<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<!DOCTYPE article
  PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.0 20120330//EN" "http://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.0/JATS-journalpublishing1.dtd">
<article article-type="research-article" dtd-version="1.0" specific-use="sps-1.8" xml:lang="pt" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink">
	<front>
		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="publisher-id">vh</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Varia Historia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Varia hist.</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="ppub">0104-8775</issn>
			<issn pub-type="epub">1982-4343</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais</publisher-name>
			</publisher>
		</journal-meta>
		<article-meta>
			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/0104-87752025v41e25027</article-id>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">00012</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>DOSSIÊ: ESCRAVIDÃO, COTIDIANO E DINÂMICAS DE MESTIÇAGENS NOS MUNDOS IBÉRICOS (SÉCULOS XVI-XVIII): ESPAÇOS, MOBILIDADE, ACORDOS E CONFLITOS</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>Os limites da autonomia. Experiências de liberdade de escravizados no litoral da Bahia, século XIX</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>The Limits of Autonomy. Experiences of Freedom of Enslaved People in Litoral of Bahia, 19th Century</trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-8974-9696</contrib-id>
					<name>
						<surname>COSTA</surname>
						<given-names>ALEX ANDRADE</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>*</sup></xref>
				</contrib>
			</contrib-group>
			<aff id="aff1">
				<label>*</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Federal da Bahia</institution>
				<addr-line>
					<named-content content-type="city">Salvador</named-content>
					<named-content content-type="state">Bahia</named-content>
				</addr-line>
				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>alex.costa@ufba.br</email>
				<institution content-type="original"> Universidade Federal da Bahia, Av. Reitor Miguel Calmon, Campus Canela, Salvador, Bahia, 40110-909, Brasil alex.costa@ufba.br</institution>
			</aff>
			<author-notes>
				<fn fn-type="edited-by">
					<label>Editor responsável:</label>
					<p>Alexandre Almeida Marcussi</p>
				</fn>
			</author-notes>
			<!--<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>12</day>
				<month>02</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2025</year>
			</pub-date>-->
			<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<volume>41</volume>
			<elocation-id>e25027</elocation-id>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>30</day>
					<month>03</month>
					<year>2024</year>
				</date>
				<date date-type="rev-recd">
					<day>2</day>
					<month>11</month>
					<year>2024</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>27</day>
					<month>09</month>
					<year>2024</year>
				</date>
			</history>
			<permissions>
				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="en">
					<license-p>This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo analisa as diferentes estratégias utilizadas por escravizados e libertos para constituírem uma economia própria e os usos que fizeram do pecúlio. O estudo se concentra na primeira metade do século XIX, em algumas das regiões litorâneas da Bahia com economia voltada à produção de alimentos de subsistência. Utilizando-se de variadas fontes, especialmente os processos-crimes e os livros de notas, esta pesquisa se debruça na análise do cotidiano das pessoas cativas e egressas do cativeiro e suas lutas pela sobrevivência, argumentando que a escravidão em zonas de economia de subsistência e com senhores pobres, ampliava as oportunidades de autonomia, embora relativa, mesmo que pressionadas pelas adversidades e pelo desespero.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article examines the various strategies employed by both enslaved individuals and freed slaves to establish their own economy and utilize their generated wealth during the first half of the 19th century. It specifically focuses on some coastal regions of Bahia, where the economies were primarily geared towards producing subsistence foods. By leveraging multiple sources, prominently criminal records and notarial notebooks, the study delves into the daily lives of those within and outside of enslavement, highlighting their continuous struggle for survival. It posits that the nature of slavery in regions dominated by subsistence economies and economically disadvantaged masters provided increased, albeit relative, opportunities for slave autonomy. This autonomy was pursued despite the presence of adversity and despair.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<kwd>Autonomia escrava</kwd>
