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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">ciedu</journal-id>
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				<journal-title>Ciência &amp; Educação (Bauru)</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Ciênc. educ.
					(Bauru)</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">1516-7313</issn>
			<issn pub-type="epub">1980-850X</issn>
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				<publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Universidade
					Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências, campus de
					Bauru.</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="publisher-id">00046</article-id>
			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1516-731320240046</article-id>
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					<subject>ARTIGO ORIGINAL</subject>
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				<article-title>Ensino sobre a Natureza da Ciência: um estudo de caso com dois
					professores da área de Ciências da Natureza do Ensino Médio</article-title>
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					<trans-title>Teaching about the nature of science: A case study of two secondary
						science teachers</trans-title>
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						<given-names>Natália de Paiva</given-names>
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						<surname>Assis</surname>
						<given-names>Alice</given-names>
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				<label>1</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Estadual Paulista</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade Estadual Paulista</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Faculdade de Ciências</institution>
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				<institution content-type="original">Universidade Estadual Paulista (Unesp),
					Faculdade de Ciências, Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência,
					Bauru, SP, Brasil</institution>
					<email>np.diniz@unesp.br</email>
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				<label>2</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Estadual Paulista</institution>
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				<institution content-type="orgdiv1">Faculdade de Engenharia e Ciências</institution>
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				<institution content-type="original">Universidade Estadual Paulista (Unesp),
					Faculdade de Engenharia e Ciências, Guaratinguetá, SP, Brasil</institution>
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				<corresp id="c1">Autora Correspondente: <email>np.diniz@unesp.br</email>
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<!-- 			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
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				<year>2024</year>
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				<year>2024</year>
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			<volume>30</volume>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Neste artigo, verificam-se os fatores que orientam o ensino sobre a Natureza da
					Ciência (NdC) de dois professores da área de Ciências da Natureza do Ensino
					Médio participantes de um curso de formação continuada, ocorrido online, de modo
					a inferir o que pode contribuir ou dificultar a inserção de tais aspectos em
					sala de aula. Realizou-se um estudo de caso pautado na observação das aulas
					presenciais desses professores, durante a pandemia da COVID-19. As transcrições
					das aulas foram analisadas por meio da lente do Conhecimento Pedagógico do
					Conteúdo, de modo a identificar os conhecimentos priorizados, as práticas
					envolvidas e os valores que guiam a prática pedagógica desses professores.
					Verificou-se que o conhecimento de aspectos da NdC é essencial para práticas que
					articulem o currículo com tais aspectos e que os valores e as crenças do
					professor sobre o ensino impactam em suas escolhas em sala de aula.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>The purpose of this article is to examine the factors that guided the teaching of
					the Nature of Science (NOS) by two high school science teachers who participated
					in an online professional development course, in order to infer what might
					facilitate or hinder the integration of such aspects in the classroom. A case
					study was conducted based on observations of these teachers' face-to-face
					classes over a six-week period during the COVID-19 pandemic. The class
					transcripts were analyzed through the lens of pedagogical content knowledge to
					identify the prioritized knowledge, practices, and values that guided their
					pedagogical practice. It was found that knowledge of NOS aspects is essential
					for pedagogical practices that explicitly and reflectively align the curriculum
					with these aspects, and that teachers' values and beliefs about teaching
					influence their instructional choices.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavra-chave:</title>
				<kwd>Ensino de ciências</kwd>
				<kwd>Ensino médio</kwd>
				<kwd>Formação continuada do professor</kwd>
				<kwd>Prática pedagógica</kwd>
				<kwd>Natureza da ciência</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Science teaching</kwd>
				<kwd>Secondary education</kwd>
				<kwd>Continuing teacher training</kwd>
				<kwd>Teaching practice</kwd>
				<kwd>Nature of science</kwd>
			</kwd-group>
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	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>A Ciência e a Tecnologia possuem papéis importantes em diversos aspectos da vida
				moderna, seja na tomada de decisões dos cidadãos, nas implicações que seus produtos
				causam na sociedade, ou nas ideias influenciadas por sua filosofia. No entanto,
				mesmo conscientes da sua importância, poucas pessoas compreendem o modo como ela é
				desenvolvida. Essa pouca compreensão da Natureza da Ciência (NdC) pode induzir a uma
				visão engessada das Ciências da Natureza (CN), com concepções sobre sua construção
				que se afastam do que seria considerada uma visão aceitável do empreendimento
				científico (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Gil-Pérez <italic>et al</italic>.,
					2001</xref>).</p>
			<p>Compreendemos a NdC como um metaconhecimento formado por reflexões interdisciplinares
				feitas a partir da filosofia, da história e da sociologia da ciência, por
				especialistas dessas disciplinas e por cientistas (<xref ref-type="bibr" rid="B2"
					>Acevedo-Díaz <italic>et al</italic>., 2007</xref>). Ela abarca os conhecimentos
				sobre os métodos de validação do conhecimento científico, os valores envolvidos nas
				atividades da ciência, as relações com a tecnologia, as considerações sobre a
				comunidade científica, as relações da sociedade, dentre outros fatores, internos e
				externos à comunidade científica, que fazem parte da sua construção. Tal
				complexidade e dinamicidade podem ser um obstáculo para que ela se torne um conteúdo
				curricular na educação científica (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Acevedo-Díaz
						<italic>et al</italic>., 2007</xref>), uma vez que há duas correntes que
				contribuem de forma antagônica para a delimitação do que deve ser abordado em sala
				de aula na literatura: uma de consenso em relação aos aspectos da NdC a serem
				compreendidos pelos estudantes, possibilitando sua inclusão no currículo de ciências
				de forma mais clara e objetiva; e outra de dissenso em relação à NdC, em que se
				argumenta não ser possível chegar a acordos básicos sobre suas características,
				dificultando sua inserção no currículo.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B17">Lederman <italic>et al</italic>. (2002)</xref> e
					<xref ref-type="bibr" rid="B18">McComas, Clough e Almazroa (2002)</xref>
				apresentam uma síntese de ideias largamente aceitas em relação à NdC que se
				aproximam de uma visão considerada mais adequada do fazer científico nos tempos
				atuais, e que passaram a ser conhecidas na pesquisa como visão consensual ou
					<italic>consensus view</italic>. Tal consenso se alinha à ideia de que
				percepções que favorecem uma imagem estereotipada da Ciência - ligada à visão
				positivista - devem ser evitadas na Educação em Ciências (<xref ref-type="bibr"
					rid="B12">Gil-Pérez <italic>et al</italic>., 2001</xref>), por contribuírem para
				a construção de uma imagem ingênua. Entretanto, as visões consensuais vêm sendo
				criticadas na literatura por apresentarem certo reducionismo sobre as
				características da NdC no ensino (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Allchin,
					2011</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Dagher; Erduran, 2016</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B16">Irzik; Nola, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B20">Martins, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B21">Matthews,
					2012</xref>). De maneira geral, defende-se que não se pode generalizar esses
				aspectos devido às particularidades de cada área ou disciplina científica. Portanto,
				seria necessário compreender a NdC com características similares que justificam o
				que chamamos de 'científico' e não como uma listagem de &quot;[...] condições
				necessárias e suficientes para que uma prática seja científica&quot; (<xref
					ref-type="bibr" rid="B21">Matthews, 2012</xref>, p. 4, tradução nossa).</p>
			<p>As preocupações dos autores com relação às listas consensuais são relevantes para
				refletirmos as formas como as características da NdC podem ser inseridas em sala de
				aula: como itens a serem decorados e assimilados pelos estudantes, em que tudo o que
				está na lista deva ser contemplado; ou como possibilidades de discussão em momentos
				apropriados dependendo dos objetivos do professor, das estratégias utilizadas ou dos
				temas abordados. Se vislumbrarmos os consensos como algo que vai além de uma lista
				que deve ser seguida ou que reflita exatamente a forma como a Ciência vem sendo
				construída, podemos compreender que ela ainda tem muito a oferecer para o professor
				que, muitas vezes, não tem conhecimento sobre a área. Acreditamos que a vantagem de
				se considerar que há um consenso mínimo a ter em conta ao abordar a NdC no contexto
				escolar voltado às CN é que há um caminho mais claro aos professores sobre: o que é
				importante considerar no planejamento das situações de aprendizagem, quais cuidados
				são necessários ao definir os recursos e estratégias a serem utilizados, como guiar
				as discussões em sala de aula de forma a propiciar uma visão mais ampla e
				contextualizada da Ciência etc.</p>
			<p>Desse modo, é necessário que o professor, como sujeito que define a intencionalidade
				na intervenção pedagógica, busque ir além da abordagem do conteúdo, possibilitando
				que o estudante tenha contato com conhecimentos sobre a NdC, de modo a ter acesso a
				informações contextualizadas e abrangentes sobre a construção do conhecimento
				científico e sua relação com a tecnologia e com a sociedade, para participar de
				debates sociais, em que o grupo científico corresponde a uma das vozes da sociedade,
				tomando decisões conscientes na resolução de problemas e em suas escolhas (<xref
					ref-type="bibr" rid="B8">Galvão; Reis; Freire, 2011</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B22">Moura, 2014</xref>).</p>
			<p>Buscando contribuir para a formação continuada de professores da área de CN,
				promovemos um curso para fornecer suporte teórico e prático aos participantes,
				propiciando uma formação que favorecesse uma ampla visão sobre a NdC e sobre as
				formas de implementá-la em sala de aula. Neste artigo, observamos a prática
				pedagógica de dois professores do Ensino Médio (EM) da área de CN, participantes do
				curso, a fim de verificarmos os fatores que orientam o ensino de aspectos da NdC e
				que contribuem ou dificultam a discussão de tais aspectos em sala de aula.</p>
			<p>Ressaltamos que o objetivo da investigação não é verificar as concepções dos
				professores sobre a NdC - embora elas perpassem sua prática pedagógica, sendo
				possível identificá-las - mas apontar os conhecimentos, os valores e as práticas que
				constituem seu conhecimento para ensinar sobre a NdC, e que dificultam sua inserção
				em sala de aula.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Fundamentação teórica</title>
			<p>Compreender o processo de mediação, como a intervenção entre os sujeitos em uma
				relação, é compreender que o professor assume uma postura de realizar escolhas
				teórico-pedagógicas que contribuam para o processo de aprendizagem dos estudantes.
