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				<journal-title>Ciência &amp; Educação (Bauru)</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Ciênc. educ.
					(Bauru)</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">1516-7313</issn>
			<issn pub-type="epub">1980-850X</issn>
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				<publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Universidade
					Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências, campus de
					Bauru.</publisher-name>
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					<subject>ARTIGO ORIGINAL</subject>
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				<article-title>Conservacionista, pragmática, crítica, pós-crítica e decolonial :
					itinerários epistêmicos da educação ambiental pelas dimensões do
					pensamento</article-title>
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					<trans-title>Epistemic itineraries of environmental education across the
						dimensions of thought : conservationist, pragmatic, critical, post-critical,
						and decolonial</trans-title>
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						<surname>Andrade</surname>
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				<institution content-type="normalized">Universidade Federal do Estado do Rio de
					Janeiro</institution>
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					Janeiro</institution>
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					Saúde</institution>
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					Ambiente</institution>
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					Janeiro (Unirio), Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Departamento de
					Ciências do Ambiente, Rio de Janeiro, RJ, Brasil</institution>
					<email>daniel.andrade@unirio.br</email>
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				<corresp id="c1">Contato: <email>daniel.andrade@unirio.br</email>
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				<year>2024</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>O objetivo deste trabalho é identificar os itinerários da educação ambiental
					pelas diferentes dimensões do pensamento ao longo do tempo no Brasil. Para tal,
					as macrotendências conservacionista, pragmática e crítica, e as correntes
					pós-crítica e decolonial foram analisadas epistemologicamente, a partir das
					dimensões objetiva, subjetiva e intersubjetiva. Resultados demonstram que
					diferentes correntes se remetem a diferentes dimensões do pensamento, com
					deslocamentos ao longo do tempo. Identificam, também, uma virada epistêmica a
					partir da emergência das correntes pós-crítica e decolonial, visto que afirmam a
					dimensão epistêmica e ontológica como lugares de disputa. Por fim, resgatam
					queixas antigas quanto à necessidade do campo se fortalecer filosoficamente,
					visto que transformações necessárias não serão alcançadas se desafios
					epistemológicos e ontológicos não forem também enfrentados.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This paper aims to identify the itineraries of environmental education through
					the different dimensions of thought over time in Brazil. Conservationist,
					pragmatic, critical macro-trends, and post-critical and decolonial currents were
					epistemologically analyzed against the objective, subjective, and
					intersubjective dimensions. Results show that different currents refer to
					varying scales of thought, with shifts over time. They also show an epistemic
					turn resulting from the emergence of post-critical and decolonial currents, as
					they affirm epistemic and ontological dimensions as sites of contestation.
					Finally, they revisit old claims about the need for the field to strengthen
					itself philosophically, since necessary transformations will not be achieved if
					epistemological and ontological challenges are not confronted.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Educação ambiental</kwd>
				<kwd>Biocentrismo</kwd>
				<kwd>Antropocentrismo</kwd>
				<kwd>Ontologia</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Environmental education</kwd>
				<kwd>Biocentrism</kwd>
				<kwd>Anthropocentrism</kwd>
				<kwd>Ontology</kwd>
			</kwd-group>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Educação Ambiental (EA) é um campo de conhecimento com origem internacional nos anos
				1960-1970. De lá para cá, espalhou-se pelo mundo, amadureceu teórica e
				metodologicamente e se complexificou, ganhando múltiplas identidades (<xref
					ref-type="bibr" rid="B4">Carvalho, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B34"
					>Sterling, 1992</xref>).</p>
			<p>Diferentes autores, visando compreender a evolução do campo, propuseram tipologias
					(<xref ref-type="bibr" rid="B1">Andrade, 2024</xref>), que são categorias ou
				conceitos cujos significados são adequados para a descrição de um fenômeno histórico
				concreto (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Weber, 1947</xref>). Assim, no universo da
				EA, elas tinham como papel mapear e organizar a diversidade do campo, estabelecendo
				fronteiras internas que fossem capazes de afirmar e diferenciar vertentes existentes
					(<xref ref-type="bibr" rid="B20">Layrargues, 2004</xref>).</p>
			<p>Historicamente, tais tipologias tiveram relevância significativa (<xref
					ref-type="bibr" rid="B6">Carvalho, 2020</xref>). Elas ajudaram na explicitação
				de características e especificidades, na demarcação de tendências e na compreensão
				das transformações pelas quais o campo da EA passava ao longo do tempo. Em suma,
				elas buscavam pontuar, entre outras coisas, as afiliações pedagógicas,
				epistemológicas e políticas por meio das quais as diferentes vertentes interpretavam
				as relações entre sociedade e natureza (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues;
					Lima, 2014</xref>).</p>
			<p>O propósito deste trabalho é contribuir com esse movimento de construção de
				conhecimento e de busca de precisão acerca das transformações que marcam a história
				da EA no Brasil. No entanto, este texto não visa à proposição de mais uma tipologia,
				antes, destaca os enfoques epistêmicos de diferentes tipologias de EA existentes,
				demarcando como esses enfoques se comportam historicamente. Nesse sentido, o
				objetivo deste texto é identificar os itinerários da EA pelas diferentes dimensões
				do pensamento, ao longo do tempo, no Brasil. Com isso, espera-se colaborar com o
				reconhecimento e a identificação de uma história epistêmica da EA, descortinando
				aspectos profundos do pensamento, implícitos (e, por vezes, inconscientes), que
				fundamentam os movimentos explícitos realizados pelas diferentes vertentes no
				campo.</p>
			<p>Metodologicamente, esta investigação procedeu como se segue: tendo como parâmetro as
				dimensões de pensamento estabelecidas por <xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas
					(1995)</xref>, com base no trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B36">Weber
					(2005)</xref>, quando discute o processo de racionalização do ocidente, este
				trabalho analisou diferentes tipos de EA recortados em tipologias. Para tal, se
				utilizou, primeiramente, da tipologia proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B21"
					>Layrargues e Lima (2014)</xref>, com suas três macrotendências da EA:
				conservacionista, pragmática e crítica. Com vistas a incorporar, também, a evolução
				do campo desde 2014 até os dias atuais, incluiu, posteriormente, o que considera
				serem duas tipologias emergentes, ainda em definição: a EA pós-critica, com base no
				trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B32">Silva <italic>et al</italic>.