				<kwd>Bahia</kwd>
				<kwd>século XIX</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<kwd>Slave autonomy</kwd>
				<kwd>Bahia</kwd>
				<kwd>19th century</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
				<fig-count count="3"/>
				<table-count count="0"/>
				<equation-count count="0"/>
				<ref-count count="27"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<p>Joaquina era nascida em algum lugar da África Ocidental, talvez na região da Baía do Benim ou mais ao centro daquele continente, no território que veio a ser chamado de Angola. Como muitas pessoas do seu tempo trazidas à força para o Brasil, só sabemos sua origem genérica de “africana”. Era viúva e, com aproximadamente 58 anos de idade, ainda vivia como escravizada de João Caetano da Rocha, o que devia ter lhe deixado bastante debilitada por todo o tempo de vida no trabalho escravo. Joaquina morava na localidade da Capoeira Grande, pertencente à Vila de Santarém, distante cerca de 30 km por terra da Vila de Camamú, Comarca de Ilhéus, no litoral sul da Bahia.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup> Como muitas outras, a morada de Joaquina estava situada em terras de seu senhor, não em uma senzala, mas em um pequeno casebre onde se recolhia à noite e, talvez, guardasse seus parcos bens.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></sup> Viver por si nem sempre representava uma vantagem para o escravizado, pois nesse caso ele precisava garantir a própria sobrevivência, incluindo um cantinho para dormir, a alimentação, o vestuário e, ainda, dar conta dos serviços que lhe eram exigidos pelo senhor.</p>
		<p>Joaquina tinha uma morada bastante precária e, certamente, enfrentava problemas com a segurança do lugar devido às condições de infraestrutura, o que a fez envidar meios para construir uma nova habitação. Contando apenas com uma filha de 16 anos, escravizada por outro senhor, e provavelmente sem a companhia de outros parentes que lhe auxiliassem, tudo se tornava ainda mais difícil, de modo que recorreu à solidariedade de seus vizinhos para realizar a construção, sobretudo para a tarefa mais desgastante, que necessitava de mais braços, que era fazer a tapagem. As construções eram feitas a partir de uma armação de varas de madeira, atadas com cipós e revestidas (tapadas) com uma massa de barro que era arremessado com as mãos. A cobertura era feita das palhas disponíveis no lugar e o chão era de terra batida. Essas construções serviam de morada temporária ou definitiva para os mais pobres, sendo de rápida execução e com baixos custos (Castellucci Junior, 2008, p. 115).</p>
		<p>Essa técnica de construção era muito comum e utilizava os saberes de grupos indígenas, que ocuparam longamente aquele litoral. Antes de serem expulsos para o interior ou mortos, difundiram seu conhecimento entre a população local, incluindo seus algozes, se tornando uma importante herança cultural (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Barros, 2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Ribeiro, 1987</xref>, p. 27-94). Por outro lado, não é possível asseverar que esse tipo de construção fosse originalmente indígena, posto que também era presente em diferentes lugares da África Ocidental, de modo que houve uma combinação de conhecimentos e culturas, que constituiu uma tecnologia afro-indígena, conservando-se na longa duração, como forma de construção de moradas, especialmente entre os mais pobres. Esse tipo de construção utilizava os recursos que a própria natureza do lugar oferecia e, embora fosse aparentemente frágil, era razoavelmente resistente às intempéries e adequado ao clima quente e úmido, que predominava na região durante a maior parte do ano. Outra vantagem era a rapidez na sua construção, até porque, na maioria das vezes, a morada era composta de um único cômodo. Naquele dia, por exemplo, a construção da casa de Joaquina começou de manhã cedo e, ao final da tarde, já estava praticamente concluída.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref></sup></p>