				Para tal, é fundamental que o professor entenda o que deve ser aprendido e como deve
				ser ensinado (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Shulman, 1987</xref>) de modo que
				atinja as particularidades de seus estudantes, transformando o conhecimento em
				conteúdo de ensino.</p>
			<p>Quando pensamos na sala de aula, temos a necessidade de realizar a sistematização do
				conhecimento e de fazer escolhas curriculares e pedagógicas. Algumas dessas escolhas
				ficam a cargo do professor e de sua experiência; outras, ficam a cargo das escolas e
				dos órgãos do governo que regem a educação, como a própria Base Nacional Comum
				Curricular (BNCC). Tais escolhas são necessárias quando pensamos que é impossível
				abordar todo o conhecimento já produzido em séculos de história ao longo de poucos
				anos escolares. Porém, essas adaptações fazem com que certos conhecimentos sejam
				privilegiados, ao passo que outros são esquecidos: por anos os conhecimentos
				científico e tecnológico foram privilegiados nas escolhas curriculares e na atuação
				do professor em sala de aula, enquanto o contexto de produção da ciência, a NdC, foi
				perdido. Isso pode acontecer pois a transformação pela qual o conhecimento passa até
				chegar ao estudante ocorre por meio de escolhas dos diferentes atores que participam
				desse processo. Podemos citar: cientistas, educadores, políticos, autores de livros,
				pais, universidades, exames externos etc. Considerando que o professor tem como base
				as diretrizes curriculares para nortear suas aulas, temos que parte desse processo é
				automaticamente imposto a ele.</p>
			<p>Apesar das demais esferas serem tão importantes na prática pedagógica, vamos ater
				nossas reflexões sobre o papel do professor no processo de didatização de aspectos
				da NdC em sala de aula. Pautado pelo currículo (atualmente pela BNCC), o professor
				transforma o conhecimento a ser ensinado por meio da sua compreensão do conteúdo,
				das habilidades didáticas e dos valores e crenças que possui como ser humano, em
				ações e representações pedagógicas (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Shulman,
					1987</xref>).</p>
			<p>Proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B27">Shulman (1987)</xref>, o conceito de
				Conhecimento Pedagógico do Conteúdo (PCK, do inglês Pedagogical Content Knowledge)
				explicita a relação intrínseca entre o conteúdo a ser ensinado e a pedagogia, de
				domínio exclusivo do professor. Desde que introduziu pela primeira vez a noção de
				PCK como um componente fundamental da base de conhecimento para o ensino, o modelo
				de <xref ref-type="bibr" rid="B27">Shulman (1987)</xref> foi estudado e estendido
				por outros estudiosos (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gess-Newsome, 1999</xref>;
					<xref ref-type="bibr" rid="B13">Grossman, 1990</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B19">Magnusson; Krajcik; Borko, 1999</xref>), que também relacionaram o PCK
				com os conceitos associados à NdC (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Hanuscin; Lee;
					Akerson, 2011</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B28">Silva; Martins,
					2019</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B13">Grossman (1990)</xref> destaca que
				o PCK é a transformação que ocorre do conhecimento do assunto (SMK), do conhecimento
				pedagógico (PK) e da compreensão de situações específicas por meio do conhecimento
				do contexto (CK). Ademais, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Gess-Newsome
				(1999</xref>, p. 58, tradução nossa) indica o conhecimento como parte das
				orientações de cada professor, pois é “[...] uma combinação complexa de conhecimento
				de conteúdo, crenças e valores que tem o potencial de impactar o que e como os
				alunos aprendem este conteúdo”, não podendo ser generalizado. Portanto, as
				orientações para o Ensino de Ciências também estão incluídas no PCK do professor e
				irão contribuir para as suas escolhas. Essas orientações correspondem ao
				conhecimento do professor sobre determinado assunto e seus valores e crenças sobre
				os propósitos e os fins da educação, que guiam suas decisões instrucionais em sala
				de aula (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gess-Newsome, 1999</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B15">Hanuscin; Lee; Akerson, 2011</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B19">Magnusson; Krajcik; Borko, 1999</xref>).</p>
			<p>Partindo da compreensão de que a NdC deve ser um conhecimento a ser ensinado em sala
				de aula, é importante que ela faça parte do SMK do professor, para o qual ele irá
				desenvolver o PCK (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Hanuscin; Lee; Akerson,
					2011</xref>), relacionando as demais bases de conhecimento para a efetiva
				instrução. <xref ref-type="bibr" rid="B26">Schwartz e Lederman (2002)</xref>
				defendem que para ensinar sobre a NdC é preciso que os professores tenham
				intencionalidade e acreditem que podem ensinar tais aspectos e que seus alunos podem
				e precisam aprendê-los. Portanto, o PCK sobre a NdC não se diferencia daquele
				necessário para ensinar qualquer outro conteúdo: o professor precisa ter
				conhecimento sobre a NdC para ensinar e sobre como ensiná-la, considerando que seus
				valores e crenças para o ensino devem estar alinhados com os objetivos/importância
				de aprendê-la.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="methods">
			<title>Metodologia</title>
			<p>Este artigo apresenta a análise de parte dos resultados obtidos em uma pesquisa
				empírica mais ampla, que constitui a tese de doutorado da primeira autora, em que
				foi realizada uma intervenção em um curso de formação continuada de professores,
				ocorrido online devido à pandemia da COVID-19, em parceria com a Diretoria de Ensino
				da Região de Guaratinguetá (Vale do Paraíba, São Paulo), que teve como objetivo
				auxiliar professores da área de CN do EM a abordarem a NdC em sala de aula. Dentro
				desse contexto mais amplo, utilizamos diferentes instrumentos de coleta de dados, a
				saber: as transcrições das gravações dos encontros síncronos de formação continuada;
				as atividades realizadas pelos professores durante o curso; as transcrições das
				gravações das aulas dos professores que acompanhamos durante o curso; bem como o
				diário de campo que elaboramos ao acompanharmos tais aulas.</p>
			<p>Na pesquisa do tipo intervenção, busca-se o planejamento e a implementação de ações
				com a intenção de produzir mudanças no processo de aprendizagem dos sujeitos
				participantes, bem como a posterior avaliação dos efeitos de tais ações (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">Damiani <italic>et al</italic>., 2013</xref>). Neste
				artigo, apresentamos a análise e a discussão de parte dos dados coletados das
				transcrições das gravações das aulas de dois (dos sete) professores participantes,
				Carlos e Bertha, durante o período em que o curso aconteceu. Assim, caracterizamos
				esta pesquisa como um estudo de caso, uma vez que foca no “[...] estudo profundo e
				exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira que permita o seu amplo e detalhado
				conhecimento [...]” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Gil, 2017</xref>, p. 58).</p>
			<p>No momento da observação realizada, o professor Carlos possuía 49 anos de idade,
				lecionando há 20 anos e ministrando a disciplina de Química, sendo formado em
				Engenharia Industrial Química e licenciado em Química. A professora Bertha,
				licenciada e bacharela em Ciências, com habilitação em Biologia, possuía 42 anos,
				lecionando há 22 anos e ministrando a disciplina de Biologia. Ambos atuavam na mesma
				Escola de Tempo Integral na cidade de Aparecida, São Paulo.</p>
			<p>Ressaltamos que o acompanhamento das aulas foi realizado, em 2021, no contexto da
				pandemia da COVID-19, de modo que, nesse período, as aulas presenciais estavam sendo
				retomadas e os alunos optavam ou não por ir à escola. Nessa escola o retorno às
				aulas presenciais se deu do seguinte modo: aqueles que escolhiam participar
				presencialmente das aulas cadastravam o nome na secretaria e, dependendo da
				quantidade de interessados, era feito um rodízio em que uma semana ia parte da turma
				e na outra os demais. Aqueles que não estavam presentes, ou que optaram por não
				retornar ao presencial, tinham a possibilidade de acompanhar as aulas por meio de
				vídeo chamada no <italic>Google Meet</italic> - todas as salas foram equipadas com
				computador e Webcam para a transmissão da aula - e recebiam materiais e atividades
				por meio do <italic>Google Classroom</italic>, além de terem acesso ao conteúdo do
				centro de mídias.</p>
