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                <journal-title>Ciência &amp; Educação (Bauru)</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Ciênc. educ.
                    (Bauru)</abbrev-journal-title>
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            <issn pub-type="ppub">1516-7313</issn>
            <issn pub-type="epub">1980-850X</issn>
            <publisher>
                <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Universidade
                    Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências, campus de
                    Bauru.</publisher-name>
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        <article-meta>
            <article-id pub-id-type="publisher-id">00038</article-id>
            <article-id pub-id-type="doi">10.1590/1516-731320240038</article-id>
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                <subj-group subj-group-type="heading">
                    <subject>ARTIGO ORIGINAL</subject>
                </subj-group>
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            <title-group>
                <article-title>Perspectivas teórico-metodológicas para o estudo do racismo e do
                    antirracismo na Educação Científica: fundamentos materialistas, históricos e
                    dialéticos</article-title>
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                    <trans-title>Theoretical-methodological perspectives for the study of racism and
                        anti-racism in science education: materialist, historical, and dialectical
                        foundations</trans-title>
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            </title-group>
            <contrib-group>
                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-8151-5334</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Santos</surname>
                        <given-names>Paulo Gabriel Franco dos</given-names>
                    </name>
                    <xref ref-type="aff" rid="aff1">1</xref>
                    <xref ref-type="corresp" rid="c1"/>
                </contrib>
            </contrib-group>
            <aff id="aff1">
                <label>1</label>
                <institution content-type="normalized">Universidade de Brasília (UnB)</institution>
                <institution content-type="orgname">Universidade de Brasília (UnB)</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Faculdade UnB Planaltina</institution>
                <addr-line>
                    <named-content content-type="city">Brasília</named-content>
                    <named-content content-type="state">DF</named-content>
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                <country country="BR">Brasil</country>
                <institution content-type="original">Universidade de Brasília (UnB), Faculdade UnB
                    Planaltina, Área de Educação e Linguagens, Brasília, DF, Brasil.</institution>
                    <email>paulosantos@unb.br</email>
            </aff>
            <author-notes>
                <corresp id="c1">Autor correspondente: <email>paulosantos@unb.br</email></corresp>
            </author-notes>
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                <year>2024</year>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
                        reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
                        seja corretamente citado.</license-p>
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            <abstract>
                <title>Resumo</title>
                <p>Considerando a atualidade e a pertinência do debate racial no campo da educação
                    científica, pretende-se, com este artigo, apresentar um corpo teórico para
                    compreensão e análise das problemáticas relacionadas sob a perspectiva do
                    materialismo histórico e dialético. Parte-se da constatação da
                    sub-representação, baixa participação e alienação das pessoas negras nos
                    contextos produtivos das ciências naturais, resultante da conformação histórica
                    do processo produtivo e ideológico da sociedade atual, cujas determinações são
                    analisadas a partir da unidade teórica colonialismo-capitalismo-racismo. Nesse
                    sentido, apresenta-se a dimensão da problemática sob a referida perspectiva
                    teórica e se propõe a relação Trabalho-Educação-Ciência (TEC) como unidade
                    analítica contribuindo para a explicação das problemáticas raciais atuais e
                    lançando luz sobre a função política da educação científica para sua
                    superação.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>Abstract</title>
                <p>Given the topicality and pertinence of the race debate in science education, this
                    article presents a theoretical framework for understanding and analyzing related
                    issues from the perspective of historical and dialectical materialism. It is
                    based on the observation that the underrepresentation, low participation, and
                    alienation of black people in the productive contexts of the sciences are the
                    result of the historical conformation of the productive and ideological
                    processes of contemporary society, whose determinations are analyzed from the
                    theoretical unity of colonialism-capitalism-racism. In this sense, the dimension
                    of the problem is presented from this theoretical perspective, and the
                    Work-Education-Science (WES) relationship is proposed as an analytical unit that
                    contributes to the explanation of current racial issues and sheds light on the
                    political function of science education to overcome them.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>Educação científica</kwd>
                <kwd>Colonialismo</kwd>
                <kwd>Racismo</kwd>
                <kwd>Educação para as relações étnico-raciais</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>Science education</kwd>
                <kwd>Colonialism</kwd>
                <kwd>Racism</kwd>
                <kwd>Education for ethnic-racial relations</kwd>
            </kwd-group>
        <counts>
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    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>Introdução, contextualização e problematização do objeto</title>
            <p>Um dado de realidade simples, corriqueiro e aparente, apreendido mesmo por percepções
                menos aguçadas, é que há uma minoria de pessoas negras como investigadoras,
                especialistas, cientistas e laureadas por seus célebres trabalhos nas ciências
                naturais. Não é por acaso que diversas pesquisas (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
                    >Alves-Brito; Alho, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B36">Pinheiro,
                    2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B38">Verrangia, 2014</xref>) sobre
                educação científica antirracista têm insistido na questão da representatividade,
                reivindicando que, nas aulas de ciências, sejam incluídas produções de cientistas
                negros, bem como seja atribuída a devida consideração às produções científicas de
                outros povos que não sejam aqueles historicamente dominantes. A promoção da Educação
                para as Relações Étnico-Raciais (ERER), nesses casos, usualmente repousa sobre o
                legítimo argumento da formação de uma cidadania racialmente referenciada, do
                fortalecimento da democracia no sentido de reconhecimento e valorização pedagógica
                da diversidade e dos saberes não brancos (ou não eurocêntricos).</p>
            <p>Para oferecermos um aspecto da situação concreta em que nos encontramos, no ano de
                2023, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) lançou
                o resultado de um levantamento que evidencia a distribuição do financiamento no
                Brasil em Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI), conforme diversas categorias, entre
                elas, região do país, raça e gênero. O resultado aponta que, no período de 2012 a
                2021, segunda década da Lei n.º 10.639/03 (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Brasil,
                    2003</xref>) e início da Lei n.º 12.711/12 (<xref ref-type="bibr" rid="B4"
                    >Brasil, 2012</xref>), que institui cotas para ingresso na educação em nível
                federal, há uma drástica diferença entre a razão de investimentos em ciência,
                tecnologia e inovação com relação à conformação racial da população do país.</p>
            <p>Os dados da <xref ref-type="fig" rid="f1">figura 1</xref>, somados a outros, como a
                distribuição de bolsas de produtividade em pesquisa (PQ); a distribuição racial dos
                pesquisadores nas áreas de interesses nacional; composição racial da força laboral
                nos laboratórios do país, entre outros, evidenciam a natureza da problemática e nos
                alude à materialidade do problema do racismo no âmbito do fazer científico.</p>
            <p><fig id="f1">
                    <label>Figura 1</label>
                    <caption>
                        <title>Financiamento em CTI no Brasil, conforme categoria racial</title>
                    </caption>
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                    <attrib>A – Investimento total do CNPq (2003-2021), conforme critérios de raça;
                        B – Linha temporal da variação e da proporção de investimentos em CTI,
                        conforme critério racial; C – Diferença entre a razão entre negros (pretos e
                        pardos) e brancos na população brasileira (tracejado preto) e razão entre
                        negros e brancos, no que diz respeito ao investimento pública em CTI (linha
                        tracejada vermelha); D – Sobreposição das informações e visualização