		<p>Datada de 1827, a muito conhecida obra do pintor alemão Rugendas, intitulada <italic>Habitation de Nègres</italic> (<xref ref-type="fig" rid="f01">Figura 1</xref>), é uma gravura produzida como resultado das viagens que o artista empreendeu por várias regiões do Brasil, incluindo o litoral Sul da Bahia. Em primeiro plano, observa-se um grupo de escravizados, aparentemente num momento de pausa, em gestos rotineiros: crianças brincando e adultos em atividades para prover a subsistência ou descansando. Essa é uma boa tradução imagética do significado de “viver por si”, ou seja, exercitar a autonomia, ainda que relativa, decidindo sobre o que e como fazer. É relativa por vários motivos e um deles está representado na gravura: o grupo de escravizados vivia por si, mas em terras senhoriais, vide a habitação maior, desenhada ao fundo, com uma mulher de feição branca a acompanhar de modo fiscalizador a cena, confirmando a contingência da experiência de autonomia dos escravizados.</p>
		<p>
			<fig id="f01">
				<label>Figura 1</label>
				<caption>
					<title>: Habitation de Nègres, Johann Moritz Rugendas (1827)</title>
				</caption>
				<graphic xlink:href="1982-4343-vh-41-e25027-gf01.jpg"/>
				<attrib>Fonte: Engelman, litógrafo; segundo desenho de Rugendas (reprodução fac-símile da ilustração da edição francesa de 1835).</attrib>
			</fig>
		</p>
		<p>O olhar atento de Rugendas registrou na gravura os detalhes da estrutura, semelhantes às descrições sobre a construção de Joaquina: paredes de barro e cobertura de folhas de algum tipo de palmeira, talvez o dendezeiro, tão presente na Bahia. A <xref ref-type="fig" rid="f03">figura 3</xref>, uma pintura do austríaco Joseph Selleny, que acompanhou o arquiduque Ferdinand Maximilian em suas viagens pelo Brasil, é extremamente rica em detalhes das habitações e, sobretudo, dos modos de vida de libertos, escravizados e pessoas livre pobres na Ilha de Itaparica. Robert <xref ref-type="bibr" rid="B24">Slenes (2011)</xref> já explicou os detalhes e significados dessas construções para os escravizados, não sendo necessário repeti-los aqui, a não ser para reafirmar a influência dos africanos trazidos de partes da África Ocidental na difusão de ideias, costumes e técnicas. Em 1795, o pintor francês Nicolas Collibert produziu um conjunto de imagens com o objetivo de celebrar a recém-implantada república francesa e, ao mesmo tempo, servir como propaganda antiescravista. Entre as imagens, destaca-se a litografia, também denominada de <italic>Habitation des Nègres</italic> (<xref ref-type="fig" rid="f02">Figura 2</xref>), onde representou de forma idealizada o cotidiano de algum ponto da África Ocidental.</p>
		<p>
			<fig id="f03">
				<label>Figura 3</label>
				<caption>
					<title>: Brasilianische familie am Strand von Itaparica, Josef Selleny (1863)</title>
				</caption>
				<graphic xlink:href="1982-4343-vh-41-e25027-gf03.jpg"/>
				<attrib>Fonte: Pintura pertencente à <italic>coleção Flávia e Frank Abubakir.</italic> Fotografia gentilmente cedida para este artigo pelo Instituto Flávia Abubakir<italic>, <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://institutoflaviaabubakir.org/">https://institutoflaviaabubakir.org/</ext-link>.</italic></attrib>
			</fig>
		</p>
		<p>
			<fig id="f02">
				<label>Figura 2</label>
				<caption>
					<title>: Habitation des Nègres, Collibert Nicolas (1795)</title>
				</caption>
				<graphic xlink:href="1982-4343-vh-41-e25027-gf02.jpg"/>
				<attrib>Fonte: <italic>Maps &amp; Atlases, Natural History &amp; Color Plate Books</italic>, p. 238. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.swanngalleries.com/3dcat/2481/238/">https://www.swanngalleries.com/3dcat/2481/238/</ext-link>. Acesso em: 18 mar. 2024.</attrib>
			</fig>
		</p>
		<p>Em viagem pela Bahia, em 1860, o arquiduque Ferdinand Maximilian percebeu os detalhes das habitações de escravizados e libertos, fazendo uma rica descrição, em seu diário, que coincide com os desenhos de Rugendas e Selleny:</p>
		<p><disp-quote>
			<p>Quando atravessamos, de novo, o pântano do mangue, observamos mais exatamente uma daquelas choupanas primitivas dos negros. Era redonda. Galhos bem entrelaçados faziam as vezes de muros. Um telhado de folhas de palmeira, em forma de cone, conferia-lhe, dado o seu formato redondo, a feição de uma grande colmeia. Uma única abertura servia de porta, janela e fumeiro [...] as paredes eram de galhos secos, mal tapadas com barro e terra. O telhado era de folhas secas de palmeiras; o chão, de terra batida. Ao aproximarmo-nos, afugentamos da tranquila choupana algumas galinhas magras, o que nos provou que ela era habitada (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Habsburgo, 1982</xref>, p. 152; p. 157).</p>
