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                <journal-title>Ciência &amp; Educação (Bauru)</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Ciênc. educ.
                    (Bauru)</abbrev-journal-title>
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            <issn pub-type="ppub">1516-7313</issn>
            <issn pub-type="epub">1980-850X</issn>
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                <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Universidade
                    Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências, campus de
                    Bauru.</publisher-name>
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                <article-title>A Educação Matemática no currículo infantil boliviano</article-title>
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                    <trans-title>Mathematics education in the Bolivian children's
                        curriculum</trans-title>
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                        <surname>Novaes</surname>
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                <contrib contrib-type="author">
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                        <surname>Gonçalves</surname>
                        <given-names>Harryson Júnio Lessa</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
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                        <surname>Santana</surname>
                        <given-names>Marcela Lopes de</given-names>
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                    Faculdade de Ciências, Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência,
                    Bauru, SP, Brasil</institution>
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                    Solteira</institution>
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                    Zootecnia</institution>
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                <institution content-type="original">Universidade Estadual Paulista (Unesp),
                    Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira, Departamento de Biologia e Zootecnia,
                    Ilha Solteira, SP, Brasil</institution>
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                    (Unesp)</institution>
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                <institution content-type="original">Universidade Estadual Paulista (Unesp),
                    Faculdade de Ciências, Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência,
                    Bauru, SP, Brasil</institution>
                     <email>j.novaes@unesp.br</email>
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            <author-notes>
                <corresp id="c1">Autora correspondente: <email>j.novaes@unesp.br</email></corresp>
            </author-notes>
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                    <license-p>Este &#x00E9; um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob
                        a licen&#x00E7;a Creative Commons Attribution, que permite uso,
                        distribui&#x00E7;&#x00E3;o e reprodu&#x00E7;&#x00E3;o em qualquer meio, sem
                        restri&#x00E7;&#x00F5;es desde que o trabalho original seja corretamente
                        citado.</license-p>
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            <abstract>
                <title>Resumo</title>
                <p>Discute-se o atual currículo-base da educação infantil boliviana denominado
                        <italic>Programa de Estudio Educación Inicial en Familia Comunitaria
                        Escolarizada</italic>, sua organização geral e, em especial, como a
                    matemática é nele desenvolvida. As discussões foram amparadas nos estudos
                    realizados por autoras/es cujos estudos versam sobre as temáticas descoloniais e
                    a matemática na educação infantil. O currículo é descrito pela legislação como
                    um instrumento descolonizador e libertador, por articular a cultura local com a
                    participação da sociedade, na tomada de decisões nas políticas educacionais. A
                    educação matemática articulada no currículo destaca, por meio das temáticas
                    orientadoras, aspectos da intraculturalidade e da interculturalidade, criando
                    possibilidades para que os saberes da família e da comunidade sejam
                    reconhecidos. Isso permite o diálogo entre culturas, garantindo a visibilidade e
                    o intercâmbio de outras lógicas epistêmicas, contribuindo para a construção de
                    um pensamento descolonial.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>Abstract</title>
                <p>This article examines the current core curriculum for Bolivian children’s
                    education, known as the <italic>Initial Education Study Program in a Schooled
                        Community Family</italic>, in terms of its overall structure and, more
                    specifically, how mathematics is taught. The discussions are conducted based on
                    authors who have researched colonial and mathematical themes in children's
                    education. The legislation describes the curriculum as a decolonizing and
                    liberating tool for articulating local culture while allowing society to
                    influence decision-making concerning educational policies. The curriculum of
                    mathematical education emphasizes intraculturality and interculturality through
                    guiding themes, allowing for the rebuilding of family and community knowledge,
                    facilitating cultural dialogue, ensuring the visibility and exchange of other
                    epistemic logics, and contributing to the construction of decolonized
                    thought.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>Educação infantil</kwd>
                <kwd>Educação matemática</kwd>
                <kwd>Currículo intercultural</kwd>
                <kwd>Descolonização</kwd>
                <kwd>Intercâmbio cultural</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>Children's education</kwd>
                <kwd>Mathematical education</kwd>
                <kwd>Intercultural curriculum</kwd>
                <kwd>Decolonization</kwd>
                <kwd>Cultural exchange</kwd>
            </kwd-group>
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        <sec sec-type="intro">
            <title>Considerações iniciais</title>
            <p>A Educação Infantil ocupa um lugar de destaque cada vez maior na agenda educativa
                mundial, pois ao longo dos anos, a infância vem abrindo espaços na sociedade, sendo
                incorporada por meio de ordenamentos legais aos sistemas educacionais. Hoje, em