                        temporal da diferença.</attrib>
                    <attrib>Fontes: <xref ref-type="bibr" rid="B25">IBGE (2022b)</xref> e <xref
                            ref-type="bibr" rid="B12">CNPq (2023)</xref>.</attrib>
                </fig></p>
            <p>Para fins de definição e demarcação do nosso quadro teórico e metodológico,
                entendemos que o racismo, problema central a partir do qual o objeto de investigação
                é elaborado, define-se como uma construção ideológica e um conjunto de práticas
                (Gonzalez, 2020) baseadas na perspectiva da dominação material, cultural e subjetiva
                das pessoas negras, garantindo, assim, as justificações e a naturalização da
                violência colonial e a manutenção do modelo produtivo capitalista (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B15">Fanon, 2008</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B16"
                    >2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Moura, 1994</xref>; <xref
                    ref-type="bibr" rid="B34">Oliveira, 2021</xref>). Na tradição brasileira, a raça
                vem sendo apropriada como uma categoria sociológica, ou etnossemântica e
                político-ideológica (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Munanga, 2004</xref>), para
                interpretação das diferenças de distribuição de privilégios, poder e posicionamento
                social, conforme elementos fenotípicos e sua apropriação no âmbito de uma ideologia
                que lhes atribui significados. Assim, não negamos aquilo que já foi estabelecido
                como consenso pela ciência de que não há raças humanas, mas aludimos ao elemento
                fenotípico da cor da pele e demais características da pessoa negra como marcadores
                sociais e definidores de experiência humana em nossa formação sócio-histórica,
                especialmente na modernidade.</p>
            <p><xref ref-type="bibr" rid="B32">Moura (1994)</xref>, no sentido de elaboração de
                categorias para a compreensão do racismo no Brasil e na América Latina, agrega um
                elemento fundamental à construção do nosso argumento: o de que a raça foi
                determinante na organização da reprodução do capitalismo no Novo Mundo<xref
                    ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> . O autor reivindica uma posição crítica e
                radical para tratar do tema racial, defendendo que “[...] é uma posição que ficará
                sempre inconclusa se não a analisarmos como um dos componentes de um aparelho de
                dominação econômica, política e cultural” (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Moura,
                    1994, p. 31</xref>). No mesmo sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B15">Fanon
                    (2008, p. 29</xref>, grifo do autor) nos alerta que</p>
            <p>
				<disp-quote>
                <p>De uma vez por todas, a realidade exige uma compreensão total. No plano objetivo
                    como no plano subjetivo, uma solução deve ser encontrada. E é inútil vir com
                    ares de <italic>mea culpa</italic>, proclamando que o que importa é salvar a
                    alma. Só haverá uma autêntica desalienação na medida em que as coisas, no
                    sentido o mais materialista, tenham tomado os seus devidos lugares.</p>
            </disp-quote>
			</p>
            <p>Certamente, a superexploração, acompanhada de violências diversas, diretas e
                indiretas, físicas e psíquicas, não triunfaria como modo de produção central e
                longeva sem processos de convencimento do natural merecimento e inculcação de
                complexos de inferioridade (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Fanon, 2008</xref>).
                Seja por meio de estruturas jurídicas; práticas cotidianas nos campos e nos demais
                locais de trabalho; da cultura citadina e comercial; dos discursos e práticas
                religiosas; pela exclusão educacional ou por discursos considerados científicos
                propalados por certos círculos intelectuais, o senso de inferioridade da pessoa
                negra era alimentado diuturnamente como forma de produção de hegemonia e de consenso
                sobre sua inferioridade. Essa hegemonia era fundamental à manutenção da ordem
                trabalhista, do modelo produtivo, da exploração e, dialeticamente, conformava-se
                pela materialidade da reprodução da vida. Nesse sentido, vale relembrar a célebre
                formulação de <xref ref-type="bibr" rid="B28">Marx (2020, p. 85)</xref>, que ilustra
                a relação dialética entre estrutura e superestrutura quando expressa que “[...] o
                modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e
                intelectual. Não é a consciência dos homens que determina seu ser; ao contrário, é o
                seu ser social que determina sua consciência”.</p>
            <p>As configurações materiais do trabalho, da educação e da ciência atual são herdeiras
                do processo histórico que as conforma e as consolida em nosso contexto particular.
                Se há sub-representação de cientistas negros, especialmente mulheres negras, um
                suposto baixo interesse do povo negro em participar da ciência ou incluí-la como
                possibilidade trabalhista ou se a juventude negra não atua no presente e não aspira
                a um futuro vinculado ao campo científico, é preciso determinar as razões históricas
                para traçarmos substancialmente caminhos para uma educação científica antirracista.
                Assim, o objetivo central deste estudo é <italic>elaborar bases materialistas,
                    históricas e dialéticas para subsidiar abordagens do racismo no âmbito das
                    ciências naturais e do seu ensino. Em segundo plano, almejamos acumular
                    subsídios e lançar luz sobre uma educação científica antirracista e
                    radical</italic>.</p>
            <p>Como fundamento teórico-metodológico, assumimos o materialismo histórico e dialético
                como ciência capaz de nos conduzir à assimilação dos problemas particulares e suas
                relações com dinâmicas universais do funcionamento da sociedade, em um exercício
                perene de apropriação e superação da aparência. Ao tratarmos de uma temática notória
                em nosso tempo histórico, é importante reconhecer que interesses, opiniões e
                disputas encobrem cotidianamente o objeto em razão do atendimento às demandas de
                elaborações apressadas, produzindo aparências convenientes. Nosso esforço aqui é o
                de elaborar sínteses teóricas que nos permitam desenvolver análises posteriores, no
                sentido da radicalização da compreensão do problema racial em nossa sociedade, para
                que nossa práxis docente e investigadora possa, da mesma forma, converter-se em uma
                práxis também radical.</p>
            <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B27">Martins (2006)</xref>, o método da
                investigação parte de elementos das singularidades (ponto de partida) e da
                universalidade (totalidade histórico-cultural), evidenciando as particularidades dos
                fenômenos por meio de sínteses dialéticas. Nessa perspectiva, não há possibilidade
                de compreensão da realidade concreta a partir de uma cisão entre indivíduos e
                totalidade social. Assim, é fundamental recorrermos ao pensamento teórico (abstração
                do pensamento) para apreender os conteúdos dos fenômenos conformados por mediações
                históricas concretas. Superar a aparência no sentido da essência significa desvelar
                as tensões e intervinculações entre a forma do fenômeno e seu conteúdo
                histórico.</p>
            <p>O materialismo histórico e dialético nos instiga a perguntarmos os porquês até
                descermos, camada a camada, aos "verdadeiros infernos"<xref ref-type="fn" rid="fn2"
                    >2</xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Fanon, 2008</xref>) da nossa
                realidade objetiva. O chamado marxismo negro, como corpo teórico decorrente de
                apropriações materialistas, históricas e dialéticas da questão racial e da
                conformação concreta do Novo Mundo, opera metodologicamente como suporte teórico
                básico, sínteses a partir das quais são lidos os dados de realidade; compreendido o
                movimento real e as leis gerais que regem as problemáticas evidenciadas.</p>
            <p>Primeiro, o método nos dá suporte para estabelecer as relações históricas e
                dialéticas entre o racismo como um organizador das forças produtivas e do
                capitalismo na América Latina e seu nível de determinação na organização da ciência
                na medida em que ela compõe a divisão social do trabalho. Segundo, a partir da
                análise do objeto ancorada na unidade teórica colonialismo-capitalismo-racismo, o
                método nos conduz a sínteses concretas que poderão encontrar ecos no espírito
                crítico de professores, pesquisadores e produtores de ciências rumo a uma educação
                científica radicalmente antirracista.</p>
            <p>Assim, as categorias teóricas e os recortes do fenômeno em questão deverão atender
                aos problemas relativos a um eixo central conformado pelas relações entre as
                dimensões concretas Trabalho-Educação-Ciências (TEC). Tendo o trabalho como
                categoria básica, buscaremos articulá-la dialeticamente com a educação e a ciência
                como dimensões conformadas a partir de processos históricos concretos. Desse modo, a
                arquitetura da nossa problemática é concebida a partir das inter-relações TEC.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>Aporte teórico do 'marxismo negro' de tradições latino-americanas e caribenhas: a