		</disp-quote></p>
		<p>A historiografia da escravidão já registrou outras tantas semelhanças nesse tipo de construção em espaços rurais, usando materiais iguais ou similares aos narrados no caso da africana Joaquina ou desenhados por Rugendas, Selleny e Collibert: na Ilha de Itaparica, na Bahia, libertos e pessoas pobres em geral utilizavam esse tipo de construção para fugirem dos aluguéis (Castellucci Júnior, 2008, p. 115); nas grandes propriedades do Centro-Sul cafeeiro, escravizados em pequenos grupos ou em família moravam em “cabanas” com estruturas parecidas (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Slenes, 2011</xref>); e, na Martinica, no século XVIII, técnicas semelhantes às descritas anteriormente foram utilizadas nas construções de moradas para escravizados de propriedades açucareiras (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Volpe, 2017</xref>). O resultado das recorrentes investidas das autoridades sobre os quilombos no litoral Sul da Bahia, onde sua presença foi endêmica desde o século XVII, registraram construções e modos de vida semelhantes, de forma que a vulgarização desses costumes aponta para uma influência anterior, duradoura e abrangente.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref></sup></p>
		<p>Juntamente com as técnicas de construção, diferentes modos de vida fundamentados nas experiências de africanos dos macro-grupos banto e iorubá se difundiram nas Américas por meio do tráfico, o que não foi diferente para a faixa litorânea ao Sul do Recôncavo até a vila de Ilhéus, combinando modos de vida afrodiaspóricos. Ambas as gravuras, bem como a descrição de Maximiliano, para além das semelhanças na estrutura e nos recursos naturais usados na construção das moradas, evidenciam as sociabilidades travadas entre os moradores daquelas comunidades, sobretudo no trabalho coletivo que era fundamental para a construção das habitações, mas, também, para o plantio das roças, criação de animais ao redor delas, bem como para as tarefas que cada um ali se ocupava. As diferentes formas de trabalho, as estratégias que envolviam as práticas de solidariedade, mas, também, as constituições de pecúlio foram ressignificadas, adaptando-se às condições impostas pela experiência com a escravidão e de tudo aquilo que ela dispunha, tanto no aspecto físico quanto cultural.</p>
		<sec>
			<title>ROÇAS ESCRAVAS, CAMINHOS DE LIBERDADE</title>
			<p>Alguém, em algum momento daquele ano de 1872, teve a iniciativa de reunir um grupo de parceiros para construir a nova morada da africana Joaquina. Uniram-se ao serviço Paulo, escravo de Manoel Gonçalves de Santana; o crioulo liberto, Cipriano Francisco dos Santos; o também crioulo, Antônio, escravo de Donato Malta; Feliciana, crioula, escrava compartilhada por dois senhores, José Gomes de Castro e dona Matildes; Manoel d’Alla, escravo de Joaquim Pinto de Oliveira; Gertrudes, também escrava de José Gomes de Castro; a filha de Joaquina, Cecília, menor de 16 anos, e o crioulo Manoel, ambos escravos de Joaquim Pinto de Oliveira.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref></sup> O grupo, portanto, estava formado por escravizados de diferentes senhores e apenas um liberto. A maioria desses homens e mulheres, assim como Joaquina, também tinha moradas “próprias” e na mesma vizinhança, em terras que pertenciam aos respectivos senhores. Esses homens e mulheres formavam uma comunidade negra, que compartilhava de semelhantes condições materiais de existência e cuja aproximação certamente foi estimulada pela dureza no enfrentamento da lida cotidiana, da precariedade da vida e dos sonhos que dividiam, atualizando como afrodiaspórico um modo de vida já conhecido e experienciado por seus antepassados na África Ocidental.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref></sup> Eles se juntavam naquela e em outras tantas tarefas as quais era necessária a divisão da força de trabalho, em práticas conhecidas como adjutórios. Compartilhavam o suor, mas também as alegrias das conquistas, através de sociabilidades marcadas pelo canto, pela dança e pelas bebidas.</p>
