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				<journal-title>Cadernos EBAPE.BR</journal-title>
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			<issn pub-type="epub">1679-3951</issn>
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				<publisher-name>Fundação Getulio Vargas, Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1679-395120230016</article-id>
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					<subject>ARTIGO</subject>
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				<article-title>Citacionismo como erudição acadêmica e como ação estratégica</article-title>
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					<trans-title>Citationism as academic erudition and as a strategic action</trans-title>
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					<trans-title>El citacionismo como erudición académica y acción estratégica</trans-title>
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						<surname>Vizeu</surname>
						<given-names>Fabio</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>1</sup></xref>
					<role>Conceituação (Liderança)</role>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="original">Programa de Pós-Graduação em Administração, Universidade Positivo, Curitiba, PR- Brasil</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em Administração</institution>
					<institution content-type="orgname">Universidade Positivo</institution>
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						<named-content content-type="city">Curitiba</named-content>
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					<email>vizeu@up.edu.br</email>
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			<author-notes>
				<fn fn-type="other" id="fn2">
					<p>Fabio Vizeu - Doutor em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV); Professor Titular II na Universidade Positivo. E-mail: vizeu@up.edu.br</p>
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				<fn fn-type="edited-by" id="fn4">
					<p>Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859</p>
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				<fn fn-type="edited-by" id="fn5">
					<p>Fabricio Stocker (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127</p>
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			</author-notes>
			<!--<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>20</day>
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				<year>2024</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>A erudição é uma característica representativa para o acadêmico. Ela marca a prosa acadêmica com uma aura de sofisticação e elitização intelectual. Quando a erudição se manifesta na prática do citacionismo, pode constituir-se como uma estratégia de distorção comunicativa instrumentalizada para evitar ou minimizar o debate ou a argumentação mais acurada. Discutir esse problema específico é o objetivo deste ensaio. Para articular essa crítica, consideramos a perspectiva filosófico-sociológica de Habermas, segundo a qual a comunicação constitui um processo de troca de significados intersubjetivos, ao mesmo tempo que se estabelece como um agir estratégico de intervenção no mundo. Nesse sentido, o citacionismo é visto como um importante mecanismo que utiliza especificidades do léxico especializado do mundo acadêmico com o fim de dominação e influência, a despeito da ininteligibilidade derivada deste processo.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p>Being erudite represents an important characteristic of the academic, causing academic prose to be marked by an aura of sophistication and intellectual elitism. When erudition manifests in the practice of citationism, it can constitute a communicative distortion strategy instrumentalized to avoid or minimize debate or more accurate argumentation. Discussing this specific problem is the purpose of this essay. This criticism is developed by considering Habermas’ philosophical-sociological perspective, in which communication constitutes a process of exchange of intersubjective meanings while establishing itself as a strategic act of intervention in the world. In this sense, citacionism is seen as a usage of the specificities of the specialized lexicon in the academic world, working as an important mechanism of domination and influence despite the unintelligibility derived from this process.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>Resumen</title>
				<p>La erudición es una característica importante para el académico, que marca la prosa académica con un aura de sofisticación y elitismo intelectual. Cuando la erudición se manifiesta en la práctica del citacionismo, puede constituir una estrategia de distorsión comunicativa instrumentalizada para evitar o minimizar el debate o la argumentación más certera. Discutir este problema específico es el propósito de este ensayo. Para articular esta crítica, consideramos la perspectiva filosófico-sociológica de Habermas, donde la comunicación constituye un proceso de intercambio de significados intersubjetivos al tiempo que se erige como un acto estratégico de intervención en el mundo. En este sentido, el citacionismo es visto como un uso de las especificidades del léxico especializado del mundo académico que funciona como un importante mecanismo de dominación e influencia, a pesar de la ininteligibilidad derivada de este proceso.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Erudição</kwd>
				<kwd>Comunicação Acadêmica</kwd>
				<kwd>Citacionismo</kwd>
				<kwd>Relações de Poder</kwd>
				<kwd>Teoria da Ação Comunicativa</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Erudition</kwd>
				<kwd>Academic Communication</kwd>
				<kwd>Citationism</kwd>
				<kwd>Power relations</kwd>
				<kwd>Theory of Communicative Action</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Erudición</kwd>
				<kwd>Comunicación académica</kwd>
				<kwd>Citacionismo</kwd>
				<kwd>Relaciones de poder</kwd>
				<kwd>Teoría de la acción comunicativa</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>INTRODUÇÃO</title>
			<p>A comunicação acadêmica<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> tem sido marcada pelo desafio da inteligibilidade para o mundo não acadêmico, desafio este que dificulta a própria legitimação do saber acadêmico-científico na sociedade de modo geral (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>). Mais do que um problema linguístico, esse processo abarca uma importante dimensão social, que se confunde com a própria história das Ciências Sociais e suas derivações, marcadas pela tensão entre o interesse político do controle social e a intenção de produção de conhecimento emancipatório (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Habermas, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Horkheimer, 1989</xref>). Na área de Estudos de Administração e Organizações, a necessidade por uma maior clareza de sua contribuição social tem sido lembrada como uma questão urgente e necessária (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Alperstedt &amp; Andion, 2017</xref>). Isso, certamente, passa pela questão de a capacidade do conhecimento produzido nesta área - quanto possível - ser inteligível para o praticante da Administração (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>).</p>
			<p>Um dos traços de boa parte da comunicação acadêmica em diversos subcampos científicos - e, especificamente, na área de Administração - é justamente a erudição discursiva, caracterizada pela forma culta da prosa na expressão do conhecimento formalmente estabelecido e especializado. Conforme já sinalizamos em outra oportunidade (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>), esse processo condiciona as relações de poder entre os participantes do campo, especialmente professores e alunos, membros seniores e novatos. Na sociedade de modo geral, a origem desse discurso erudito elitista em certos campos da atividade acadêmica dá-se especialmente a partir do século XIX e em consonância com os valores do Iluminismo, quando se passou a considerar como culto e erudito o membro da sociedade burguesa que detém, entre outros saberes, o conhecimento acadêmico-científico. É especialmente por esse motivo que, de certo modo, o meio acadêmico adquiriu prestígio entre as elites, pois o saber acadêmico passou a representar um interessante capital simbólico de diferenciação perante as massas.</p>
			<p>Dessa perspectiva, no presente texto, analisamos de forma crítica a erudição acadêmica como instrumento de poder na relação entre os próprios acadêmicos; especialmente na pesquisa em Administração. Especificamente, nosso argumento discorre sobre uma prática singular da prosa acadêmica nesta área, denominada por nós citacionismo. Podendo ser considerado um neologismo, o “citacionismo” é um termo utilizado pela comunidade acadêmica para criticar a prática da citação de forma exaustiva e cerimonial (p. ex., <xref ref-type="bibr" rid="B14">Tuleski, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>). Importante destacar, desde já, que entendemos por citacionismo não simplesmente o ato de citar - oportunamente, no presente texto, situaremos esse ato comunicativo como uma característica fundamental da prosa acadêmica. O que está sob o crivo de crítica neste ensaio é uma espécie de distorção desse ato, um tipo de recurso retórico que, conforme argumentaremos, pode comprometer a inteligibilidade do debate acadêmico.</p>
			<p>Para fundamentar nosso argumento, valemo-nos de premissas do paradigma da Filosofia da Linguagem. Nesta abordagem, a crítica às práticas comunicativas restringe-se à linguagem em uso, aos jogos de linguagem que se estabelecem dentro de comunidades linguísticas especializadas, como é o caso das comunidades comunicativas organizadas em subgrupos do campo científico (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bourdieu, 2011</xref>). Desse modo, para construir esse percurso, começamos nosso texto apresentando uma breve reflexão sobre o mal-estar da erudição segundo a visão de Schopenhauer, estendida à comunidade acadêmica em nossos dias. Em seguida, considerando a Teoria da Ação Comunicativa de Habermas, apontamos como a distorção comunicativa na prosa acadêmica serve às relações de poder no campo. Depois, tratamos do objeto central de nossa crítica, o citacionismo, considerando-o como um dos mecanismos de distorção comunicativa na prosa acadêmica. Exemplificamos como isso ocorre por duas formas de citacionismo, ressaltando como essa prática minimiza eventuais problemas no argumento apresentado e acaba por comprometer o debate e a crítica. Em nossas considerações finais, defendemos a retomada da intenção fundamental do ato comunicativo no meio acadêmico da área de Administração, qual seja, a dimensão ilocucionária da fala e a intenção de produzir conhecimento com base no melhor argumento e na disputa livre entre os participantes do debate acadêmico, que deve ser produzido atendendo ao critério de inteligibilidade.</p>
			<p>Antes de iniciar a discussão propriamente dita, é preciso fazer uma ressalva. Ao adotar a perspectiva da Filosofia da Linguagem, assumimos que existem diferentes concepções e práticas de linguagem no meio acadêmico-científico. Dito de outra forma, é necessário ter cuidado ao examinar a prática da comunicação acadêmica, considerando as especificidades e diferenças substanciais entre os subcampos e redutos acadêmicos. Assim sendo, nosso texto se limita às circunstâncias aqui apresentadas e vivenciadas em uma subárea específica, o campo de pesquisa da Administração, que é o <italic>locus</italic> principal de referência do periódico Cadernos EBAPE.BR. Apesar da noção de que as práticas de citacionismo aqui apontadas não são exclusivas desse campo, sua análise criteriosa para além da Administração fugiria ao escopo do presente trabalho.</p>
			<p>Cabe ressaltar que este texto não foi escrito de forma tradicional. Não seria coerente que tivéssemos como objeto de análise a prosa acadêmica adotando o mesmo protocolo que criticamos. Assim sendo, procuramos nos libertar dos mecanismos de citacionismo, aqui sob crítica. Todavia isso não significou abandonar a prática da citação, visto que não necessariamente questionamos a lógica da referenciação em si mesma, algo necessário ao debate acadêmico e que será tratado mais à frente.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O MAL-ESTAR DA ERUDIÇÃO</title>
			<p>O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), conhecido por sua crítica a Hegel e sua oposição à filosofia moral kantiana, escreve um pequeno texto sobre a escrita, no qual ele tece uma ácida crítica à erudição de sua época. No contexto de expansão da industrialização em toda a Europa, o pensador alemão apresenta uma visão pessimista sobre a erudição, vista por ele mais como uma estratégia econômica de letrados do que como a condição para o saber e o conhecimento verdadeiro. O filósofo sinaliza o problema do discurso intelectual vazio, tomado como um mecanismo de legitimação social e <italic>status</italic>, configurando uma espécie de ‘pseudo’ formação. De acordo com o autor, a erudição pode ser um empecilho para o verdadeiro saber na medida em que retira a autonomia do pensamento livre. Sobre esse ponto, o filósofo afirma:</p>
			<p>Assim como as atividades de ler e aprender, quando em excesso, são prejudiciais ao pensamento próprio, as de escrever e ensinar em demasia também desacostumam os homens da clareza e profundidade do saber e da compreensão, uma vez que não lhes sobra tempo para obtê-los. Com isso, quando expõe alguma ideia, a pessoa precisa preencher com palavras e frases as lacunas de clareza em seu conhecimento. É isso, e não a aridez do assunto, que torna a maioria dos livros tão incrivelmente entediante (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Schopenhauer, 2009</xref>, p. 21).</p>
			<p>Esse ceticismo do filósofo em relação à erudição literária dá-se pela sua constatação de que o ofício da docência em seu tempo corrompia-se com o interesse econômico e a erudição do estudante representava somente um recurso simbólico de <italic>status</italic> e superioridade. Realmente, faz sentido pensar que, em uma época na qual o acesso ao letramento era restrito à elite aristocrática, deter conhecimento geral sobre a cultura humana representasse uma marca de diferenciação social, mesmo que esse conhecimento fosse um simulacro e não efetivamente compreendido. Estudava-se e lia-se mais para demonstrar superioridade do que por amor ao saber. Por esse motivo, Schopenhauer mostrou-se implacável com a ininteligibilidade da escrita dos intelectuais e letrados de sua época. Foi o primeiro filósofo a sinalizar que esse mecanismo comunicativo se tratava de um estratagema cerimonialista, uma forma de enganar a audiência sobre ignorância e desconhecimento a respeito de coisas importantes.</p>
			<p>Em paralelo a esse processo simbólico de legitimação cultural pela erudição das elites no período iluminista, emergia um novo campo vinculado aos intelectuais e universitários: o meio acadêmico-científico e a sua organização em disciplinas e saberes especializados e dedicados ao interesse utilitarista da sociedade burguesa e da economia capitalista (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Habermas, 2014</xref>). O acadêmico - aqui posto como o intelectual, o professor universitário, o cientista produtor do conhecimento, o filósofo, ou seja, todos aqueles que representam o que Bourdieu chamou de <italic>homo academicus</italic> - assume como profissão remunerada sua atividade na nova sociedade capitalista e tecnológica. Rapidamente essa comunidade organiza um campo social próprio, com trocas simbólicas, <italic>habitus</italic> específicos, porém, dependente do sistema econômico capitalista, como todos os outros campos (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bourdieu, 2011</xref>).</p>