                unidade teórica colonialismo-capitalismo-racismo</title>
            <p>Sob a cooptação da agenda do capitalismo neoliberal, os debates sobre a questão
                racial estão cada vez mais impermeáveis ao clamor da classe trabalhadora. Por outro
                lado, ao advogar em favor de uma educação crítica em uma perspectiva materialista,
                não cabe marginalizar o debate racial sob a aligeirada acusação de multiculturalismo
                vão ou identitarismo esvaziado, denotando desconhecimento da produção histórica ou
                um cinismo racista da ciência progressista. Essa querela do debate racial no campo
                marxista (ou da crítica capitalista) tem sido superada a partir da recuperação de
                intelectuais latino-americanos e caribenhos como Eric Williams (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B39">Williams, 1975</xref>); Clovis Moura (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B32">Moura, 1994</xref>); Aimé Césarie (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B10">Césaire, 2020</xref>), Frantz Fanon (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B15">Fanon, 2008</xref>), Lélia González (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B20">González, 2020</xref>), Grupo Novo Mundo (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B2">Best; Polanyi-Levitt, 2008</xref>); entre tantos
                outros, ou pelo próprio esforço de professores e pesquisadores honestamente
                engajados em evidenciar o desenvolvimento do racismo articulado ao desenvolvimento
                das forças produtivas capitalistas, seja em sua etapa histórica colonial,
                imperialista ou neoliberal.</p>
            <p>O termo 'marxismo negro' é uma expressão integradora e generalista que busca englobar
                uma coleção de pensamentos críticos sobre as questões materiais e culturais
                resultantes dos processos coloniais e imperialistas, articulando-os especialmente
                com as formas particulares de reprodução do capitalismo no Novo Mundo e sua
                organização a partir do critério da racialidade. Alicerçados em tradições
                intelectuais latino-americanas e caribenhas, buscamos evidenciar categorias
                importantes à análise da questão racial a partir da tríade central
                    <italic>colonialismo-capitalismo-racismo</italic>.</p>
            <p>Há 80 anos, o historiador trinitário Eric Williams publicava seu célebre
                    <italic>Capitalismo e Escravidão</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B39"
                    >Williams, 1975</xref>), no qual não deixava dúvidas sobre como a escravidão
                negra empreendida durante a colonização contribuiu ao desenvolvimento do capitalismo
                britânico. Não são recentes, portanto, as elaborações teóricas caribenhas e
                latino-americanas, como veremos, sobre a questão racial no âmbito da conformação do
                capitalismo.</p>
            <p>A partir da década de 1950, tivemos significativos acúmulos nas análises sociais e
                econômicas da América Latina que, ao tensionar as teorias clássicas do pensamento
                marxista ao contexto latino-americano, caracterizam as dinâmicas globais e nacionais
                do capitalismo dependente e evidenciam importantes categorias, como
                subdesenvolvimento, superexploração e subimperialismo. A tradição caribenha,
                especialmente conformada a partir do Grupo Novo Mundo, faz confluir sínteses
                produzidas na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL),
                especialmente sobre a relação entre metrópole e periferia, com análises clássicas do
                capitalismo, e inaugura uma tradição de pensamento crítico sobre a economia de
                plantação estabelecida no Caribe no período colonial.</p>
            <p>A historiadora cubana Graciela Chailloux, integrante do Grupo Novo Mundo, ao discutir
                sobre <italic>El trabajo que cruza el mar</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11"
                    >Chailloux, 2015</xref>), estabelece como condição básica à compreensão do
                comportamento do trabalho desenvolvido em solo nacional (cubano) sua articulação com
                o desenvolvimento do capitalismo global. As dinâmicas que implicaram a conversão do
                trabalho em mercadoria (dinâmica interna de produção e mercado capitalista mundial),
                tanto o escravizado quanto a posterior mão de obra barata de imigrantes (brancos e
                asiáticos). Assim, na dinâmica interna do país, a demanda pelo aumento da população
                laboral e o interesse em <italic>melhorar geneticamente</italic> sua composição
                mobilizaram dispositivos jurídicos, modos de organizar o trabalho e teorias
                científicas racistas em favor do projeto econômico e social.</p>
            <p><xref ref-type="bibr" rid="B15">Fanon (2008)</xref>, ao evidenciar que o racismo
                colonial não difere dos outros racismos, reivindica uma compreensão de totalidade
                que permita reconhecer as dimensões do problema a partir dos planos objetivos e
                subjetivos. <xref ref-type="bibr" rid="B34">Oliveira (2021)</xref>, por sua vez,
                reforça que a perda da perspectiva estrutural para analisar o racismo tem provocado
                equívocos e restringido a visão sobre a concretude do problema.</p>
            <p>Na América Latina, as sínteses de Clovis Moura e Lélia Gonzalez, a partir da
                realidade brasileira, em particular, e latino-americana, de forma mais ampla,
                indicam que o racismo tem uma eficácia estrutural especialmente empreendida na
                divisão do trabalho e apropriada pelas sociedades capitalistas multirraciais. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B32">Moura (1994)</xref> assinala que, para garantir a
                perpetuação da dinâmica de produção capitalista, constituiu-se uma poderosa
                superestrutura que servia para legitimar, naturalizar e universalizar o racismo,
                primeiro, a partir da igreja, e, depois, pela ciência. Ambas, no entanto, uníssonas
                em conformar e cristalizar a ideia da superioridade branca (colonizadora).</p>
            <p>O autor ainda conclama que:</p>
            <p>
				<disp-quote>
                <p>Devemos partir de uma posição crítica radical, através da reformulação política,
                    da modificação dos polos de poder, especialmente das áreas do chamado Terceiro
                    Mundo. É uma situação que ficará sempre inconclusa se não a analisarmos como um
                    dos componentes de um aparelho de dominação econômica, política e cultural.
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Moura, 1994, p. 31</xref>).</p>
            </disp-quote>
			</p>
            <p>O processo de colonização, especialmente o empreendido pela península ibérica, trouxe
                como herança a pregressa experiência racial de disputa entre mouros e cristãos, além
                da doutrina da igreja católica que garantia o conjunto de justificativas e a
                legitimação para a escravização e desumanização do negro. Esse arranjo ideológico
                conformado sobre a ideia da superioridade do homem branco, que um pouco mais tarde
                foi assumida e sofisticada pelas ciências naturais, constitui uma superestrutura
                secular e potente em favor do empreendimento sem precedentes de mercantilização e
                tráfico de seres humanos negros africanos.</p>
            <p>No Novo Mundo, salvaguardadas as diferenças das colônias, o trabalho produtivo foi
                organizado de forma estratificada, hierarquizada e superexplorada, utilizando o medo
                pela violência; a inculcação da ideia de inferioridade; o sistema jurídico e
                religioso instrumentalizados a partir da raça. Ainda que a escravização atlântica
                formalmente tenha sido superada no século XIX, a forma de organização do trabalho
                segue em ritmo constante de sofisticação. Dessa forma, o colonialismo foi
                desgraçadamente eficaz em instrumentalizar o racismo em favor do enriquecimento das
                metrópoles e nos subsídios dos seus desenvolvimentos materiais e culturais. Assim,
                ao tratarmos das questões raciais no Brasil ou em qualquer parte do Novo Mundo, não
                há possibilidade de dissociá-lo da concreta unidade
                colonialismo-capitalismo-racismo.</p>
            <p>Logo, as questões raciais ganham relevo nas principais tensões e contradições
                sociais. Afinal, qual lugar o povo negro tem ocupado historicamente na trama do
                desenvolvimento histórico das forças produtivas? Se o capitalismo converte a própria
                força de trabalho em mercadoria, cabe aos trabalhadores a alienação do próprio
                trabalho e a reificação de si. Ao povo negro – como herdeiro e resistente de um
                passado colonial escravagista, ocupando a margem da trama social e trabalhista, sem
                efetiva posse da terra e dos meios de produção – tem lhe cabido a luta pela
                resistência em campo profundamente hostil.</p>
            <p>A ciência, por sua vez, como força produtiva, reproduz o modelo de produção e
                alienação dos trabalhadores, implicando a rejeição (não sumária, mas no decurso
                histórico do processo produtivo) dos temas, dos problemas e da participação do povo
                negro no núcleo da sua produção e decisão. Assim, também parece se comportar como
                qualquer campo de trabalho em relação à pessoa negra.</p>
            <p>As lições históricas oriundas das revoltas, estratégias de resistências, insurgências
                e lutas dos povos subjugados na América Latina e no Caribe deixam evidentes que as
                transformações dos modos de trabalho, dos sistemas jurídicos e educacionais e da
                proteção da humanidade e da natureza não são resultados da benevolência das elites.