			<p>Foi num desses momentos de convivência, quando se comemorava a finalização da construção da morada de Joaquina, que, afirmando estar sob o efeito da cachaça, o liberto Cipriano agrediu com uma paulada na cabeça o escravizado Paulo, que trabalhava naquele adjutório, levando-o ao chão, desacordado e “com o miolo pra fora”.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref></sup> Segundo um dos depoentes, tudo começou porque o liberto Cipriano ofereceu a Paulo duas patacas pelo dia de serviço prestado de amassar o barro, tendo sido imediatamente questionado por conta do baixo valor. Cipriano, o único liberto daquele grupo, aparentemente, era uma espécie de “mestre de obras”, uma liderança na realização da empreitada. Mas o fato de Paulo considerar o pagamento insuficiente, associado às bebidas que já tinham consumido, gerou o distúrbio, que fez com que a agressão empreendida por Cipriano fosse mortal.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref></sup></p>
			<p>Amassar barro para a tapagem não era um serviço leve nem fácil, mas era o que estava disponível naquele momento, e tal oportunidade não poderia ser desperdiçada por Paulo para acumular algum pecúlio. Embora a prática do adjutório pressupusesse que o trabalho não fosse remunerado, era comum que, para alguns serviços mais especializados, ou pesados, fossem contratadas algumas pessoas com <italic>expertise</italic> na área, o que pode ter sido o caso de Paulo. Escravizados se submetiam aos mais diversos serviços que permitissem a conquista de algum dinheiro, cujo acúmulo poderia ter diversos fins, como adquirir sua liberdade ou de algum familiar, comprar mantimentos para seu sustento ou fazer algum negócio. Porém, como supostamente o pagamento de Paulo não se deu conforme o acerto, a desavença causou-lhe graves ferimentos, o que ocasionou sua morte, depois de agonizar por cerca de três dias.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref></sup></p>
			<p>Os escravizados agenciavam maneiras de amealhar pecúlio por meio de atividades que iam além daquelas que prestavam a seus senhores, fossem elas lícitas ou não. Em localidades onde a grande maioria dos senhores possuíam pequenas lavouras com poucos escravizados, como eram as vilas que se estendiam pelo litoral ao Sul do Recôncavo até Ilhéus, é muito provável que tais atividades “ocultas” desempenhadas pelos escravizados fossem, em sua maioria, de conhecimento dos senhores.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref></sup> Não era raro, por também viverem numa situação econômica difícil, que muitos senhores não apenas permitissem como estimulassem seus escravizados a buscar meios próprios de sustento, de onde também esperavam auferir vantagens, fosse para se livrar dos custos de manutenção do escravizado, fosse para explorar as produções e o pecúlio alheio. Ao escravizado, embora percebesse os abusos por parte do senhor, não restava muita alternativa, sobretudo quando seu senhor era pobre. Nada pior para um escravizado do que ter um senhor vivendo na pobreza, pois as condições materiais com as quais deveria ser provido, como alimentação, moradia e vestimentas, se tornavam muito mais limitadas. Além disso, um senhor na pobreza ou afogado em dívidas poderia, no desespero pela própria sobrevivência, colocar o seu principal bem, o escravizado, em situações de risco para adquirir mais pecúlio; vendê-lo ou hipotecá-lo, para saldar as suas dívidas, desfazendo os laços familiares e de amizade duramente construídos pelo escravizado; bem como ser mais exigente e violento em relação ao trabalho. Ainda assim, escravizados assumiam o risco de alcançar qualquer parcela de autonomia. Afinal, isso abria a possibilidade para “possuir” uma morada ou lavoura, além de ampliar seus espaços de mobilidade, circulando por uma região mais ampla, podendo estabelecer redes de contatos e acessar o pecúlio advindo de variadas fontes, experimentando aspectos da liberdade ainda na escravidão.</p>
			<p>Desde o século XVI, a faixa que se estendia entre o Sul do Recôncavo e a antiga Capitania de Ilhéus era um grande centro produtor de alimentos de subsistência, tendo por base a farinha de mandioca, cujo principal destino deveria ser o abastecimento do Recôncavo Açucareiro e Salvador (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Barickman, 2003</xref>). Mas, de forma bastante recorrente, ela era desviada para outras províncias ou para a equipagem de navios que iam à África para os negócios do tráfico (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Costa, 2021</xref>). Essa situação preocupava o governo da Bahia, devido às constantes crises de abastecimento que atingiam as principais vilas do Recôncavo e a cidade de Salvador, gerando instabilidade e muita confusão (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Graham, 2010</xref>). Por outro lado, os lavradores de mandioca, desejosos de livrar-se do controle e da centralização dos preços das vendas impostos pelo governo através do Celeiro Público, encontravam, em comerciantes gananciosos e atravessadores a condição ideal de fazer negócios mais vantajosos.</p>