			<p>
			<disp-quote>
				<p>É assim que a comunidade acadêmica entra no jogo da mercantilização de seus <italic>outputs</italic> e cria mecanismos próprios de produtivismo (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Castiel et al., 2007</xref>), tornando a comunicação formal do conhecimento acadêmico um importante fazer econômico. No subcampo da pesquisa em Administração, essa prática é especialmente percebida pela produção de <italic>papers</italic>, que se tornaram mercadoria pela lógica de regulação dos programas de pós-graduação na área (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Alcadipani, 2017</xref>) e pelos mecanismos corporativistas de editoração e publicação (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Torres, 2020</xref>).</p>
			</disp-quote>
		</p>
			<p>Esse contexto vem sendo associado a uma crise da área, já que produz uma singular relação entre o mundo acadêmico e os espaços não acadêmicos da sociedade, criando um abismo linguístico entre esses dois mundos (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>). Atualmente, com a crise de legitimação pela qual o meio acadêmico-científico passa em virtude da era da pós-verdade e da negação da Ciência (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Ylä-Anttila, 2018</xref>), o insulamento e o hermetismo do discurso acadêmico tornam-se um problema a ser superado, sob pena de comprometer a própria existência de muitas das áreas especializadas da comunidade acadêmica, especialmente no campo da pesquisa em Administração (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>).</p>
			<p>Para entender como o problema da comunicação acadêmica pode ser uma questão intrinsecamente ligada à dinâmica social das relações de poder e trocas simbólicas, recorremos à perspectiva do filósofo alemão Jürgen Habermas, em sua teoria de ação social.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>HABERMAS, RACIONALIDADE E ESTRUTURA SOCIAL DA COMUNICAÇÃO</title>
			<p>Como teoria densa e articulada em diferentes áreas da Filosofia e das Ciências Sociais, a Teoria da Ação Comunicativa de <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>) desperta nosso interesse por se tratar de corpo teórico que explica o papel do discurso acadêmico no processo histórico de distorção comunicativa promovida pelas instituições da modernidade. Para a finalidade de nosso ensaio, não iremos discorrer sobre todos os pontos desse arcabouço teórico e de seus pressupostos de fundamentação, apenas iremos pontuar os conceitos que nos interessam para apreciar como se dá o processo de distorção na comunicação acadêmica.</p>
			<p>Para construir seu edifício teórico, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>) propõe a revalidação da noção de racionalidade tendo por base o paradigma da linguagem, segundo o qual, na interação comunicativa, a racionalidade de um proferimento está na presunção de validade do conteúdo do que foi dito ou lido pelo ouvinte ou leitor. Este é o conceito de pretensões de validade, o qual se expressa, para Habermas, em quatro dimensões ontológicas da vida humana, implicando quatro condições distintas para determinar a racionalidade de um texto ou fala, apresentadas no <xref ref-type="table" rid="ch1">Quadro 1</xref>.</p>
			<p>
				<table-wrap id="ch1">
					<label>Quadro 1</label>
					<caption>
						<title>Pretensões de validade dos atos de fala</title>
					</caption>
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					<table-wrap-foot>
						<fn id="TFN1">
							<p>Fonte: Elaborado pelo autor, com base em <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>).</p>
						</fn>
					</table-wrap-foot>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>A síntese apresentada no quadro anterior apresenta as diferentes dimensões em que se processa a racionalidade nas interações comunicativas, de acordo com Habermas. Os exemplos apresentados na última coluna ilustram como falas ou textos podem ou não ser considerados pelos ouvintes ou leitores, gerando a possibilidade de questionamento por parte do interlocutor e exigindo que o autor da fala ou texto apresente justificativas. Essa condição determina a dialogicidade da interação comunicativa, promovendo os processos de debate, argumentação, diálogo, crítica, contestação, refutação, réplica, ou seja, toda sorte de interlocução entre dois sujeitos comunicativos para chegar a um entendimento sobre o que é apresentando pela fala ou texto. Por exemplo, na ilustração sobre a “pretensão de verdade”, a afirmação “A taxa de mortalidade infantil no Brasil aumentou no período da pandemia” somente será aceita como verdade pelos interlocutores se todos os elementos factuais e objetivos já forem previamente conhecidos e aceitos, ou forem lógicos e coerentes com outros fatos já conhecidos. Caso haja dúvida quanto à veracidade dos fatos e/ou acontecimentos afirmados, para que a afirmação seja aceita, será necessário que se estabeleça uma nova argumentação para convencer ou esclarecer as dúvidas dos interlocutores. Esse processo, quando conduzido sem manipulação de dados ou argumentos, Habermas chama de comunicação orientada para o entendimento intersubjetivo. Ou seja, quando há divergência de entendimento sobre algo (seja um fato, uma atitude, uma norma ou qualquer outra questão que se refere às verdades humanas), faz-se necessário o diálogo. Por meio deste os interlocutores podem apresentar melhor argumentação e esclarecimento sobre pontos obscuros. Acordo, aqui, significa possibilidade de convergência de entendimentos, possibilidade de conexão entre subjetividades. Em uma palavra: a intersubjetividade.</p>
			<p>É importante lembrar que essa “dissonância compreensiva” não ocorre somente na dimensão da linguagem, tendo em conta que uma das intenções da Filosofia da Linguagem é justamente aproximar a linguagem das dimensões ontológicas tratadas pelas Ciências Sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas, 2012</xref>). Isto posto, nas relações humanas, a dúvida sobre uma afirmação (fala ou texto) pode ocorrer devido à incoerência entre o dito ou escrito e o percebido ou vivenciado pelo ouvinte ou leitor. Para exemplificar esse ponto, tomemos a dimensão ontológica do mundo subjetivo retratada no <xref ref-type="table" rid="ch1">Quadro 1</xref>. A ordem “Passe a bolsa ou eu juro que vou te matar!” requer que o interlocutor aceite que a intenção subjetiva do assaltante é verdadeira. Ele não considerará a ordem se algo lhe fomentar a dúvida ou incerteza quanto à intenção. Por exemplo, se a vítima não acreditar que o assaltante tenha coragem para o ato ou se duvidar dos meios materiais para concretizá-lo. Nessa ilustração, a vítima poderá questionar: “Essa arma não é de verdade”; ou afirmar: “Você não teria coragem de fazer isso”. Tal situação condicionará o falante a comprovar sua intenção, sob pena de sua ordem não ter efetividade.</p>
			<p>Outro exemplo também ilustra essa questão. A afirmação “Todos os presos precisam ter alimentação digna, mesmo os que cometeram crimes hediondos” será recebida pelo interlocutor como válida somente se ele concordar com as premissas normativas implícitas na asserção. Ou seja, a afirmação não será considerada válida se o ouvinte ou leitor não assumir <italic>a priori</italic> os valores ou as normas que a sustentam como válidas - no caso exemplificado, o direito de todos os seres humanos terem acesso a comida. Ele pode questionar: “Mas e os direitos da vítima?” ou “Ele não merece ser tratado assim pelo que ele fez”. Isso exigirá que o falante recorra a argumentos que justifiquem o porquê da validade de sua afirmação.</p>
			<p>Neste raciocínio, esta é a proposta de <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>): o debate racional livre é o caminho para o estabelecimento de acordos intersubjetivos, processos democráticos direcionados à tentativa de solucionar disputas, desacordos, divergências, etc., dentro dos limites das referências válidas na comunidade da qual os divergentes fazem parte. Isto posto, não adianta utilizar argumentos centrados em referências que não são válidas ao interlocutor. Por exemplo, ninguém conseguirá convencer um ateu sobre algo valendo-se de argumentos religiosos, mas é possível convencê-lo utilizando argumentos válidos para ambos os interlocutores (isso é ilegal, é inconstitucional, é desumano, etc.). É assim que se dá o entendimento intersubjetivo de Habermas: o acordo em relação a uma divergência pelo diálogo argumentativo válido para os interlocutores. Em última instância, é assim que se dá o debate livre e racional.</p>
			<p>É importante notar que o conceito de pretensão de validez indica que o ouvinte ou leitor é quem determina a validade da declaração. Ele é quem atesta se algo dito ou escrito é verdade, sincero, correto ou inteligível, porque essas dimensões fazem parte do seu mundo de vida. Em virtude dessa condição do ato de fala, não conseguimos convencer uma criança a respeito de algo não vivenciado por ela valendo-nos de argumentos suportados pelos fatos ou saberes constituídos por uma vivência que ela não possui. Ou seja, a criança não será capaz de compreender acontecimentos, comportamentos e regras que existem somente no mundo adulto. Por isso, os pais recorrem a duas estratégias comunicativas para convencer as crianças sobre algo: i) traduzem o que entendem para as referências do mundo da criança; ou ii) manipulam o que dizem para que faça sentido ao pequeno interlocutor. No caso da tradução, há ainda um esforço de se manter o entendimento da relação comunicativa, pois a tradução é apenas um recurso de adaptação das verdades do mundo adulto para o contexto de verdades do mundo infantil. Quando um pai [ou mãe] diz para o filho: “Coma os legumes para ficar forte como o Super-homem”, o adulto realmente acredita que comer legumes é algo que lhe dará saúde (verdade no mundo adulto), o que, no universo infantil, pode ser traduzido como a “força de um super-herói”. Mas, quando os pais dizem para a criança “Não seja malcriado senão o bicho-papão vai te levar embora”, eles estão manipulando o universo de ‘verdades’ da criança para garantir seu comportamento, já que sabem que se trata de uma mentira, sabem que ninguém irá levá-la caso não se comporte.</p>
			<p>Desse modo, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>) considera que o ato de fala abarca duas diferentes dimensões: a dimensão ilocucionária - digo algo sobre o mundo compartilhado por mim e pelo meu interlocutor - e a dimensão perlocucionária - ao dizer algo sobre o nosso mundo compartilhado, eu produzo um efeito neste mesmo mundo.</p>
			<p>Aqui chegamos ao ponto que nos interessa na teoria habermasiana da ação comunicativa para explicar o debate acadêmico. Considerando que o conhecimento acadêmico-científico é construído pela crítica e pelo debate racional argumentativo (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Habermas, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Horkheimer, 1989</xref>), a interação comunicativa entre os membros dessa comunidade é fundamental. Por isso, os canais formais da comunicação verbal - falada e escrita - assumem uma importância considerável para os membros dessa comunidade. A interação comunicativa ocorre nos congressos e outros eventos científicos, bem como na leitura dos anais destes eventos, dos livros e dos periódicos onde são publicados os textos, fruto do trabalho do pesquisador e intelectual.</p>
			<p>Outro ponto importante a ser considerado na interação entre membros dessa comunidade pode ser observado na prosa do texto acadêmico. Neste, uma parte importante é a referenciação de outros textos da comunidade, pois assim se efetua uma conexão com o entendimento legitimado pelos pares para ratificá-lo ou questioná-lo, contribuindo para que o conhecimento acadêmico-científico avance e se renove. Contudo, como as premissas epistemológicas entre as diferentes concepções científicas são diversas e concorrentes, o debate acadêmico acaba sendo limitado pela possibilidade de comensurabilidade paradigmática, ou seja, o debate argumentativo no meio acadêmico depende da convergência das premissas ontoepistemológicas postas na discussão. Essa condição não somente cria uma multiplicidade de perspectivas sobre os mesmos problemas humanos e sociais, retratados por visões que podem mesmo ser significativamente contrárias (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Hassard, 1990</xref>); ela também estabelece que as diferentes concepções acadêmico-científicas organizam, na mesma proporção, diferentes espaços de interação comunicativa.</p>
			<p>Aqui surge um novo ponto de reflexão sobre a interação acadêmica. A coexistência dessas diferentes perspectivas somente é garantida porque estas são consideradas pelos membros da comunidade como legitimamente ‘acadêmicas’. Isto significa que tal legitimidade se sustenta mais pelos mecanismos formais de vinculação ao campo do que pela convergência de entendimentos obtida pelo debate estabelecido por diferentes correntes e perspectivas epistemológicas. O que não significa dizer que não existam princípios de cientificidade gerais que devem ser compartilhados e que o processo de construção do conhecimento acadêmico não deva ser respeitado. Contudo a diversidade de entendimentos e perspectivas restringe o debate a redutos específicos, onde tais premissas são compartilhadas, o que permite que os argumentos sejam viáveis.</p>
			<p>Podemos ilustrar com um exemplo em que medida a diversidade epistemológica coexiste no campo. Dificilmente um membro da comunidade acadêmica conseguirá publicar um texto cuja referência teórica sejam pressupostos da Astrologia, mesmo que este membro tenha doutorado, seja integrante de alguma sociedade científica e cumpra com todos os requisitos formais da escrita acadêmica. Isso ocorre justamente porque a Astrologia é um campo de conhecimento não legítimo para a comunidade científica. Essa falta de legitimidade não necessariamente justifica-se pela falta de ‘cientificidade’, já que outras perspectivas exógenas ao mundo acadêmico-científico foram inseridas no debate e hoje circulam entre os canais de comunicação acadêmica. Esse é o caso da Psicanálise, uma abordagem que ainda sofre resistência por boa parte de acadêmicos da Psicologia, mas é aceita por eles como perspectiva legítima do pensamento de membros da área, o que lhe permite ‘circular’ nos canais formais de comunicação da comunidade. Interessante destacar que essa incorporação de saberes exógenos ao meio acadêmico-científico também ocorre nas Ciências da Natureza, como a Medicina, que hoje aceita terapêuticas como a Homeopatia e a Acupuntura, antes rechaçadas como ‘terapêuticas não científicas’. Quando membros da comunidade médica passaram a adotar tais terapêuticas exógenas, a comunidade acadêmica desta área viu-se na necessidade de legitimá-las, criando denominações (p. ex., medicinas alternativas) para permitir a aceitação e minimizar a resistência a elas entre alguns de seus membros (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Sigolo, 2019</xref>).</p>