                É previsto romper drasticamente a cadeia de privilégios e da distribuição de poder e
                do capital para lograr mudanças substanciais, revoluções sociais e/ou políticas, no
                sentido da dignidade do povo.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>Por que é importante estudar a questão do negro nas ciências naturais?</title>
            <p>O nosso ponto de partida histórico é o período da colonização europeia e da
                escravidão negra de africanos subsaarianos como elementos inaugurais do chamado Novo
                Mundo. Com base primeiramente em justificativas religiosas produzidas pela Igreja
                Católica, logo pelas ciências naturais (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Moura,
                    1994</xref>), homens, mulheres e crianças foram despojados de sua humanidade,
                submetidos a processos de desumanização e orientados a um destino comum: o trabalho
                escravo e o fomento do colonialismo como força motriz do capital internacional em
                suas configurações mercantis, monopolistas e industriais.</p>
            <p>A força hegemônica colonial transplantada no Novo Mundo se fundou com consideráveis
                acúmulos de hierarquização e segregação racial produzidos a partir dos conflitos
                históricos na península ibérica (<xref ref-type="bibr" rid="B20">González,
                    2020</xref>). A partir da base escravista, o colonialismo desenvolveu uma
                massiva superestrutura que não cessou completamente com a superação das colônias em
                sentido estrito, mas se incorporou no tecido social das repúblicas e novas
                conformações dos países colonizados até os dias de hoje. Na conformação histórica da
                América Latina e do Caribe, estão as chaves que desvendam o racismo especialmente
                orientado aos negros e aos indígenas, afinal, todo o projeto de coisificação do ser
                humano, para justificar toda sorte de violência (sexual, laboral, epistemológica e
                cultural) e seu empenho como força produtiva, foi destinada especialmente a esses
                grupos ao longo de séculos.</p>
            <p>As ciências naturais, importadas dos manuais europeus pelas elites cultas, provinham
                esperanças de modernização, mudanças na estrutura e no ritmo produtivo e na
                sofisticação do aparato exploratório. Além disso, serviam como subsídios a teses que
                reforçavam ideias de diferenças entre negros e brancos, buscavam explicar propensões
                ao crime e ao descontrole sexual das pessoas negras e toda sorte de racismo amparada
                por áreas como craniologia, frenologia, sustentando ideários eugenistas e
                higienistas, oferecendo um lastro robusto para ideologias de hierarquização e
                estratificação.</p>
            <p>Assim, a nossa conjectura é de que a ciência, como partícipe da divisão social do
                trabalho e como força produtiva operante no contexto do capitalismo, comporta-se de
                forma análoga a como o mundo do trabalho tem se comportando com relação à população
                negra e a escola neoliberal desempenha uma função crucial nas duas situações:
                garantir a perpetuação da lógica de exploração. Portanto, <italic>a educação
                    científica antirracista tem como horizonte de enfrentamentos aspectos
                    particulares da ciência que se dedica a ensinar, bem como as razões do seu
                    ensino e a concretude da sociedade em que se inscreve</italic>.</p>
            <p>Justificamos, portanto, nossa pesquisa a partir das seguintes prerrogativas: (a) a
                ciência é uma força produtiva aliada ao capital e partícipe da lógica do trabalho
                social; (b) o conhecimento científico opera como forma de dominação e controle e
                está atrelado à distribuição capitalista de privilégios; (c) a lógica capitalista e
                o racismo são uníssonos quando se estabelecem como avessos à intelectualidade
                orgânica; (d) sendo, por fim, tarefa de uma educação científica radical e
                emancipatória a incorporação real e objetiva da questão racial. Procuraremos
                ampliar, ainda que brevemente, cada uma dessas afirmações.</p>
            <sec>
                <title>a. Ciência como força produtiva e a sua aliança com o capital</title>
                <p>O problema da divisão social do trabalho se reflete em divisão racial (e
                        sexual)<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> do trabalho e a ciência, como
                    força produtiva, incorpora as contradições raciais, ainda que sustentem
                    perspectivas de neutralidade e idoneidade ideológica.</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B29">Marx (2017, p. 325)</xref>, no <italic>Livro
                        III</italic> do <italic>Capital</italic>, destaca três fatos fundamentais da
                    produção capitalista: o acúmulo ou concentração do capital nas mãos de poucos; a
                    dinâmica do trabalho como trabalho social, constituído pela cooperação, divisão
                    do trabalho e sua combinação com as ciências naturais; e estabelecimento de um
                    mercado mundial. Para o autor, a força produtiva é entendida como a capacidade
                    de produzir, por meio do trabalho e com a mediação de elementos materiais
                    (técnica ou estrutura do meio trabalhista, por exemplo) a fim de satisfazer as
                    necessidades sociais. No caso da produção capitalista, a necessidade se converte
                    em demanda por produção de mercadoria e, consequentemente, extração de riqueza a
                    partir da exploração e expropriação do trabalhador.</p>
                <p>A grande produção submete as forças da natureza que, por si, não custam nada à
                    produção, compõem o trabalho social e são apropriadas e controladas pelas
                    máquinas, estas, sim, com um custo e resultante de um trabalho passado. Conforme
                    Marx (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Marx; Engels, 2020</xref>), nos
                        <italic>Manuscritos de 1861-1863</italic>, a incorporação dos agentes
                    naturais à produção capitalista coincide com o desenvolvimento da ciência.
                    Afinal, o processo produtivo se conforma como a esfera de aplicação da ciência e
                    requer dela aperfeiçoamento e invenções, incrementando, por sua vez, a produção
                    e a si mesma.</p>
                <p>No âmbito do debate da economia derivada do aperfeiçoamento da maquinaria, ou
                    seja, do incremento técnico à produção, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Marx
                        (2017)</xref>, no <italic>Livro III</italic> do <italic>Capital</italic>,
                    evidencia a dinâmica inerente ao capital computado no desgaste, na manutenção e
                    na produção de mercadorias em outro ritmo e qualidade produtiva, demandando um
                    trabalho combinado estabelecido na lógica do desenvolvimento da força produtiva
                    que, “[...] vinculado aos progressos no terreno da produção espiritual,
                    especialmente da ciência da natureza e sua aplicação” (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B29">Marx, 2017, p. 118</xref>), gera lucro ao capitalista proveniente
                    do trabalho social, não particularmente como produto direto do trabalhador
                    explorado.</p>
                <p>“Aquele desenvolvimento da força produtiva resulta sempre, em última instância,
                    do caráter social do trabalho posto em ação; da divisão do trabalho no interior
                    da sociedade; do desenvolvimento do trabalho intelectual, especialmente da
                    ciência da natureza” (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Marx, 2017, p.