					(2020)</xref>, e a EA decolonial, representada aqui no trabalho de <xref
					ref-type="bibr" rid="B29">Rocha (2022)</xref>.</p>
			<p>Este texto está organizado em sete segmentos. O segundo, abaixo, aborda a evolução e
				a complexificação da EA internacionalmente e, mais especificamente, no Brasil. A
				seção três fará um exercício de caracterização das diferentes tipologias
				incorporadas neste trabalho, listadas acima. A parte seguinte oferece os parâmetros
				de análise desta pesquisa, explicitando o processo de formação da racionalidade
				moderna e a consequente constituição das dimensões de pensamento. O segmento cinco
				analisa as tipologias com base nas dimensões de pensamento, descortinando, assim, o
				itinerário epistêmico estabelecido ao longo do tempo no campo da EA. A parte seis
				traz as discussões e, a última, as conclusões e as considerações finais.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A evolução e complexificação da educação ambiental</title>
			<p>A história da Educação Ambiental (EA) atribui a origem do termo a uma série de
				conferências realizadas na Universidade de Keele, no Reino Unido, em 1965. Uma
				dessas conferências reuniu, pela primeira vez, educadores e conservacionistas com a
				finalidade de se discutir o papel da educação nos processos de conservação do campo
					(<xref ref-type="bibr" rid="B34">Sterling, 1992</xref>).</p>
			<p>A EA nascente, no entanto, não nascia do vazio. Ela evoluiu e foi influenciada por
				várias outras ‘educações’ e campos de estudos com interesses, enfoques e propósitos
				específicos, mas cujos objetivos e conteúdo, até certo grau, se mesclavam e se
				sobrepunham (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Palmer, 1998</xref>).</p>
			<p>Assim, apesar da constante ampliação do uso do conceito de EA, e da sua
				institucionalização, o conceito continuava polissêmico, visto que a EA proposta em
				um determinado local carregava consigo orientações dos campos de conhecimento que a
				originara.</p>
			<p>É fato inconteste a importância da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
				Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972, para a EA (<xref ref-type="bibr"
					rid="B11">Dias, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Palmer,
				1998</xref>). Lá foi afirmada a sua institucionalização na Organização das Nações
				Unidas (ONU) e de lá saiu o grande impulso para o seu fortalecimento mundial, com a
				criação de uma agenda internacional. Essa agenda se iniciou com a realização do
				Workshop Internacional de Educação Ambiental em Belgrado, em 1975, onde foi
				estabelecida uma filosofia geral para a EA mundial (<xref ref-type="bibr" rid="B34"
					>Sterling, 1992</xref>).</p>
			<p>Outro evento que é marcante para a história da EA mundial foi a Primeira Conferência
				Intergovernamental de Educação Ambiental, realizada em 1977, em Tbilisi, na ex-URSS
					(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Dias, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B34">Sterling, 1992</xref>). A Conferência de Tbilisi estabeleceu objetivos
				e princípios para a EA global e se estabeleceu como uma importante referência para
				atores do campo (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Sterling, 1992</xref>).</p>
			<p>Mesmo a partir dessa iniciativa da ONU de trazer coerência e unidade para a EA, o que
				ocorreu com o campo, com o tempo, foi que ele cresceu e se complexificou: sua
				visibilidade global atraíra atores de diferentes origens e espectros ideológicos
				acerca da questão ambiental como um todo, e com diferentes percepções acerca da
				educação (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Carvalho, 1998</xref>). São os vários
				cruzamentos possíveis, entre as diferentes tendências ambientalistas e as várias
				percepções sobre educação, que configuram a diversidade da EA até os dias de
				hoje.</p>
			<p>Assim, em meio a essa complexidade crescente no campo, e diante da necessidade de
				compreendê-la, diferentes autores e autoras passaram a propor tipologias, com a
				finalidade de se fazer um mapeamento desse fenômeno. Apesar de terem seu valor
				contestado mais recentemente (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Carvalho, 2020</xref>),
				essas tipologias desempenharam um papel histórico indiscutível, visto que
				contribuíram com a organização de um fenômeno complexo e em constante movimento, a
				constituição do campo da EA, em termos de valores, posicionamentos e disputas
				internas (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Andrade, 2024</xref>).</p>
			<sec>
				<title><italic>A educação ambiental no Brasil</italic></title>
				<p>Apesar da história da EA brasileira se inserir e refletir o movimento
					internacional acima, sofreu influências específicas relativas ao seu próprio
					contexto. Por exemplo, o país é uma ex-colônia que vive sob o jugo da
					colonialidade, é megabiodiverso, extremamente desigual e viveu sob um violento
					regime militar. Assim, aqui a história da EA é atravessada por questões
					pertinentes a essas e outras lutas e acontecimentos (<xref ref-type="bibr"
						rid="B4">Carvalho, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Reigota,
						1998</xref>).</p>
				<p>No entanto, também por aqui a EA encontrou solo fértil, germinou e cresceu: foi
					incorporada ao estado brasileiro na forma de políticas públicas, nas
					universidades, na sociedade civil organizada (<xref ref-type="bibr" rid="B11"
						>Dias, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Czapski, 1998</xref>;
						<xref ref-type="bibr" rid="B27">Reigota, 1998</xref>) e vislumbrou uma
					multiplicação das redes (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Revista Brasileira de
						Educação Ambiental, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B8">Czapski,
						2008</xref>). Aqui, esse crescimento testemunhou, também, um processo de
					diversificação.</p>
				<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B27">Reigota (1998)</xref>, a diversidade
					conceitual e metodológica da EA brasileira é uma das suas principais
					características, fruto de influências originais provenientes das ciências, das
					artes, da literatura e do ativismo. Já em 1998, <xref ref-type="bibr" rid="B4"
						>Carvalho (1998)</xref> assumia a existência no país de educações
					ambientais, no plural, enfatizando justamente a diversidade de orientações
					metodológicas e políticas existentes. Para <xref ref-type="bibr" rid="B20"
						>Layrargues (2004)</xref>, em 2004 essa diversidade atingira patamares tão
					grandes que o próprio conceito de EA já deixava de ser revelador. Eram
					necessárias identificações mais precisas das tendências existentes em relação a
					seus posicionamentos políticos e pedagógicos.</p>
				<p>Com vistas a se compreender melhor esse fenômeno, também foram criadas tipologias
						(<xref ref-type="bibr" rid="B5">Carvalho, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr"
						rid="B20">Layrargues, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B21"
						>Layrargues; Lima, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B33">Sorrentino,
						2000</xref>). Para <xref ref-type="bibr" rid="B20">Layrargues (2004)</xref>,
					a criação de tipologias visava, ao mesmo tempo, refinar o campo conceitualmente
					e estabelecer fronteiras identitárias internas que fossem capazes de distinguir
					as diversas vertentes existentes. Para <xref ref-type="bibr" rid="B21"
						>Layrargues e Lima (2014)</xref>, esse movimento de criação de tipologias
					evidenciou a necessidade de autorreflexão do campo sobre a sua própria prática e
					desenvolvimento.</p>
				<p>Como citado na introdução, o papel das tipologias é criar categorias com
					significados adequados para a descrição de fenômenos concretos (<xref
						ref-type="bibr" rid="B35">Weber, 1947</xref>). Portanto, para a EA, o
					esforço para a composição das diferentes tipologias era o de tentar constituir
					cada um dos tipos propostos com suas características específicas, demarcando
					enfoques e ausências.</p>
				<p>O presente trabalho tem como intenção colaborar com esse esforço de se propiciar
					uma visão mais precisa sobre o que acontece com o fenômeno da EA no Brasil.