			<p>As aulas observadas foram áudio gravadas, mediante autorização dos professores, por
				meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e as observações
				realizadas durante a prática pedagógica foram registradas nos diários de campo, uma
				vez que as gravações não captam as impressões que surgem no momento da
				interação.</p>
			<p>O acompanhamento das aulas desses professores aconteceu presencialmente entre os dias
				20 de setembro e 23 de outubro de 2021, às segundas-feiras, totalizando cinco dias,
				de modo que foram observadas quatro aulas do professor Carlos, em uma turma de 1º
				ano, e oito aulas da professora Bertha, conforme descrito nos <bold><xref
						ref-type="table" rid="t1">quadros 1</xref></bold> e <bold><xref
						ref-type="table" rid="t2">2</xref></bold>, respectivamente.</p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Quadro 1</label>
				<caption>
					<title>Descrição das aulas do professor Carlos que foram observadas</title>
				</caption>
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" style="background-color:#265A9B;" valign="top"
								>Data</th>
							<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
								>Código</th>
							<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
								>Tema</th>
							<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
								>Descrição</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">20/09/2021</td>
							<td align="center" valign="top">AC1</td>
							<td align="center" valign="top">Tabela Periódica</td>
							<td align="center" valign="top">Aula expositiva sobre a contextualização
								histórica acerca da tabela periódica e as mudanças na sua
								organização através do tempo.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">27/09/2021</td>
							<td align="center" valign="top">AC2</td>
							<td align="center" valign="top">Tabela Periódica</td>
							<td align="center" valign="top">Aula expositiva com apresentação de
								música para decorar a ordem das famílias e frases para guardar a
								ordem dos elementos químicos nas famílias. Vídeo “festa dos
								elementos químicos” para discutir rapidamente as propriedades dos
								elementos.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">04/10/2021</td>
							<td align="center" valign="top">AC3</td>
							<td align="center" valign="top">Distribuição eletrônica</td>
							<td align="center" valign="top">Lista com exercícios de múltipla escolha
								de vestibular sobre o conteúdo. Resolução comentada dos
								exercícios.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">18/10/2021</td>
							<td align="center" valign="top">AC4</td>
							<td align="center" valign="top">Ligação Química</td>
							<td align="center" valign="top">Aula expositiva sobre ligação química
								com foco em ligação iônica e definição sobre a regra do octeto.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">25/10/2021</td>
							<td align="center" colspan="3" valign="top">Professor tirou licença, foi
								substituído pela professora Bertha.</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: elaborado pelas autoras.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<table-wrap id="t2">
				<label>Quadro 2</label>
				<caption>
					<title>Descrição das aulas do professor Bertha que foram observadas</title>
				</caption>
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" style="background-color:#265A9B;" valign="top"
								>Data</th>
							<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
								>Turma</th>
							<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
								>Código</th>
							<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
								>Tema</th>
							<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
								>Descrição</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" rowspan="2">20/09/2021</td>
							<td align="center">3º ano</td>
							<td align="center">AB1</td>
							<td align="center">Teoria da Evolução</td>
							<td align="center" valign="top">Discussão do texto lido na aula anterior
								(prefácio intitulado 'Notícia Histórica', do livro <italic>A Origem
									da Espécies</italic>, de Charles Darwin), tendo sido requisitado
								como tarefa a construção de um mapa mental.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">2º ano</td>
							<td align="center" colspan="3">Não houve aula: tempo de estudo para a
								prova de gramática e literatura (PGL).</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" valign="top">27/09/2021</td>
							<td align="center" colspan="4" valign="top">Não houve aula: aplicação da
								PGL.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" rowspan="2">04/10/2021</td>
							<td align="center">3º ano</td>
							<td align="center">AB2</td>
							<td align="center">1<sup>a</sup> lei de Mendel</td>
							<td align="center" valign="top">Semana de estudos intensivos<sup><xref
										ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup>: revisão expositiva
								dialogada de conteúdo do 2º ano sobre a 1ª lei de Mendel, com a
								disponibilização de lista de exercícios.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">2º ano</td>
							<td align="center">AB3</td>
							<td align="center">Mitose e Meiose</td>
							<td align="center" valign="top">Foi planejada a construção de modelos da
								mitose e da meiose, por meio do uso de biscuit. Houve um problema
								durante a aula de educação física e o professor pediu um tempo para
								que os alunos terminassem uma atividade. Como estavam na sala de
								informática, conforme os alunos terminavam, a professora pedia que
								pesquisassem sobre o conteúdo para que fizessem o modelo na próxima
								aula.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" rowspan="2">18/10/2021</td>
							<td align="center">3º ano</td>
							<td align="center">AB4</td>
							<td align="center">Teoria da Evolução</td>
							<td align="center" valign="top">Estudo e discussão do jogo <italic>Da
									Célula à Singularidade</italic> (por meio de app no Android),
								que foi solicitado como tarefa para os estudantes jogarem.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">2º ano</td>
							<td align="center">AB5</td>
							<td align="center">Biotecnologia</td>
							<td align="center" valign="top">Relembra o que estava sendo visto até o
								momento. Discussão inicial sobre o que é Biotecnologia.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" rowspan="2">25/10/2021</td>
							<td align="center">1º ano</td>
							<td align="center">AB6</td>
							<td align="center">Origem da vida</td>
							<td align="center" valign="top">Relembra o que estava sendo estudado.
								Propõe a realização do exercício 1.1 disponível no caderno do aluno
									(<italic>Currículo em Ação</italic>, 1ª série EM, v. 3, p. 175),
								e discute as respostas.</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">3º ano</td>
							<td align="center">AB7</td>
							<td align="center">Isolamento geográfico e deriva genética</td>
							<td align="center" valign="top">Realiza a discussão da imagem do caderno
								do aluno (<italic>Aprender sempre</italic>, 3ª série EM, v. 2, p.
								10), que exemplifica uma situação fictícia sobre isolamento
								geográfico. Interpreta e propõe a realização do exercício 3 da p. 11
								do caderno do aluno.</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: elaborado pelas autoras.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap>
			<p>A análise dos dados é de cunho qualitativo que, segundo <xref ref-type="bibr"
					rid="B14">Günther (2006)</xref>, é baseada na compreensão ou interpretação dos
				fenômenos estudados pelo pesquisador em sua complexidade. Considerando que a prática
				pedagógica recebe influência das orientações para o ensino disciplinar que cada
				professor possui e que tais orientações são guiadas pelos conhecimentos e valores
				que determinam sua prática em sala de aula (<xref ref-type="bibr" rid="B10"
					>Gess-Newsome, 1999</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B19">Magnusson; Krajcik;
					Borko, 1999</xref>), analisamos a transcrição das aulas do professor Carlos e da
				professora Bertha com base na reflexão dos conhecimentos, dos valores e das práticas
				que compõem seu PCK sobre a NdC.</p>
			<p>A metodologia de análise adotada foi a Análise de Conteúdo (<xref ref-type="bibr"
					rid="B5">Bardin, 2008</xref>). Realizamos uma leitura flutuante da transcrição
				das aulas observadas, buscando localizar unidades de análise (palavras-chave ou
				frases), que foram classificadas nas seguintes categorias, estabelecidas a priori:
				(a) <italic>conhecimentos priorizados</italic>, (b) <italic>práticas envolvidas nas
					aulas</italic>, e (c) <italic>valores que guiam a prática pedagógica</italic>.