                    118</xref>). Isso significa dizer que a ciência da natureza e o trabalho
                    intelectual que a compõe participam da lógica da divisão social do trabalho cujo
                    sistema completo, não particularmente o trabalho resultante das forças de uma
                    pessoa em uma indústria, por exemplo, orienta-se em benefício do capitalista.
                    Assim, a resultante da soma das forças naturais e das ciências naturais ao
                    incremento das forças produtivas em uma maquinaria é a transferência de valor ao
                    produto e o seu encarecimento na medida do próprio valor da produção.</p>
                <p>No Brasil, a ciência geralmente é produzida pelas universidades e instituições de
                    Pesquisa e Desenvolvimento (P&amp;D), sendo que, numericamente, as universidades
                    públicas detêm a dianteira da produção científica nacional. Como partícipe do
                    Produto Interno Bruto (PIB), em termos de investimento e de retorno, a ciência
                    mobiliza trabalho nos mais diversos campos, direta ou indiretamente, produzindo
                    bens materiais e culturais, atuando, portanto, na produção da riqueza nacional,
                    na superestrutura valorativa e na cultura.</p>
                <p>A Política Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, instituída a partir da Lei
                    n.º 13.243/2016 (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Brasil, 2016</xref>), estabelece
                    diretrizes para estimular o desenvolvimento científico, a pesquisa, a
                    capacitação científica e tecnológica e a inovação. Nesse sentido, reconhecem-se
                    como Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI): atores
                    políticos (Poderes Executivo e Legislativo e sociedade organizada); agências de
                    fomento e operadores de Ciência, Tecnologia e Inovação, que incluem, entre
                    outros, Instituições de Educação Superior, institutos nacionais, empresas e
                    incubadoras (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Brasil, 2018</xref>). Façamos uma
                    breve apreciação sobre as questões raciais inerentes a essas três grandes
                    dimensões.</p>
                <p>No âmbito da política representativa, o relatório Desigualdades Sociais por Cor
                    ou Raça no Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="B24">IBGE, 2022a</xref>) apresenta
                    o drástico cenário do predomínio de pessoas brancas ocupando cargos de prefeito
                    ou vereador. Em 2020, pessoas de cor ou raça preta eram 8,8% da população; 2,0%
                    dos prefeitos e 6,2% dos vereadores. No mesmo ano, pessoas de cor ou raça parda
                    eram 47,5% da população, mas apenas 30,0% dos prefeitos e 38,5% dos vereadores.
                    Nas eleições para o período de 2019 a 2023, o Observatório Equidade no
                    Legislativo (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Brasil, 2023a</xref>) identificou,
                    dentre os representantes do Senado Federal, 22,22% de negros e 77,78% de
                    brancos; dentre os Deputados Federais, 24,16% de negros e 75,24% de brancos. No
                    início de 2023, uma reportagem do Congresso em Foco evidenciou que o perfil dos
                    deputados eleitos é de homem branco, com mais de 50 anos, ensino superior
                    completo, cujo patrimônio declarado sobrepassava a marca de R$ 2 milhões,
                    filiado a partidos de direita e centro-direita (<xref ref-type="bibr" rid="B37"
                        >Sardinha, 2023</xref>).</p>
                <p>No que concerne às agências de fomento, como já mencionado, os estudos apresentam
                    a discrepância racial de investimentos em pesquisadores negros nos mais diversos
                    níveis, do fomento à pesquisa à distribuição de bolsas. Por fim, por força de
                    lei e de pressões da sociedade organizada, as instituições educativas ainda
                    batalham para a inclusão das pessoas negras a partir das políticas de cotas
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Brasil, 2012</xref>, <xref ref-type="bibr"
                        rid="B6">2023b</xref>), de permanência e de núcleos de estudos e produção de
                    conhecimentos sobre África, cultura afro-brasileira e questões raciais
                    pertinentes, embora não sem contradições e desequilíbrios no que se refere, por
                    exemplo, à participação da pós-graduação na produção científica; às áreas
                    preponderantes e suas relações com setores e interesses produtivos; à
                    porcentagem de negros na pós-graduação e seus lugares nas áreas estratégicas.
                    Uma pesquisa mais aprofundada sobre cada uma dessas dimensões (e as relações
                    entre elas) seguramente evidenciaria e qualificaria a estrutura do problema da
                    desigualdade racial presente no âmbito da produção científica.</p>
                <p>Apesar de termos avançado em termos de política pública para acesso à educação
                    superior e permanência nela, é preciso superar os mecanismos materiais e
                    culturais de seleção, restrição e distribuição da força de trabalho. Conforme
                    dados do IBGE, produzidos entre 2012 e 2020, sobre a composição da força de
                    trabalho, por exemplo, a população negra representa a maior porcentagem na
                    ocupação informal e entre a população desocupada; ao passo que está em menor
                    quantidade na ocupação formal. Em todos os casos, seus rendimentos são mais
                    baixos do que os das pessoas brancas (<xref ref-type="bibr" rid="B25">IBGE,
                        2022b</xref>).</p>
                <p>A extrapolação para as inter-relações entre participação pública em ciência e
                    tecnologia e formação educacional e científica da classe trabalhadora e do povo
                    negro certamente nos ofereceria um panorama muito mais complexo e interessante
                    sobre a problemática. Vamos, aqui, colocá-la em relevo.</p>
                <p>A ciência, como força produtiva, inscreve-se na lógica da produção hegemônica,
                    seja como fator de qualificação do empenho das forças produtivas, controle das
                    forças naturais ou no âmbito valorativo. Outro elemento que se apresenta é que,
                    se no contexto do capital o aumento da produtividade não significa o aumento da
                    socialização do produto, paralelamente, como nos lembram <xref ref-type="bibr"
                        rid="B35">Paz-Enrique, Núñez-Jover e Garcés-González (2018)</xref>, o
                    aumento da produção científica também não decorre diretamente no aumento da
                    socialização do conhecimento. E isso se dramatiza quando a questão do acesso se
                    vincula à lógica de distribuição de privilégios.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>b. Conhecimento científico como instrumento de dominação e controle</title>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B17">Feenberg (2010)</xref> dispõe que o conhecimento
                    e suas aplicações são balizados em estruturas de poder que, em posse de
                    capitalistas e tecnocratas, produzem uma lógica de decisões técnicas que em nada
                    alcançam as necessidades da classe trabalhadora e das comunidades. Assim, o
                    controle técnico e político do conhecimento fica a cargo das forças hegemônicas
                    que, como já vimos, constitui-se a partir e em favor da lógica produtiva.</p>
                <p>A ciência, a partir da sua inscrição na divisão social do trabalho, na separação
                    entre atividade manual e atividade intelectual, e no seu domínio sobre a
                    produção de conhecimento, especialmente quando se distancia da realidade
                    concreta em uma abstração teórica do mundo ordinário, torna-se também um
                    instrumento de dominação. As condições de apropriação e produção do conhecimento
                    científico e tecnológico estão relacionadas ao sistema de distribuição de
                    privilégios e poder, garantidos pelas condições materiais e culturais. Logo, o
                    conhecimento produzido em ciência e em tecnologia instrumentaliza contextos de
                    dominação e de subordinação.</p>
                <p>Nesse sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Feenberg (2010, p. 107)</xref>,
                    reconhecendo possibilidades de resistência ao modelo tecnocrático capitalista,
                    expressa que: “[...] para que o conhecimento seja tomado seriamente, a escala
                    dos interesses representados pelo ator deve ser ampliada, para tornar mais
                    difícil de excluir o retorno do objeto em grupos destituídos de poder”. Assim, o
                    domínio popular da ciência e da tecnologia ou, como defende <xref
                        ref-type="bibr" rid="B14">Dagnino (2009)</xref>, a apropriação e a adequação