                muitos países da América Latina, como no Brasil, Bolívia, Equador, México,
                Nicarágua, Panamá, Peru e Venezuela, corresponde à etapa inicial da educação formal
                das crianças compondo a educação básica e recebe diversas denominações: educação
                infantil, educação maternal, educação parvulária, educação inicial, creche etc. que,
                de maneira geral, compreende a educação de meninos e meninas de zero a cinco anos de
                idade (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Unesco, 2019</xref>).</p>
            <p>Atrelado a esse movimento de incorporação na educação básica, desde a década de 1990,
                também foram organizadas diversas reformas, abrangendo mudanças na legislação
                educacional, na reorganização dos sistemas de ensino, na formação de professores e
                as reformulações curriculares.</p>
            <p>As reformas curriculares na América Latina, carregaram o caráter neoliberal que,
                propositalmente, ignora a história e as especificidades de cada país,
                invisibilizando as culturas nacionais, perpetuando dessa forma, resquícios coloniais
                ao se adotar e validar uma única perspectiva, no caso a eurocêntrica, e a partir
                dela, todas as estruturas de poder se organizaram por meio das relações coloniais
                que atravessam praticamente todos os aspectos da vida (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B13">Quijano, 2005</xref>).</p>
            <p>Diante deste cenário, podemos questionar: haveria outros modos de se elaborar e
                construir um currículo sem se pautar pela agenda neoliberal? Quais caminhos
                possíveis?</p>
            <p>Vislumbramos essa possibilidade no currículo boliviano que em seu processo de
                produção tomou um rumo diferente dos demais países latino americanos, pois fez a
                opção de ser delineado nos moldes que aparentemente envolveu a participação dos
                povos originários por meio de seus conselhos, trazendo em seus princípios uma
                perspectiva decolonial e intercultural.</p>
            <p>Sendo assim, esse artigo tem como objetivo compreender a estrutura da educação
                infantil boliviana, a organização curricular proposta para essa etapa, que elementos
                estão presentes em suas orientações para o campo da educação matemática e quais
                possibilidades decoloniais<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> podem ser
                desenvolvidas por meio dele.</p>
            <p>Para direcionar nossos olhares sobre o documento curricular boliviano nos apoiaremos
                nos estudos realizados por autores/as cujos estudos estão situados/as no contexto
                latino-americano como Aníbal Quijano (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Quijano,
                    2005</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B14">2014</xref>) e de Catherine Walsh
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Walsh, 2008</xref>, <xref ref-type="bibr"
                    rid="B17">2009a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B16">2012</xref>).</p>
            <p>O artigo está organizado em três momentos. Inicialmente faremos a explanação sobre
                alguns aspectos da colonialidade que incidiram sobre a Bolívia e o processo de
                refundação do estado, que pretende combater seus requícios. Na sequência
                descreveremos como se deu a construção do novo paradigma educacional e seus
                desdobramentos sobre a organização e o currículo da educação infantil boliviana. E,
                por fim, discutiremos como é concebido o trabalho com a matemática e sua relação com
                os pressupostos da interculturalidade e decolonialidade.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>Nuances e interfaces políticas e sociais da Bolívia</title>
            <p>Assim como em vários países da América Latina, no processo de colonização da Bolívia,
                houve a imposição dos conhecimentos eurocêntricos sobre os conhecimentos
                tradicionais indígenas, em uma tentativa de apagamento das culturas dos povos
                originários. Em muitos momentos da história do país, a escolarização foi negada aos
                povos tradicionais e em outros foi utilizada como uma estratégia de homogeneização,
                visando a integração do indígena à sociedade nacional, o que acarretou a
                invisibilização das culturas de muitas nações.</p>
            <p>A colonialidade é fruto do processo de colonização, em que mesmo com sua finalização,
                deixou seu rastro na sua lógica de desumanização, silenciando e esmagando
                identidades, culturas e saberes outros que não os eurocêntricos.</p>
            <p>Para a pesquisadora Catherine <xref ref-type="bibr" rid="B18">Walsh (2009b, p.
                    186</xref>, tradução nossa), “[...] a educação contribuiu – e segue contribuindo
                – para a colonização das mentes, para as noções de ‘singularidade’, ‘objetividade’ e
                ‘neutralidade’ da ciência, do conhecimento e da epistemologia, e de que algumas
                pessoas são mais ‘aptas’ a pensar do que outras.”</p>
            <p>O funcionamento da colonialidade opera por meio de quatro eixos entrelaçados: a
                colonialidade do poder (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Quijano, 2005</xref>), a
                colonialidade do saber, a colonialidade do ser (<xref ref-type="bibr" rid="B11"
                    >Maldonado-Torres, 2007</xref>) e a colonialidade cosmogônica (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B18">Walsh, 2009b</xref>).</p>
            <p>Os quatro eixos de manifestação da colonialidade são assim definidos pela
                pesquisadora Catherine Walsh (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Walsh, 2008</xref>,
                    <xref ref-type="bibr" rid="B16">2012</xref>):</p>
            <list list-type="simple">
                <list-item>
                    <p>– A colonialidade do poder, como um sistema de classificação social baseado
                        em uma hierarquia racial e sexual, na formação e distribuição de identidades
                        sociais entre superior e inferior.</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>– A colonialidade do saber, exclui e desqualifica a existência de outras
                        racionalidades epistêmicas e tem a perspectiva eurocêntrica como única e
                        válida.</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>– A colonialidade do ser, seria exercida por meio da inferiorização,
                        subalternização e desumanização do outro negando-lhe a existência, tratando
