhecimento
tácito funciona como uma forma de atestado. </p>
<p>Essas questões também podem ser visualizadas a partir da ideia de inspeção externa
(auditoria) e olhar externo, ou revisão por pares, nomenclatura dada às vistorias que ocorrem
por parte dos agricultores na certificação participativa, conforme mencionado por um dos
entrevistados. </p>
<p>A revisão de pares, exatamente isso, é o contrário da certificação por
terceira parte que diz que não pode vocês mesmos se certificarem, tem
que eu vir de fora porque eu sou idôneo, sou neutro e vou verificar se
vocês fazem o que dizem que fazem, nós dizemos “Não, os pares se
visitando mutuamente geram um tipo de controle que é tão ou mais
eficiente que esses por terceira parte”. </p>
<p>É exatamente por ser um controle comunitário, rotineiro, que é tão ou mais eficiente,
como alguns agricultores informaram a certificação participativa é um controle constante, ao
contrário da certificação por auditoria onde a vistoria é mais esporádica. Aqui temos mais um
elemento crucial: se nos sistemas participativos a qualidade é um processo, o caráter
esporádico das certificações auditadas deseja gerar produtos que assumam uma qualidade a
partir da própria verificação pelo perito. </p>
<p>Nesse sentido, o estudo de caso mostrou que a certificação participativa representa
uma crítica à adoção de técnicas produtivistas que rompem com os laços comunitários, e a
adoção crescente de diplomas e certificados, em contraposição à legitimidade do
conhecimento tácito. Isto quer dizer que não se certificam os produtos, mas sim as
propriedades, por isso, quando ocorrem as visitas, leva-se em conta um rol de atributos que
extrapolam a simples apresentação do produto final e suas qualidades intrínsecas. De acordo
com um dos entrevistados </p>
<p>[...] não pode ser um equipamento de comercialização, não pode ser a
distância geográfica, o perfil do consumidor que vai determinar a
credibilidade ecológica do produto, porque, o que determina isso, é a
maneira como ele foi produzido.</p>
<p>Diante da apresentação feita, devemos considerar a rede de poder que se estabelece em
torno das certificações: a existência de diferentes selos (como a certificação participativa e por
terceira parte) representam diferentes posições, estratégias e conflitos, como a legitimidade do
conhecimento científico versus a legitimidade do conhecimento tácito (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref27">Radomsky, 2015</xref>).
Diferentes selos têm diferentes poderes na medida em que permitem, por exemplo, o acesso a
determinados mercados e a construção de barreiras frente a outros, mas também parece haver
na Ecovida um apelo à autorresponsabilização (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref20">Merry, 2011</xref>). </p>
<p>A disputa não se centra nas capacidades e poderes que um selo pode ter em relação ao
outro, mas na capacidade e poder que o conhecimento científico tem em relação ao tácito na
construção da qualidade dos produtos. Em outras palavras, questiona-se o fato de um modelo
de certificação ser considerado mais legítimo que a palavra do agricultor, mesmo que se trate
de uma certificação participativa. O que se percebe neste caso é que a certificação, e o selo, em
consequência, são responsáveis por agenciar outras características em determinado produto,
seja porque irá permitir a abertura de novos mercados, seja porque o produto passará a ser
considerado autêntico ou “de qualidade”. </p>
<p>Um exemplo de como isso acontece é relatado a seguir, por um dos entrevistados da
pesquisa: </p>
<p>[...] lá em Porto Alegre tem uma OCS<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn5">8</xref>
</sup> que faz uma baita de uma feira
[...] então do outro lado tem um supermercado Zaffari, que vende
produto ecológico, mas não pode comprar deles, quer dizer o produto
deixou de ser orgânico, isso pra mim é um mal senso danado, eu
sempre digo podemos discutir longamente qual o método que garante
a OCS, qual método que garante que aquele produto é orgânico se ele
gera credibilidade ou não, vamos discutir isso, certificadores vão dizer
que não, eu vou dizer que sim, estudos vão dizer que sim, outros vão
dizer que não, a hora que a gente decidir que ele gera credibilidade ele
gera pra tudo quanto é mercado, não posso decidir que ele gera
credibilidade e botar uma barreira de quilômetros ou mecanismos.