				Essas categorias foram definidas com base nas orientações para o ensino, descritas
				anteriormente. A partir da leitura das transcrições das aulas, agrupamos excertos
				que apresentavam relação com tais categorias, priorizando o detalhamento dos
				momentos em que os aspectos da NdC foram abordados, no sentido de verificar o modo
				como os professores realizaram a discussão em sala de aula.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="results|discussion">
			<title>Resultados e discussão</title>
			<p>Apresentamos a seguir a análise das aulas dos professores Carlos e Bertha, de modo a
				identificarmos os fatores que orientam as respectivas práticas pedagógicas, por meio
				dos conhecimentos, dos valores e das práticas envolvidas nas aulas que
				acompanhamos.</p>
			<sec>
				<title><italic>Professor Carlos</italic></title>
				<p>Quanto à categoria <italic>conhecimentos priorizados</italic>, destacamos nas
					aulas do professor Carlos o enfoque dado aos conceitos científicos. Já na
					categoria <italic>práticas envolvidas nas aulas</italic>, ele leva em
					consideração o uso de definições, exemplos, esquemas e artifícios para que os
					alunos memorizem tais conceitos, como exemplificado nos seguintes excertos.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Carlos: A gente vai aprender a usar a tabela mesmo sem ter
								tabela<italic>, olha que maluco. Sabe por que? Porque nós vamos
								guardar uns macetinhos, uns esqueminhas, que</italic> vocês vão
							guardar principalmente esses elementos aqui ó<italic>, que são os mais
								usados, tá</italic>. (AC1)</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>Lógico que isso é apenas para ajudar. Meu filho, por
								exemplo, dei aula pra ele ano passado, ele não gostava, assim, não é
								só ele, ele preferia guardar decorando mesmo, cada um tem sua
								maneira. Mas, se</italic> cantar musiquinha ajuda um pouco.
							(AC2)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>Esses excertos demonstram que as estratégias para o ensino se limitam a
					apresentar o conteúdo de modo que os alunos aprendam mecanicamente as
					informações dispostas. Os conhecimentos científicos são parte do que o professor
					precisa desenvolver com os estudantes, porém o Currículo atual preza pelo
					desenvolvimento de competências e habilidades que vão além do ensino de
					conceitos. Isso demonstra que o conhecimento do currículo atual não faz parte
					e/ou tem baixa influência sobre o processo de escolha dos conhecimentos que são
					priorizados em sua prática pedagógica, uma vez que o professor não utiliza
					materiais curriculares que contradigam seus valores quanto ao que e como um
					conteúdo deve ser ensinado (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gess-Newsome,
						1999</xref>).</p>
				<p>Pela fala do professor, em momentos da aula e em conversas informais fora da sala
					de aula, foi possível verificar que ele usa a experimentação como estratégia
					para trabalhar os conceitos com os estudantes. Outras estratégias, como o uso de
					vídeos e de simuladores, em outras aulas, também foram identificadas, como
					exemplificam os excertos que seguem.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>Pessoal, então... aula passada a gente... sexta-feira eu
								passei pra vocês um pouquinho da matéria, vocês fizeram a</italic>
							prática experimental <italic>do teste da chama</italic>. (AC2)</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Carlos: [...] <italic>Vocês lembram uma vez que eu pus assim o</italic>
							simulador <italic>que o núcleo do átomo começava a tremer, assim, a
								balançar, balançar, eu igualava os elétrons e ele parava?</italic>
							(AC4)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>A primeira aula que acompanhamos foi a única em que o professor apresentou a
					contextualização histórica relacionada à Tabela Periódica, de modo que os alunos
					puderam ter certo contato com as características da NdC. No entanto, sua fala no
					início da aula indica que essa estratégia foi planejada para acontecer com a
					nossa presença em sala.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>Hoje vai ser química, porque</italic> eu tava [sic]
							esperando a Natália vir pra cá pra gente começar um assunto
								novo<italic>. Lembra que eu tava falando pra vocês... vamos
								encerrar... na aula passada foi robótica e eu queria começar um
								assunto novo com ela aqui, porque, como ela vai ficar um mês com a
								gente então ela vai acompanhar</italic>. (AC1)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>A ideia da observação das aulas era acompanhar a rotina dos professores e
					perceber como eles realizariam sua prática pedagógica, e se o curso de formação
					impactou, de alguma forma, na sua atuação em sala de aula. Não foi sugerido que
					os professores criassem práticas que trabalhassem aspectos da NdC enquanto
					estivéssemos realizando a observação, embora tenha ficado evidente que o
					professor quis demonstrar que estava colocando em prática o que viu no
					curso.</p>
				<p>No caso dessa aula, é notável que ele buscou realizar a contextualização
					histórica no momento em que estávamos em sala, porém, o enfoque não foi para a
					discussão explícita de aspectos da NdC, mas para a apresentação de informações
					sucessivas de como os cientistas organizaram os elementos químicos de acordo com
					a semelhança de suas propriedades. Os excertos seguintes ilustram o modo como as
					informações foram levadas aos estudantes.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>Aí veio Newlands.</italic> Newlands pensou o seguinte: se
							a gente é... escrever os... colocar os átomos em ordem<italic>, vai
								chegar uma hora que essas propriedades vão ficar parecidas.</italic>
							Então ele fez assim, de sete em sete, as propriedades se
								repetiam<italic>. Como as propriedades se repetem de sete em sete,
								ou seja, na oitava, o átomo volta a ter a mesma propriedade do
								primeiro, então ele compara com as notas musicais</italic>. [...]
							Realmente, começou a bater... só que começou a bater até certo tempo.
							Começou a aumentar o número de elementos químicos e começou a falhar,
							tá. Das três, essa aqui foi a menos aceita, foi até ridicularizada por
							alguns cientistas<italic>, tá, Newlands</italic>. (AC1)</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>Bem, aí chegou aqui, Mendeleev. Mendeleev,</italic> ele
							tinha mania de colocar as propriedades dos elementos químicos, as
							características deles, em cartões<italic>. Então,</italic> um dia
							resolve <italic>o quê, pôs na mesa e começou a arrumar os cartões, como
								se fosse carta de supertrunfo</italic>. [...] <italic>Ele separou, a
								primeira vez que separaram, na primeira tabela periódica, eles
								colocaram em ordem crescente de massa atômica</italic>. [...]
							(AC1)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>Nesses excertos, destacamos colocações que insinuam que o conhecimento foi sendo
					construído ao acaso. Os cientistas escolhem algumas características - mas com
					base em que? Que características são essas? Newlands pensou em colocar os átomos
					em ordem e de sete em sete as propriedades se repetiam - a ordenação veio antes
					da 'coincidência' das propriedades? Qual foi o princípio dessa organização?
					Mendeleev resolveu colocar as propriedades em cartas e organizá-las - Isso
					aconteceu de um dia para o outro ou levou tempo? A exposição considera o
					conhecimento de partes dos acontecimentos suficientes para a compreensão do
					todo, simplificando, reduzindo e até mesmo esquecendo processos de unificação
					fundamentais para a compreensão dos modos de produção do conhecimento
					científico, característica compatível com a percepção exclusivamente analítica e
					reducionista da Ciência (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Gil-Pérez <italic>et
							al</italic>., 2001</xref>). Além disso, foi colocado pelo professor que
					as ideias dos cientistas não foram aceitas porque falharam, mas não foi
					explicado que tipo de falha foi essa, por quanto tempo aquela ideia perdurou na
					comunidade científica, ou o quanto ela contribuiu (ou não) para o
					desenvolvimento científico e tecnológico.</p>
				<p>É necessário levar em consideração que em pouco tempo de aula não é possível
					trazer todo o contexto histórico por trás da construção da Tabela Periódica,
					porém, é importante o cuidado para que não se passe a ideia de uma ciência que
					vem evoluindo e acumulando conceitos de modo linear, tendência apontada por
						<xref ref-type="bibr" rid="B12">Gil-Pérez <italic>et al</italic>.