                        povos e comunidades indígenas como bárbaros e incivilizados.</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>– No último eixo, a colonialidade cosmogônica, cuja base se dá na divisão
                        binária entre natureza/sociedade, descartando toda visão ancestral entre o
                        mundo biofísico, humano e espiritual.</p>
                </list-item>
            </list>
            <p>Na tentativa de romper com esse sistema, muitos movimentos sociopolíticos surgiram na
                América do Sul, com o objetivo de refundação, interculturalização e descolonização
                do Estado, dentre eles podemos destacar o Estado Plurinacional da Bolívia.</p>
            <p>De acordo com site do Instituto Nacional de Estatística da Bolívia, o país está
                situado ao Sul do continente americano, e possui uma área total de 1.098.581 km²,
                fazendo fronteira com o Brasil, Peru, Chile, Argentina e Paraguai. Seu contexto
                social é marcado por uma grande diversidade étnica e cultural, e por altos índices
                de pobreza e desigualdade. Ao longo da sua história, a Bolívia perdeu territórios
                para o Chile, o Brasil e o Paraguai em guerras e conflitos. A Bolívia também sofreu
                golpes militares e instabilidade política até a restauração da democracia em 1980. A
                população boliviana é de cerca de 11,2 milhões de pessoas, das quais 41,7% se
                declaram pertencentes a uma das nações e povos indígenas originários e 23,3% se
                declararam afro-bolivianos.</p>
            <p>Desde os anos 1990, movimentos sociais que representam populações de origem urbana e
                pobre da Bolívia altiplânica têm adotado um discurso indígena e demandas por justiça
                concebidas tanto em termos de reconhecimento identitário quanto de redistribuição de
                bens materiais.</p>
            <p>O país possui duas capitais, Sucre, que foi a primeira sede de governo, é a capital
                constitucional e abriga o poder legislativo, e La Paz é a capital legislativa. O
                país está organizado em nove departamentos: Pando, Beni, Santa Cruz, Chuquisaca,
                Tarija, Potosí, Cochabamba, Oruro e La Paz. O Índice de desenvolvimento humano (IDH)
                é de 0,703, o investimento em educação é de 8,6%.</p>
            <p>Hoje, os idiomas oficiais do país são o espanhol e todas as 36 línguas das nações e
                povos camponeses indígenas nativos. Para <xref ref-type="bibr" rid="B14">Quijano
                    (2014)</xref>, as identidades culturais indígenas, foram negadas ao longo dos
                séculos, pois eram vistas como subculturas, por justamente contrastarem com a
                cultura eurocêntrica.</p>
            <p>O reconhecimento dos idiomas, e das culturas indígenas só se deu por meio de um
                intenso processo de lutas e reivindicações que envolveu diversos setores da
                sociedade, que levou a refundação do estado, passando a se chamar: Estado
                Plurinacional da Bolívia.</p>
            <p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B5">García Linera (2014)</xref>, teórico e político
                boliviano, foi preciso dar um passo para o reconhecimento de que o país é
                plurinacional, formado por diferentes etnias e nações, que deveriam ser incluídas,
                respeitando suas formas de organização comunitária e terem garantidos a igualdade de
                direitos políticos e culturais. Para Catharine Walsh (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B19">Walsh, 2008, p. 142</xref> tradução nossa), a plurinacionalidade e a
                interculturalidade são complementares, pois</p>
            <p>
				<disp-quote>
                <p>[...] a interculturalidade aponta as relações e articulações a serem construídas
                    e por isso é uma ferramenta e um projeto necessário na transformação do Estado e
                    da sociedade. Mas para que esta transformação seja verdadeiramente
                    transcendental, é necessário romper com o quadro uninacional, enfatizando a
                    plurinacionalidade não como uma divisão, mas como uma estrutura mais apropriada
                    para unificar e integrar.</p>
            </disp-quote>
			</p>
            <p>As atitudes decoloniais, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B11"
                    >Maldonado-Torres (2007)</xref>, estão pautadas em projetos de resistência
                questionadores que objetivam superar os modelos eurocêntricos coloniais do ser, do
                saber, e do poder. Em uma explicação similar, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Walsh
                    (2009a)</xref> ressalta que a decolonialidade é uma ferramenta que desvela os
                mecanismos de poder e uma estratégia para tentar construir relações de vida de modo
                distinto do que nos foi imposto pela colonialidade.</p>
            <p>A Bolívia iniciou um processo histórico de mudança estrutural na dinâmica social e
                política do país, na qual o próprio Estado assumiu uma posição anti-imperialista
                trazendo um caráter disruptor em relação às influências da economia globalizada. Em
                2006, tomou posse o primeiro presidente de origem indígena, Evo Morales, e
                estabeleceu-se uma série de propostas para a reestruturação do país, envolvendo um
                processo de mudança e transformação social, econômica, cultural, tecnológica e
                política, na tentativa de resgatar um sistema sociocomunitário. Os primeiros anos de
                governo de Evo Morales foram cruciais para a consolidação de uma nova situação
                política, centrada na defesa dos recursos naturais do país e no respeito ao caráter
                multiétnico e multicultural do povo boliviano, para tal medida instituiu-se uma
                série de medidas de reformas legislativas.</p>
            <p>Após a reformulação da constituição boliviana houve a promulgação em 2010 de uma nova
                legislação educacional, a Lei Educativa número 70 'Avelino Siñani – Elizardo Pérez'
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Bolivia, 2010</xref>), com proposta de erradicar
                várias desigualdades que violavam o direito à educação, especialmente da população
                nativa.</p>
            <p>Avelino Siñani e Elizardo Pérez fundaram em 1931, no departamento de La Paz, a
                    <italic>Escuela Ayllu de Warisata</italic>, cuja organização e abordagem
                pedagógica representou uma inovadora e rica experiência, baseada nas vivências,
                valores e princípios do Povo Aymara, com o objetivo de integrar as concepções e os
                saberes das populações indígenas, na construção de um novo desenvolvimento