                    sociotécnica do conhecimento e da produção, são formas de orientá-las a
                    aspirações populares e emancipatórias, com condições de enfrentar as
                    contradições de ordem racial (discriminação, subjugamento, negligência
                    científica, por exemplo), apesar de tal domínio se ver seriamente limitado
                    devido aos mecanismos de barragem operados ideologicamente a partir do
                    preconceito de cor (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Moura, 1977</xref>).</p>
                <p>De qualquer forma, à maneira de síntese, a apropriação crítica do conhecimento
                    científico adquire dupla função, a de questionar as condições de sua produção e
                    a de operacionalizá-lo em função do desvelamento e da superação das contradições
                    que ele mesmo aportou. Portanto, <italic>o antirracismo crítico não nega
                        conhecimentos consolidados, mas apropria-se deles como um organizador
                        hegemônico da sociedade tal como se configura em sua etapa
                    atual</italic>.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>c. O capitalismo e o racismo são analogamente avessos à intelectualidade
                    orgânica</title>
                <p>A intelectualidade, conforme <xref ref-type="bibr" rid="B21">Gramsci
                        (2016)</xref>, é elaborada a partir de processos históricos tradicionais
                    concretos, com função diretiva e organizativa no campo da produção e da cultura,
                    atuando, usualmente, como ‘funcionários’ da superestrutura. Sabendo que a escola
                    é um lugar de formação intelectual dos mais diversos graus, o autor entende que
                    a distribuição econômica da instituição, e as distintas aspirações dos grupos
                    que a compõem, determinam a forma da produção da intelectualidade. Assim, em um
                    mundo moderno com aspirações produtivas industriais, “[...] a educação técnica,
                    ligada estreitamente ao trabalho industrial, inclusive o mais primitivo e
                    desqualificado, deve formar a base do novo tipo de intelectual” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B21">Gramsci, 2016, p. 295</xref>, tradução nossa).
                    Dessa forma, o capitalismo não é avesso à intelectualidade em si, mas ao
                    incremento orgânico da capacidade organizativa e diretiva da classe
                    trabalhadora. Ou seja, não interessa a intelectualidade orgânica, insurgente,
                    popular e que não seja advinda do funcionalismo estrutural dos grupos
                    dominantes, especialmente se ela se radicaliza.</p>
                <p>Em sentido semelhante, <xref ref-type="bibr" rid="B18">Freitas (2014</xref>,
                        <xref ref-type="bibr" rid="B19">2016</xref>), ao evidenciar o alcance dos
                    reformadores empresariais no trabalho pedagógico, destaca a veemência do
                    discurso sobre o fundamental para a base e o uso da generalização da “educação
                    para todos” como função ideológica da manutenção das desigualdades, a partir da
                    escola e seus mecanismos de rotulação, exclusão, reprodução de desigualdades e
                    ranqueamento dos destinos dos filhos da classe trabalhadora.</p>
                <p>Ao seu turno, o racismo também é fundamentalmente avesso à intelectualidade. bell
                    hooks (<xref ref-type="bibr" rid="B22">hooks, 2013</xref>, <xref ref-type="bibr"
                        rid="B23">2015</xref>) nos lembra de que ao corpo negro é esperado
                    movimento, agilidade e centralidade ao físico e não à mente, mencionando a
                    severidade do problema da negação à intelectualidade dos homens negros, por
                    exemplo. Assim, a empresa capitalista se beneficia do racismo quando este
                    garante diversos corpos negros em situação de desemprego e subemprego, prontos
                    para aceitar qualquer trabalho sob qualquer condição trabalhista (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B31">Moura, 1977</xref>), recebendo uma educação formal
                    básica, superficial e precária que garante a manutenção do estado das
                    coisas.</p>
                <p>O estatuto de intelectualidade, assim, é negado ao negro não como uma
                    irracionalidade de uma sociedade racista, mas como um mecanismo ideológico de
                    manutenção da organização do trabalho e impedimento da ascensão social do negro,
                    pois isso ameaçaria a estabilidade da estrutura laboral conformada durante
                    séculos. Portanto, os processos educativos, imbricados nesses mecanismos de
                    exclusão e restrição, devem ser capazes de desenvolver aparatos conceituais que
                    permitam as análises dos problemas e as proposições de soluções educacionais,
                    especialmente aquelas ditas antirracistas.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>d. Educação científica radical e a incorporação da questão racial</title>
                <p>Como vimos, a questão racial no âmbito das ciências e do seu ensino se converte
                    em um problema porque a ciência, como parte da divisão social do trabalho, tanto
                    no sentido de suporte material ao incremento físico da produção, quanto como
                    separação entre braço e mente, redunda também na divisão racial e sexual do
                    trabalho. Nesse sentido, o conhecimento científico se produz em um campo de
                    disputas e interesses, diametralmente oposto a qualquer suposição de
                    neutralidade, operando <italic>a partir</italic> e <italic>em favor</italic> de
                    grupos sociais hegemônicos (classe dominante), ainda que haja a possibilidade de
                    eclosão de uma intelectualidade orgânica nos grupos marginalizados. A escola,
                    por sua vez, instituída também na dinâmica das relações concretas e ideológicas,
                    tem desempenhado papel central na lógica de exclusão e manutenção de privilégios
                    por meio de processos pedagógicos e organizativos.</p>
                <p>Enquanto as perspectivas radicais de educação versarem sobre um conhecimento
                    universal acumulado historicamente sem enfrentar de fato que a prática social
                    real tem contradições na dimensão racial, não teremos condições de dar saltos
                    qualitativos e quantitativos em prol de um projeto de educação científica
                    libertador, popular e emancipatório.</p>
                <p>Assim, como orientação às nossas elaborações, questionamo-nos sobre qual é a
                    educação científica para a classe trabalhadora do Brasil atual, tendo em vista
                    suas contradições e a historicidade de sua conformação material, de modo a:
                    potencializar as formas resistentes, as organizações e a intelectualidade da
                    classe trabalhadora; garantir a formação básica geral sólida em atenção às
                    particularidades históricas e contextuais do povo negro; adequar-se aos
                    contextos objetivos das margens, periferias e povos negligenciados.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec>
            <title>Inter-relações Trabalho-Educação-Ciência (TEC): unidade categorial básica no
                âmbito da educação científica antirracista</title>
            <p>Como momento sintético, cabe-nos construir e representar um arcabouço
                teórico-político que cumpra a função de dispositivo analítico e nos permita nos
                apropriarmos de novas particularidades da problemática. A partir de uma perspectiva
                relacional, entendemos que, dado o processo histórico colonial, do desenvolvimento
                do capitalismo e da sofisticação do racismo, as problemáticas do campo científico e
                educacional se vinculam dialeticamente à questão do trabalho, razões pelas quais
                propomos como chave analítica as inter-relações TEC.</p>
            <p>A categoria do <italic>trabalho</italic>, assim, é central à compreensão do nosso
                objeto, assumindo-se como categoria base, cujas determinações estão na raiz das
                demais dimensões. Entendido sob a perspectiva marxista como categoria ontológica de
                conformação do gênero humano na medida da sua dominação e concepção sobre a
                natureza, é o organizador das forças produtivas. <xref ref-type="bibr" rid="B28"
                    >Marx (2020)</xref> define o trabalho como</p>
            <p>
				<disp-quote>
                <p>[...] a atividade orientada a um fim para produzir valores de uso, apropriação do
                    natural para satisfazer a necessidades humanas, condição universal do
                    metabolismo entre o homem e a Natureza, condição natural eterna da vida humana
                    e, portanto, independente [sic] de qualquer forma dessa vida, sendo antes
                    igualmente comum a todas as formas sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B28"