					Nesse contexto, o seu propósito é compreender, especificamente, os enfoques
					epistêmicos demarcados em tipologias existentes, e como esses enfoques se
					comportam no campo como um todo com a sua evolução.</p>
				<p>Para tal, a análise se inicia tendo como base a tipologia sugerida por <xref
						ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues e Lima (2014)</xref>, com suas três
					macrotendências da EA: conservacionista, pragmática e crítica. A justificativa
					para esta escolha é que, primeiro, ela é uma das tipologias mais recentes
					registradas, e, segundo, ela tem uma grande inserção na academia
							nacional<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup>. No entanto,
					como a sua análise vai até o ano de 2014, deixa de fora uma década de evolução
					da EA.</p>
				<p>Assim, visando contemplar a evolução do campo até os dias atuais, se incorporam
					duas tipologias consideradas emergentes, respectivamente chamadas de EA
						<italic>pós-crítica</italic> e EA <italic>decolonial</italic>. Apesar de não
					existir um texto que as proponha literalmente como tipologias, há esforços
					teóricos que visam dar coesão a cada uma delas. Nesta pesquisa, como referência
					principal, são incorporados dois desses esforços, respectivamente o trabalho de
						<xref ref-type="bibr" rid="B32">Silva <italic>et al</italic>. (2020)</xref>,
					na composição do que seria a tipologia da EA pós-crítica, e o de <xref
						ref-type="bibr" rid="B29">Rocha (2022)</xref>, na caracterização da EA
					decolonial.</p>
				<p>Com isso, espera-se contribuir com a caracterização epistemológica das seguintes
					vertentes da EA: conservacionista, pragmática, crítica, pós-crítica e
					decolonial. Ao fazê-lo, espera-se, também, demarcar como esses enfoques se
					comportam ao longo do tempo.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>Tipos de educação ambiental no Brasil</title>
			<p>Apesar deste texto propor uma análise fundamentada em tipologias de EA, é necessário,
				antes de se abordar a questão especificamente, que algumas considerações sejam
				feitas.</p>
			<p>Primeiro, foi mencionada acima a importância histórica que as diferentes tipologias
				de EA tiveram para o amadurecimento do campo. Também, foi afirmado que, atualmente,
				suas validades podem ser questionadas. Esse questionamento leva em consideração a
				percepção de que tais tipos, que são ideais e, portanto, inexistentes (<xref
					ref-type="bibr" rid="B35">Weber, 1947</xref>), estariam sendo, em casos, tomados
				como realidade ou como definitivos (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Andrade,
					2024</xref>). Então, este texto alerta para o fato de que “[...] o valor das
				tipologias é tão maior quanto maior for a consciência dos seus papéis e dos seus
				limites” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Andrade, 2024</xref>). Assim, embora as
				naturezas dessas tipologias possam ser consideradas, por seus proponentes, mais ou
				menos (im)permeáveis às influências externas, aqui não são consideradas fechadas,
				com suas características encerradas em unidades discretas (no sentido matemático),
				isoladas umas das outras, puras. Muito pelo contrário, são consideradas enfoques, ou
				seja, um ponto ao qual é atribuído maior importância e atenção e do qual podem
				emanar, progressivamente e multidimensionalmente, outros aspectos relevantes, porém
				que recebem menor atenção de seus adeptos.</p>
			<p>Consequentemente, componentes de uma determinada tipologia podem aparecer nas demais,
				sem que isso seja considerado uma contradição. Além disso, como já mostrado em <xref
					ref-type="bibr" rid="B6">Carvalho (2020)</xref>, não se considera, aqui, que as
				tipologias abordadas são definitivas, mas retratos momentâneos feitos a partir de
				lentes específicas. Isso significa que diferentes tipos de EA podem se autodenominar
				com a mesma terminologia, porém terem enfoques bem diferentes, até contraditórios,
				se olhados a partir de análises mais puristas, como abordado, por exemplo, em <xref
					ref-type="bibr" rid="B15">Ferraro Júnior (2013)</xref> e <xref ref-type="bibr"
					rid="B18">Iared <italic>et al</italic>. (2021)</xref>.</p>
			<p>Segundo, que o fato de incluir nas análises um ou outro texto não significa que ele é
				o grande representante daquela tipologia, ou o mais legítimo, ou o definitivo,
				dentre vários outros possíveis. Como citado acima, ele é apenas um enfoque.
				Minimamente, a escolha dos textos analisados partiu do pressuposto de que, nos
				selecionados, havia a intenção de se caracterizar um ou mais tipos de EA,
				conscientemente.</p>
			<p>Terceiro, que o propósito deste trabalho é extrair dos textos analisados elementos
				que possam caracterizar epistemologicamente cada um dos tipos de EA descritos.
				Assim, abdica-se de uma caracterização pormenorizada de cada um desses tipos como um
				todo, em todos os seus aspectos. Para isso, recomenda-se que os textos originais
				sejam buscados.</p>
			<p>Os primeiros três tipos de EA abordados aqui são propostos por <xref ref-type="bibr"
					rid="B21">Layrargues e Lima (2014)</xref>. Os autores sugerem uma organização
				geral do campo da EA em três macrotendências, que seriam tendências maiores que
				englobariam outras correntes específicas que compartilham questões comuns, mas que,
				na prática, podem variar bastante. Tais macrotendências são a
					<italic>conservacionista</italic>, a <italic>pragmática</italic> e a
					<italic>crítica</italic>. Segundo os autores, elas representariam “modelos
				político-pedagógicos para a Educação Ambiental”, contemplando cada qual “[...] uma
				ampla diversidade de posições mais ou menos próximas do tipo ideal considerado”
					(<xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues; Lima, 2014</xref>, p. 30).</p>
			<p>De acordo com os autores, a <italic>macrotendência conservacionista</italic> seria
				expressa por meio das seguintes correntes de EA: Conservacionista,
				Comportamentalista, da Alfabetização Ecológica, do Autoconhecimento e de Atividades
				de Sensopercepção ao ar livre.</p>
			<p>Ainda, para os autores, as características que as reúnem em um grande grupo estão
				relacionadas ao fato de serem focadas na difusão de informações, principalmente
				ecológicas, seja do ponto de vista dos princípios da ecologia, quanto das suas
				técnicas. São, também, comportamentalistas e com enfoque na ação individual. Os
				autores destacam que outras tendências, seja focando no desenvolvimento de relações
				afetivas junto à natureza, seja as que se fundamentam no pensamento sistêmico e
				propõem mudanças culturais que questionam os valores do antropocentrismo, também
				compõem essa macrotendência.</p>
			<p>Já a <italic>macrotendência pragmática</italic>, cujos principais expoentes são a
				Educação para o Desenvolvimento Sustentável e a Educação para o Consumo Sustentável,
				embora tenha como conteúdo e enfoques questões muito diferentes da conservacionista,
				do ponto de vista epistemológico parte de pressupostos semelhantes: do olhar
				cientificista para a realidade, fundamentado na neutralidade da ciência, na mudança
				de comportamentos a partir da provisão de informações e nos enfoques de ação
				individuais. Portanto, assume um enfoque cognitivo.</p>
			<p>Para os autores, a semelhança entre essas duas macrotendências,
					<italic>conservacionista</italic> e <italic>pragmática</italic>, não é
				desproposital, visto que representam “[...] duas tendências e dois momentos de uma
				mesma linhagem de pensamento” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues; Lima,
					2014</xref>, p. 32). Essas duas macrotendências manifestam, assim, a aplicação
				de uma mesma racionalidade sobre aspectos diferentes da questão ambiental.</p>
			<p>A macrotendência da EA <italic>crítica</italic> está composta pelas seguintes
				correntes da EA: EA popular, EA emancipatória, EA transformadora e EA no processo de
				gestão ambiental. Fundamentalmente, ela se caracteriza epistemologicamente por
				incorporar em sua práxis “[...] um forte viés sociológico e político” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues; Lima, 2014</xref>, p. 33), assimilando em
				seus discursos a questão das diferenças de poder existentes nas sociedades e suas
				variadas implicações. Embora os autores ressaltem que existe uma disposição dentro
				dessa macrotendência de se conjugar com o pensamento complexo, no sentido da
				superação de abordagens cartesianas reducionistas, o que caracteriza a
				macrotendência é seu enfoque eminentemente político.</p>
			<p>O quarto tipo de EA abordado aqui é a EA <italic>pós-crítica</italic>. Segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B32">Silva <italic>et al</italic>. (2020)</xref>, o campo
				pós-crítico emergiu do questionamento de pressupostos epistêmicos da modernidade,
				levando a análises investigativas menos antropocêntricas. Nessa tendência, o que a
				diferencia das teorias críticas é a posição dos sujeitos, que são considerados como
				marcados por processos de objetivação e subjetivação, e que podem ser compreendidos
				como produções históricas, resultantes de relações de poder e saber.</p>
			<p>Nesse sentido, de acordo com as autoras, o campo pós-crítico transcende o das teorias
				críticas por conceber questões relativas à subjetividade e à identidade por lentes
				diferentes daquelas que focam, exclusivamente, na questão das lutas de classes. Com
				isso, ampliam a compreensão dos processos de dominação e de alienação/emancipação
				para além daqueles considerados pelas análises econômicas e relacionados ao capital.