                pedagógico. A escola funcionou até 1940, pois a educação desenvolvida por este
                modelo representou um perigo para os grandes latifundiários de terras, que sentiram
                seus interesses ameaçados, e uma série de atos conseguiu destruí-la. O modelo
                pedagógico elaborado pelos dois educadores serviu de base para se pensar as reformas
                educativas e a nova legislação educacional boliviana.</p>
            <p>O capítulo dois da supramencionada Lei destaca que a educação deve se dar em
                sociedade, por meio da participação plena da população boliviana no sistema
                educativo plurinacional, respeitando suas diversas expressões sociais e culturais
                nas suas diferentes formas de organização. Também, destaca como sua primeira base,
                que a educação deve possuir um caráter descolonizador, libertador, revolucionário,
                anti-imperialista, para despatriarcar e transformar as estruturas econômicas e
                sociais visando a reafirmação cultural de nações e dos povos indígenas originários e
                afrobolivianas na construção do Estado Nacional e do <italic>Vivir Bien</italic>
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Bolivia, 2010</xref>).</p>
            <p>A construção dessa nova legislação, como consequência, também impactou sobremaneira a
                construção de novos currículos.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>A construção de um novo paradigma educacional</title>
            <p>Todo processo histórico de mudança também propõe seu próprio caminho para a
                construção de um novo paradigma de educação, entendendo-a como um instrumento
                descolonizador e libertador. E, nesse novo contexto, houve a necessidade da
                reformulação dos currículos, que deveriam traduzir em seu escopo os princípios
                destacados na legislação: um modelo educacional sociocomunitário produtivo que
                recupera a memória e as vivências históricas dos povos indígenas e originários.</p>
            <p>O resgate da memória e vivências dos povos originários incorpora um aspecto proposto
                por <xref ref-type="bibr" rid="B12">Mignolo (2008, p. 249)</xref> em que “[...] a
                descolonização da história narrada e do pensamento historiográfico é parte da tarefa
                do pensamento descolonial para avançar na opção descolonial.” O currículo propõe uma
                educação descolonizadora que incorpora os valores e conhecimento dos povos e nações
                indígenas originários de forma igualitária, para revalorizar, recuperar e
                desenvolver o seu potencial e também contribuir como elementos contra-hegemônicos e
                alternativas ao capitalismo.</p>
            <p>Outro destaque, refere-se a intraculturalidade, interculturalidade e o plurilinguismo
                em todo sistema educativo.</p>
            <p>O documento define a interculturalidade como uma forma democrática de relação entre
                culturas, como instrumento de coesão e convivência harmoniosa e equilibrada entre
                todos os povos e nações que habitam o território nacional. O desenvolvimento da
                inter-relação e interação, em igualdade de condições, dos saberes, do conhecimento,
                da ciência e da tecnologia produzidos por cada das culturas, fortaleceria a auto
                identidade entre todas as culturas bolivianas. A intraculturalidade, por sua vez,
                tem como objetivo fortalecer a identidade e a reafirmação dos elementos culturais
                presentes em um povo ou nação indígena, valorizando sua filosofia, visão de mundo e
                saberes. E, por fim, o plurilinguismo que considera o espanhol e todas as demais
                línguas das nações e povos indígenas como instrumentos de comunicação. Portanto, a
                organização curricular prevê a aprendizagem do espanhol e a língua materna de acordo
                com a nação.</p>
            <p>Na análise da legislação curricular observamos que essa nova proposta educacional
                traz como fundamento filosófico o <italic>Vivir Bien</italic>, definido nas
                experiências dos povos originários, como estar bem e viver em harmonia com a Mãe
                Terra (Pachamama), com os animais e as plantas para estar em equilíbrio biosférico.
                De acordo com o pesquisador aymara e político boliviano Fernando Huanacuni Mamani,
                para os povos originários, a vida não se mede em função da economia. A própria
                essência da vida, o <italic>viver bem</italic>, no modelo proposto, “[...] está em
                desacordo com o luxo, a opulência e o desperdício, com o consumismo, com não
                trabalhar, mentir, roubar, subjugar e explorar os outros, agredir a natureza[...]”
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Huanacuni Mamani, 2010</xref>).</p>
            <p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B16">Walsh (2012, p. 72</xref>, tradução nossa): “O
                    <italic>vivir bien</italic> abre as possibilidades de conceber e gerir a vida de
                uma ‘outra’ forma, uma forma concebida a partir da diferença ancestral e seus
                princípios, mas pensada para o conjunto da sociedade.”</p>
            <p>Como fundamento sociológico, o currículo base destaca a condição plural da realidade
                da população boliviana, já que o país é composto por várias nações indígenas, que,
                ao longo dos séculos, o colonialismo tentou invisibilizar essa diversidade por meio
                de uma proposta educacional homogênea que desconsiderou a cultura e o plurilingismo
                dessas populações.</p>
            <p>Quanto à organização do Sistema Educativo Plurinacional, temos: o Subsistema de
                Educação Regular, o Subsistema de Educacão Alternativa e Especial e o Subsistema de
                Educação Superior de Formação Profissional.</p>
            <p>A educação infantil boliviana insere-se no Subsistema de Educação Regular, é
                denominada de Educação Inicial em Família Comunitária, subdivide-se em não
                escolarizada para crianças de zero a três anos e escolarizada para os maiores,
                crianças de quatro a cinco anos.</p>
            <p>A <italic>Educação Inicial em Família Comunitária não escolarizada</italic> é
                partilhada entre a família, a comunidade e o Estado; objetiva recuperar, fortalecer
                e promover a identidade cultural de crianças de zero a três anos, apoiando à família
                na promoção da saúde e alimentação, bem como favorecer o desenvolvimento integral
                promovendo espaços de socialização, transmissão cultural e formação na família, na
                comunidade e nas instituições.</p>
            <p>Já a <italic>Educação Inicial em Família Comunitária escolarizada</italic>, destinada