						(2001)</xref> como fomentadora de uma percepção deformada da ciência. Esse
					olhar anacrônico para a história faz com que as ideias sejam passadas de modo
					que se evidenciam a evolução das teorias e dos conceitos considerados corretos,
					criando-se, ainda, “[...] uma interminável linhagem de ‘precursores’ ou ‘pais’
					da ciência” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Alfonso-Goldfarb; Ferraz; Beltran,
						2004</xref>, p. 50-51).</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>Então,</italic> o primeiro que pensou nisso foi o
								Döbereiner<italic>, aqui ó...</italic> (AC1)</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>Bem, Mendeleieev,</italic> ele foi considerado o pai da
							tabela periódica, por que a ideia dele foi mais aceita no mundo
							científico, tá. [...] (AC1)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>O modo como as informações foram apresentadas pelo professor são compatíveis com
					a percepção de ciência acumulativa, de crescimento linear, analítica e
					reducionista, apontadas como deformadas por <xref ref-type="bibr" rid="B12"
						>Gil-Pérez <italic>et al</italic>. (2001)</xref>. Além disso, o modo como
					foi conduzida a exposição durante a aula é compatível com a abordagem implícita
					da NdC, em que não é realizada uma discussão intencional que permite o debate
					sobre os modos de produção do conhecimento (<xref ref-type="bibr" rid="B30"
						>Vázquez-Alonso <italic>et al</italic>., 2014</xref>). <xref ref-type="bibr"
						rid="B9">García-Carmona, Vázquez e Manassero (2012)</xref> sugerem que a
					compreensão da NdC pode ser aprimorada introduzindo sua discussão de modo
					explícito, oportunizando momentos de reflexão entre os estudantes, mediados
					intencionalmente pelo professor, permitindo o debate de ideias sobre a NdC.</p>
				<p>Observamos, em momentos de aula e de conversa com o professor, que ele preza pela
					preparação dos alunos para as avaliações externas, como o ENEM e o vestibular,
					conforme destacado nos excertos que seguem.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Carlos: [...] <italic>então, eu falei,</italic> não é pra guardar a
							tabela, mas nós vamos aprender a guardar isso aqui<italic>, porque vocês
								vão ver... assim, sem ter a tabela vocês vão conseguir montar uma
								tabela pra resolver o exercício. Pô, se tiver a tabela, beleza. Como
								eu falei,</italic> têm vestibulares que põe a tabela e tem
							vestibular que põe a tabela incompleta, por isso que é importante saber
							essas coisas, tá. (AC1)</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Carlos: Enquanto o vestibular é conteudista<italic>, ele cobra decoreba,
								a gente tem que usar, certo. Há uma mudança, mas uma mudança,
								eu</italic> só quero ver depois quando no vestibular e no ENEM tiver
							ó, realmente agora a gente vai parar de decorar<italic>. Eu falo isso
								porque, eles falam assim, ah não pode ficar decorando,</italic> mas
							todo processo seletivo é decoreba<italic>. E eu quero que vocês passem
								naquilo que vocês queiram. Eu quero mesmo.</italic> Então a gente
							vai trabalhar assim enquanto eles tiverem cobrando<italic>,
								ainda</italic>. (AC2)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>O excerto apresenta a mesma justificativa das avaliações externas para explicar
					porque ele segue a linha conteudista e o motivo pelo qual não tem trabalhado
					aspectos da NdC com os estudantes, o que está relacionado com a categoria
						<italic>valores que guiam a prática pedagógica</italic>. Mesmo considerando
					interessante outras abordagens, ele usa como guia de suas aulas os vestibulares.
						<xref ref-type="bibr" rid="B23">Rodriguez (1993)</xref> aponta que
					professores experientes e que apresentam orientações para o ensino já
					consolidadas recorrem à justificativa das avaliações externas para manter sua
					crença original sobre os conteúdos e as estratégias a serem utilizados, quando
					confrontados com uma orientação diferente da sua.</p>
				<p>Além disso, o professor aponta a carga horária como fator que impacta no modo
					como aborda os conceitos em sala de aula, uma vez que considera que possui pouco
					tempo com os estudantes. Essa questão do tempo aparece como justificativa das
					escolhas pedagógicas do professor em outras aulas, como exemplificado na fala
					que segue.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>Como eu falei, a nossa aula é curta, o tempo é curto,
								então, eu quero que vocês saibam desenvolver exercício, por que o
								foco nosso é ENEM, tá</italic>. (AC1)</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Carlos: <italic>A gente vai estudar três tipos de ligações. Como esse ano
								é um ano pandêmico, eu vou trabalhar no resumo de novo. Porque eu
								preciso pôr vocês no caminho certo pra gente tocar os demais anos.
								Daí depois a gente vai voltando, retomando algumas coisas. A
								primeira ligação que a gente vai conhecer é a ligação iônica. A
								ligação iônica acontece assim ó, copia aqui que já vou explicar pra
								vocês</italic>. (AC4)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gess-Newsome (1999)</xref> aponta a falta de
					tempo como um dos motivos que impede que um professor adote materiais e
					estratégias diferenciados, somando a ele o conhecimento do conteúdo, suas
					orientações e as determinações curriculares. Desse modo, professores experientes
					adotam (mesmo que de modo inconsciente) estratégias que “funcionaram bem para
					eles no passado” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gess-Newsome, 1999</xref>, p.
					81, tradução nossa) e que se mostraram pedagogicamente eficientes e de fácil
					aplicação.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B19">Magnusson, Krajcik e Borko (1999)</xref>
					ressaltam que os conhecimentos e valores orientam a prática pedagógica de um
					professor, de modo que ter conhecimento sobre a NdC, sobre estratégias para
					abordá-la, sobre sua relação com o Currículo e sobre a importância de discuti-la
					podem não ser suficientes para desenvolvê-la. É necessário que o professor se
					incomode com seus valores iniciais (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Smith;
						Neale, 1989</xref>), reconhecendo a inserção de aspectos da NdC em suas
					aulas como algo que pode contribuir para a formação do estudante.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title><italic>Professora Bertha</italic></title>
				<p>Quanto à categoria <italic>conhecimentos priorizados</italic>, a professora
					Bertha tem como base o ensino do conteúdo previsto no Currículo Paulista, usando
					como caminho para o desenvolvimento das aulas o material didático enviado pela
					Secretaria de Educação do Estado de São Paulo para os estudantes. Além do
					conteúdo científico, ela também aborda aspectos da NdC, a discussão de temas
					atuais que estão na mídia e sobre as <italic>fake news</italic>.</p>
				<p>Quanto aos aspectos da NdC, observamos que a professora usou tanto a abordagem
					explícita quanto a abordagem implícita ao realizar discussões em sala de aula.
					Foi possível observar que as aulas 1 e 6 foram planejadas para abordar aspectos
					da NdC junto aos estudantes, sendo usada a abordagem explícita. As demais aulas
					tinham como foco o ensino de conceitos ou a discussão de notícias em que
					apareceram falas da professora que transmitem informações sobre a NdC de modo
					implícito, como na semana de estudos intensivos. Nessa semana, a professora fez
					a revisão da lei de Mendel. Segundo ela:</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: <italic>A gente vai parar tudo que a gente tava fazendo e nós
								vamos voltar na semana de estudos intensivos.</italic> Um conteúdo
							que sempre cai no vestibular e, por conta da pandemia, eu acho que não
							foi muito legal, foi a Lei de Mendel<italic>. Essas atividades</italic>
							[folha entregue no início da aula] <italic>são sobre a lei de Mendel,
								certo. Eu trouxe 50 exercícios para vocês fazerem. Vocês podem fazer
								com o coleguinha, mas primeiro a gente vai lembrar: o que seria a
								Lei de Mendel?</italic> (AB2)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>A escolha desse conteúdo se deu por causa do vestibular, o que indica um valor
					que influencia tais escolhas. De modo geral, a aula tinha o objetivo de revisar
					o conteúdo sobre a Lei de Mendel por meio de uma lista exercícios, porém os
					estudantes demonstraram não se lembrar dela, uma vez que foi estudado no ano
					anterior por meio das aulas online - eles alegaram que não assistiam às aulas,
					só faziam as atividades, inclusive uma aluna fez o seguinte comentário:
						“<italic>Sora</italic> [sic]<italic>, vou explicar pra você como foi o
						segundo ano: você vinha na escola pegava o pacote, chegava no WhatsApp tinha
						todas as respostas lá, a gente só assinalava x, nem lia</italic>”. Assim, a
					professora Bertha precisou rever todo o conceito em poucos minutos e usou
					algumas justificativas relativas a como Mendel elaborou a lei conhecida como Lei
					de Mendel, conforme destacado a seguir:</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: <italic>Então, Mendel, quando a gente fala de Lei de Mendel, a
								gente vai lembrar sempre da experiência da ervilha. Quem era
								Mendel?</italic> Mendel era um monge, certo. Mendel não era biólogo,
							ele era matemático. Mas se ele era monge, ele gostava de cultivar e ele
							era curioso<italic>. Então, ele começou a ver que as características
								eram passadas de uma geração para outra.</italic> Como ele era muito
							bom de matemática, ele fez a Lei, ele elaborou a Lei que a gente conhece
							como a Lei de Mendel. (AB2)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>O modo como a professora trouxe as informações pode fazer com que os estudantes
					reforcem o estereótipo de uma Ciência individualista e elitista (<xref
						ref-type="bibr" rid="B12">Gil-Pérez <italic>et al</italic>., 2001</xref>),
					em que o conhecimento científico é percebido como obra de gênios que trabalham
					isolados, não sendo reconhecido o trabalho coletivo ou dos precursores daquele
					estudo. Apesar disso, ela traz a visão de que a Ciência não é feita apenas por
					químicos, físicos e biólogos, mas por pessoas de outras áreas que utilizam
					conceitos matemáticos, como nesse caso, para elaborar leis e teorias. Nas aulas
					1 e 6, em que a professora trabalhou de modo explícito os aspectos da NdC,
					observamos que ela evidencia a coletivização da ciência e a construção social do
					conhecimento científico, o financiamento das pesquisas, a comunicação e o
					reconhecimento do conhecimento entre os pares, o papel das hipóteses na
					construção do conhecimento, a diferença entre conhecimento científico e crenças
					e mitos.</p>
				<p>A aula 1 da professora Bertha foi destinada à discussão do prefácio do livro
						<italic>A Origem das Espécies</italic>, de Charles Darwin, intitulado
						<italic>Notícia Histórica</italic>. O texto foi disponibilizado na aula
					anterior aos estudantes, que deveriam realizar a leitura e uma espécie de resumo
					na forma de mapa mental. Após recolher a atividade que fora deixada como tarefa,
					a professora iniciou a discussão relembrando algumas questões que,
					aparentemente, já havia iniciado na aula anterior, conforme o excerto:</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: [...] <italic>quem escreveu esse texto? Foi Charles
								Darwin</italic> [...] <italic>então nós vimos que</italic> o
							conhecimento científico sempre vem baseado no que está de trás, que já
							teve uma descoberta<italic>. Lembra quando a gente descobriu a
								vacina.</italic> Por que que a vacina saiu rápido? Porque você já
							tinha um conhecimento antes<italic>. Então, a mesma coisa,</italic> por
							que que eu trouxe esse texto? Era a construção de como ele chegou na
							teoria dele<italic>. Então, para vocês perceberem que</italic> ele
							escreveu uma teoria, que a gente vai ver a partir de hoje, porém ele se
							baseou em muitas outras teorias e conhecimento científico que já tinha
							antes [...] (AB1)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>A professora indica que houve uma discussão inicial com os estudantes sobre o
					processo de construção social e coletiva do conhecimento científico, em que os
					pesquisadores se baseiam em trabalhos, teorias e conhecimentos construídos e
					publicados por outros pesquisadores para embasarem o seu trabalho. Sua fala
					ressalta ainda que houve a discussão sobre o tempo levado para a produção da
					vacina contra a COVID-19 devido a essa dinâmica de produção do conhecimento.