			<p>Assim vemos que a estrutura social do campo acadêmico acaba assumindo um papel central na dinâmica da comunicação acadêmica. <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bourdieu (2011</xref>) ressalta esse aspecto ao apresentar seu ensaio sobre os pressupostos da vida acadêmica fundamentado em sua teoria sobre campo social. Ele aponta que capitais sociais desse campo, como os títulos e outras formas simbólicas, criam uma hierarquia entre os membros da comunidade, orientando como transitar e crescer (em <italic>status</italic>) nesse meio social. Um ponto importante ressaltado por Bourdieu é que a formação dos membros da comunidade acadêmica, no Brasil e na maior parte do mundo, acontece nos programas de mestrado e doutorado. Nestes cursos, os alunos são treinados na linguagem e nos valores acadêmicos, para que, ao se tornarem membros efetivos da comunidade, possam manter o ciclo de reprodução de valores ou linguagem, convertendo-se, assim, em agentes de formação de novos membros. Nessa dinâmica, o sociólogo ressalta duas formas de capital social: o temporal, que é o poder institucionalizado de posição no campo - cargos, títulos, controle de recursos, gestão de processos e organizações acadêmicas, etc. -, e o poder da reputação, um poder simbólico mais ou menos independente do primeiro (mesmo que, na maioria das vezes, integrado).</p>
			<p>Na área de Administração, assim como em diversas outras subáreas do campo acadêmico, a reputação é medida particularmente pelo impacto da produção intelectual, principalmente aquela que é fruto de pesquisa. No caso da comunicação acadêmica, a reputação do autor está associada à reputação de seus escritos, o que pode ser medido por mecanismos e indicadores de impacto de artigos, periódicos e autores (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Torres, 2020</xref>). Na reputação do acadêmico, ‘clássico’ é uma interessante noção difundida no meio. Um clássico, para a comunidade acadêmica, é um autor fundamental para o campo acadêmico (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneghetti et al., 2014</xref>), mesmo que somente para um subcampo; ressaltando que a legitimidade não está associada à aceitação das ideias, mas, sim, à aceitação da presença nos canais de interação. Vamos, novamente, a um exemplo. Karl Marx é um clássico da Sociologia, da Economia e de tantas outras subáreas por conta de seus textos. Suas ideias estão longe de serem aceitas por todos os acadêmicos, mas todos o aceitam como um ‘clássico’ em seus subcampos (talvez, nem tanto, em seus redutos mais específicos). Essa condição permite que os textos deste autor circulem nos canais formais de comunicação acadêmica, mas se limitando ao debate possível, aquele em que não irá ocorrer a ‘incomensurabilidade paradigmática’. Em razão disso, em um mesmo departamento de uma universidade, é possível a convivência de professores marxinianos e outros que se opõem radicalmente às ideias de Marx!</p>
			<p>Esse exemplo ilustra uma condição fundamental para o fazer comunicacional acadêmico: é preciso saber das regras sociais do jogo comunicativo. Às vezes, elas são mais importantes do que a aceitação de pressupostos que validam os argumentos utilizados para produzir o debate entre os membros. Sob uma perspectiva sociológica, essas regras seguem os mesmos aspectos de qualquer outro campo social - aspectos simbólicos e culturais, interesses, relações de poder e de dominação, dependência do sistema capitalista, entre tantos outros aspectos de nosso tempo histórico. Por isso, o fazer acadêmico - e, em destaque, a comunicação acadêmica - é uma prática com dimensões culturais, simbólicas, políticas, econômicas, etc., e assume contradições que devem ser explicitadas e devidamente compreendidas. O que apontamos no presente ensaio é que uma dessas contradições é a distorção comunicativa, um processo que <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>) associa aos sistemas econômico e político de nosso período histórico. Uma das formas de distorção comunicativa na prática acadêmica é o que aqui denominamos citacionismo. Discorremos, a seguir, sobre como o citacionismo torna-se uma prática de distorção comunicativa problemática ao debate acadêmico.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>CITACIONISMO COMO DISTORÇÃO COMUNICATIVA</title>
			<p>Segundo a ideia de que a erudição na prosa acadêmica pode assumir uma dimensão utilitária, ou seja, serviria como instrumento para a persuasão nas interações comunicativas entre os acadêmicos, pontuamos como se procede o citacionismo, tomado aqui como uma forma específica de ação estratégica habermasiana nessa prática comunicacional. Seguindo as premissas da teoria de Habermas, podemos considerar que o uso de citações é uma norma da prosa acadêmica que tem por objetivo atender aos critérios de validade das esferas ontológicas do mundo da vida - a verdade, a sinceridade e a retidão. Ou seja, ao se fazer o uso de citação no texto acadêmico, garante-se que as asserções nele contidas - afirmações, constatações, interpretações, análises, justificativas, entre outros recursos argumentativos - sejam sustentadas pela força da legitimação dessa estratégia de escrita. Isso pode ajudar em uma questão específica, qual seja, a necessidade de argumentação ante desacordos de entendimento entre interlocutores envolvidos na comunicação acadêmica. Ou seja, a retórica de legitimação implícita no recurso comunicativo da citação pode minimizar essa necessidade ou mesmo anulá-la, já que a força de legitimação da citação pode atuar como evidência de reputação e/ou convergência de entendimentos, evitando, assim, a necessidade de questionamento em situações de falta de compreensão. Se esse processo é estressado ao ponto de evitar o debate ou dificultar o entendimento, estabelecem-se as contradições do citacionismo, sobre o qual iremos detalhar a seguir.</p>
			<p>Citar um autor ou texto pode ser um ato com diferentes funções e formas de empreender. Podemos citar diferentes textos e em diferentes meios - um artigo em periódico, um livro ou capítulo de livro, uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado, dentre tantas e diversificadas formas de escrita praticadas no meio acadêmico. Tal diversidade também é determinada pelos diferentes participantes da comunidade (pesquisadores, professores e alunos do ambiente universitário), que a praticam com diferentes finalidades. Assim, o recurso ao ato de citar pode ser utilizado para atender a diferentes demandas de argumentação: constatar ou refutar uma evidência empírica, confirmar ou negar, explicar ou exemplificar uma interpretação teórica, conceitual e/ou analítica, para apresentar um posicionamento a respeito de uma controvérsia, entre tantas outras possibilidades de uso.</p>
			<p>O que é importante destacar, aqui, é que, em todas as funções de suporte argumentativo, existe uma premissa básica no ato de citar. Citamos outros textos escritos e publicados nos canais legítimos da comunidade porque um elemento fundamental do fazer acadêmico é o debate entre os membros e a convergência de entendimento para a consolidação de saberes. Conforme sustentam diferentes analistas da prática científica, o conhecimento acadêmico-científico, mesmo se configurando como difuso e heterogêneo, supõe acumulação e convergência. Se considerarmos que, além dessa presunção de convergência e acumulação, há a necessidade de diálogo, temos dois princípios do fazer acadêmico-científico que tornam o ato de citar ou referenciar um elemento fundamental da prosa acadêmica.</p>
			<p>A reflexão sobre as funcionalidades do ato de citar nos faz compreender essa prática como fundamental, como algo que deve ser considerado para além do mero cerimonialismo. Isso porque essa prática é um proceder racional-formal (no sentido weberiano), que, além de corresponder a uma norma padronizada pela comunidade, abarca uma racionalidade que a justifica.</p>
			<p>Vejamos qual seria essa justificativa por meio de um exemplo. A afirmação “Conforme propõe Copérnico (1543), a Terra gira em torno do Sol”, quando feita na prosa acadêmica, tem validade em razão de uma espécie de ‘transferência’ de pretensão de validade para o autor citado - ou seja, citar um autor é transferir para ele a pretensão de validade da assertiva. Desse modo, para além dos elementos lógicos do argumento escrito, essa transferência de pretensão de validade é possível porque, quando se trata de um texto legitimado pelos canais de difusão do conhecimento acadêmico, supõe-se que sua força assertiva está no fato de esse manuscrito já circular e ser aceito pelos membros dessa comunidade, mesmo que somente por uma parcela deles. Considerando o universo específico da pesquisa em Administração, no qual os periódicos são o canal prioritário para a produção intelectual (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Alcadipani, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B2">Alperstedt &amp; Andion, 2017</xref>), a aceitação da referência citada conta com mais um elemento de racionalidade na sua legitimação: o fato de os artigos publicados em periódicos terem passado pelo crivo da revisão por pares, cumprindo o rito da validade implícita no <italic>modus operandi</italic> do processo editorial neste subcampo (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Torres, 2020</xref>).</p>
			<p>Seja no sentido amplo ou no caso específico mencionado, citar um texto acadêmico legitimado pela comunidade é aceitar que o argumento do texto citado é valido. Por óbvio, este ‘argumento’ já circula no meio e é assimilado pela comunidade em suas práticas de formação, consolidação ou debate. Esse aspecto demonstra a importância dada à qualificação dos canais de publicação. Por isso que, em muitas comunidades acadêmicas, como é o caso da área de Administração, existe uma verdadeira “demonização” de publicações consideradas ‘não acadêmicas’, como certos textos escritos por praticantes ‘sem rigor científico’ e outros estudos popularizados fora do campo (por exemplo, estudos históricos feitos por jornalistas e publicados em canais não acadêmicos). Ainda considerando a área de Administração, é comum livros não terem a mesma validade dos textos publicados em periódicos acadêmicos, justamente porque não há a garantia da adoção de critérios rigorosos da revisão por pares e especialistas (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Torres, 2020</xref>). Um dos argumentos considerados para essa glosa de livros foi o crescimento da lógica de mercantilização dos livros técnico-científicos, o que estimulou um afrouxamento no rigor dos processos editoriais nestes produtos literários.</p>
			<p>Feita essa breve reflexão sobre a função do ato de citar ou referenciar na prosa acadêmica, temos condições de avaliar uma espécie de desvirtuamento dessa prática, o citacionismo. Conforme já assinalamos, entendemos por citacionismo o uso estratégico (no sentido habermasiano já apresentado) dessa forma de construção de argumento, que se vale mais dos efeitos da força de legitimação do que do interesse pelo debate em si mesmo. Dito de outro modo, o citacionismo pode ser um recurso retórico que tem por efeito prático evitar e/ou minimizar eventuais dificuldades de argumentação. Por isso consideramos o citacionismo uma forma de distorção comunicativa.</p>
			<p>Essa prática é observada, aqui, sob duas formas distintas, mas complementares, de manifestação: i) exaustão de citações; ii) referenciação de clássicos e/ou autores de alta reputação. A primeira forma corresponde à prática de se valer de um enorme número de referências no mesmo argumento e levar ao entendimento de que este é amplamente utilizado pela comunidade. No segundo caso, a citação se vale da grande reputação do autor citado, considerando que sua notoriedade garante a credibilidade do argumento, mesmo que este não seja inteligível ao leitor. Vamos analisar mais detidamente ambos os casos.</p>
			<sec>
				<title>Citacionismo pela exaustão de citações</title>
				<p>A exaustão de referências pode gerar distorção comunicativa pelo critério da ininteligibilidade causada pelo excesso de informação. Essa forma de distorção comunicativa já foi observada em outros estudos que tratam desse constructo habermasiano. Nesse caso, o volume de dados e de informações impede a contestação e/ou dificulta o entendimento do argumento (p. ex. <xref ref-type="bibr" rid="B15">Vizeu &amp; Bin, 2008</xref>). No caso do uso de citações, a manipulação do entendimento dá-se por dois aspectos: a presunção de que a asserção é verdadeira porque um grande número de textos citados lhe dá suporte (critério de universalidade do conhecimento); o excesso de referências para um argumento cria a dificuldade de verificação, já que é improvável conhecer em profundidade todos os autores referenciados.</p>
				<p>Comecemos pelo segundo caso. Caso você seja alguém bastante versado no assunto, que conheça, de fato, com exatidão todas as referências citadas no texto - isso é possível em muitos casos -, poderá verificar a adequação do argumento apresentado quando há um grande número de referências a ele associado. Ou seja, para se avaliar se o autor citou as referências com propriedade, é necessário um minucioso trabalho de verificação quando todas elas não são conhecidas prévia e detalhadamente.</p>
				<p>Desse modo, o leitor ou mesmo o avaliador do texto com grande número de referências citadas no mesmo argumento (e com prováveis referências desconhecidas pelo leitor ou avaliador) tende a assumir a ‘pretensão de validade’ do argumento proferido e da referenciação feita, já que é inviável, no trabalho de avaliação ou leitura, refazer o trabalho do autor. Justamente aí reside a estratégia de distorção comunicativa: como não há como averiguar todas as referências mencionadas, partimos da premissa de que, quando exaustivamente referenciado, o que o autor diz é supostamente validado por outros autores e/ou estudos. Ou seja, o crivo da legitimidade da referenciação acadêmica pela exaustão é dar validade ao que se diz porque outros membros da comunidade acadêmica o disseram do mesmo modo, mesmo sem garantias de que a forma de apropriação dos autores referenciados seja correta ou devida.</p>
				<p>Obviamente, a inadequada apropriação do pensamento de autores citados é observada muitas vezes, especialmente em processos de revisão de trabalhos submetidos. No entanto, o que queremos sinalizar aqui é que esse tipo de observação nem sempre é possível diante do excesso de citações utilizadas em certos trabalhos. Um interessante indício dessa situação são as listas de referências em certos artigos publicados na área de Administração: não é incomum encontrar <italic>papers</italic> com mais de 40% de suas laudas dedicadas a lista de referências!</p>
				<p>No caso hipotético de asserção, “Conforme afirmam Copérnico (1543), Galileu (1642), Newton (1727), Einstein (1955) e Hawking (2018), a Terra gira em torno do Sol”, o grande número de citações aumenta a credibilidade, uma vez que se supõe que aquele entendimento é ratificado por muitos outros estudos ou publicações, sendo considerado como um ponto ‘pacífico’. Esse mesmo processo ocorre na argumentação da comunicação jurídica, conhecida como ‘jurisprudência’, na qual um grande conjunto de decisões judiciais feitas na mesma direção aponta uma convergência que, por sua vez, sugere que a interpretação é ‘verdadeira’. Apesar de esse entendimento fazer sentido e, em muitos casos, se confirmar, não é necessariamente uma garantia. Isso porque o citacionismo é seletivo e, da mesma forma que se identificou grande número de autores que convergem, pode haver também uma similar quantidade de publicações que apontam o contrário. Aliás, em situações em que o avaliador de um texto domina o tema e conhece o campo especializado, é muito comum que ele aponte as referências divergentes. Contudo, nem sempre isso acontece. Se considerarmos também a dimensão do setor editorial acadêmico (com milhares de revistas especializadas), aliado à pluralidade de abordagens e perspectivas, são imensas as possibilidades de existirem muitas referências para as mais variadas posições, o que facilita o uso estratégico desse artifício citacional.</p>