Esses em Porto Alegre eu adoro, aqui ele é, atravessou a rua ele deixou
de ser, então não pode ser um equipamento de comercialização, não
pode ser a distância geográfica, o perfil do consumidor que vai
determinar a credibilidade ecológica do produto porque o que
determina isso é a maneira como ele foi produzido. </p>
<p>Apesar da certificação, em muitos momentos, não ser considerada crucial para esses
agricultores, o relato permite perceber que ela é capaz de agenciar caraterísticas para esses
produtos, permitindo que alguns sejam inseridos em determinados mercados. A crítica
operada é em relação à ilegitimidade do conhecimento dos agricultores frente ao
conhecimento perito responsável pelas certificações. O que a certificação participativa busca é
legitimar o conhecimento leigo (dos agricultores) elevando-o ao status de conhecimento perito,
pois os agricultores certificados são também aqueles que certificam. </p>
<p>O que se pode perceber é que esses desdobramentos revelam uma rede de poder entre
esses diferentes formatos de certificação, pondo em discussão a legitimidade desses diferentes
conhecimentos para definir a qualidade dos produtos. Conforme Radomsky (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref27">2015</xref>), o processo de certificação é válido porque consegue transmitir a autenticidade dos produtos por meio de
um controle que, no caso, é feito pelos próprios agricultores. </p>
<p>Não resta dúvida de que a certificação é um poderoso instrumento
para esse fim, ela age na chancela dessa realização, otimizando e
autenticando que de fato aquele agricultor (identificado) produz a partir
de processos naturais e transmite aos produtos parcela de seu jeito de
viver (supostamente) em maior integração e equilíbrio com a natureza,
isto é, por meio de processos tradicionais de produção (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref27">Radomsky,
2015</xref>, p 97 – 98, grifo do autor). </p>
<p>Desta forma, mesmo nas situações em que os agricultores não considerem o selo muito
importante, ele tem esse poder de agenciamento das propriedades materiais (modo de vida),
“além de condensar atributos da agricultura familiar ecológica – um estilo de vida – eles
agenciam a mercantilização, concedem reais possibilidades de os alimentos ‘aparecerem’
enquanto ecológicos e pertencentes à determinada categoria social” (Radomsky, 2015, p. 113).   </p>
</sec>
<sec>
<title>6. Considerações finais</title>
<p>Este artigo procurou examinar dois casos de certificação antitéticos, um deles que
construiu sua estratégia por selo auditado e outro por selo participativo. Não se tratou de
buscar uma comparação simples entre os sistemas, mas de examinar quais as correspondências
entre estes sistemas, os processos de qualificação dos produtos e as formas de conhecimento
articuladas. Em cada um dos estudos de caso são atores distintos, em contextos, paisagens,
biomas diferentes e com produtos também diferentes (carne bovina, de um lado; produtos
agroecológicos em geral, de outro). </p>
<p> Não restam dúvidas que o ambiente é uma preocupação central em ambos os casos,
mostrando o quanto o tema da sustentabilidade do desenvolvimento influencia programas e
projetos deste tipo. O imaginário da natureza opera tanto na Alianza del Pastizal como na
Rede Ecovida, ainda que delineando dimensões particulares: no primeiro, um imaginário que
vincula tanto o que se compreende do bioma pampa na América do Sul como espaço das rotas
migratórias das aves que chegam à América do Norte. No segundo, um imaginário que
vincula agricultura familiar, agroecologia e alimentos saudáveis. Ainda assim, nos dois casos
a qualidade “intrínseca” de produtos, dos modos de fazer ou dos lugares emerge, tal como
Mansfield (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref18">2004</xref>) e Ilbery et al. (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref15">2005</xref>) mostraram em duas pesquisas, e pode estar
eventualmente associada ao ambiente. </p>
<p> Esta constatação, antes mencionada, permite observar também que as redes são mais
extensas num caso do que em outro, pois no primeiro temos um consórcio transnacional com
organizações não-governamentais de atuação além-fronteiras dos Estados; no segundo, a