					Isso evidencia a discussão de aspectos da NdC que se aproximam do que é
					considerado nas pesquisas como uma visão mais próxima do processo de construção
					do conhecimento científico (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Acevedo-Díaz
							<italic>et al</italic>., 2007</xref>). Também reflete em sala de aula
					aspectos relacionados à coletivização da ciência e à construção social do
					conhecimento científico, que são características consensuais da NdC (<xref
						ref-type="bibr" rid="B2">Acevedo-Díaz <italic>et al</italic>., 2007</xref>;
						<xref ref-type="bibr" rid="B17">Lederman <italic>et al</italic>.,
						2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">McComas; Clough; Almazroa,
						2002</xref>), auxiliando na desmitificação da Ciência individualista e
					elitista, inclusive no que diz respeito aos precursores desta ou daquela teoria,
					como ilustra o excerto que segue.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: Cada um foi construindo um pedacinho<italic>, mas o primeiro mais
								famoso foi o Lamarck</italic>. [...] <italic>Porque eles
								acharam</italic> que a teoria dele era a que mais tinha
								sentido<italic>. Ele propôs uma</italic> teoria que seria bem
								aceita<italic>, mas ele era o único? Ele foi o primeiro? Quem foi o
								primeiro?</italic> (AB1)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>É possível verificar que a professora ressalta que outros pesquisadores
					realizaram estudos que auxiliaram na construção do conhecimento, porém houve uma
					teoria que fez mais sentido e foi aceita pela comunidade científica, ressaltando
					aspectos da construção social do conhecimento científico, como a interação
					profissional entre cientistas, a comunicação do conhecimento e as questões
					relacionadas à lógica por trás da aceitação de uma teoria. O seguinte excerto
					também apresenta tais aspectos, somando a eles questões relacionadas à
					credibilidade do pesquisador e ao financiamento da pesquisa.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: <italic>E aí vem a teoria de Darwin. De Darwin e Wallace. Lembra
								que eu falei que Darwin e Wallace são duas pessoas diferentes? O
								Darwin fala no texto: eu e Wallace;</italic> mas demorou muito tempo
							pra todo mundo aceitar<italic>. O que acontecia, Darwin tinha dinheiro,
								então Darwin poderia viajar pelo mundo a fora no seu navio, Beagle,
								certo. O navio dele chamava Beagle. Ele pode viajar para o mundo
								estudando as características diferentes dos seres vivos. Wallace não
								tinha tanto dinheiro assim,</italic> ele dependia da FAPESP e da
								Capes<italic>, coitado.</italic> Wallace dependia de financiamento
							para a pesquisa dele<italic>. Então, ele estudou em uma ilha menor e em
								proporções menores, mas</italic> os dois chegaram à mesma
								conclusão<italic>, tanto que Darwin, ele fala no livro deles,
								eu/Wallace, várias vezes... ele fala umas duas ou três vezes no
								final do texto</italic>. (AB1)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B24">Latour e Woolgar (1997)</xref> relacionam
					credibilidade e financiamento como partes essenciais do trabalho científico,
					resumindo essa relação no que denominaram como ciclo de credibilidade do
					cientista, por meio do qual os pesquisadores conseguem mais investimentos para
					seus trabalhos, uma vez que quanto mais credibilidade, maior o reinvestimento na
					sua pesquisa, o que gera mais credibilidade ao trabalho. De certa forma, a
					professora aborda essa relação, mas não consegue aprofundar a discussão com os
					estudantes.</p>
				<p>A aula 6 de Bertha aconteceu no 1º ano quando ela substituiu o professor Carlos
					que estava de licença. Nessa aula, a professora finalizou a discussão do assunto
					iniciado na aula anterior e realizou a situação de aprendizagem 3, intitulada
						<italic>Vida, Terra e Cosmos: a construção do conhecimento</italic>,
					prevista no Caderno do Aluno do material curricular do Estado de São Paulo. O
					foco da aula foi a realização, pelos alunos, do exercício 1.1 da página 175 do
						<italic>Currículo em Ação</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B25">São
						Paulo, 2021</xref>). Essa atividade buscava levantar hipóteses sobre a
					origem do universo, bem como discutir a diferença entre conceito científico,
					crenças e mitos. O tempo dessa aula foi destinado para a resolução do exercício
					pelos alunos, mas a professora não teve tempo de verificar as respostas e
					discuti-las. Ainda assim, foi possível perceber, durante a explicação dos
					exercícios, que a professora já havia trabalhado aspectos da investigação
					científica com os estudantes, como o levantamento de hipóteses.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: <italic>Agora, página 175. O que que a gente aí fazer? O
								exercício... Página 175, exercício 1.1. O que que a gente tá
								pensando? Como se originou a vida em nosso planeta e de onde
								viemos... você já se questionou sobre? Agora é mais um momento para
								você se questionar.</italic> Elabore uma hipótese, lembrando lá no
							começo do ano, lembra da caneta que a gente fez dos astronautas, que a
							gente fez uma hipótese... <italic>Vocês lembram disso?</italic>
							[comentários dos alunos] <italic>É... eles fizeram uma caneta
								própria...</italic> lembra que antes da gente chegar na resposta a
							gente fez um monte de hipóteses? [...] <italic>Então, ninguém chegou no
								bendito do lápis, nós elaboramos milhares de outras canetas... Então
								a gente fez o que? A gente</italic> elaborou um monte de hipóteses,
							um monte de coisas que a gente inventou<italic>. Porque era uma
								hipótese,</italic> depois a gente foi testar quais eram as hipóteses
							que dariam certo<italic>, certo?</italic> (AB6)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>A atividade da <italic>caneta do astronauta</italic>, comentada na fala da
					professora, é a mesma que ela compartilhou conosco nas reflexões do curso de
					formação. A fala da professora vem no sentido de relembrar a atividade que eles
					já haviam feito de elaboração de hipóteses para a <italic>caneta do
						astronauta</italic>, mas ela não discute novamente o que seria uma hipótese,
					resumindo-a a coisas inventadas, que depois foram testadas. Não é possível saber
					como foi feita a reflexão durante a atividade da <italic>caneta do
						astronauta</italic>, porém essa fala pode induzir os estudantes à percepção
					de que 'qualquer coisa' é válida como uma hipótese, simplificando ou reduzindo
					estudos que contribuem para a elaboração de hipóteses.</p>
				<p>A fala da professora também indica que já havia discutido com os estudantes as
					hipóteses da origem do universo, inclusive por meio do jogo <italic>Da célula à
						Singularidade</italic> (usado também com os estudantes do 3º ano):</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: <italic>Aí agora, vocês vão pensar numa hipótese sobre a origem
								do universo</italic> [...] <italic>que hipótese(s) pode(m) ser
								levantadas? Discuta(m) e anote(m).</italic> A gente já discutiu
							várias hipóteses da origem do universo, lembra<italic>?</italic>
							[comentário dos alunos] <italic>Vamo</italic> [sic] <italic>lá... aí
								depois, isso na letra a, quais as hipóteses que vocês conhecem sobre
								a origem do universo, certo? Então vocês vão colocar todas que vocês
								conhecem</italic>. [aluno pergunta se pode usar o jogo] Sim, pode
							usar o jogo. (AB6)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>As demais questões também foram lidas pela professora que enfatizou o pouco tempo
					que havia para o final da aula, não entrando em mais detalhes sobre o que seria
					uma teoria científica e um fato científico, sendo uma das dúvidas dos estudantes
					posteriormente. Como não foi possível acompanhar a continuidade dessa aula, não
					houve como verificar se a professora Bertha realizou a discussão das respostas
					dos alunos.</p>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B1">Abell (2007)</xref>, o conhecimento do
					assunto a ser ensinado, somado à experiência prática do professor, gera
					confiança na abordagem do conhecimento, o que foi possível verificar nas aulas
					da professora Bertha, que demonstrou ter conhecimento sobre a NdC, contribuindo
					para as discussões explícitas junto aos alunos. Seu conhecimento do currículo