				Ao fazer isso, o campo considera o sujeito e a subjetividade como sociais.</p>
			<p>Nesse contexto, a EA pós-crítica se caracteriza por seu enfoque nos sujeitos e nas
				suas relações intersubjetivas, valorizando a afetividade e a subjetividade. Para
					<xref ref-type="bibr" rid="B32">Silva <italic>et al</italic>. (2020)</xref>, ao
				fazê-lo, a tendência possibilita novos caminhos para a EA, por propiciar um
				redimensionamento dos significados atribuídos pelo campo às relações estabelecidas
				com a natureza. Para as autoras, isso pode trazer avanços teóricos, experienciais e
				pedagógicos para a EA.</p>
			<p>Por fim, o quinto tipo de EA analisado aqui é a EA <italic>decolonial</italic>. Como
				disposto, essa análise se dá a partir do trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B29"
					>Rocha (2022)</xref>, que destina uma seção de seu texto à caracterização do
				tipo.</p>
			<p>Segundo o autor, a EA decolonial se inspira no movimento da decolonialidade. Em
				linhas gerais, esse movimento denuncia a dominação eurocêntrica e imperialista do
				sistema mundo europeu-norteamericano moderno capitalista colonial e patriarcal, e
				sua influência exercida até os dias atuais. Um aspecto relevante dessa denúncia é o
				papel do antropocentrismo como premissa de análise e construção do mundo
				colonial.</p>
			<p>Nesse contexto, para <xref ref-type="bibr" rid="B29">Rocha (2022)</xref> a EA
				decolonial, ao reconhecer o poder atual desse sistema mundo, busca identificar e
				superar as suas influências (do sistema mundo) sobre os direcionamentos da EA. Para
				tal, propõe um redirecionamento epistemológico e teórico da EA, partindo do
				reconhecimento do caráter unívoco das relações com a terra e defendendo, assim, a
				necessidade de um deslocamento para visões de mundo biocêntricas. Esse movimento
				rumo ao biocentrismo levaria, por sua vez, à abertura a compreensões epistêmicas
				distintas, legitimando múltiplas possibilidades de se relacionar, sentir e pertencer
				no mundo, para além da imposta pela modernidade eurocentrada.</p>
			<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B29">Rocha (2022)</xref>, a EA decolonial
				valoriza a experiência, as práticas cotidianas de subsistência e leva em
				consideração aspectos comunitários, políticos, sociais, culturais e ambientais para
				se pensar a sustentabilidade. Valoriza, também, a pluralidade, não pretendendo,
				portanto, se impor aos demais tipos de EA, mas concebe que esses demais tipos
				possam, igualmente, se apresentar como caminhos possíveis e reais.</p>
			<p>Apresentados os tipos de EA incorporados ao trabalho, os tópicos seguintes contemplam
				o processo de análise, os resultados, as discussões, as conclusões e as
				considerações finais. A seguir, apresentamos as dimensões de pensamento de <xref
					ref-type="bibr" rid="B17">Habermas (1995)</xref>, inspiradas no trabalho de
					<xref ref-type="bibr" rid="B36">Weber (2005)</xref>, que servirão de parâmetro
				para a análise.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Parâmetros de análise: as dimensões do pensamento</title>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas (1995</xref>, p. xix) associa o processo de
				racionalização do ocidente a um concomitante processo de “desencantamento do mundo”.
				Esse desencantamento seria consequência da descentração ou, dito de outra forma, da
				desintegração da unidade ontológica do pensamento tradicional original em diferentes
				esferas culturais de valor, com lógicas internas próprias. Tais esferas, que se
				tornam progressivamente mais independentes e autônomas umas em relação às outras ao
				longo do tempo, carregam consigo, respectivamente, os elementos “[...] cognitivos,
				estético-expressivos e morais-avaliativos” (<xref ref-type="bibr" rid="B17"
					>Habermas, 1995</xref>, p. 163) do pensamento.</p>
			<p>Assim, para <xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas (1995)</xref>, a emergência da
				modernidade está ligada à paulatina construção de uma forma de pensar cuja
				organização aloca, em dimensões separadas, o pensamento racional-proposital,
				associado ao emprego de meios para o alcance de fins; o pensamento afetivo, ligado a
				afetos e estados emocionais; e o pensamento valorativo-racional, ligado ao valor
				intrínseco de certo modo de comportamento - ético, estético ou religioso. <xref
					ref-type="bibr" rid="B2">Andrade e Guimarães (2018)</xref> nomeiam essas três
				dimensões como objetiva (pensamento racional-proposital), subjetiva (pensamento
				afetivo) e intersubjetiva (pensamento valorativo-racional), terminologias que serão
				utilizadas daqui adiante.</p>
			<p>Ainda, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas (1995</xref>, p. 248-249,
				tradução nossa), uma das consequências desse processo de racionalização do ocidente
				foi a dissolução da “unidade imediata do verdadeiro, do bom e do perfeito”, sugerida
				pelos conceitos básicos religiosos e metafísicos. Na perspectiva do autor, essa
				dissolução influenciou tanto os conceitos fundamentais com os quais as realidades
				são interpretadas (as visões de mundo), como também a formação e estabilização das
				identidades individuais e coletivas. Por fim, o autor sugere que cada uma dessas
				esferas culturais, ou dimensões, teriam se tornado domínio, ou seriam expressas, por
				diferentes instituições sociais específicas, respectivamente ciência e tecnologia
				(dimensão objetiva), arte e literatura (dimensão subjetiva) e lei e moralidade
				(dimensão intersubjetiva).</p>
			<p>A <bold><xref ref-type="fig" rid="f1">figura 1</xref></bold> esquematiza esse
				processo de racionalização do pensamento ocidental por meio da descentração do
				pensamento ontológico originário, unitário, em esferas culturais de valor
				independentes. A seta A demonstra o momento inicial da descentração, com o começo da
				diferenciação das esferas culturais individualizadas e o aumento de um tensionamento
				entre elas. A seta B, por sua vez, demonstra o processo finalizado, com a formação
				de esferas culturais autônomas e independentes, com lógicas internas próprias. Como
				colocado no texto acima, cada uma dessas esferas destacou-se da visão de mundo
				unitária na qual estavam originalmente integradas, tornando-se domínio de
				instituições sociais específicas (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas,
					1995</xref>).</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1</label>
					<caption>
						<title>a descentração do pensamento ontológico</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="1516-7313-ciedu-30-e24047-gf01.png"/>
					<attrib>Fonte: adaptado de <xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas
							(1995)</xref>.</attrib>
				</fig>
			</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Itinerários da EA pelas diferentes dimensões do pensamento no Brasil</title>
			<p>Tendo-se como base o processo de descentração da unidade ontológica do pensamento
				tradicional original nas esferas culturais de valor objetiva, subjetiva e
				intersubjetiva, este tópico identifica possíveis associações entre essas esferas
				culturais e os enfoques atribuídos às diferentes tipologias propostas para a EA
				utilizadas neste trabalho. Para tal, busca adesões epistemológicas utilizando-se das
				caracterizações epistêmicas usadas na descrição de cada uma delas por seus autores e
				autoras.</p>
			<p>A primeira tipologia abordada foi a <italic>macrotendência conservacionista</italic>
					(<xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues; Lima, 2014</xref>). Conforme visto,