				<p>Não se questiona aqui se a convergência de entendimentos pela exaustão de citações é um bom critério de validade, mas sim o fato de poder ser utilizada de forma manipuladora ao produzir como efeito a conformidade. Ou seja, mesmo considerando que muitos textos se valem desse viés no ato de citar de forma honesta, trata-se de uma estratégia de persuasão que pode sustentar entendimentos falsos ou inadequados, em que há o risco constante de circulação de argumentos frágeis. Reiteramos que o problema aqui é que não há garantias de que a citação é adequadamente feita - já que a apropriação do pensamento dos autores citados nem sempre pode ser checada pelo avaliador ou leitor -, bem como não se sabe se os textos citados também não se valeram de outras ‘verdades’ não verificadas, apresentadas em suas próprias referências. Esse ciclo de ‘citar textos que citaram outros textos’ na prosa acadêmica pode criar um processo contínuo de reprodução de entendimentos que, por se tratar de afirmações que sustentam sua legitimação prioritariamente pela lógica da universalidade, não necessariamente são argumentos validados pela racionalidade do conhecimento compartilhado e aceitos pelos interlocutores.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Citacionismo pela referenciação de clássicos e/ou autores de alta reputação</title>
				<p>Diferentemente da primeira forma de citacionismo por nós mencionada, a força da legitimação, nesse caso, está na envergadura do autor e/ou texto citado e não na exaustão do uso de referências para um argumento. Aqui funciona um mecanismo já apontado pela perspectiva habermasiana do discurso: o constrangimento pré-linguístico advindo da assimetria entre os interlocutores (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Felts, 1992</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas, 2012</xref>). O constrangimento pré-linguístico é a condição, em uma interlocução, de assimetria na relação entre os interlocutores, uma vez que não se questionam argumentos por se supor que o seu autor seja uma autoridade. Dito de forma simples, é quando um interlocutor não entende o que se diz a ele(a), mas o aceita porque é dito por alguém que ele considera uma autoridade. Ressaltando que citação é uma espécie de transferência de autoridade argumentativa: citar autores clássicos ou de grande reputação acaba por funcionar do mesmo modo. Assim, a aceitação de um argumento ininteligível ocorre pela percepção da envergadura do autor ou texto citado, uma vez que o leitor ou avaliador, mesmo sem compreender devidamente o argumento posto, aceita o que é dito por não crer ser capaz de questionar o autor (ou texto clássico) ali posto como autor do pensamento ou argumento.</p>
				<p>De certo modo, esse processo ocorre estimulado pela postura arrogante, visto que a erudição reflete mais a vaidade do que o amor pela verdade - como há muito tempo sinalizou <xref ref-type="bibr" rid="B11">Schopenhauer (2009</xref>). Nesse contexto, o medo de parecer ignorante pela demonstração de dúvida sobre algo silencia o debate. Essa atitude foi mencionada por <xref ref-type="bibr" rid="B5">Felts (1992</xref>) ao avaliar que relações assimétricas de poder em contextos de comunicação organizacional induzem à distorção comunicativa, seja na manipulação dos critérios de validade (conforme exemplificado no <xref ref-type="table" rid="ch1">Quadro 1</xref>), seja pela omissão da contestação quando não se compreende o que foi dito. No caso das interações comunicativas do meio acadêmico, a lógica é muito parecida. Assim, a assimetria nas posições dentro do campo acadêmico - definida por títulos, níveis atingidos na carreira, participação em conselhos editoriais, comissões, cargos de gestão acadêmica, além, é claro, da reputação advinda da autoria de textos, estudos, teorias e ideias-, leva à contaminação da comunicação por esse capital social (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bourdieu, 2011</xref>), dificultando o debate livre e anulando a contestação de ideias e argumentos.</p>
				<p>Obviamente, com a crítica a essa forma de citacionismo, não queremos invalidar a importância dos clássicos e da reputação de autores. A consolidação de ideias que elegem um autor como um clássico é fundamental na formação do meio acadêmico, como bem asseveraram <xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneghetti et al. (2014</xref>). Aliás, isso não necessariamente invalida o debate e a contestação: quando um leitor ou avaliador se depara com uma referência de reputação que ele conhece bem, passa a debater com o autor do texto que os referencia a acuidade da referenciação, ou seja, avalia a precisão com que foi feita a apropriação do texto citado, observa se não houve algum erro de interpretação, se algum aspecto importante deixou de ser considerado, etc. Há situações nas quais o avaliador - quando conhecedor dos autores clássicos referenciados - pode atuar pedagogicamente, ajudando o autor sob análise a melhorar o argumento, trazendo-o à reflexão desses aspectos não abordados. Nesse cenário, vemos a condição ideal da avaliação do <italic>paper</italic> acadêmico: o debate entre o autor do texto e o avaliador, tendo por objeto discutir a apropriação do pensamento das referências citadas.</p>
				<p>Contudo essa situação ideal deixa de existir quando não há condições de avaliar a propriedade na apropriação dos textos referenciados, como já sinalizamos. Ou seja, o problema é quando não há condições para o debate (por desconhecimento das fontes) e quando não se enunciam tais condições para declinar a avaliação do texto (por vergonha de admitir sua ignorância). Se a referência é considerada um texto ou autor clássico, demonstrar desconhecimento pode ser mais difícil ainda.</p>
				<p>O quanto conhecemos os textos clássicos? Sendo um clássico, obviamente conhecemos algo, sua importância para o campo, as linhas gerais de sua teoria e/ou estudo, termos e conceitos centrais; isso ocorre assim, em virtude do caráter universal do clássico na formação acadêmica (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneghetti et al., 2014</xref>). Contudo não necessariamente somos profundos conhecedores de todos os clássicos com os quais nos deparamos no ofício acadêmico; a especialização do conhecimento nos impõe escolhas, e nem sempre estamos qualificados a debater com profundidade teorias, estudos e abordagens que conhecemos em linhas gerais. Isso não seria um problema se não fosse considerado vergonhoso admitir desconhecer em profundidade o argumento de um texto clássico ou de grande reputação.</p>
				<p>A vaidade como traço da personalidade acadêmica nos força a evitar demonstrar desconhecimento. Conhecer referências de forma genérica já nos qualificaria a jogar o jogo das aparências revelado por <xref ref-type="bibr" rid="B11">Schopenhauer (2009</xref>). Nesse caso, não se assume a ignorância ou a incompreensão do argumento para não comprometer os egos da erudição acadêmica. Assim percebemos muitos autores assumindo uma prosa que se demonstra erudita, mas pode ser vazia de conteúdo, pode ser comprometida em termos de precisão na apropriação do clássico e de suas ideias. Para que esse ‘verniz’ de erudição funcione, basta ter habilidade em transitar na superficialidade, valendo-se de autores clássicos na retórica, sem necessariamente conhecê-los na profundidade. Da mesma forma, nessa situação os leitores evitam a exposição de sua ignorância: admitir que não houve a compreensão de um argumento supostamente atribuído a um clássico pode ser interpretado como desconhecimento deste, e, por sua vez, ser considerado uma falta no jogo de aparências das relações acadêmicas. O problema é que não se considera que o erro da citação pode estar na maneira de ‘apropriação do clássico’. Em última instância, esse jogo empobrece o debate e a possível correção de interpretações equivocadas dos argumentos dos clássicos.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>A erudição como traço da prosa acadêmica não seria em si mesma um problema, se, obviamente, fosse considerado um sentido mais isento dessa questão. Se fosse vista simplesmente como a instrução e a forma culta de escrita (nesse caso, também é necessário problematizar o significado elitista associado ao termo ‘culto’...), talvez pudéssemos mesmo considerar que a erudição não é problemática por ser pré-requisito dos membros da comunidade acadêmica para sua interlocução; nesse caso, seria uma competência necessária e desenvolvida no processo de formação. Mas, para que isso não fosse problemático, deveríamos reconhecer que a prosa erudita da comunidade acadêmica não seria um obstáculo à comunicação interna dessa comunidade. No caso da erudição presente no citacionismo, vemos que a comunicação entre os membros da comunidade pode, sim, ser comprometida.</p>
			<p>Por isso, foi necessário recorrer à análise do processo comunicativo tendo por referência a teoria habermasiana de ação comunicativa, que combina os conceitos de ato comunicativo estratégico e da comunicação sistematicamente distorcida. Com base nesse referencial, observamos que o citacionismo estabelece a falsa ideia de que a ininteligibilidade do texto ou fala é fruto da ignorância de quem não entende, condição esta que induz ao silenciamento do debate argumentativo. Ou seja, quem está acima na hierarquia das posições acadêmicas não se sente à vontade de revelar sua incompreensão para não expor uma suposta ignorância, já que se espera de quem está em um nível superior de formação e/ou saber acadêmico o conhecimento sobre o exposto por alguém que está abaixo na escala das relações acadêmicas. Por sua vez, quem está abaixo aceita sua suposta ignorância e, como fruto de tal condição, não questiona o texto ou fala do colega com mais senioridade acadêmica. Perpetua-se, nesse jogo, o silêncio, interrompe-se o debate necessário ao esclarecimento e à contínua melhoria das teses e entendimentos produzidos no campo acadêmico-científico. Sem debate não há fazer acadêmico, já que o diálogo é um aspecto fundamental para a construção do conhecimento.</p>
			<p>Apesar de poder parecer um problema que faz parte da complexidade das relações em um determinado campo social, é preciso salientar que a comunicação sistematicamente distorcida provocada pelo citacionismo contribui para a crise de legitimação da comunidade acadêmica. Essa crise tem vários matizes, mas destacaremos dois pontos: i) a crescente dificuldade por manutenção dos quadros, expressa por diminuição da procura e aumento da evasão dos alunos de pós-graduação e pela desistência da continuidade na formação (alunos de mestrado desistem de cursar doutorado); e ii) o surgimento de verdadeiros feudos nas subáreas acadêmicas, feudos estes que se toleram, mas não interagem entre os diferentes grupos, dificultando o movimento de troca de saberes e a transdisciplinaridade entre áreas especializadas. A consequência já evidente deste quadro é o enfraquecimento da comunidade acadêmica, acusada de ser uma grande Torre de Babel, onde ninguém se entende (no sentido intersubjetivo), mas todos aceitam tal situação, em um verdadeiro pacto de mediocridade, o que inviabiliza um preceito que deveria ser sagrado ao fazer científico: o livre debate e o estabelecimento de convergências para o progresso do conhecimento.</p>
			<p>Em nosso ensaio, indicamos duas formas de ocorrência do citacionismo que encerram o debate ou diálogo: uma que denominamos ‘exaustão pela quantidade’ e outra chamada de ‘referência dos clássicos’. Vale notar que estas não são as únicas formas de citação e devem ser tomadas aqui como exemplificações de como a retórica citacionista pode anular o debate. O primeiro caso ocorre pelo uso exaustivo de referências citadas, visto que, devido ao grande número de referências associadas a um argumento, torna-se difícil para o leitor verificar se a menção a todas estas procede de fato ou é tomada de forma genérica para dar credibilidade à asserção. O número excessivo de citações também dificulta a apreciação sobre a correta apropriação das ideias do autor citado, já que muitos podem não ser conhecidos pelo leitor, o que o impede de avaliar propriamente cada texto citado que ele desconhece.</p>
			<p>Nesse contexto, vemos um número grande de textos que não são questionados circulando no meio acadêmico (especialmente em congressos e revistas, quando consideramos a área da pesquisa em Administração), em razão do constrangimento pré-linguístico, especialmente com a prática do citacionismo. Desse modo, não há a admissão quanto à incapacidade de acompanhar ou conhecer profundamente todos os textos citados e também não há questionamento sobre a propriedade ou uso de autores e/ou conceitos clássicos (que não se conhece profundamente, mas é reconhecido como um ‘clássico’).</p>
			<p>Isto posto, qual seria a saída para o dilema do citacionismo? Evitar a citação? Acatar a reinvindicação dos neófitos de aceitação do texto ‘limpo’ de referências? Mais uma vez, reiteramos a necessidade das referências, já que abarcam um importante fundamento do processo de construção do conhecimento acadêmico, que é a continuidade pela convergência e/ou pela crítica ao entendimento estabelecido. Já a prática do citacionismo como se dá hoje no esteio do produtivismo parece-nos mais cerimonialista. Para atestar essa constatação, vemos que não é incomum um estudante de mestrado ou doutorado ser criticado por trechos longos “sem citação”, o que nos faz indagar se o seu avaliador saberia explicar por que isso é um problema!</p>
			<p>Haveria, então, uma saída para o citacionismo? O presente texto não chegou neste ponto, já que pretendeu somente apresentar o problema e seus matizes. Mas, talvez, possamos brevemente sinalizar uma perspectiva para a sua superação. Sendo a comunicação textual a principal prática dos acadêmicos e a crítica e a dúvida os princípios fundamentais da superação do conhecimento dado, é fundamental que a comunidade acadêmica repense sua forma de escrever, para que não se anule o diálogo capaz de produzir novos entendimentos. Ao adotar a mesma lógica das disputas políticas de outros campos sociais especializados, perdemos em alguma medida aquela que deveria ser a essência do nosso fazer: o amor ao conhecimento, a busca por explicações que nos orientem para dar respostas aos principais problemas da sociedade. Não iremos longe sem assumir genuinamente a posição socrática do conhecimento, admitindo que não sabemos quando não entendemos, buscando confrontar nossa ignorância pela argumentação, solicitando a devida explicação do que nos é estranho para que nossos pares nos ajudem a entender melhor, ou para que tenhamos reais condições de refutar as teses e colocações inadequadas que se apresentam em nosso meio. Sem assumir postura humilde da dúvida e do não entendimento do que se nos apresenta de forma ininteligível, não iremos, realmente, conhecer e aprender. Precisamos fomentar o debate honesto e sem arrogância, aprender a questionar o que não entendemos, objetivando a compreensão e a construção de pontes entre diferentes subcampos de estudo e pesquisa.</p>
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			<title>REFERÊNCIAS</title>