					orienta também o uso de variados materiais e estratégias didáticas, guiando-se
					pelo uso do Caderno do Aluno e trazendo elementos que conversam com o tema por
					meio de materiais complementares. Assim, inferimos que o conhecimento do
					Currículo molda o conhecimento das estratégias e dos materiais da
					professora.</p>
				<p>Nessa perspectiva, a categoria <italic>práticas envolvidas nas aulas</italic> é
					evidenciada de forma variada: leitura de texto, uso de jogos, leitura de
					notícias e uso de biscuit para a criação de modelos, demonstrando que a
					professora tem conhecimento de estratégias variadas. Entretanto, nem sempre o
					que havia sido planejado pôde ser executado, sendo necessário que ela usasse sua
					experiência prática para gerenciar situações inesperadas. Como exemplo, citamos
					o dia em que realizaria a atividade de modelização com o biscuit e os estudantes
					não estavam na sala, então foi procurá-los e eles estavam na sala de informática
					realizando prova de educação física.</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: <italic>Eu trouxe massinha de biscuit, e aí vocês vão dividir em
								três grupos e vão criar modelinhos na massinha de biscuit. Só que,
								tipo assim, com esse negócio da prova,</italic> eu não estava
							contando com a prova. A gente ia conversar sobre a mitose e a meiose, aí
							eu ia trazer a massinha pra gente começar, mas com essa história da
							prova eu acho que não vai dar tempo<italic>. Então, agora,</italic>
							aproveita que vocês estão aqui na internet, na sala de informática, e aí
							vão estudando um pouquinho sobre mitose e meiose<italic>, aí vocês vão
								se dividir em três grupos, ai na próxima aula eu trago a massinha
								pra vocês. Aí a gente continua na próxima aula, aí eu vou trazer a
								massinha e vocês vão fazer o modelinho na massinha de biscuit, tá lá
								na geladeira</italic> [...] vocês podem ir estudando, vendo vídeos e
							elaborando mais ou menos. (AB3)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>Enquanto os estudantes finalizavam a prova e realizavam a pesquisa, a professora
					comentou que faria um quadro comparativo na lousa sobre mitose e meiose. Os
					alunos se dividiriam em três grupos e ela sortearia o modelo que cada um iria
					construir e, após o tempo necessário para secar a massa, eles os usariam como
					modelo para o laboratório de Ciências que estava em construção.</p>
				<p>Por fim, no que se refere à categoria <italic>valores que guiam a prática
						pedagógica,</italic> verificamos que a professora Bertha segue o que o
					manual escolar apresenta, principalmente no que diz respeito à cronologia de
					abordagem dos conceitos e às atividades propostas. Segundo <xref ref-type="bibr"
						rid="B10">Gess-Newsome (1999)</xref>, essa é uma característica de professor
					de início de carreira, que adota orientações provenientes dos guias
					curriculares. Porém, quando observamos a formação e a atuação profissional da
					professora Bertha chegamos à conclusão de que esse apoio pode vir do fato de ela
					também ser Professora Coordenadora de Área da área de CN, participando de
					formações sobre o Currículo que são passadas aos professores nas Aulas de
					Trabalho Pedagógico Coletivo por Área, por exemplo.</p>
				<p>Apesar disso, ela não se prende ao material, buscando elementos além do que é
					proposto para complementar suas aulas, como, por exemplo, o uso do jogo
						<italic>Da Célula à Singularidade</italic>, do texto introdutório do livro
					de Charles Darwin e da atividade de modelização com biscuit. Além de se pautar
					no material curricular, a professora também faz escolhas com base nas avaliações
					externas, como já ilustrado ao escolher o conteúdo a ser abordado na semana de
					estudos intensivos e na aplicabilidade dos saberes para os estudantes:</p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Bertha: [...] pra que que serviu <italic>todos aqueles estudos que a
								gente fez?</italic> Pra que que a gente usa? Qual a aplicação
								daquilo<italic>? Onde aquilo ali... pra que eu tenho que saber toda
								aquela teoria?</italic> Onde eu vou usar<italic>?</italic> (AB5)</p>
					</list-item>
				</list>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B10">Gess-Newsome (1999)</xref> indica que as
					orientações de ensino se desenvolvem no início da carreira do professor,
					sofrendo influência dos primeiros contatos com a sala de aula (mais precisamente
					os três primeiros anos de prática docente) e podem ser aperfeiçoadas e
					modificadas ao longo do tempo com cursos de pós-graduação e especialização, bem
					como cursos de formação continuada. A professora Bertha teve esse contato já na
					graduação, no estágio supervisionado, e indicou ter uma participação ativa em
					atividades de extensão e iniciação científica. Além disso, em conversas nos
					momentos do jantar na escola, indicou se manter atualizada com cursos de
					formação realizados pela Secretaria da Educação e também por Universidades. Isso
					demonstra que suas orientações de ensino permitem reconhecer e se apropriar de
					novos conhecimentos e valores que influenciarão sua prática.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title><italic>Fatores que orientam a prática pedagógica de Carlos e
					Bertha</italic></title>
				<p>O <bold><xref ref-type="table" rid="t3">quadro 3</xref></bold> resume os fatores
					identificados como orientadores da prática pedagógica dos professores Carlos e
					Bertha e que podem contribuir ou dificultar a inserção da NdC em sala de
					aula.</p>
				<table-wrap id="t3">
					<label>Quadro 3</label>
					<caption>
						<title>Síntese dos fatores que orientam a prática pedagógica dos professores
							Carlos e Bertha</title>
					</caption>
					<table frame="hsides" rules="groups">
						<thead>
							<tr>
								<th align="left" style="background-color:#265A9B;" valign="top"
									>Categorias</th>
								<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
									>Carlos</th>
								<th align="center" style="background-color:#265A9B;;" valign="top"
									>Bertha</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left" valign="top">(a) Conhecimentos
									<break/>priorizados</td>
								<td align="center" valign="top">Conhecimento do conteúdo específico,
									apoiado no que os vestibulares e as avaliações externas exigem;
									baixa influência do conhecimento sobre a NdC e a importância de
									abordá-la; sofre pouca influência das demandas do Currículo
									atual.</td>
								<td align="center" valign="top">Conhecimento do conteúdo específico
									articulado com o currículo; conhecimento de aspectos da NdC e da
									importância de abordá-los de modo explícito; complemento às
									demandas do Currículo, com discussões atuais e relacionadas ao
									cotidiano dos alunos.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left" valign="top">(b) Práticas envolvidas nas
									<break/>aulas</td>
								<td align="center" valign="top">Predominância de aulas expositivas,
									com a justificativa do tempo insuficiente das aulas; aborda
									aspectos da NdC de modo implícito para contextualizar episódios
									históricos da construção do conhecimento.</td>
								<td align="center" valign="top">Práticas variadas que se baseiam no
									seu conhecimento de estratégias para o ensino de Ciências;
									conhecimento de materiais e estratégias que permitem a abordagem
									explícita de aspectos da NdC.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left" valign="top">(c) Valores que guiam a
									<break/>prática pedagógica</td>
								<td align="center" valign="top">Valores relacionados às demandas das
									avaliações externas, que influenciam diretamente nos conceitos a
									serem desenvolvidos e no modo como serão abordados em suas
									aulas.</td>
								<td align="center" valign="top">Valores que se apoiam na
									aplicabilidade do saber no cotidiano dos estudantes, na demanda
									das avaliações externas e na importância de seguir o que orienta
									os manuais escolares.</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
					<table-wrap-foot>
						<attrib>Fonte: elaborado pelas autoras.</attrib>
					</table-wrap-foot>
				</table-wrap>
				<p>É possível observar que o professor Carlos tem um conhecimento frágil sobre a
					NdC, priorizando em suas aulas a abordagem de conceitos científicos por meio de