                        >Marx, 2020, p. 300</xref>).</p>
            </disp-quote>
			</p>
            <p>A dinâmica da organização do trabalho produtivo consolidou as etapas do
                desenvolvimento nacional e internacional do capitalismo. Ela nos permite compreender
                a dinâmica histórica das relações sociais, políticas e reprodução do capitalismo
                desde o período da colonização. No modelo de produção capitalista, a força de
                trabalho é vendida por um salário que não condiz com o valor de uso ou de troca da
                mercadoria produzida, além do processo de alienação do trabalhador à totalidade do
                processo produtivo. Assim, o trabalho é utilizado à obtenção de lucros e produção de
                riquezas que não são distribuídas e convertidas em dinheiro para o trabalhador. Na
                medida do desenvolvimento técnico e histórico do processo produtivo, o trabalho vai
                se transformando enquanto também transforma a história em seu devir.</p>
            <p>A <italic>ciência</italic>, por sua vez, como atividade metódica, analítica e
                sintética, cuja compreensão e ação qualificada sobre o mundo é capaz de
                transformá-lo em escalas cada vez mais complexas, também está imbricada aos
                processos materiais de produção da vida. Abandonada do seu potencial de crítica,
                negação e emancipação, a ciência, a partir e em favor do capital, converte-se
                atualmente em tecnociência a serviço da hegemonia (<xref ref-type="bibr" rid="B9"
                    >Castelfranchi; Fernandes, 2015</xref>). Nesse sentido, apoiando-se na função
                ideológica da suposição de neutralidade, dos estandartes de progresso e
                desenvolvimento, a ciência conduz à mercantilização do conhecimento e dos seus
                produtos (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Lacey, 2008</xref>), à privatização de
                códigos técnicos (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Feenberg, 2010</xref>), à
                alienação da classe trabalhadora das agendas e dos processos de produção, decisão e
                difusão (ciência impopular e não emancipatória). Desabilitado de sua potência
                crítica, ideologicamente cindida da classe trabalhadora, o campo científico se torna
                arena, por exemplo, de produção de discursos, práticas e lógicas racistas.</p>
            <p>A <italic>educação</italic>, por fim, como atividade histórica intencional e
                institucionalmente organizada, orientada pela racionalidade neoliberal do
                capitalismo, segue a clássica fórmula de elitismo, exclusão e produção de
                desigualdades, apostando mais severamente na política do mínimo, do básico
                educacional, para garantir a perpetuação da cadeia de exploração. A abrangência
                desse projeto vai desde os acessos à escolarização, aos sistemas avaliativos ou às
                orientações curriculares dos projetos educacionais, sejam elas locais (escolares) ou
                nacionais. A garantia do projeto neoliberal ocorre pela proletarização e
                precarização do trabalho docente, e racionalização técnica do trabalho (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B13">Contreras, 2002</xref>); controle político, ideológico
                e pedagógico da prática docente (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Freitas,
                    2014</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B19">2016</xref>). Assim, uma educação
                alienada da classe trabalhadora se converte em impopular e não emancipatória.
                Desabilitada de sua potência crítica, a educação cria condições para geração,
                naturalização e perpetuação de discursos e práticas racistas (exclusão com base na
                raça).</p>
            <p>Por fim, vale ressaltar que todas as dimensões de TEC são historicamente
                constituídas, relacionam-se dialeticamente e são determinadas em conformidade com as
                configurações das forças produtivas.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>Educação científica e as inter-relações TEC: a particularidade diante do
                total</title>
            <p>O corpo teórico elaborado até aqui nos redunda à questão básica: <italic>qual é a
                    educação científica apropriada a uma classe trabalhadora, cujas condições
                    objetivas e subjetivas são conformadas historicamente a partir da categoria
                    racial?</italic></p>
            <p>A instrumentalização das inter-relações TEC, no sentido de desvelar problemáticas da
                educação científica, requer sua apropriação como unidade, tensionando as dimensões
                do problema. As dificuldades, por exemplo, à compreensão do conceito de inércia; ao
                desenvolvimento do pensamento abstrato; à rejeição à matemática ou aos desafios para
                os cálculos de estequiometria não estão apartadas de questões de motivação,
                pertencimento, formação cultural, estímulo, reconhecimento, condições materiais,
                etc., tampouco da estrutura da instituição escola, do trabalho docente, das
                políticas públicas ou das experiências raciais de estudantes e professores. Assim, a
                dificuldade de contextualizar se soma ao esforço de convencimento da importância da
                escola e das ciências; a dificuldade de memorizar acompanha os estímulos cotidianos
                e os desafios da rotina do trabalho e da família; o interesse por falar ou fazer
                ciência é disputado pelos ideários de felicidade individualistas e meritocráticos do
                capitalismo neoliberal, entre outras formas de qualificar as problemáticas
                concretas.</p>
            <p>A partir da unidade TEC, entendemos que as contradições da educação científica podem
                aludir aos seguintes aspectos:</p>
            <list list-type="simple">
                <list-item>
                    <p>– Educação científica vinculada a interesses políticos e econômicos
                        históricos: encaminhamento e manutenção de sistemas de privilégios da elite
                        culta; formação de cientistas para disputas bélicas e ideológicas e
                        alimentação de agendas desenvolvimentistas esvaziadas; cumprimento de
                        acordos e determinações das instituições neoliberais (bancos internacionais
                        e organizações);</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>– Educação científica esvaziada de ideários emancipatórios como soberania,
                        dignidade, poder popular, justiça social, superação de desigualdades (de
                        diversas naturezas) e transformação concreta, pois os conhecimentos
                        científicos não são mobilizados em razão desses ideários ou projetos de
                        sociedades;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>– Educação científica desabilitada das potências intelectuais, políticas e
                        críticas da juventude e dos estudantes adultos trabalhadores, não disputando
                        com ênfase explícita projetos de sociedade ou os corações dos jovens.</p>
                </list-item>
            </list>
            <p>O futuro da configuração das forças científicas fica ao <italic>acaso</italic> da
                hegemonia, das tendências que já vêm determinando historicamente as regras,
                atribuindo lugar de valor, reconhecimento da intelectualidade e da importância a
                quem já o herdou, privilégio esse nunca gozado pelo povo negro.</p>
            <p>Tanto no campo da investigação quanto no campo do ensino das ciências naturais, as
                relações entre trabalho, educação e ciência, aportadas pela unidade teórica
                colonialismo-capitalismo-racismo, permitem-nos tematizar alguns aspectos de
                interesse pedagógico e investigativo:</p>
            <list list-type="simple">
                <list-item>
                    <p><italic>a. Natureza da ciência e da tecnologia</italic> que nos permite
                        questionar sobre: as causas históricas e as razões atuais da negligência das
                        origens, da história e das contribuições de diversos povos na construção do
                        conhecimento científico e o seu uso atual; os mecanismos materiais e
                        ideológicos de apropriação dos conhecimentos técnicos e das tecnologias de
                        transformação da natureza dos povos africanos escravizados e dos povos
                        indígenas explorados; as razões das diferenças e desequilíbrios na
                        distribuição dos lócus de produção científica, do financiamento da pesquisa
                        e da valorização das instituições produtoras de ciências, considerando
                        aspectos geográficos, econômicos, políticos, territoriais e históricos; em
                        uma perspectiva internalista, os critérios objetivos e os valores na seleção
                        dos objetos e dos métodos de pesquisa e as tendências de aceitabilidade das