                às crianças de quatro a cinco anos, amplia aos processos educativos iniciados na
                fase anterior, fortalecendo o desenvolvimento de quatro dimensões curriculares: Ser,
                Saber, Fazer e Decidir, a partir dos campos dos saberes, articulando as atividades
                da escola com as atividades da vida familiar e comunitária, em interlocução com a
                visão de mundo das diferentes culturas.</p>
            <p>O <italic>Programa de Estudio Educación Inicial en Familia Comunitaria
                    Escolarizada</italic> é descrito pela legislação como um instrumento
                descolonizador e libertador, por articular a cultura local com participação da
                sociedade na tomada de decisões em políticas educativas, responsabilizando-se por
                seu desenvolvimento como resposta às suas lutas e expectativas por um Estado
                plurinacional (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bolivia, 2014</xref>). A
                intencionalidade é que a perspectiva da descolonização esteja presente nas práticas
                educativas desde os primeiros anos de escolaridade, pois isso permitiria a formação
                integral das crianças dentro de sua cultura, em sua comunidade e em sua família,
                fortalecendo os valores e sua identidade cultural. E, sendo a identidade
                compreendida a partir das múltiplas manifestações, construções e reconstruções
                históricas, há a necessidade urgente de se estabelecer uma educação intercultural,
                na perspectiva de reconhecer e fortalecer as diferentes identidades, pessoal e
                social, construindo processos de cooperação, de respeito e de solidariedade.</p>
            <p>Vale destacar que as transformações bolivianas foram o resultado da luta de
                movimentos sociais, oriundas dos movimentos de educação popular, protagonizados –
                especialmente – pelos povos e nações indígenas que já vinham reivindicando uma
                educação a partir de outras premissas. Nesse contexto, temos a elaboração do novo
                currículo que iniciou-se em 2006, antes mesmo da publicação da atual legislação.</p>
            <p>Esse processo envolveu a participação de professores dos setores urbano e rural,
                profissionais e acadêmicos de diversas especialidades e sábios indígenas de
                diferentes povos e nações do Estado Plurinacional. Em 2008, esses documentos
                curriculares foram apresentados no <italic>Primeiro Encontro Pedagógico do Sistema
                    Educação Plurinacional</italic>, com a participação de representantes de
                diferentes organizações, instituições dos povos e nações indígenas e camponesas.</p>
            <p>Na sequência, em 2009, foram realizadas Reuniões Pedagógicas para a revisão desses
                programas de estudos. Tais reuniões envolveram professores especialistas, familiares
                e outras organizações e instituições ligadas à educação. Nos três anos subsequentes
                trabalhou-se na revisão e adequação desses documentos com a participação de
                professores por níveis e especialidades em conjunto com a equipe técnica do
                Ministério da Educação. Finalmente, em 2014, o documento foi lançado e publicado com
                o objetivo de servir como referência para o professor no seu trabalho pedagógico e
                que a partir desse currículo-base cada povo ou nação boliviana construa também seus
                currículos; ou sejam realizem uma harmonização entre o currículo base e o currículo
                regionalizado.</p>
            <p>Nesse texto, inicialmente apresentaremos o currículo base, revisado em 2021 e, na
                sequência discutiremos aspectos que consideramos essenciais para compreensão de
                quais elementos da interculturalidade estão presentes em suas orientações para o
                campo da linguagem matemática na Educação Infantil e quais possibilidades
                decoloniais podem ser desenvolvidas por meio dele.</p>
            <p>A composição curricular está organizada em quatro Campos de Saberes: <italic>Cosmos e
                    Pensamento, Comunidade e Sociedade, Vida, Terra e Território</italic>, e
                    <italic>Ciência, Tecnologia e Produção</italic>.</p>
            <p>O campo <italic>Cosmos e Pensamento</italic> aborda a espiritualidade, os valores, a
                afetividade, as práticas sociais, bem como as formas de perceber o mundo, a vida e a
                natureza com base nas diretrizes socioculturais de cuidado, atenção e educação
                estabelecidas na família e comunidade, fortalecendo assim sua identidade social e
                cultural. O <italic>Cosmos</italic> é a visão e interpretação de mundo que os povos
                indígenas estruturaram durante séculos, com base em uma ligação entre todos os
                sistemas de vida que compõem o planeta.</p>
            <p>O campo <italic>Comunidade e Sociedade</italic> destaca como ação a valorização e
                reconhecimento dos saberes, sentimentos e emoções, valores e as diferentes práticas
                e formas de comunicação, de cada criança e a compreensão da realidade em sua
                primeira língua e iniciação da segunda língua numa primeira fase, para depois
                iniciar uma língua estrangeira de acordo com as necessidades local e regional. Todo
                esse processo, a partir das orientações socioculturais das famílias e da comunidade,
                de acordo com a vivência, cuidado e desenvolvimento pessoal, que contribua para o
                fortalecimento de sua identidade.</p>
            <p>O campo <italic>Vida, Terra e Território</italic> tem como meta a promoção da vida, a
                terra, o território, o respeito, a defesa, a proteção e o cuidado com a natureza,
                numa relação e interdependência harmoniosa e complementar entre sistemas de vida,
                desde o espaço familiar e comunitário onde as crianças vivem e se relacionam. Nesse
                processo de inter-relação, situações são apresentadas a ele para observar, explorar,
                experimentar, analisar, refletir, e fazer perguntas com diversas possibilidades de
                respostas, oportunizando a importância de viver em espaços saudáveis.</p>
            <p>E, por fim, o campo <italic>Ciência, Tecnologia e Produção</italic> objetiva
                desenvolver o conhecimento matemático aplicado à vida, a partir de diversas
                situações da vida cotidianas, dando vazão para um pensamento criativo de natureza
                produtiva e problematizadora, complementada por práticas e experimentações na
                família, escola, comunidade e ambiente produtivo, bem como a aproximação e