				ela se caracteriza por ser focada, de um lado, na provisão de informações, sobretudo
				técnicas e científicas, sobre ecologia. Para os autores, isso se justifica pela
				“[...] predominância absoluta de cientistas naturais no campo da Educação Ambiental”
					(<xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues; Lima, 2014</xref>, p. 27). Possui,
				assim, um fim cognitivo/técnico, centrado na aquisição e acúmulo de conhecimentos, o
				que a insere na esfera cultural objetiva de <xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas
					(1995)</xref>.</p>
			<p>Por outro lado, para <xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues e Lima (2014</xref>,
				p. 30), a macrotendência conservacionista também é composta por iniciativas que se
				fundamentam no desenvolvimento de relações afetivas junto à natureza, promovidas por
				iniciativas pedagógicas que propõem “atividades de sensopercepção ao ar livre”, com
				foco no desenvolvimento de preocupação em relação ao meio ambiente, de consciência e
				de satisfação estética. Neste ponto, pode-se se afirmar que esta tendência tem um
				enfoque epistêmico na subjetividade dos sujeitos das ações pedagógicas, e, portanto,
				insere-se, predominantemente, na esfera cultural subjetiva de <xref ref-type="bibr"
					rid="B17">Habermas (1995)</xref>.</p>
			<p>Por fim, vale destacar, também, dentro da macrotendência conservacionista, a inserção
				feita pelos autores das correntes voltadas ao pensamento sistêmico, caracterizadas
				pela sua base no pensamento ecológico e em conceitos como “[...] interdependência,
				ciclagem, parceria, coevolução, flexibilidade e diversidade” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B21">Layrargues; Lima, 2014</xref>, p. 30). Com base na informação
				oferecida sobre essa corrente, que é pouca, é possível se identificar nela um
				indício de questionamento epistêmico e ontológico. Isso porque pensamento sistêmico,
				interdependência e ciclagem são conceitos que remetem a fluxos que, nas análises
				promovidas por meio da epistemologia moderna, são interrompidos pela organização do
				pensamento nas esferas culturais independentes e autônomas.</p>
			<p>Assim, do ponto de vista dos itinerários epistêmicos da EA pode-se, aqui, conceber
				que as correntes da macrotendência <italic>conservacionista</italic> se associariam,
				a princípio, às dimensões objetiva (provisão de informação) e subjetiva (relações
				afetivas com o meio). Há, porém, correntes que fazem insinuações à organização
				epistemológica do pensamento, insinuações essas que apresentam, também, implicações
				ontológicas.</p>
			<p>No caso das correntes que abordam a organização epistemológica do pensamento, em
				relação ao esquema da <bold><xref ref-type="fig" rid="f1">figura 1</xref></bold>,
				elas estariam levando a reflexão para um nível de abstração anterior ao dos
				conteúdos distribuídos nas esferas culturais, ou seja, anterior ao movimento
				representado pela seta B. De fato, elas estariam questionando como é que as esferas
				teriam chegado lá, a legitimidade absoluta desse processo de descentração e sua
				adequação para a elaboração teórica dos fenômenos ecológicos. Nesse sentido, a
				emergência dessas correntes traria uma perturbação àquelas que estão acomodadas à
				organização moderna/cartesiana de pensamento.</p>
			<p>A aderência de correntes da macrotendência conservacionista a iniciativas de
				questionamento epistemológico e ontológico pode, também, ser caracterizada pelo fato
				de se basearem, segundo os autores, “[...] no pleito por uma mudança cultural que
				relativize o antropocentrismo” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues; Lima,
					2014</xref>, p. 30). Embora os autores não especifiquem qual ou quais correntes
				promoveriam o desafio ao antropocentrismo, o destaque desta questão no texto indica,
				explicitamente, que existe um direcionamento da reflexão para a dimensão ontológica
				do pensamento.</p>
			<p>Como mostra <xref ref-type="bibr" rid="B24">O’Riordan (1989)</xref>, o debate sobre
				antropocentrismo e biocentrismo é, em essência, um no qual há uma divergência
				estabelecida sobre quem ditaria os termos de moralidade e conduta para a humanidade,
				se a natureza (para os biocêntricos) ou a criatividade humana e o espírito de
				competição (para os antropocêntricos). Dito de outra forma, biocêntricos consideram
				que os afazeres humanos devem caber dentro das leis da natureza. Já
				antropocêntricos, que a natureza deve ser submetida às regras humanas. Como as
				regras ‘humanas’ a que se refere o ocidente são as regras ocidentais (e não humanas,
				no sentido de abranger a humanidade como um todo e sua diversidade), o que inclui
				regras sobre o funcionamento do pensamento, então, o questionamento ao
				antropocentrismo representa um questionamento à visão de mundo ocidental e à
				operação cognitiva que propiciara essa visão, visto que operações epistemológicas
				conformam ontologias (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Wolenski, 2004</xref>).</p>
			<p>Assim, concluindo a análise sobre a macrotendência conservacionista, pode-se dizer
				que, epistemologicamente, seus enfoques variam entre a esfera objetiva e subjetiva,
				mas podem também migrar para a dimensão de questionamento epistêmico e ontológico,
				dependendo da corrente a que se remete.</p>
			<p>A segunda tipologia a ser abordada aqui é macrotendência da EA pragmática. Como
				destacado acima, ela é caracterizada epistemologicamente de uma maneira muito
				semelhante à tendência conservacionista. Para <xref ref-type="bibr" rid="B21"
					>Layrargues e Lima (2014)</xref>, essa macrotendência tem enfoque cientificista
				e informacional. É, assim, marcada pelas concepções tradicionais hegemônicas de
				ciência e pedagogia. Dessa forma, com base nas informações epistêmicas extraídas da
				descrição oferecida pelos autores, pode-se definir que ela tem um enfoque objetivo,
				centrado na cognição.</p>
			<p>A terceira tipologia em análise é a macrotendência crítica que, segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues e Lima (2014</xref>, p. 28-29),
				apresenta-se como uma herança da tendência <italic>alternativa</italic>, do início
				dos anos 1990, composta por educadores e educadoras ambientais “[...] que
				partilhavam de um olhar socioambiental, insatisfeitos com o rumo que a Educação
				Ambiental vinha assumindo”.</p>
			<p>Embora a macrotendência crítica não seja uma unanimidade, sequer na definição daquilo
				que a faria ‘crítica’ (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Ferraro Júnior, 2013</xref>;
					<xref ref-type="bibr" rid="B18">Iared <italic>et al</italic>., 2021</xref>),
				para <xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues e Lima (2014)</xref> é a sua
				orientação sociológica e política que a destaca como tal. Nesse sentido, no esquema
				de descentração do pensamento de <xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas
					(1995)</xref>, o que pode ser evidenciado é a reivindicação de um deslocamento
				de enfoque epistêmico, das dimensões objetiva e subjetiva, que caracterizam as
				macrotendências conservacionista e pragmática, para a intersubjetiva.</p>
			<p>Essa macrotendência, no entanto, incorpora, também, correntes que se fundamentam na
				teoria da complexidade. Isso significa que ela é marcada por variações
				epistemológicas, com diferentes adesões e críticas ao pensamento moderno
				hegemônico.</p>
			<p>A quarta tipologia incorporada a este estudo é a EA <italic>pós-crítica</italic>.