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				</element-citation>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Como tantos outros termos polissêmicos, ‘Academia’ assume uma ampla gama de significados e possibilidades de especificação. No presente texto, adotamos o sentido no qual o termo especifica a comunidade de pesquisadores e professores que integram o que normalmente se associa ao universo do conhecimento científico e a outros saberes desenvolvidos e difundidos no meio universitário e em outros redutos da prática científica. Seguimos, assim, o entendimento de Bourdieu (2011) e seu estudo sobre esse campo acadêmico-científico.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Francis Kanashiro Meneghetti (Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba / PR - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0327-2872</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<fn-group>
			<title>DISPONIBILIDADE DE DADOS</title>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<p>Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<fn-group>
			<title>PARECERISTAS</title>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<p>Andreia Aparecida Figueira de Mello Silva (Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí / SC - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3710-1265</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<fn-group>
			<title>RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES</title>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<p>O relatório de revisão por pares está disponível neste URL: https://periodicos.fgv.br/cadernosebape/article/view/90536/85321</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
	<!--<sub-article article-type="translation" id="s1" xml:lang="en">
		<front-stub>
			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1679-395120230016x</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>ARTICLE</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>Citationism as academic erudition and as a strategic action</article-title>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-2261-3142</contrib-id>
					<name>
						<surname>Vizeu</surname>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff2">1</xref>
					<role>Conceptualization (Lead)</role>
					<role>Data Curation (Lead)</role>
					<role>Formal analysis (Lead)</role>
					<role>Investigation (Lead)</role>
					<role>Methodology (Lead)</role>
					<role>Project administration (Lead)</role>
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					<role>Visualization (Lead)</role>
					<role>Writing - original draft (Lead)</role>
				</contrib>
				<aff id="aff2">
					<label>1</label>
					<institution content-type="original">Programa de Pós-Graduação em Administração, Universidade Positivo, Curitiba, PR - Brasil</institution>
				</aff>
			</contrib-group>
			<author-notes>
				<fn fn-type="other" id="fn10">
					<p>Fabio Vizeu: Ph.D. in Business Administration from Fundação Getulio Vargas (FGV); Full Professor II at Universidade Positivo. E-mail: vizeu@up.edu.br</p>
				</fn>
				<fn fn-type="edited-by" id="fn13">
					<p>Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brazil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859</p>
				</fn>
				<fn fn-type="edited-by" id="fn14">
					<p>Fabricio Stocker (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brazil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127</p>
				</fn>
			</author-notes>
			<abstract>
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p>Being erudite represents an important characteristic of the academic, causing academic prose to be marked by an aura of sophistication and intellectual elitism. When erudition manifests in the practice of citationism, it can constitute a communicative distortion strategy instrumentalized to avoid or minimize debate or more accurate argumentation. Discussing this specific problem is the purpose of this essay. This criticism is developed by considering Habermas’ philosophical-sociological perspective, in which communication constitutes a process of exchange of intersubjective meanings while establishing itself as a strategic act of intervention in the world. In this sense, citacionism is seen as a usage of the specificities of the specialized lexicon in the academic world, working as an important mechanism of domination and influence despite the unintelligibility derived from this process.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Erudition</kwd>
				<kwd>Academic Communication</kwd>
				<kwd>Citationism</kwd>
				<kwd>Power relations</kwd>
				<kwd>Theory of Communicative Action</kwd>
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		</front-stub>
		<body>
			<sec sec-type="intro">
				<title>INTRODUCTION</title>
				<p>Academic communication<xref ref-type="fn" rid="fn18"><sup>1</sup></xref> has been marked by the challenge of providing intelligibility to the non-academic world, a challenge that hinders the very legitimation of academic-scientific knowledge in society in general (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>). Beyond a linguistic problem, this process encompasses an important social dimension, which intermingles with the history of the Social Sciences itself and its derivations, marked by the tension between the political interest of social control and the intention to produce emancipatory knowledge (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Habermas, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Horkheimer, 1989</xref>). In Management and Organization Studies, the need for greater clarity of their social contribution has been remembered as an urgent and necessary issue (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Alperstedt &amp; Andion, 2017</xref>). This certainly goes through the question of whether the capacity of knowledge produced in this area - as much as possible - is intelligible to the Administration practitioner (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>).</p>
				<p>One of the traits of a huge part of academic communication in many scientific subfields - and specifically in the Administration area - is precisely the discursive erudition, characterized by the cultured level attributed to prose in order to formally express an established and specialized knowledge. As we have pointed out on another occasion (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>), this process conditions the power relations between the participants of the field, especially teachers and students, senior members and beginners. In general society, the origin of this elitist erudite speech in certain fields of academic activity begins especially in the nineteenth century, in line with the Enlightenment values, when the members of bourgeois society that held academic-scientific knowledge among other expertise started being considered cultured and erudite. Mainly for this reason, in a certain way, the academic environment has acquired prestige among the elites, since academic knowledge has come to represent an interesting symbolic capital of differentiation before the masses.</p>
				<p>From this perspective, in the present text, we critically analyze academic erudition as an instrument of power in the relationship between academics; especially in Administration research. Our argument discusses specifically a unique practice of academic prose in this field, which we call citationism. Able to be considered a neologism, “citationism” is a term used by the academic community to criticize the practice of citation exhaustively and ceremonially (e.g., <xref ref-type="bibr" rid="B14">Tuleski, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>). It is important to highlight, from this point, that what we understand by citationism is not merely the act of quoting - opportunely, in the present text, we will situate this communicative act as a fundamental characteristic of academic prose. What is under the scrutiny of criticism in this essay is a kind of distortion of such an act, a kind of rhetorical resource that, as we will discuss, can jeopardize the intelligibility of academic debate.</p>
				<p>To substantiate our argument, we use premises from the Philosophy of Language paradigm. In this approach, the criticism of communicative practices is restricted to the language in use, to the language games that are established within specialized linguistic communities, like the communicative communities organized in subgroups of the scientific field (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bourdieu, 2011</xref>). Thus, to build this path, we begin our text by presenting a brief reflection on the erudition malaise according to Schopenhauer’s vision, extended to the academic community in our days. Moreover, based on Habermas’ Theory of Communicative Action, we point out how communicative distortion in academic prose serves to power relationships in the field. Then, we deal with the central object of our criticism, citationism, considering it as one of the mechanisms of communicative distortion in academic prose. We exemplify how this occurs through two forms of citationism, emphasizing how this practice minimizes eventual problems in the argument presented and ends up jeopardizing the debate and the criticism. In our final considerations, we defend the resumption of the fundamental intention of the communicative act in the academic environment of the Administration area, that is, the illocutionary dimension of speech and the intention to produce knowledge based on the best argument and on the free dispute between the participants of the academic debate, which must be produced by meeting the criterion of intelligibility.</p>
				<p>Before starting the discussion, we need to make a caveat. By adopting the Philosophy of Language perspective, we admit that there are different conceptions and language practices in the academic-scientific environment. Putting it in another way, we ought to be careful when examining the practice of academic communication, considering the specificities and substantial differences between academic subfields and strongholds. Therefore, our text is limited to the circumstances presented here and experienced in a specific subarea, the field of Administration research, which is the main <italic>locus</italic> of Cadernos EBAPE.BR journal reference. Despite the notion that the citationism practices pointed out here are not exclusive to this field, its careful analysis beyond Administration would get away from the scope of the present work.</p>
				<p>It should be noted that this text was not written traditionally. It would not be coherent to adopt the same protocol we criticize as an object of academic prose analysis. Therefore, we seek to free ourselves from the mechanisms of citationism, which is under criticism here. However, this did not mean abandoning the practice of citation, since we do not necessarily question the logic of referencing itself and that is necessary to the academic debate, which will be dealt with later.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>THE ERUDITION MALAISE</title>
				<p>The German philosopher Arthur Schopenhauer (1788-1860), known for his criticism of Hegel and his opposition to Kantian moral philosophy, composes a short text on writing, in which he weaves an acid criticism of the erudition of his time. In the context of the expansion of industrialization all over Europe, the German thinker presents a pessimistic view of erudition, seen by him more as an economic strategy of the literate than as the condition for expertise and true knowledge. The philosopher points out the problem of the empty intellectual discourse, taken as a mechanism of social legitimation and <italic>status</italic>, configuring a kind of ‘pseudo’ formation. According to the author, erudition can be an obstacle to true knowledge as it removes the autonomy of free thought. On this point, the philosopher states:</p>
				<p>
				<disp-quote>
					<p>Just as the activities of reading and learning, when in excess, are prejudicial to self-thought, the act of overwhelming writing and teaching also discourages people from the clarity and depth of knowledge and understanding, since they have no time left to acquire those. Thus, when exposing some idea, one needs to fill with words and phrases the gaps of clarity in their knowledge. This, not the aridity of the subject, turns most books incredibly dull (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Schopenhauer, 2009</xref>, p. 21).</p>
				</disp-quote>
				</p>
				<p>This skepticism of the philosopher about literary erudition is due to his realization that teaching in his time was corrupted with economic interests and the student’s erudition represented only a symbolic resource of <italic>status</italic> and superiority. Indeed, it makes sense to think that, at a time when access to literacy was restricted to the aristocratic elite, holding general knowledge about human culture represented a mark of social differentiation, even if that knowledge was a simulacrum and not effectively comprehended. One studied and read more to demonstrate superiority than for the love for knowledge. For this reason, Schopenhauer was relentless with the unintelligibility of the intellectuals and literati writing of his time. He was the first philosopher to indicate that this communicative mechanism was a ceremonial stratagem, a way of deceiving the audience about ignorance and lack of knowledge about important things.</p>
				<p>In parallel to this symbolic process of cultural legitimation by the erudition of the elites in the Enlightenment period, a new field linked to intellectuals and academics emerged: the academic-scientific environment and its organization in specialized disciplines and knowledge dedicated to the utilitarian interest of bourgeois society and the capitalist economy (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Habermas, 2014</xref>). The academic - here placed as the intellectual, the university professor, the scientist who produces knowledge, the philosopher, that is, all those who represent what Bourdieu called <italic>homo academicus</italic> - takes his activity as a paid profession in the new capitalist and technological society. Rapidly, this community organizes a social field of its own with symbolic exchanges and specific <italic>habitus</italic>, however, dependent on the capitalist economic system, like all other fields (Bourdieu, 2011).</p>
				<p>This is how the academic community joins the commodification game of its <italic>outputs</italic> and creates self-mechanisms of productivism (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Castiel et al., 2007</xref>), making the formal communication of academic knowledge an important economic practice. In the subfield of Administration research, this practice is especially perceived by the production of <italic>papers</italic>, which have become a commodity by the logic of graduate programs regulation in the area (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Alcadipani, 2017</xref>) and by the corporatist mechanisms of publishing and publication (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Torres, 2020</xref>).</p>
				<p>This context has been associated with a crisis in the area, since it produces a unique relationship between the academic world and the non-academic spaces of society, creating a linguistic abyss between these two worlds (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>). Currently, with the crisis of legitimation that the academic-scientific environment goes through due to the era of post-truth and the denial of Science (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Ylä-Anttila, 2018</xref>), the insulation and hermeticism of academic discourse became a problem to be overcome under the penalty of jeopardizing the existence of many specialized areas of the academic community, especially in the field of Administration research (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Vizeu &amp; Lara, 2022</xref>).</p>