                familiarização com o uso da tecnologia como meio de aprendizagem para o
                desenvolvimento de habilidades criativas.</p>
            <p>O programa de estudo está organizado em duas etapas: o primeiro ano, para crianças na
                faixa etária de quatro anos e o segundo ano para as crianças na faixa etária de
                cinco anos; há objetivos diferentes, porém complementares, para cada uma delas.</p>
            <p>No primeiro ano, o objetivo é contribuir para o desenvolvimento de valores
                sociocomunitários e hábitos de vida saudáveis nas esferas física, emocional e
                espiritual, desenvolvendo capacidades, qualidades e potencialidades, por meio de
                atividades ligadas e articuladas ao cotidiano da família e da comunidade para
                favorecer o desenvolvimento de sua identidade cultural e linguística no contexto em
                que vivem.</p>
            <p>Já o objetivo delineado para as crianças do segundo ano é a promoção dos princípios,
                valores e atitudes intraculturais e interculturais, realizando diversas atividades
                de observação, argumentação, experimentação, pesquisa, expressão criativa e lúdica
                em relação ao cotidiano, que contribuam para o desenvolvimento de habilidades,
                qualidades e potencialidades de forma integral e holística.</p>
            <p>Para cada um dos anos são desenvolvidas três temáticas, com a função de articular os
                conteúdos com quatro dimensões humanas: ser, saber, fazer e decidir. Cada uma dessas
                dimensões cumpre um propósito para o processo de descolonização. A dimensão do ser
                promove o desenvolvimento e fortalecimento de atitudes, sentimentos, valores e
                identidade. A dimensão do saber visa o fortalecimento de conhecimentos anteriores e
                o desenvolvimento de novos conhecimentos com base nas atividades diárias e na
                interação dialógica com as pessoas, a Mãe Terra e o Cosmos. Enquanto que, a dimensão
                do fazer promove as habilidades por meio de diversos objetos e jogos. E, por fim, a
                dimensão decidir é desenvolvida de forma gradual nas primeiras manifestações de
                decisão das crianças (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bolivia, 2021</xref>).</p>
            <p>O documento curricular em seus discursos enfatizam a necessidade de resgatar a
                identidade e o pensamento dos povos indígenas, expressando dessa maneira, um
                pensamento descolonizador, que pensa a partir das margens, descolonizando a história
                narrada (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Mignolo, 2008</xref>).</p>
            <p>No entanto, nota-se no discurso do documento, a ausência de uma definição explícita
                sobre o conceito de infância e criança, porém, ao longo de sua estruturação, nos foi
                possível extrair uma breve caracterização desse entendimento.</p>
            <p>
				<disp-quote>
                <p>A partir del nacimiento las niñas y los niños desarrollan experiencias de
                    aprendizaje que parten de la realidad y práctica de la vida cotidiana de las
                    familias y las comunidades, desarrollando integralmente la afectividad y
                    espiritualidad, la identidad cultural, la salud y nutrición, y el desarrollo
                    psicomotriz y cognitivo como componentes de los procesos formativos en los
                    primeros años de vida (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bolivia, 2014, p.
                        14</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></p>
            </disp-quote>
			</p>
            <p>Esse discurso reconhece que as crianças, desde o nascimento, aprendem e se
                desenvolvem por meio de experiências vivenciadas na família e na comunidade, mas,
                não deixa claro sobre como ela é vista, reconhecida e considerada no processo de
                elaboração e desenvolvimento curricular.</p>
            <p>Mesmo notando essa ausência no discurso curricular, todavia, devemos levar em
                consideração que cada sociedade detém uma visão de infância e criança de acordo com
                seu contexto social, político e histórico que, segundo <xref ref-type="bibr"
                    rid="B7">Kuhlmann Jr. (1998, p. 16)</xref>, a infância “[...] tem um significado
                genérico e, como qualquer outra fase da vida, esse significado é em função das
                transformações sociais: toda sociedade tem seus sistemas de classes de idade e a
                cada uma delas é associado um sistema de status e papel.”</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>A matemática no currículo da educação infantil boliviana</title>
            <p>Ao adentrar em uma instituição de Educação Infantil, as crianças trazem consigo
                vários saberes de diversos campos, em virtude da sua história de vida, das suas
                vivências no plano físico, intelectual e sócio afetivo. Para <xref ref-type="bibr"
                    rid="B10">Lorenzato (2006, p. 25)</xref>, “[...] as crianças convivem com
                formas, grandezas, quantidades, tabelas, gráficos, representações, símbolos,
                regularidades, regras, etc.” Antes de ingressarem na educação formal, as crianças já
                estabelecem relações com esses conceitos no âmbito familiar e na comunidade e esse
                aspecto deve ser considerado no desenvolvimento do trabalho pedagógico.</p>
            <p>Observamos que as orientações presentes no documento curricular demonstram esse
                cuidado, ao afirmar que as propostas devem se dar em situações sociais e culturais
                por meio das temáticas orientadoras.</p>
            <p>O currículo base do primeiro e segundo ano destacam seis temáticas que expressam os
                valores culturais da família e comunidade, a comunicação intracultural e
                intercultural, as atividades produtivas da família e da comunidade, a identidade
                cultural da família perante a diversidade sociocultural, as relações da família com
                as práticas produtivas e as relações harmônicas com a natureza, em cada um dos
                campos de conhecimento.</p>
            <p>No campo <italic>Ciência, Tecnologia e Produção</italic>, as temáticas orientadoras
                procuram articular os saberes da família e da comunidade com os conceitos
                matemáticos formais: estimativa e comparação de medidas de comprimento, peso,
                volume, textura e sua aplicação em atividades da família, escola e comunidade;
                formas geométricas no ambiente familiar e comunidade; noções de tempo na comunidade
                e na escola; noções de quantidade associada às atividades produtivas; figuras