				Como visto, essa tipologia nasce de uma crítica epistemológica, de um questionamento
				aos pressupostos epistêmicos da modernidade. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B32"
					>Silva <italic>et al</italic>. (2020)</xref>, esse questionamento se refere a
				aspectos da epistemologia moderna relativos à objetividade, à certeza, à
				racionalidade, à causalidade, à linearidade, à individualização e à fragmentação do
				pensamento.</p>
			<p>Assim, o enfoque proposto por essa tipologia, que é o subjetivo, se assenta sobre um
				conjunto de pressupostos epistemológicos diferentes daqueles propostos por
				referenciais estritamente modernos. Nesse sentido, o lugar da subjetividade
				pós-crítica seria diferente do da subjetividade <italic>moderna</italic>, ou
				acomodada à racionalidade moderna, justamente porque seus lugares epistêmicos são
				diferentes. Como consequência, ela é fundamentada por argumentos outros, capazes de
				se impor diante das críticas que são endereçadas a iniciativas subjetivas
				epistemologicamente <italic>modernas</italic>.</p>
			<p>Além disso, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B32">Silva <italic>et
						al</italic>. (2020)</xref>, a EA pós-crítica busca caminhos para a
				realização de análises investigativas menos antropocêntricas. Com isso, a tendência
				sinaliza um atravessamento pela dimensão ontológica, semelhante à do caso das
				correntes sistêmicas acima. Ou seja, por partir de uma crítica à epistemologia
				hegemônica no ocidente, e por trazer um questionamento que se situa na dimensão
				ontológica, explicita um descontentamento com a racionalidade ocidental como base
				estrita das elaborações investigativas, bem como com as críticas que são
				provenientes de análises que são inscritas e, consequentemente, fundamentadas nessa
				racionalidade.</p>
			<p>Em suma, no que se refere ao itinerário da EA pelas dimensões do pensamento, pode-se
				concluir, aqui, que a EA <italic>pós-crítica</italic> possui o seu enfoque na
				dimensão subjetiva do pensamento. No entanto, em uma dimensão subjetiva pós-crítica
				do pensamento, que parte de pressupostos epistêmicos diferentes daqueles hegemônicos
				no ocidente, não cabendo, dessa forma, na dimensão subjetiva do esquema da
						<bold><xref ref-type="fig" rid="f1">figura 1</xref></bold>.</p>
			<p>Por fim, a última tipologia inserida aqui é a da EA decolonial. Como visto acima,
				esse tipo de EA se caracteriza por ter como princípio fundante a crítica à
				colonialidade e a todas as suas formas de manifestação, inclusive epistêmica e
				ontológica. Com isso, a crítica ao antropocentrismo é central, assim como à
				separação entre humanos e natureza. Dessa forma, esse tipo de EA parte da busca pela
				superação das influências da colonialidade sobre seus direcionamentos
				epistemológicos e teóricos. Nisso, um aspecto primordial é da afirmação do caráter
				unívoco das relações com a terra (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Rocha,
				2022</xref>).</p>
			<p>Portanto, quando comparada ao esquema da descentração do pensamento unitário
				tradicional em esferas culturais de valor autônomas e independentes, pode-se afirmar
				que o enfoque da EA decolonial se coloca sobre a dimensão ontológica do pensamento.
				Ou seja, levando-se em consideração a <bold><xref ref-type="fig" rid="f1">figura
						1</xref></bold>, ela sugere, justamente, uma inversão de direção na análise
				do processo da racionalização, remetendo à parte superior da figura, anterior à seta
				A, onde se localizam os pensamentos ontológicos tradicionais originais,
				unitários.</p>
			<p>Ao fazer isso, e ao destacar o caráter unívoco na relação com a terra, a EA
				decolonial, por extensão, critica a operação epistemológica moderna da fragmentação
				por princípio, sugerindo uma epistemologia da continuidade que produziria,
				consequentemente, uma ontologia unitária, um lugar ontológico ao menos equivalente
				ao do pensamento ontológico tradicional original.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>Discussão</title>
			<p>Os resultados demonstram que as variadas correntes da EA se remetem a diferentes
				dimensões do pensamento conforme sugerido por <xref ref-type="bibr" rid="B17"
					>Habermas (1995)</xref>. Historicamente há, portanto, uma movimentação de
				enfoques epistêmicos e, ao longo do tempo, reivindicações para que esses enfoques
				fossem alocados prioritariamente, ou exclusivamente, dependendo da corrente, sobre
				uma ou outra dimensão.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues e Lima (2014</xref>, p. 27) propõem, em
				seu texto, que na origem a EA era concebida como “[...] um saber e uma prática
				fundamentalmente conservacionista” que tinha por base a “ciência ecológica”. Assim,
				ela teria se originado dentro da esfera cultural da objetividade, marcada pela
				predominância do pensamento técnico-científico. Ainda segundo os autores, a evolução
				da EA culminou na emergência das vertentes pragmática e crítica, constituindo,
				assim, as macrotendências. Conforme os resultados desta investigação, a
				conservacionista se caracteriza, predominantemente, por correntes com enfoques
				epistêmicos objetivos e subjetivos; a pragmática, por um enfoque prioritário sobre a
				objetividade; e a crítica reivindica o deslocamento do enfoque epistêmico para a
				dimensão intersubjetiva do pensamento.</p>
			<p>Ainda, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B21">Layrargues e Lima (2014)</xref>, essas
				macrotendências não são necessariamente puras, compostas por correntes que são
				unânimes em seus posicionamentos político-pedagógicos em relação à EA. Há, assim,
				variações internas, que atingem, inclusive, a dimensão epistemológica, com correntes
				mais ou menos acomodadas à racionalidade moderna.</p>
			<p>Neste trabalho, essas variações epistêmicas foram identificadas nas correntes
					<italic>sistêmicas</italic> dentro da macrotendência conservacionista, e da
					<italic>complexidade</italic>, na macrotendência crítica. Entende-se que as
				correntes <italic>sistêmicas</italic> deslocam o enfoque epistêmico da
				macrotendência conservacionista, predominantemente alocado nas dimensões objetiva e
				subjetiva, para um nível de abstração anterior, questionando, a partir da ecologia,
				as operações epistêmicas de fragmentação do pensamento. Já as correntes da
					<italic>complexidade</italic> fazem uma ação semelhante, só que dentro da
				macrotendência crítica, que tem predominância de enfoque epistêmico sobre a dimensão
				intersubjetiva. Nesse último caso, os autores, inclusive, reconhecem a existência
				histórica de correntes críticas alinhadas ao positivismo e ao cartesianismo, que
				“mais recentemente” teriam compreendido “[...] que os reducionismos são
				empobrecedores, inclusive os sociologismos e politicismos” (<xref ref-type="bibr"
					rid="B21">Layrargues e Lima, 2014</xref>, p. 33).</p>
			<p>Assim, pode-se inferir que dentre as macrotendências exista diferentes níveis de
				reivindicações quanto às suas purezas epistêmicas. Da mesma forma, há, também,
				diferentes posicionamentos quanto à possibilidade da existência da pureza em si.