Ecovida é também uma rede, porém regional. O que nos direciona também a refletir o quanto
estas iniciativas em rede não dependem dos Estados e governos, mesmo utilizando-se de
mecanismos e ambiente institucional favorável (nos/dos Estados) para atuar. </p>
<p>Sendo formas de organização não estatais, é curioso notar que em ambos os casos
aparece o problema da autorresponsabilização dos atores no mundo contemporâneo
examinado por Merry (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref20">2011</xref>) e também por Bostrom e Garsten (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref5">2008</xref>). São selos que impelem
ganaderos e agricultores ecológicos a seguirem “boas práticas” e a incorporarem valores, além
de manterem formas de monitoramento recíproco. O “quality turn” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref35">Winter, 2003</xref>) se articula
a este fenômeno, apresentando uma responsabilização pela qualidade e pelo ambiente.</p>
<p>Mas é crucial salientar que a qualidade é um assunto que sugere duas visões e maneiras
de operar muito distintas nos dois casos. Na verdade, a pergunta ainda pertinente colocada
por Ilbery e Kneafsey (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref14">2000</xref>) a respeito do papel dos selos em atestar qualidades faz todo o
sentido aqui; e ainda aponta para “como” as certificações podem ter esta eficácia. No caso das
Carnes del Pastizal, existe uma clara preocupação com os parâmetros científicos da
conservação da pastagem e o quanto isto compreenderá o poder do selo – o dispositivo – para
dar legitimidade a esta relação. A qualidade é atestada de maneira pontual e até mesmo se
pode obter o “quantum” de conservação, fornecido por um cálculo complexo e geral, isto é,
que vale para todas as propriedades rurais da região. </p>
<p>Quanto ao selo da Ecovida, observa-se que é antes um processo de qualificação, um
dispositivo gerado em rede e que se orienta pela participação. Ele se fundamenta na vivência
do agricultor na rede, no quanto este agricultor torna seus processos mais conhecidos de seus
pares (outros produtores que farão o controle coletivo dos parâmetros agroecológicos); mas
não se trata de uma ciência agroecológica produzida em centros de pesquisa ou universidades,
e sim de experiências práticas em agricultura de base ecológica. Portanto, a qualificação dos
produtos é processual, ela depende de uma dinâmica contextual e temporal para a qual as
trocas de experiências entre os atores (diferentes agricultores, mas também consumidores e
técnicos) se tornam centrais. Diferente da certificação por auditoria que certifica produtos, e
no caso do selo Carnes del Pastizal, em especial, em um mínimo de pastagens concebidas pelos
avaliadores como nativas e o imaginário associado ao pampa, as certificações participativas,
em contraponto, mormente no caso dos agricultores envolvidos com a Rede Ecovida de
Agroecologia no Rio grande do Sul, enfatizam certificar “processos, modos de fazer, modos
de ser e não produtos” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref16">Lucion, 2015, p. 15</xref>). O fato é que, tal como Power havia há quase vinte
anos sustentado, e que Shore e Wright (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref32">2015</xref>) recentemente repetiram, escapar de algum
procedimento de verificação é algo difícil em uma economia de qualidades. </p>
<p>Assim, na comparação é dissonante também o modo como os conhecimentos aparecem
nos dois estudos. Nas carnes do pampa, há uma preferência pela ciência, discursivamente
sustentada enquanto imparcial e objetiva, que nos documentos e nas entrevistas é tratada
como um saber a se sobrepor ao conhecimento “tradicional” dos pecuaristas. Mais que isto,
além de as medidas aparecerem nos documentos propositivos e de avaliação, o papel do
cientista é tal como Boltanski reconheceu, e “o caráter técnico das medidas torna difícil, ou até
inútil, a sua transmissão para um público amplo” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_12455418013_ref4">Boltanski, 2013, p. 453</xref>). Na Ecovida, como
acima afirmamos, a concepção multi-ator e as trocas de experiências sugerem relacionalidade.