                geométricas relacionadas a atividades produtivas; estimativa e comparação de medidas
                de temperatura, noção de tempo e sua aplicação em atividades família, escola e
                comunidade; números ordinais e cardinais e seu uso em atividades cotidianas; sistema
                monetário e sua aplicação nas atividades produtivas na família e comunidade; noção
                de quantidade e sua utilização nas atividades diárias.</p>
            <p>Ao analisarmos a disposição dos conteúdos matemáticos e as orientações para o
                desenvolvimento das atividades, observamos que há uma ênfase com as ações
                desenvolvidas na família e na comunidade.</p>
            <p>O documento defende que o processo educativo sócio-comunitário, se executa com base
                na participação democrática e consenso, em que a comunidade se compromete com a
                gestão educacional para atingir objetivos comuns, com base nos saberes e
                conhecimentos, visando transformação social e fortalecimento de convivência
                harmoniosa com a mãe terra e o cosmos (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bolivia,
                    2021</xref>).</p>
            <p>A organização proposta por meio de campos de conhecimento tenta romper com a
                fragmentação dos conteúdos, por permitir a articulação entre eles, dentro de uma
                visão integral e holística do conhecimento, exigindo um currículo que seja
                integrado, pois a criança apreende o mundo de forma holística, não atribuindo
                significado ao conhecimento isolado (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Lopes,
                    2003</xref>).</p>
            <p>Entendemos que a articulação das aprendizagens em campos de conhecimentos, pode
                contribuir para potencializar uma visão integral do conhecimento, destacando a
                criança no centro do propósito educativo, dentro do seu contexto de vida na família
                e na comunidade, portanto, o desafio é desenvolver uma educação que articule os
                campos de conhecimento, ligando-os à realidade, integrando as atividades cotidianas
                como a brincadeira, o jogo e o movimento, na família e comunidade, de forma
                inter-relacionada e complementar, desta maneira lançando as bases para uma educação
                sociocomunitária produtiva.</p>
            <p>As estratégias metodológicas citadas no documento elencam que é preciso propor
                atividades que permitam experimentar, descrever, comentar, conversar, ouvir,
                perguntar e dar a sua opinião. Bem como fomentar o questionamento, a problematização
                e a argumentação permitem às crianças encontrarem variadas soluções para as
                situações-problemas. Além de pesquisar, escolher soluções, levantar dúvidas, ter
                divergências, realizar debates e discussões sobre temas de interesse pactuado pelo
                grupo ou proposto pelo professor (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bolivia,
                    2021</xref>).</p>
            <p>As crianças carregam um vasto conhecimento adquirido por meio de suas vivências na
                família e na comunidade que pertencem, portanto estão em contato com a matemática a
                todo momento. Vemos essa preocupação expressa no currículo base, pois a descrição do
                próprio campo destaca que a matemática deve ser vivenciada a partir de diversas
                situações da vida cotidianas, tais como: visitas a mercados, feiras, lojas de
                bairro, transporte público, passeios, pontos de alimentação e produção e outros, nas
                quais são realizadas operações de cálculo e estimativas de quantidades,
                espacialidade, lateralidade, peso, tamanho, comprimento, distância, ordem, medida e
                tempo, dentro de um contexto significativo pautado em suas vivências em família e na
                comunidade (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bolivia, 2021</xref>).</p>
            <p>O documento reforça que o conceito de número se constrói em situações sociais e
                culturais, por meio de troca entre as crianças e adultos. Essa visão corrobora com o
                pensamento de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Lopes e Grando (2012)</xref>, ao
                afirmarem que a criança percebe o número por meio das relações de significado que
                ele assume em diversas situações, assim, a criança adquire a percepção numérica
                articulada com a leitura da realidade.</p>
            <p>O discurso expresso no documento reforça que os conceitos matemáticos são construídos
                em relação direta da criança com a família e a comunidade por meio de brincadeiras,
                atividades cotidianas, de modo que ela participe ativamente, construindo sua
                interpretação do mundo.</p>
            <p>
				<disp-quote>
                <p>Las niñas y los niños desarrollan a partir de sus experiencias cotidianas
                    conceptos matemáticos por ejemplo mucho - poco, cantidades más – menos; por
                    tanto, el desarrollo del pensamiento lógico matemático depende de las
                    oportunidades que se le brinde. Estos conceptos no se encuentran aislados ya que
                    están en relación con la aplicación en la vida misma [...] (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B3">Bolivia, 2021, p. 16</xref>)<xref ref-type="fn"
                        rid="fn3">3</xref></p>
            </disp-quote>
			</p>
            <p>Nessa mesma perspectiva, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Lorenzato (2006)</xref>
                esclarece que essas habilidades integram-se e relacionam-se continuamente, assim um
                conceito apoia o outro na sua construção.</p>
            <p>Seja qual for a noção e o campo matemático (espaço, número, medida) que estiver sendo
                trabalhado, haverá sempre uma relação direta com um dos conceitos físicos
                matemáticos de tamanho, lugar, distância, forma, quantidade, número, capacidade,
                tempo, posição, medição, operação, direção, volume, comprimento e massa (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B10">Lorenzato, 2006</xref>).</p>
            <p>A <italic>Educação Inicial em Família Comunitária</italic> seria a base fundante para
                a construção do projeto de vida das crianças, na família e na comunidade,
                contribuindo para o desenvolvimento dos valores, da identidade cultural, além das
                capacidades físicas e cognitivas de todas as crianças, pois é nesse âmbito que são
                desenvolvidas suas primeiras interações na vida comunitária. Ao se trazer o
                reconhecimento dos saberes, das práticas, das línguas, das visões de mundo das