				<p>To understand how the problem of academic communication can be an issue intrinsically connected to the social dynamics of power relationships and symbolic exchanges, we turn to the perspective of the German philosopher Jürgen Habermas in his theory of social action.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>HABERMAS, RATIONALITY AND SOCIAL STRUCTURE OF COMMUNICATION</title>
				<p>As a dense theory articulated in different areas of Philosophy and Social Sciences, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas’ Theory of Communicative Action (2012</xref>) arouses our interest for it is a theoretical body that explains the role of academic discourse in the historical process of communicative distortion promoted by the institutions of modernity. For our essay purpose, we will not discuss all the points of this theoretical framework and its grounding assumptions, we will only point out the concepts that interest us to appreciate how the process of distortion in academic communication occurs.</p>
				<p>To build his theoretical building, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>) proposes the re-validation of the rationality notion based on the language paradigm, according to which, in communicative interaction, the rationality of an utterance is in the assumption of content validity of what was said or read by the listener or reader. This is the concept of validity claims, which is expressed, by Habermas, in four ontological dimensions of human life, implying four distinct conditions to determine the rationality of a text or speech, presented in <xref ref-type="fig" rid="ch2">Box 1</xref>.</p>
				<p>
					<fig id="ch2">
						<label>Box 1</label>
						<caption>
							<title>Validity claims of speech acts</title>
						</caption>
						<graphic xlink:href="1679-3951-cebape-22-01-e2022-0016-gch2.jpg"/>
						<attrib>Source: Elaborated by the author based on <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>).</attrib>
					</fig>
				</p>
				<p>The synthesis presented in the previous table shows the different dimensions in which rationality is processed in communicative interactions, according to Habermas. The examples presented in the last column illustrate how speeches or texts may or may not be considered by listeners or readers, creating the possibility of questioning by the interlocutor and demanding that the author of the speech or text justify them. This condition determines the dialogicity of the communicative interaction, promoting the processes of debate, argumentation, dialogue, criticism, contestation, refutation, and replication, that is, all kinds of interlocution between two communicative beings to reach an understanding about what is presented through speech or text. For example, in the illustration about the “truth claim”, the statement “The infant mortality rate in Brazil increased during the pandemic” will only be accepted as true by the interlocutors if all the factual and objective elements are previously known and accepted or are logical and coherent with other facts already known. In case of doubt about the veracity of the facts and/or events affirmed, for the statement to be accepted, it will be necessary to establish a new point to convince or clarify the doubts of the interlocutors. This process, when conducted without manipulation of data or arguments, Habermas dubs communication oriented to intersubjective understanding. That is, when there is a disagreement of comprehension about something (which may be a fact, an attitude, a norm, or any other issue that refers to human truths), dialogue is necessary. Through this, the interlocutors can present better argumentation and clarification on obscure points. In this case, agreement means the possibility of convergence of understandings, the possibility of connection between subjectivities. In a word: intersubjectivity.</p>
				<p>It is important to remember that this “comprehensive dissonance” does not occur only in the language dimension, considering that one of the intentions of the Philosophy of Language is precisely to bring language closer to the ontological dimensions treated by the Social Sciences (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas, 2012</xref>). That being said, in human relations, doubt about a statement (speech or text) can occur due to the incoherence between what is said or written and what is perceived or experienced by the listener or the reader. To illustrate this point, let us take the ontological dimension of the subjective world portrayed in Box 1. The order “Pass me the bag or I swear I’ll kill you!” requires the listener to believe that the criminal’s subjective intent is true. The listener will not consider the order if something fosters doubt or uncertainty about the intention. For example, if the victim does not believe the robber dares to accomplish the act or owns the material means to carry it out. In this illustration, the victim may question, “This weapon is not for real,” or state, “You wouldn’t have the guts to do it.” Such a situation will condition the speaker to prove his intention under the penalty of lacking effectiveness in his order.</p>
				<p>Another example also illustrates this point. The statement “All prisoners must have decent food, even those who have committed heinous crimes” will be received by the interlocutor as valid only if he agrees with the normative premises implicit in the assertion. That is, the statement will not be considered valid if the listener or reader does not take <italic>a priori</italic> the values or norms that sustain it as valid - in the case exemplified, the right of all human beings to have access to food. He may question: “But what about the victim’s rights?” or “He doesn’t deserve to be treated like this for what he did.” This will require the speaker to find arguments that justify why his statement is valid.</p>
				<p>According to this reasoning, the proposal of <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>): the free rational debate is the way to establish intersubjective consensus and democratic processes directed to the attempt to solve disputes, disagreements, divergences, etc., within the limits of the valid references in the community of which divergent individuals are part. That said, there is no point in using arguments centered on references that are not valid to the interlocutor. For instance, no one will be able to convince an atheist about something through religious arguments, but it is possible to convince him by using valid arguments for both interlocutors (this is illegal, it is unconstitutional, it is inhumane, etc.). This is how Habermas’ intersubjective understanding occurs: the agreement regarding a divergence by the argumentative dialogue valid for the interlocutors. In time, this is how free and rational debate happens.</p>
				<p>It is important to note that the concept of validity claim indicates that it is the listener or reader who determines the validity of the statement. They attest to whether what is said or written is true, sincere, correct, or intelligible because these dimensions are part of their world of life. Due to this condition of the speech act, we cannot convince a child about something they did not experience by using arguments based on facts or knowledge constituted by an experience they did not have. That is, the child will not be able to understand events, behaviors and rules that only exist in the adult world. Therefore, parents call upon two communicative strategies to convince children about something: i) they translate what they understand into the references that match to child’s world; or ii) they manipulate what they say so that it makes sense to the little interlocutor. In the translation case, there is still an effort to maintain the understanding of the communicative relationship, because translation is only a resource for adapting the truths of the adult world to the context of truths of the children’s world. When a parent says to their child: “Eat the vegetables to be strong like Superman,” the adult actually believes that eating vegetables is healthy (true to the adult world), which, in the children’s universe, can be translated as the “superhero strength.” However, when parents tell the child, “Don’t be naughty or the bogeyman will take you away,” they are manipulating the child’s universe of ‘truths’ to ensure their behavior since they know it is a lie, they know no one will take them in case of misbehaving.</p>
				<p>Thus, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>) considers that the speech act encompasses two different dimensions: the illocutionary dimension - I say something about the world shared by me and my interlocutor - and the perlocutionary dimension - by saying something about our shared world, I produce an effect in this same world.</p>
				<p>Here we come to the point that interests us in the Habermasian theory of communicative action to explain the academic debate. Considering that academic-scientific knowledge is constituted by criticism and argumentative rational debate (Habermas, 2014; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Horkheimer, 1989</xref>), communicative interaction among members of this community is fundamental. Therefore, the formal channels of verbal communication - spoken and written - have considerable importance for the members of this community. The communicative interaction occurs in congresses and other scientific events, as well as in the annals of such events reading, the books and journals where the texts are published, it means, the researcher and intellectual work result.</p>
				<p>Another important point to be considered in the interaction between members of this community can be observed in the prose of the academic text. In this, an important part is the referencing of other texts of the community, because this makes a connection with the understanding legitimized by peers to ratify or question it, contributing to the progress and renewal of academic-scientific knowledge. Nevertheless, as the epistemological premises between the different scientific conceptions are diverse and competitive, the academic debate ends up being limited by the possibility of paradigmatic compatibility, that is, the argumentative debate in the academic environment depends on the convergence of the onto-epistemological premises presented in the discussion. This condition not only creates a multiplicity of perspectives on the same human and social problems, portrayed by views that may even be significantly contrary (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Hassard, 1990</xref>); but also establishes that the different academic-scientific conceptions organize, in the same proportion, different spaces of communicative interaction.</p>
				<p>Here comes a new point of reflection on academic interaction. The coexistence of these different perspectives is only ensured because members of the community consider them as legitimately ‘academic.’ This means that such legitimacy is sustained more by the formal mechanisms of attachment to the field than by the convergence of understandings obtained by the debate established by different chains and epistemological perspectives. It does not mean that there are no general scientificity principles that must be shared and that the process of building academic knowledge should not be respected. However, the diversity of understandings and perspectives restricts the debate to specific strongholds where such premises are shared, which allows the arguments to be feasible.</p>
				<p>We can illustrate the extent to which epistemological diversity coexists in the field by an example. Hardly a member of the academic community will be able to publish a text whose theoretical references are assumptions of Astrology, even if this member has a doctorate, is a member of some scientific society and meets all the formal requirements of academic writing. This is precisely because Astrology is a field of knowledge that is not legitimate for the scientific community. This lack of legitimacy is not necessarily justified by the lack of ‘scientificity,’ since other perspectives exogenous to the academic-scientific world were inserted in the debate and today circulate among the channels of academic communication. This is the case of Psychoanalysis, an approach that still suffers resistance from numerous part of Psychology academics, but is accepted by them as a legitimate perspective of its members’ thoughts, which allows it to ‘circulate’ in the formal community communication channels. It is interesting to highlight that such incorporation of exogenous knowledge to the academic-scientific environment also occurs in the Natural Sciences, such as Medicine, which today accepts therapeutics such as Homeopathy and Acupuncture, previously rejected as ‘non-scientific therapeutics.’ When members of the medical community began to adopt such exogenous therapies, the academic community in this area found itself in the need to legitimize them, creating denominations (e.g., alternative medicines) to allow acceptance and minimize resistance from some of its members (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Sigolo, 2019</xref>).</p>
				<p>Thus we see that the social structure of the academic field ends up taking a central role in the dynamics of academic communication. <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bourdieu (2011</xref>) emphasizes this aspect when presenting his essay on the assumptions of academic life based on his theory on the social field. He remarks that social capitals of this field, such as titles and other symbolic forms, create a hierarchy among the members of the community, by pointing out how to transit and grow (in <italic>status</italic>) in this social environment. An important point highlighted by Bourdieu is that the formation of the academic community members, in Brazil and most parts of the world, happens in master and doctoral programs. In these courses, students are trained in language and academic values, so that, when becoming effective members of the community, they can keep the cycle of reproduction of values or language, thus turning into agents of new members formation. In this dynamic, the sociologist emphasizes two forms of social capital: the temporal, which is the institutionalized power of position in the field - positions, titles, control of resources, management of academic processes and organizations, etc. -, and the power of reputation, a symbolic power more or less independent of the first (even if, most of the time, they are integrated).</p>