A participação é requerida, ela exalta relações de poder interna aos grupos locais, evocando
também pontos de vista conflitantes. Além disso, busca-se uma inversão quanto à ciência: é
pela capacidade dos agricultores em conhecerem seu meio que este saber local busca se
legitimar e se afirmar como aquele capaz de ser eficaz – o agricultor como perito. A ciência,
especialmente a agronômica, entra no rol das colaborações – muitas vezes oportunizando
alguns conflitos – mas pelo protagonismo dos agricultores na Rede ela não se impõe, e a
participação é almejada a estar sempre “no horizonte”.  </p>
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<label>34</label>
<mixed-citation>VOINEA, Anca. “Fairtrade products witness a 15% growth in the market”. Co-operative  News. Disponível:   http://www.thenews.coop/89553/news/fairtrade/fairtrade-products-witness- a-15-growth-in-the-market/</mixed-citation>
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<surname>VOINEA</surname>
<given-names>Anca</given-names>
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<source>http://www.thenews.coop/89553/news/fairtrade/fairtrade-products-witness- a-15-growth-in-the-market/</source>
<year>2014</year>
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<label>35</label>
<mixed-citation>WINTER, Michael. “Geographies of food: agro-food geographies making reconnections”. Progress in 

Human Geography, v. 27, n. 4, p. 505-513, 2003.</mixed-citation>
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<surname>WINTER</surname>
<given-names>Michael</given-names>
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<source>Progress in Human Geography</source>
<year>2003</year>
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<label>36</label>
<mixed-citation>WOLTMANN, Lucas. Desenvolvimento sustentável e
políticas públicas: uma análise do Projeto de Incentivos  à Conservação  das Pastagens Naturais do Cone Sul da América do Sul. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Trabalho de conclusão de curso em Políticas Públicas, 2015.</mixed-citation>
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<surname>WOLTMANN</surname>
<given-names>Lucas</given-names>
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<source>Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Trabalho de conclusão de curso em Políticas Públicas</source>
<year>2015</year>
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<title>Notas</title>
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<label>4</label>
<p>Para detalhes, ver Parera e Carriquiry (2014, p. 157). </p>
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<label>5</label>
<p>Para melhor compreender a fórmula deste índice, os indicadores considerados e os procedimentos de avaliação
dos mesmos, ver Woltmann (2015, p. 48-59).</p>
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<label>6</label>
<p>A Federação Internacional de Movimento da Agricultura Orgânica (IFOAM) criada em 1972 na França. Seu
objetivo é agrupar associações da agricultura orgânica e estabelecer normas, válidas internacionalmente, para a
agricultura e certificação orgânica a partir do método de certificação por terceira parte, atualmente, no entanto, a
IFOAM vem reconhecendo algumas iniciativas de certificação participativa. Link para acesso:
http://www.ifoam.org/</p>
</fn>
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<label>7</label>
<p>De acordo com o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (MAPA, 2016), da certificação participativa do
estado, 92,5% é realizada pela Rede de Agroecologia Ecovida. </p>
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<label>8</label>
<p>Organização de Controle Social. A Lei 10.831 de 2003 torna a certificação facultativa para os agricultores familiares
que comercializam seus produtos de forma direta, desde que inseridos em processos próprios de organização e
controle social, uma vez assegurada aos consumidores e ao órgão fiscalizador a rastreabilidade do produto e o livre
acesso aos locais de produção ou processamento. Essa OCS pode ser um grupo, uma associação, uma cooperativa
ou consórcio. </p>
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