				Consequentemente há, como visto, correntes mais acomodadas ao positivismo e ao
				cartesianismo e, portanto, menos críticas (ou não críticas) em relação à
				racionalidade ocidental e ao antropocentrismo, e correntes que, de uma forma ou de
				outra, identificam na dimensão epistêmica (e, por extensão, na ontológica), também
				lugares de disputa.</p>
			<p>Do ponto de vista das dimensões de pensamento de <xref ref-type="bibr" rid="B17"
					>Habermas (1995)</xref>, portanto, o reconhecimento da dimensão epistêmica como
				um lócus de disputa desloca o enfoque de análise para outro nível de abstração,
				anterior à formação das esferas culturais de valor. Esse enfoque, assim, deixa de
				ser prioritário sobre uma ou outra esfera cultural, consideradas em isolamento, e é
				transferido para o processo de organização do pensamento em si e para a operação que
				promove as suas separações em dimensões autônomas. Dito de outra forma, se desloca
				do âmbito teórico restrito a disciplinas ou domínios do conhecimento (técnico,
				psicológico ou sociológico, considerando as especificidades das esferas culturais),
				para o epistemológico. Em geral, isso decorre de críticas à epistemologia hegemônica
				no ocidente e a forma como ela integra as variáveis dos fenômenos analisados, entre
				outras coisas, por meio da linearidade e a da fragmentação do pensamento, sob a
				pretensão do alcance da objetividade, da certeza e da causalidade (<xref
					ref-type="bibr" rid="B32">Silva <italic>et al</italic>., 2020</xref>). Decorre,
				também, menos diretamente, do reconhecimento da indissociabilidade entre o âmbito
				teórico e os direcionamentos epistemológicos e ontológicos que necessariamente atuam
				sobre ele.</p>
			<p>Todavia, embora a crítica focada na dimensão epistêmica, como visto acima, não seja
				novidade, considera-se aqui que as correntes pós-crítica e decolonial provocam, em
				definitivo, o deslocamento do enfoque epistêmico da EA para um outro lugar. Isso
				porque, apesar de partirem suas análises de lugares comuns às correntes
					<italic>sistêmicas</italic> e <italic>complexas</italic>, ou seja, a crítica à
				racionalidade moderna e, mais especificamente, à fragmentação do pensamento (<xref
					ref-type="bibr" rid="B3">Bohm, 1995</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23"
					>Morin, 2001</xref>), elas de certa forma se afirmam, mais estritamente, a
				partir de críticas à EA crítica. É o que fazem Rufino, Camargo e Sanchez (<xref
					ref-type="bibr" rid="B30">2020</xref>, p. 6) ao anunciarem que “[...] a educação
				ambiental não basta ser crítica”. Ao fazerem isso, denunciam os limites de correntes
				de EA críticas historicamente acomodadas a epistemologias e ontologias ocidentais.
				Na visão dos autores, transformações promovidas nesse âmbito não têm o potencial de
				produzir as mudanças necessárias ao enfrentamento da crise atual. Isso porque essa
				crise não seria apenas social, que se resolveria a partir dos princípios e
				mecanismos sociais ocidentais (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Santos, 2019</xref>),
				mas civilizatória (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Goergen, 2014</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B22">Meira, 2009</xref>), o que incluiria, no âmbito do
				pensamento, necessariamente as dimensões epistemológica e ontológica.</p>
			<p>É por isso que a emergência dessas duas correntes está sendo identificada, neste
				texto, como uma virada epistêmica. Porque, de alguma forma, se colocam de fora das
				demais macrotendências descritas. A EA pós-crítica, por seu enfoque sobre a dimensão
				epistemológica e por sua autoidentificação <italic>pós-crítica</italic>. E a EA
				decolonial, por partir de premissas filosóficas muito diferentes das demais.</p>
			<p>Nesse contexto, no entanto, a emergência da EA decolonial atribui ao processo de
				virada epistêmica um impulso ainda mais radical. Isso porque, ao se constituir de um
				movimento que se afirma a partir de ontologias não ocidentais, é capaz de incorporar
				perspectivas outras de existência, produzindo, assim, análises
				contra-antropológicas, conforme afirma <xref ref-type="bibr" rid="B7">Castro
					(2015)</xref> no prefácio da obra <italic>A queda do céu: palavras de um Xamã
					Yanomami</italic>. Nessas análises, o ocidente é visto a partir de fora, dos
				colonizados e de suas visões de mundo. Ao fazer isso, o nexo causal entre a história
				ambiental e a história colonial (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Ferdinand,
					2022</xref>) é revelado, assim como vários dispositivos de dominação
				localizados, inclusive, nas dimensões epistemológica e ontológica, antes ocultados
				pelas análises que negligenciavam essas dimensões. Assim, além de envolver todas as
				dimensões do pensamento, a EA decolonial interessa-se, sobretudo, pela forma como
				esse pensamento é operacionalizado, pelas suas categorias cognitivas (<xref
					ref-type="bibr" rid="B13">Druker-Ibáñez; Cáceres-Jensen, 2022</xref>) e pelo
				imaginário (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dilguer; Lang; Pereira Filho,
					2016</xref>) que é produzido a partir dessa operacionalização. Ao se atentar a
				todas essas dimensões ao mesmo tempo, politizando o posicionamento epistemológico a
				partir das lentes da colonialidade, visa à descolonização do presente e do futuro
				via descolonização do pensamento e dos pressupostos que o organizam.</p>
			<p>Quanto às dimensões de pensamento de <xref ref-type="bibr" rid="B17">Habermas
					(1995)</xref>, portanto, a EA decolonial, então, sujeita à crítica todo o
				esquema da <bold><xref ref-type="fig" rid="f1">figura 1</xref></bold> que, como
				visto, representa o processo de racionalização do ocidente: a descentração do
				pensamento, o estabelecimento das esferas culturais de valor autônomas e
				independentes, a consequente implicação dessa operação na configuração de uma
				ontologia fragmentada, e as implicações de tudo isso na produção de teorias,
				categorias, visões de mundo e identidades individuais e coletivas. Com essa
				finalidade, reivindica que o enfoque analítico parta da dimensão ontológica,
				retomando, então, o questionamento sobre o que acontece com todo o resto.</p>
			<p>Mesmo assim, não é exatamente aí que reside a sua contribuição original. Como visto,
				críticas com enfoques epistêmicos e ontológicos já existiam, provenientes de
				matrizes de pensamento ocidentais, inclusive, como por exemplo a Ecologia Profunda,
				que se fundamenta, entre outros, por referenciais provenientes de povos originários
					(<xref ref-type="bibr" rid="B10">Devall; Sessions, 1998</xref>).</p>
			<p>Nesse contexto, a contribuição original da corrente decolonial para o campo é a
				combinação da crítica epistêmica e ontológica com a explicitação do caráter colonial
				do arranjo epistêmico ocidental. Assim, a crítica à epistemologia ocidental não
				seria apenas porque ela coloca um desafio ao conhecimento por induzir, no
				pensamento, a fragmentação de realidades não fragmentáveis, por exemplo. Mas, porque
				essa forma de organização implica, também, uma forma de dominação, um exercício de
				colonialidade (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Quijano, 1992</xref>), que pode