					estratégias de memorização e de aulas expositivas. Ele se guia por avaliações
					externas, como ENEM e vestibulares, para preparar e justificar sua prática em
					sala de aula. Esses fatores dificultam a abordagem da NdC, que demanda
					estratégias e materiais variados para tecer discussões contextualizadas e
					apresentar relações desse metaconhecimento complexo.</p>
				<p>Já a professora Bertha apresenta orientações de Ensino que contribuem para a
					abordagem da NdC em sala de aula. Além de demonstrar conhecimento sobre aspectos
					da NdC, ela consegue integrá-los aos conteúdos curriculares usando materiais e
					estratégias variadas, favorecendo um ambiente de diálogo com os estudantes. A
					principal característica da abordagem da NdC usada por Bertha é a explícita e
					reflexiva, condição essencial para a eficácia do ensino (<xref ref-type="bibr"
						rid="B30">Vázquez-Alonso <italic>et al</italic>., 2014</xref>). Seus valores
					e crenças para o ensino vão além das demandas de avaliações externas, seguindo
					as competências do Currículo e a funcionalidade para o estudante.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B19">Magnusson, Krajcik e Borko (1999</xref>, p. 111)
					indicam que os valores e as crenças do professor impactam diversos componentes
					do PCK, pois “[...] a transformação do conhecimento geral em conhecimento
					pedagógico do conteúdo não é uma questão direta de ter conhecimento; é também um
					ato intencional em que os professores escolhem reconstruir sua compreensão para
					se adequar a uma situação”. Assim, para ter um PCK sobre a NdC consolidado de
					modo a proporcionar práticas efetivas sobre a NdC em sala de aula, é necessário
					que o professor tenha: conhecimento sobre a NdC, bem como valores e crenças para
					o ensino alinhados com os objetivos/importância de ensinar e aprender sobre a
					NdC.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Esta pesquisa buscou verificar os fatores que orientam o ensino de aspectos da NdC
				dos professores Carlos e Bertha, de modo a inferir o que pode contribuir ou
				dificultar sua inserção em sala de aula. Por meio da observação das aulas dos
				professores, foi possível verificar que o professor Carlos prioriza o ensino de
				conceitos por meio de estratégias de exposição e memorização, apresentando a
				discussão da NdC como modo de contextualizar o assunto a ser tratado. Isso indica
				que os valores que orientam sua prática se pautam nas avaliações externas como guia
				de conhecimentos a serem priorizados.</p>
			<p>Ressaltamos que, no caso do professor Carlos, identificamos orientações para o ensino
				de ciências de modo geral, e não específico para a NdC, uma vez que não foi possível
				observar em sua prática a efetiva articulação em sala de aula. Mesmo reconhecendo
				que a abordagem de aspectos da NdC pode contribuir para a formação dos estudantes, o
				professor Carlos apresentou dificuldade em relacionar a NdC com o conhecimento do
				currículo e com o conhecimento da avaliação. Apesar de demonstrar conhecimento de
				estratégias para abordar aspectos da NdC, não estabeleceu como eles seriam
				trabalhados, focando na aprendizagem de conceitos. Desse modo, apontamos que os
				fatores que dificultam a abordagem da NdC, com base nas aulas do professor Carlos,
				são: o pouco conhecimento de aspectos da NdC, o tempo das aulas, a alta demanda de
				tempo para a preparação das aulas e valores e crenças de um ensino compatíveis com
				as avaliações externas.</p>
			<p>Já a professora Bertha discute aspectos da NdC de modo explícito em suas aulas,
				articulando o conteúdo curricular com a discussão de tais aspectos por meio de
				estratégias variadas. Ela demonstrou ter experiência e conhecimentos sobre os modos
				de produção do conhecimento científico. Além de buscar estratégias e materiais que
				promovam a discussão de aspectos da NdC em sala de aula, a professora demonstra
				interesse em levar o conhecimento de modo a incentivar a participação dos alunos,
				com o uso de jogos, notícias atuais etc. Com isso, apontamos que os fatores que
				contribuem para a abordagem da NdC nas aulas da professora Bertha, são: o
				conhecimento de aspectos da NdC e sua articulação com o conteúdo curricular, a
				variedade de estratégias utilizadas e os valores e as crenças de um ensino
				compatível com a abordagem.</p>
			<p>Reforçamos três pontos essenciais para a abordagem da NdC em sala de aula: quanto
				mais desenvolvido for o conhecimento do professor, maior será a possibilidade de
				práticas pedagógicas que articulem o currículo com a abordagem de aspectos da NdC de
				modo explícito e reflexivo; o conhecimento de materiais e estratégias variados que
				possibilitam a abordagem de aspectos da NdC é essencial ao professor, mas não
				suficiente para que realize a inserção de tais aspectos de modo explícito e
				reflexivo em suas aulas; e os valores e as crenças do professor devem ser
				compatíveis com um ensino que vá além da abordagem de conceitos com foco em
				avaliações externas, contemplando a alfabetização científica dos estudantes.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B19">Magnusson, Krajcik e Borko (1999</xref>, p. 111)
				assinalam que os valores e as crenças do professor impactam na sua prática
				pedagógica em sala de aula, indicando que “[...] a transformação do conhecimento
				geral em conhecimento pedagógico do conteúdo não é uma questão direta de ter
				conhecimento; é também um ato intencional em que os professores escolhem reconstruir
				sua compreensão para se adequar a uma situação”. Assim, mesmo tendo conhecimento
				sobre a NdC, o PCK sobre a NdC só se consolidará em práticas efetivas se estiverem
				de acordo com os valores e as crenças que orientam a prática pedagógica do
				professor.</p>
			<p>Por fim, ressaltamos que os apontamentos realizados quanto aos fatores que contribuem
				e dificultam a abordagem de aspectos da NdC em sala de aula foram baseados nas
				orientações para o ensino de dois professores participantes de um curso de formação
				continuada que teve como objetivo propor o estudo e a discussão sobre a NdC e sobre
				as formas de implementá-la em sala de aula. Porém, o fato de o curso ter ocorrido
				durante a pandemia da COVID-19 influenciou o contexto da coleta de dados. Assim, não
				se pode generalizar tais resultados para a comunidade de professores da área de CN.
				Entretanto, o estudo teórico e o contexto da pesquisa nos permite indicar os fatores
				aqui descritos como sendo necessários para a inserção da NdC em sala de aula.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Devido à pandemia, os professores escolheram conteúdos e/ou habilidades do ano
					anterior que julgaram importantes de serem retomados com os estudantes durante
					aquela semana.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ABELL, S. K. Research on science teacher knowledge.
						<italic>In:</italic> ABELL, S.; LEDERMAN, N. G. (ed.). <italic>Handbook of
						research on science education</italic>. New York: Routledge, 2007. p.
					1105-1149.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ABELL</surname>
							<given-names>S. K.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Research on science teacher knowledge</chapter-title>
					<person-group person-group-type="editor">
						<name>
							<surname>ABELL</surname>
							<given-names>S.</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>LEDERMAN</surname>
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						</name>
					</person-group>
					<source>Handbook of research on science education</source>
					<publisher-loc>New York</publisher-loc>
					<publisher-name>Routledge</publisher-name>
					<year>2007</year>
					<fpage>1105</fpage>
					<lpage>1149</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>ACEVEDO-DÍAZ, J. A.; VÁZQUEZ-ALONSO, A.; MANASSERO-MAS, M. A.;
					ACEVEDO-ROMERO, P. Consensos sobre la naturaleza de la ciencia: fundamentos de
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					<article-title>Consensos sobre la naturaleza de la ciencia: fundamentos de una
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					<source>Revista Eureka sobre Enseñanza y Divulgación de las Ciencias</source>
					<publisher-loc>Cádiz</publisher-loc>
					<volume>4</volume>
					<issue>1</issue>
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					<chapter-title>A historiografia contemporânea e as ciências da matéria: uma
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