                nações e povos indígenas para o desenvolvimento das propostas curriculares
                contribui-se para a afirmação e o fortalecimento da interculturalidade.</p>
            <p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B6">Huanacuni Mamani (2010)</xref>, nas nações
                indígenas do norte ao sul do continente, a organização e os saberes emergem de um
                mesmo modelo comunitário, em que a vida é concebida não somente como uma relação
                social, mas como uma profunda relação de vida comunitária. E, as famílias estão
                inseridas em uma comunidade organizadas no território por diversas formas, que
                constituem a rede cultural e social das pessoas, configurando a esfera histórica,
                social e ideológica. Dessa maneira, entendemos que ao se enfatizar a presença dos
                conhecimentos comunitários por meio da família e da comunidade em uma perspectiva
                intercultural, desde a educação inicial, permitiria a transformação das
                mentalidades, garantindo que as crianças cresçam em sua cultura, na comunidade e
                família por meio de uma educação integral e decolonial.</p>
            <p>A educação intercultural promoveria a troca de conhecimentos, práticas, línguas,
                visões de mundo, valores, ciência e tecnologia dos povos que compõem um Estado, em
                harmonia, reciprocidade, complementaridade e diálogo entre diferentes visões do
                mundo. Dessa maneira o documento assume um conceito de interculturalidade crítica
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Walsh, 2012</xref>), defendida pela autora como
                ação, projeto e processo para intervir nas estruturas da sociedade para se romper
                com as relações de poder e o padrão de racialização vigente.</p>
            <p>As crianças iniciam seus processos formativos nos primeiros anos de vida, na família
                e na comunidade, nesta etapa da vida são fortalecidos os valores, sua identidade
                pessoal e cultural e os valores da vida comunitária nas experiências de vida dos
                povos originários. Desde a mais tenra idade, as crianças bolivianas têm a
                possibilidade de serem orientadas pela busca e integração com a Mãe Terra, o cosmo e
                a espiritualidade para o viver bem.</p>
            <p>Os documentos analisados dão destaque a valorização das culturas e saberes dos povos
                originários, por meio da vida cotidiana, das tarefas e brincadeiras comunitárias, na
                interação entre as próprias crianças e entre elas e os adultos, potencializando seu
                desenvolvimento integral de maneira decolonial.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>Considerações finais</title>
            <p>Propor políticas e práticas educativas que desafiem o estatuto da colonialidade é um
                grande desafio e, se torna urgente discutir e realizar uma educação para as crianças
                que traga possibilidades para se romper com a colonialidade em suas diferentes
                formas de manifestações.</p>
            <p>O currículo da educação infantil boliviana nos permitiu observar que seus princípios
                e sua organização podem destacar formas de se romper com o pensamento colonial.</p>
            <p>Os campos de saberes e conhecimento do <italic>Programa de Estudio Educación Inicial
                    en Familia Comunitaria Escolarizada</italic> destacam a necessidade de
                interculturalidade como um fazer essencial ao trabalho do professor dessa etapa da
                educação, articulando os saberes e a cultura da família e da comunidade.</p>
            <p>A educação matemática proposta visa recuperar, fortalecer e valorizar os saberes
                matemáticos dos povos bolivianos, que são parte intrínseca da vivência diária no seu
                entorno natural, desde a mais tenra idade.</p>
            <p>Assim, ao se destacar dentro das temáticas orientadoras aspectos da
                intraculturalidade e da interculturalidade, criam-se possibilidades na qual os
                saberes da família e da comunidade são reconhecidas, possibilitando um diálogo entre
                culturas, garantindo a visibilidade e intercâmbio de outras lógicas epistêmicas,
                contribuindo para a construção de um pensamento descolonial. Se tornando, dessa
                forma, uma ferramenta para agir, uma ação deliberada, constante, contínua,
                articulada com a descolonização (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Walsh,
                2012</xref>).</p>
            <p>A partir deste trabalho, concluímos que há ainda a necessidade de investigarmos os
                currículos regionalizados para entendermos que outros aspectos são destacados para
                se garantir uma educação descolonizadora.</p>
            <p>Todavia, a organização curricular para a educação infantil boliviana apresenta a
                possibilidade de romper com o pensamento colonial quando questionamos e resistimos
                aos dispositivos do modelo canônico e científico europeu, pretendemos desconstruir
                valores hegemônicos, marcados pela herança patriarcal, eurocêntrica e racista que
                submetem as crianças desde a mais tenra idade a um conjunto de sistemas que oprimem
                as diferenças étnico-raciais, sexuais e de gênero (<xref ref-type="bibr" rid="B4"
                    >Faria <italic>et al</italic>., 2015</xref>).</p>
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            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>Para os autores pós-coloniais, os termos Decolonizar e Descolonizar são
                    considerados sinônimos.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>Tradução nossa: "Desde o nascimento, meninas e meninos desenvolvem experiências
                    de aprendizagem que se baseiam na realidade e na prática cotidiana das famílias
                    e comunidades, desenvolvendo de forma integral a afetividade, a espiritualidade,
                    a identidade cultural, a saúde e a nutrição, o desenvolvimento psicomotor e
                    cognitivo como componentes do processo formativo nos primeiros anos de
                    vida.".</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>Tradução nossa: "As crianças desenvolvem os conceitos matemáticos a partir de
                    suas experiências cotidianas, como: muito, pouco, mais, menos, portanto o
                    desenvolvimento do pensamento lógico matemático depende das oportunidades
                    oferecidas a elas. Mas, esses conceitos não estão isolados de forma abstrata
                    porque são aplicados na vida"..</p>
            </fn>
        </fn-group>
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