				<p>In the Administration area, as well as in several other subareas of the academic field, reputation is measured particularly by the impact of intellectual production, especially whether it is the result of research. In the case of academic communication, the author’s reputation is associated with his writings’ reputation, which can be measured by mechanisms and indicators of the articles’ impact, journals, and authors (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Torres, 2020</xref>). Regarding the academic reputation, ‘classical’ is an interesting idea disseminated in the community. For the academic community, a classic is a fundamental author for the academic field (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneghetti et al., 2014</xref>), even if only in a subfield; emphasizing that legitimacy is not associated with the acceptance of ideas, but rather with the acceptance of presence in the interaction channels. Let’s show an example again. Karl Marx is a classic of Sociology, Economics and so many other subareas due to his texts. His ideas are far from being accepted by all academics, but all accept him as a ‘classic’ in his subfields (perhaps, not that much, in his more specific strongholds). This condition allows the texts of this author to circulate in the formal channels of academic communication but limits itself to the possible debate, the one in which the ‘paradigmatic incompatibility’ will not occur. For this reason, in the same department of a university, it is possible for Marxian professors and others who are radically opposed to Marx’s ideas to coexist!</p>
				<p>This example illustrates a fundamental condition for academic communication: it is necessary to know the social rules of the communicative game. Sometimes they are more important than the acceptance of assumptions that validate the arguments used to produce debate among members. From a sociological perspective, these rules follow the same aspects of any other social field - symbolic and cultural aspects, interests, relations of power and domination, dependence on the capitalist system among many other aspects of our historical time. Therefore, academic practice - and academic communication in particular - is a practice with cultural, symbolic, political, economic, etc. dimensions, and takes contradictions that must be turned explicit and properly understood. What we point out in this essay is that one of these contradictions is the communicative distortion, a process that <xref ref-type="bibr" rid="B6">Habermas (2012</xref>) associates with the economic and political systems of our historical period. One of the forms of communicative distortion in academic practice is what we call citationism. We then discuss how citationism becomes a practice of communicative distortion which becomes a problem in the academic debate.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>CITATIONISM AS COMMUNICATIVE DISTORTION</title>
				<p>According to the idea that erudition in academic prose can hold a utilitarian dimension, that is, it would serve as an instrument for persuasion in communicative interactions among academics, we remark on how citationism proceeds and is seen here as a specific form of Habermasian strategic action in this communicational practice. Following the premises of Habermas’ theory, we can consider that the use of quotations is a norm of academic prose that aims to meet the criteria of validity of the ontological spheres of the world of life - truth, sincerity and righteousness. That is, by making the use of citation in the academic text, it is ensured that the assertions contained in it - statements, findings, interpretations, analyses, justifications, among other argumentative resources - are sustained by the force of legitimation of this writing strategy. It can be helpful in a specific issue, that is, the need for argumentation before disagreements of comprehension between interlocutors involved in academic communication. That is, the rhetoric of legitimation implicit in the communicative resource of the citation can minimize this need or even nullify it, since the legitimation force of the citation can act as evidence of reputation and/or convergence of understandings, thus avoiding the need for questioning in situations of lack of comprehension. If this process is stressed to the point of avoiding debate or obstructing comprehension, the contradictions of citationism are established, we will detail it below.</p>
				<p>Quoting an author or text can be an act with different functions and ways of undertaking. We can cite different texts and in different media - a journal article, a book or book chapter, a master’s dissertation or a doctoral thesis, among a diversity of forms of writing practiced in the academic environment. Such diversity is also determined by the different community participants (researchers, professors and students in the university environment), who practice it for different purposes. Thus, the act of citing resources can be used to meet different demands of argumentation: to verify or refute empirical evidence, to confirm or deny, to explain or exemplify a theoretical, conceptual and/or analytical interpretation, to introduce a position regarding a controversy, among many other possibilities.</p>
				<p>What is important to highlight here is that there is a basic premise in the act of quoting in all argumentative support functions. We cite other texts written and published in legitimate channels of the community because the debate among the members and the convergence of comprehension for the consolidation of knowledge is a fundamental element of academic practice. As different analysts of scientific practice maintain, academic-scientific knowledge, even if configured as diffuse and heterogeneous, supposes accumulation and convergence. If we consider that, in addition to this presumption of convergence and accumulation, there is a need for dialogue, we have two principles of academic-scientific doing that make the act of quoting or referencing a fundamental element of academic prose.</p>
				<p>The reflection on the functionalities of the quoting act makes us see this practice as fundamental, as something that must be considered beyond mere ceremony. It happens because this practice is a rational-formal course (in the Weberian sense), which, in addition to corresponding to a norm standardized by the community, encompasses a rationality that justifies it.</p>
				<p>Let’s take a look at what that justification would be recurring to an example. The statement “As Copernicus (1543) proposes, the Earth revolves around the Sun,” when made in academic prose, acquires validity due to a kind of ‘transference’ of validity claim to the cited author - that is, quoting an author means to transfer to him the validity claim of the assertion. Thus, beyond the logical elements of the written argument, this transfer of validity claim is possible because, when it comes to a text legitimized by the channels of diffusion of academic knowledge, it is assumed that its assertive force lies in the fact that this manuscript has already circulated and is accepted by the members of this community, even if only by a part of it. Considering the specific universe of Administration research, in which journals are the main channel for intellectual production (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Alcadipani, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B2">Alperstedt &amp; Andion, 2017</xref>), the acceptance of the cited reference has another element of rationality in its legitimation: the fact that articles published in journals have passed the scrutiny of peer review, fulfilling the rite of validity implicit in the <italic>modus operandi</italic> of the editorial process in this subfield (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Torres, 2020</xref>).</p>
				<p>Whether in the broad sense or the specific case mentioned, citing an academic text legitimized by the community is to accept that the argument of the cited text is valid. Obviously, this ‘argument’ already circulates and is assimilated by the community in its practices of formation, consolidation, or debate. This aspect demonstrates the importance given to the qualification of the publication channels. That is why, in many academic communities, including the Administration area, there is a real “vilification” of publications considered “non-academic”, such as certain texts written by practitioners “without scientific rigor” and other studies popularized outside the field (for example, historical studies done by journalists and published in non-academic channels). Still considering the area of Administration, it is common for books not to have the same validity as texts published in academic journals, precisely because there is no guarantee of rigorous criteria adoption by peer review and experts (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Torres, 2020</xref>). One of the arguments considered for this book notes was the growth of technical-scientific books’ commodification logic, which stimulated a loosening in the rigor of the editorial processes in these literary products.</p>
				<p>Having made this brief reflection on the function of the quoting act or referencing in academic prose, we can evaluate a kind of distortion of this practice: citationism. As we have already pointed out, we understand by citationism the strategic use (in the Habermasian sense already presented) of this form of argument construction, which relies more on the effects of the legitimation force than on the interest in the debate itself. In other words, citationism can be a rhetorical device that has the practical effect of avoiding and/or minimizing any difficulties of argumentation. That is why we consider citationism a form of communicative distortion.</p>
				<p>This practice is observed here under two distinct but complementary forms of manifestation: i) citation exhaustion; ii) referencing of classics and/or authors of high reputation. The first form corresponds to the practice of using a huge number of references in the same argument and leading to the understanding that the community widely uses it. In the second case, the citation uses the great reputation of the cited author, considering that his or her notability ensures credibility to the argument, even if it is not intelligible to the reader. Let’s take a closer look at both cases.</p>
				<sec>
					<title>Citationism through citation exhaustion</title>
					<p>The exhaustion of references can generate communicative distortion by the criterion of unintelligibility caused by the excess of information. This form of communicative distortion has already been observed in other studies about this Habermasian construct. In this case, the volume of data and information prevents the contestation and/or hinders the understanding of the argument (e.g. <xref ref-type="bibr" rid="B15">Vizeu &amp; Bin, 2008</xref>). In the case of quotations use, the manipulation of the understanding occurs in two aspects: the presumption that the assertion is true for a large number of cited texts support it (the knowledge universality criterion); Too many references for an argument creates the difficulty of verification since it is unlikely to know in depth all the referenced authors.</p>
					<p>Let’s start with the second case. If you are well versed in the subject and really know exactly all the references cited in the text — this is possible in many cases — you can check the adequacy of the argument presented when there is a large number of references associated with it. That is, in order to assess whether the author cited the references properly, a thorough verification work is necessary when all of them are not known in advance and in detail.</p>
					<p>Thus, the reader or even the evaluator of the text with a large number of references cited in the same argument (and with probable references that are unknown to the reader or evaluator) tends to take the ‘validity claim’ of the argument and the referencing made since it is not feasible to redo the author’s work during the evaluation or reading step. Precisely at this point, it lies the strategy of communicative distortion: as there is no way to verify all the references mentioned, our starting line is the premise that, when exhaustively referenced, what the author says is supposedly validated by other authors and/or studies. That is, the scrutiny of the academic legitimacy by referencing to exhaustion is to validate what is cited because other members of the academic community have already said it before, even if there are no guarantees of the correctness of the referenced authors’ appropriation.</p>
					<p>Obviously, the inadequate appropriation of cited authors’ thoughts is often observed, especially in the review processes of submitted works. However, what we want to highlight here is that this type of observation is not always possible due to the excess of citations used in certain works. An interesting sign of this situation is the reference lists in certain articles published in the area of Administration: it is not rare to find <italic>papers</italic> with more than 40% of their pages dedicated to the list of references!</p>
					<p>In the hypothetical case of assertion, “As Copernicus (1543), Galileo (1642), Newton (1727), Einstein (1955) and Hawking (2018) state, the Earth revolves around the Sun”, the large number of citations increases credibility, since it is assumed that this understanding is ratified by many other studies or publications, therefore, it is taken for granted. This same process occurs in the argumentation of legal communication, known as ‘jurisprudence’, in which a large set of judicial decisions made in the same direction points to a convergence that, in turn, suggests that the interpretation is ‘true’. While this understanding makes sense and, in many cases, is confirmed, it is not necessarily a guarantee. This is because citationism is selective and, in the sense that a large number of authors who converge have been identified, there may also be a similar number of publications that point out the opposite. In fact, in situations where the evaluator of a text dominates the topic and knows the specialized field, it is very common to have divergent references pointed out. However, this is not always the case. If we also consider the dimension of the academic publishing sector (with thousands of specialized journals), allied to the plurality of approaches and perspectives, the possibilities of having many references for the most varied positions are immense, which facilitates the strategic use of this citational artifice.</p>
					<p>It is not questioned here whether the convergence of understandings by the exhaustion of citations is a good criterion of validity, but rather the fact that it can be used in a manipulative way when producing conformity as an effect. That is, even considering that many texts use this bias in the act of quoting honestly, it is a strategy of persuasion that can sustain false or inadequate understandings, in which there is a constant risk of fragile argument circulation. We reiterate that the problem here is the lack of guarantees that the citation is properly made - since the appropriation of the cited authors’ thought cannot always be checked by the evaluator or reader - as well as it is not possible to ensure whether the cited texts had availed themselves of other unverified ‘truths’ presented in their own references. This cycle of ‘citing texts that have cited other texts’ in academic prose can create a continuous process of reproduction of understandings that, once statements support their legitimacy primarily by the logic of universality, they are not necessarily arguments validated by the rationality of shared knowledge and accepted by the interlocutors.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Citationism by referencing classics and/or authors of prestigious reputation</title>