				promover a produção, a reprodução e a disseminação também da ontologia do
				dominador.</p>
			<p>Ao trazer essas novas perspectivas, todavia, a emergência da EA decolonial perturba
				os referenciais tradicionalmente utilizados na EA. Isso porque alarga o campo com a
				inclusão de outras racionalidades, ontologias e epistemologias não ocidentais. Com
				isso, explicita os limites das tendências e correntes até então desenvolvidas de
				forma epistemologicamente acomodada dentro da racionalidade moderna/colonial, que
				assumiam a ontologia e a epistemologia modernas como únicas, aproblemáticas, dadas,
				definitivas, suficientes, adequadas, desejáveis e universais.</p>
			<p>Além disso, subjacente a essa perturbação, outra contribuição que pode ser
				identificada nesse movimento epistêmico de emergência da EA decolonial é o resgate
				da importância da dimensão filosófica do pensamento para a EA, uma lacuna
				identificada há muito tempo (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Jickling,
				1992</xref>).</p>
			<p>Com isso, um campo do conhecimento originado, como sugerido por <xref ref-type="bibr"
					rid="B21">Layrargues e Lima (2014)</xref>, com enfoque nas esferas objetiva e
				subjetiva do pensamento, que reivindicou, posteriormente, o deslocamento desse
				enfoque para a dimensão intersubjetiva (política), está, agora, passando por mais um
				tensionamento paradigmático, a partir de demandas filosóficas. Nesse cenário,
				questões compreendidas como já resolvidas, ou como menos importantes, podem ser
				recolocadas sobre a mesa, a partir, no entanto, de outros lugares de
				argumentação.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Conclusões e considerações finais</title>
			<p>Conforme enunciado na introdução, o objetivo deste trabalho é identificar os
				itinerários da EA pelas diferentes dimensões do pensamento ao longo do tempo no
				Brasil. Essa identificação foi realizada tendo como parâmetro o processo de formação
				da racionalidade ocidental por meio da descentração do pensamento originário
				tradicional em esferas culturais de valor autônomas e independentes.</p>
			<p>Com esse referencial em mãos, foi feita, então, a análise de diferentes tipos de EA
				recortados em tipologias por diferentes autores. As tipologias utilizadas foram as
				macrotendências conservacionista, pragmática e crítica, e as correntes emergentes da
				EA pós-crítica e da EA decolonial.</p>
			<p>Nesse escopo, esta investigação identificou que a EA teria emergido no país com um
				enfoque epistêmico localizado, sobretudo, na dimensão objetiva, com caráter
				conservacionista. Com o tempo, no entanto, a evolução do campo e o surgimento de
				novas influências, essa formação original teria evoluído com a constituição de
				macrotendências com enfoques epistêmicos predominantes sobre as dimensões objetiva e
				subjetiva (macrotendência conservacionista), objetiva (macrotendência pragmática) e
				intersubjetiva (macrotendência crítica). Dessas macrotendências, entretanto, nem a
				conservacionista e nem a crítica se caracterizam como epistemologicamente puras,
				contendo, assim, correntes com características críticas à racionalidade ocidental (a
				corrente sistêmica, dentro da macrotendência conservacionista, e a corrente
				complexa, dentro da macrotendência crítica) e correntes acomodadas a ela.</p>
			<p>Mais recentemente, todavia, outras duas tendências tomaram forma na EA brasileira.
				Neste texto, sugere-se que elas promovem uma virada epistêmica no campo, justamente
				por se identificarem fora do cenário construído, até então, pelas macrotendências: a
				EA pós-crítica e a EA decolonial.</p>
			<p>A EA pós-crítica afirma-se a partir de críticas epistêmicas à racionalidade
				ocidental. Desse ponto, constrói um referencial que fundamenta o seu enfoque
				epistêmico - na dimensão subjetiva da realidade - desde um lugar diferente daquele
				caracterizador da dimensão subjetiva tão criticada no âmbito da EA, inscrita na
				racionalidade ocidental e geradora de abordagens que são interpretadas como
				alienadas e alienantes. Muito diferente disso, a subjetividade pós-crítica se insere
				em uma compreensão historicizada e politizada de sujeitos e subjetividades.</p>
			<p>Mesmo que, ao menos em parte, o referencial da EA pós-crítica não seja novo na EA,
				compartilhando mais ou menos premissas com as das correntes sistêmicas e complexas
				(pelo menos no que se refere à crítica à epistemologia ocidental), é relevante, do
				ponto de vista epistêmico, que essa corrente se autoidentifique fora da
				macrotendência crítica (embora se identifique em relação a ela). Isso porque esse
				movimento sugere, então, uma evolução do campo, com o surgimento de um tipo de EA
				que não cabe de forma acomodada, <italic>per se</italic>, nas tipologias existentes,
				apontando para o desenvolvimento de um novo locus intelectual no campo, a partir de
				conjuntos de pressupostos organizados de formas diferentes dos existentes.</p>
			<p>Por fim, o movimento de virada epistêmica iniciado com a emergência da EA pós-crítica
				é completado, por ora, com o advento da EA decolonial. Do ponto de vista
				epistemológico, a EA decolonial compartilha certos aspectos da crítica à
				epistemologia moderna com correntes pré-existentes da EA, sobretudo sistêmica e
				complexa. Também, como visto, compartilha sentidos afins aos da Ecologia Profunda.
				No entanto, ao combinar a crítica à epistemologia do ocidente com a colonialidade,
				faz essa crítica a partir de outro lugar, ou de outros lugares, politizando a esfera
				epistemológica e denunciando o seu papel colonizador, bem como da ontologia que ela
				consequentemente produz. Assim, ao trazer o foco para a dimensão ontológica,
				revolve, por um outro referencial, questões há muito sedimentadas no campo, algumas
				inclusive sob o jugo da ingenuidade, como o debate entre antropocentrismo e
				biocentrismo.</p>
			<p>Também, ao propor o enfoque sobre a dimensão ontológica, resgata queixas antigas
				quanto à necessidade do campo da EA se fortalecer filosoficamente, visto que
				transformações relevantes e necessárias diante da crise civilizatória atual não
				serão promovidas, e o mundo reencantado, a menos que desafios em âmbito ontológico
				sejam retomados e enfrentados.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>No dia 26 de outubro de 2023, a publicação aparecia com 622 citações na
					plataforma Google Acadêmico. Esse resultado demonstra que ela teria se tornado
					uma espécie de paradigma para a organização da EA no país, embora não seja
					necessariamente uma unanimidade.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
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					<article-title>Decolonialidade, biocentrismo e educação
						ambiental</article-title>
					<source>Educação &amp; Realidade</source>
					<publisher-loc>Porto Alegre</publisher-loc>
					<volume>49</volume>
					<issue>e133170</issue>
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					<article-title>Implicações epistemológicas e teóricas da incorporação dos
						conceitos de ser mais e inconclusão na educação ambiental</article-title>
					<source>Pesquisa em Educação Ambiental</source>
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