                        teorias e produções científicas; a configuração racial, sexual e de origem
                        socioeconômica dos integrantes dos laboratórios de Pesquisa e
                        Desenvolvimento e dos grupos considerados de pesquisa de ponta no país,
                        entre outros.</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p><italic>b. Narrativas e representações</italic> que, considerando-as
                        manifestações autênticas da superestrutura que legitima, naturaliza e
                        universaliza práticas e processos produtivos, conduzem-nos a questionar
                        sobre: a construção histórica da figura do especialista e da imagem da
                        intelectualidade, considerando linguagens, veículos de informação, valores e
                        suas relações com a configuração do mundo do trabalho; do mesmo modo, quem
                        são as figuras que inspiram saber, conhecimento e são tomadas como
                        referência e objeto de admiração; como estão estruturados nossos
                        referenciais teóricos nas universidades, nos cursos de formação de
                        professores e nas práticas formativas em geral no que se refere à divisão
                        territorial, racial, de gênero, de classe da intelectualidade e da
                        ciência.</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>c. Em termos de <italic>produção, apropriação</italic> e <italic>relação com
                            a Ciência e a Tecnologia</italic>, convém questionarmos e produzirmos
                        conhecimentos sobre: as condições concretas e culturas para a <italic>tomada
                            de decisões</italic> ou para a participação pública em decisões sobre a
                        produção científica e tecnológica; as diferenças entre as condições
                        individuais e coletivas organizadas de influenciar sobre processos
                        científicos ou projetos tecnológicos mediante a força econômica e política
                        envolvida; o recorte racial e de classe das pessoas impactadas pelas
                        consequências da produção científica e tecnológica, estabelecendo um
                        paralelo concreto entre pobreza e riscos; relações entre as produções
                        científicas e tecnológicas e seus impactos sobre contextos de pobreza,
                        vulnerabilidade e pouca ou nenhuma proteção jurídica; as tendências das
                        políticas públicas em ciência e tecnologia; a produção de interesse por
                        parte da classe trabalhadora e do povo negro em debater, participar,
                        monitorar ou trabalhar no campo das ciências naturais.</p>
                </list-item>
            </list>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>Considerações finais</title>
            <p>Como pudemos ver, a compreensão das problemáticas enfrentadas por uma educação
                científica que se propõe antirracista requer materialidade, historicidade e
                profundidade, rejeitando teses abstratas e aparentes. As iniciativas de formação em
                educação científica que não se ocupam das raízes dos problemas aparentes atuais
                estão condenadas a se reproduzirem em um vazio histórico, cujos sujeitos abstratos
                não compõem a trama do concreto, mas existem em estado de suspensão, assim,
                facilmente cooptados pelas forças hegemônicas, pela intelectualidade do capital,
                pelos ajustes neoliberais que, fundamentalmente, não alcançam as origens dos
                problemas, mas os dramatiza.</p>
            <p>A partir da base teórica concreta da unidade colonialismo-capitalismo-racismo,
                evidencia-se a necessidade de mobilização de diversos campos do saber como os
                sociológicos, filosóficos, antropológicos, da geografia, da política, da demografia
                e da educação. A instrumentalização desse corpo de conhecimento pode ser
                impulsionada por arranjos teóricos adequados à particularidade do objeto da questão
                racial na ciência e da educação científica, como a unidade
                Trabalho-Educação-Ciência. Isso evidencia a dimensão dos problemas particulares e
                oferece pistas à compreensão das leis gerais que regem a organização da educação, da
                educação científica e do lugar do povo negro nessa intrincada trama social e
                histórica.</p>
            <p>A educação científica antirracista crítica poderá ganhar relevo ao se somar às
                perspectivas críticas, emancipatórias e radicais da educação, como aquelas
                fundamentadas em Gramsci, Mészáros, Freire, Saviani, Tragtenberg, por exemplo. E, em
                correspondência político-pedagógica, colaborar para que essas perspectivas não
                obliterem, nem por um lapso inoportuno, que a classe trabalhadora deste país tem
                história e tem cor e a exploração, a precarização e o sucateamento das instituições
                educativas, do trabalho docente e do processo de ensino, portanto, têm sido
                racialmente organizados.</p>
            <p>Se no campo da educação científica crítica não podemos prescindir de robustas teorias
                sociais se quisermos empreender projetos formativos coerentes, a inclusão do
                antirracismo radicaliza essas bases impondo uma inflexão insistente à materialidade
                da reprodução da vida, sem a qual continuaremos ‘funcionários’ da hegemonia. O
                destino do antirracismo será, em caso de que essa tendência se perpetue, o de adorno
                para os ‘dias de festa na firma’ progressista.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>Por Novo Mundo, entendemos que compreende todo o território do continente
                    americano, colonizado pelos europeus, a partir do século XV. Reconhecendo as
                    diferenças das colônias baseadas nas intrincadas relações entre metrópole e
                    periferia, neste artigo, aglutinamos sob esse conceito os territórios da América
                    Latina e do Caribe, que experimentaram de forma semelhante a experiência de uma
                    periferia de exploração na dinâmica da divisão internacional do trabalho.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>Em alusão à mesma expressão utilizada por Frantz Fanon, na obra referenciada
                    neste artigo.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>Apesar de reconhecermos que o desenvolvimento histórico do debate tem direcionado
                    à mudança do conceito para <italic>divisão generificada</italic> do trabalho,
                    optamos por manter o conceito clássico de <italic>divisão sexual</italic> como
                    forma de diálogo com as diversas áreas que têm se ocupado com o tema e o mantido
                    como tal.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ack>
            <title>Agradecimentos</title>
            <p>O autor agradece à Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) pelo
                subsídio financeiro (bolsa), por meio do qual foi possível a realização deste
                estudo; à Profa. Dra. Cs. Graciela Chailloux Laffita, pelas importantes reflexões
                conjuntas; e ao Me. Jailton Correia Fraga Junior, pela colaboração com a elaboração
                dos gráficos.</p>
        </ack>
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                        educação nacional, para incluir no currículo oficial [...]</source>
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                    Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais
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                        ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino
                        técnico de nível médio e dá outras providências</source>
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                    Dispõe sobre estímulos ao desenvolvimento científico, à pesquisa, à capacitação
                    científica e tecnológica e à inovação [...]. Brasília, DF: Presidência da
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                    <source><italic>Lei nº 13.234, de 11 de janeiro de 2016</italic>. Dispõe sobre
                        estímulos ao desenvolvimento científico, à pesquisa, à capacitação
                        científica e tecnológica e à inovação [...]</source>
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                    especial para o acesso às instituições federais de educação superior e de ensino
                    técnico de nível médio de estudantes pretos, pardos, indígenas e quilombolas e
                    de pessoas com deficiência [...]. Brasília: Presidência da República,
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                        no 12.711, de 29 de agosto de 2012, para dispor sobre o programa especial
                        para o acesso às instituições federais de educação superior e de ensino
                        técnico de nível médio de estudantes pretos, pardos, indígenas e quilombolas
                        e de pessoas com deficiência [...]</source>
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