					<p>Unlike the first form of citationism we mentioned, the strength of legitimation, in this case, lies in the breadth of the author and/or text cited and not in the exhaustion of the references used to build an argument. Here implies a mechanism already pointed out by the Habermasian perspective of discourse: the pre-linguistic constraint arising from the asymmetry between the interlocutors (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Felts, 1992</xref>; Habermas, 2012). The pre-linguistic constraint is the condition, in an interlocution, of asymmetry in the relationship between the interlocutors, since arguments are not questioned because it is assumed that their author is an authority. Simply put, it is when interlocutors do not understand what is said to them, but accept it because it was said by an authority. Emphasizing that citation is a kind of argumentative authority transfer: citing classic or reputable authors’ works in the same way. Thus, the acceptance of an unintelligible argument occurs by the perception of the importance of the author or text cited, since readers or evaluators, even if the argument exposed is not fully understood, accept what is said for they do not consider themselves able to question the author (or classical text) attributed as the source of the thought or argument.</p>
					<p>In a certain way, this process is stimulated by the arrogant attitude, since erudition reflects more vanity than love for truth - as <xref ref-type="bibr" rid="B11">Schopenhauer (2009</xref>) has long signaled. In this context, the fear of appearing ignorant by doubting something silences the debate. Such an approach was mentioned by <xref ref-type="bibr" rid="B5">Felts (1992</xref>) when assessing that asymmetric power relationships in contexts of organizational communication lead to communicative distortion, either in the manipulation of the validity criteria (as exemplified in Box 1) or by the omission of the contestation when one does not understand what was said. In the case of the communicative interactions of the academic environment, the logic is very similar. Thus, the asymmetry in positions within the academic field - defined by titles, levels reached in the career, participation in editorial boards, commissions, academic management positions, in addition, of course, to the reputation derived from the authorship of texts, studies, theories and ideas - leads to the contamination of communication by this social capital (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bourdieu, 2011</xref>), turning the free debate difficult and nullifying the contestation of ideas and arguments.</p>
					<p>Obviously, with the criticism of this form of citationism, we do not want to invalidate the classics’ importance and the authors’ reputation. The consolidation of ideas that elect an author as a classic is fundamental in the formation of the academic environment, as asserted by <xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneghetti et al. (2014</xref>). In fact, it does not necessarily invalidate the debate and the contestation: when readers or evaluators face well-known reputation icons, they start to debate with the author that references them about the accuracy of the referencing, that is, evaluate how precisely the cited text was appropriated, check for interpretation errors, if any important aspect is overlooked, etc. There are situations in which the evaluator - aware of the classic authors referenced - can act pedagogically, helping the author under analysis to improve the argument, bringing it to the reflection of aspects that were not addressed. In this scenario, we see the ideal condition of the academic <italic>paper</italic> assessment: the debate between the author of the text and the evaluator, to discuss the appropriation of the cited references idea.</p>
					<p>However, this ideal situation ceases to exist when there are no conditions to evaluate the property in the appropriation of the referenced texts, as we have already indicated. That is, the problem is when there are no conditions for debate (due to ignorance of the sources) and when such conditions are not enunciated to decline the evaluation of the text (for the embarrassment of admitting their ignorance). If the reference is considered a classic text or author, demonstrating ignorance may be even more difficult.</p>
					<p>How much do we know about the classical texts? Being a classic, we obviously know something about it, its importance to the field, the broad outlines of its theory and/or study, main terms and concepts; this occurs due to the universal feature of the classic in academic training (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneghetti et al., 2014</xref>). However, we do not necessarily know deeply all the classics we come across in academic work; The specialization of knowledge imposes choices on us, and we are not always qualified to debate theories in depth or studies and approaches about which we own a general view. This would not be a problem if it were not considered shameful to admit not deeply knowing the argument of a classic or of great reputation text.</p>
					<p>Vanity as an academic personality trait forces us to avoid showing ignorance. Knowing references in a generic way would already qualify us to play the game of appearances revealed by <xref ref-type="bibr" rid="B11">Schopenhauer (2009</xref>). In this case, one does not assume ignorance or misunderstanding of the argument so as not to compromise the egos of academic erudition. Thus we have perceived many authors assuming a prose that proves to be erudite but empty of content, although it may lack precision in the appropriation of the classic and its ideas. To make this ‘veneer’ of erudition work, all one needs is to have the ability to navigate in superficiality, relying on the use of classical authors in rhetoric without having a deep comprehension of them. In the same way, in this situation, readers avoid exposing their ignorance: admitting that there was no understanding of an argument supposedly attributed to a classic can be interpreted as ignorance of it, and, in turn, be considered a fault in the game of appearances to the academic relationships. The problem is not to consider that the citation error may be in ‘the classic appropriation.’ Finally, this game impoverishes the debate and the possible correction of misinterpretations of the classics’ arguments.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>FINAL CONSIDERATIONS</title>
				<p>Erudition as a trait of academic prose would not be a problem if it were obviously considered a more exempt sense of this issue. If it were simply seen as the instruction and the cultured form of writing (in this case, it is also necessary to problematize the elitist meaning associated with the term ‘cultured’)... perhaps we could even consider that erudition is not problematic because it is a prerequisite of the members of the academic community for its interlocution; In this case, competence in the training process would have to be necessary and developed. Nevertheless, if we wish it were not problematic, we should recognize that the erudite prose of the academic community would not be an obstacle to the internal communication of that community. In the case of the erudition present in citationism, we see that communication between members of the community may be defective indeed.</p>
				<p>Therefore, it was necessary to rely on the analysis of the communicative process having the Habermasian theory of communicative action as reference, which combines the concepts of strategic communicative act and systematically distorted communication. Based on this reference, we observe that citationism establishes the false idea that the incomprehensibility of the text or speech is the result of the ignorance of those who do not understand it, a condition that induces the silencing of the argumentative debate. That is, those who are above in the hierarchy of academic positions do not feel comfortable revealing their incomprehension so as not to expose a supposed ignorance, since those who are at a higher level of training and/or academic knowledge are expected to know about what is exposed by someone lower in the scale of academic relations. In turn, those who are below accept their supposed ignorance and, as a result of such a condition, do not question the text or speech of the colleague with more academic seniority. In this game, silence is perpetuated, and the debate that is necessary for the clarification and continuous improvement of the theses and understandings produced in the academic-scientific field is interrupted. Without debate, there is no academic production since dialogue is a fundamental aspect of the construction of knowledge.</p>
				<p>Although it may seem like a problem that is part of the complexity of relations in a given social field, it is necessary to point out that the systematically distorted communication provoked by citationism contributes to the legitimation crisis of the academic community. This crisis has several hues, but we will highlight two points: i) the growing difficulty in maintaining the staff, expressed by a decrease in demand and an increase in the dropout rate of graduate students and by the abandonment of continuity in training (master’s students give up pursuing a doctorate); and ii) the emergence of true fiefdoms in the academic subareas, fiefdoms that are tolerated but do not interact with different groups, hindering the movement of knowledge exchange and transdisciplinarity among specialized areas. The already evident consequence of this picture is the weakening of the academic community, accused of being a great Babel Tower, where no one understands each other (in the intersubjective sense), but everyone accepts such a situation, in a true pact of mediocrity, which makes impossible a precept that should be sacred when doing science: free debate and the establishment of convergences for the knowledge progress.</p>
				<p>In our essay, we indicate two forms of occurrence of citationism that close the debate or dialogue: one that we call ‘exhaustion by quantity’ and another called ‘reference of the classics.’ It is worth noting that these are not the only forms of citation and should be taken here as examples of how citationist rhetoric can nullify the debate. The first case occurs by the exhaustive use of cited references, since, due to the large number of references associated with an argument, it becomes difficult for the reader to verify whether the mention of all these actually proceeds or is taken in a generic way to give credibility to the assertion. The excessive number of citations also makes it difficult to assess the correct appropriation of the ideas of the cited author, since many may not be known by the reader, which prevents him from properly evaluating each cited text that he does not know.</p>
				<p>In this context, we see a large number of unquestioned texts circulating in the academic world (especially in congresses and journals, when we consider the area in Administration research), due to the pre-linguistic constraint, especially with the practice of citationism. Thus, there is no admission as to the inability to follow or know deeply all the texts cited and there is also no question about the ownership or use of classical authors and/or concepts (which are not deeply known but are recognized as a ‘classic’).</p>
				<p>That said, what would be the way out of the citationism dilemma? Avoiding citation? Accepting the neophytes’ claim to accept texts ‘clean’ of references? Once again, we reiterate the need for references since they encompass an important basis of the process of construction of academic knowledge, which is continuity through convergence and/or criticism of the established understanding. On the other hand, the practice of citationism as it occurs today in the mainstay of productivism seems more ceremonial to us. To attest to this finding, we see that it is not uncommon for a master’s or doctoral student to be criticized for long passages “without citation,” which makes us wonder if his evaluator would be able to explain why this is a problem!</p>
				<p>Would there be a way out of citationism then? The present text did not come to this point, since it intended only to present the problem and its hues. But, perhaps, we can briefly indicate a perspective for its overcoming. Since textual communication is the main practice of academics, and criticism and doubt are the fundamental principles of overcoming the given knowledge, the academic community needs to rethink its way of writing so that the dialogue capable of producing new understandings is not annulled. By adopting the same logic as the political disputes of other specialized social fields, we lose to some extent what should be the essence of our accomplishment: the love for knowledge, the search for explanations that guide us to give answers to the main problems of society. We will not go too far without genuinely taking the Socratic position of knowledge, admitting that we do not know when we do not understand, trying to confront our ignorance through argumentation, requesting the proper explanation of what is strange to us so that our peers help us understand better, or so that we have real conditions to refute the theses and inadequate positions presented in our midst. Without undertaking a humble posture of doubt and non-understanding of what is presented to us in an unintelligible way, we will not really know and learn. We need to foster honest and unarrogant debate, learn to question what we do not understand, aim at comprehension and build bridges between different subfields of study and research.</p>
			</sec>
		</body>
		<back>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn18">
					<label>1</label>
					<p>Like so many other polysemic terms, ‘Academy’ takes on a wide range of meanings and possibilities of specification. In the present text, we adopt the sense in which the term specifies the community of researchers and professors who integrate what is normally associated with the universe of scientific knowledge and other knowledge developed and disseminated in the university environment and in other strongholds of scientific practice. Thus, we follow the understanding of Bourdieu (2011) and his study of this academic-scientific field.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn11">
					<label>11</label>
					<p>[Translated version] Note: All quotes in English translated by this article’s translator.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="data-availability" id="fn12" specific-use="data-available">
					<label>DATA AVAILABILITY</label>
					<p>The entire dataset that supports the results of this study was published in the article itself.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<title>REVIEWERS</title>
				<fn fn-type="other" id="fn15">
					<label>15</label>
					<p>Andreia Aparecida Figueira de Mello Silva (Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí / SC - Brazil). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3710-1265</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn16">
					<label>16</label>
					<p>Francis Kanashiro Meneghetti (Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba / PR - Brazil). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0327-2872</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<title>PEER REVIEW REPORT</title>
				<fn fn-type="other" id="fn17">
					<label>17</label>
					<p>The peer review report is available at this URL: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://periodicos.fgv.br/cadernosebape/article/view/90536/85321 ">https://periodicos.fgv.br/cadernosebape/article/view/90536/85321</ext-link>
					</p>
				</fn>
			</fn-group>
		</back>
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