			<p>Parte da produção de mandioca e outros víveres, como café, cacau e arroz, que saía da Baía de Camamú, tinha origem na produção que escravizados e quilombolas desenvolviam sob as mais diversas condições: no tempo livre, no meio do mato, em terras do senhor e sob sua permissão ou, ainda, como descrito por Maximiliano de Habsburgo e Rugendas, em pequenas faixas de terra em volta das suas moradas. Ainda que essas roças fossem mais comuns em áreas empobrecidas, escravizados de grande propriedades também cultivavam em roças próprias, ao menos ocasionalmente, nos distritos açucareiros da Bahia, para o consumo próprio e para um excedente comercializável, sendo um direito costumeiro bastante recorrente. Tanto no Brasil quanto em outros lugares das Américas, o sistema de roças, individuais ou cultivadas por comunidades quilombolas, acabava acessando, ainda que parcialmente, os mercados locais, o que dava a essas pessoas uma significativa margem de autonomia (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Cardoso, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Mintz, 1974</xref>, p. 146-179).</p>
			<p>A “posse” das roças por pessoas escravizadas nas Américas, assim como a constituição de um espaço que servisse de morada, possuía vários significados, dentre eles a relação que se estabelecia com suas próprias experiencias ou de seus antepassados anteriormente à escravização, talvez ainda em terras africanas, onde a autonomia era exercitada de forma plena. No contexto da escravidão, essa autonomia é parcialmente empregada nas decisões sobre o que e quando plantar, para quem e por qual preço vender eram escolhas que precisavam ser muito bem ponderadas e que ninguém, além deles, podia fazer. Por conseguinte, para manter o controle sobre aquele pedaço de terra, que podia não passar de uma pequena plantação na beira da estrada ou de uma roça escondida em terras senhoriais, recaía sobre o escravizado a decisão sobre quando e como acessar a terra para limpar, podar e colher, além de buscar meios que evitassem roubos ou perdas. Todas essas providências não eram impostas nem delegadas por um senhor, mas ações tomadas de forma autônoma pelo sujeito. Nesse sentido, a noção de autonomia se confundia com a possibilidade do escravizado dispor de si.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref></sup></p>
			<p>A compra da alforria por escravizados, como sabemos, era uma das finalidades do pecúlio acumulado. O pagamento, no entanto, nem sempre se dava à vista, uma vez que os mecanismos de obtenção do pecúlio eram variados e muito lentos, o que tornava o parcelamento uma solução para o escravizado com dificuldades de acesso aos meios de consecução do dinheiro.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref></sup> Ignácia, crioula, pagou a Francisco Ribeiro do Amaral 90$500 pela carta de liberdade. Antes disso, porém, ela já havia feito o pagamento de 40$500 para sua senhora Arcângela Maria, esposa de Francisco, conforme registrado no inventário da falecida. Não sabemos os meios que Ignácia utilizou para a obtenção daquele dinheiro, mas o fato de haver um pagamento parcelado e isso ter ocorrido em um espaço de tempo relativamente curto aponta para meios seguros de formação desse pecúlio, ainda que os ganhos fossem pequenos. Assim, quando Francisco herdou a cativa, parte do caminho em direção à liberdade já estava em construção.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref></sup></p>
			<p>Em 1844, a crioula Francisca pagou 150$000 em favor de sua liberdade, mas ainda assim foi alforriada pela sua senhora, Vicência da Conceição, sob a condição de que a cativa lhe acompanhasse até a morte, o que não demorou muito a acontecer. Em 1846, quando o testamento de Vicência foi aberto, havia o registro de alguns poucos bens, como “a casa de vivenda de taipa, coberta de telha, já velha, com os trastes insignificantes que se acham dentro dela e o cafezal que ao redor dela se acha”,<sup><xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref></sup> o que evidencia a pobreza daquela mulher. No intuito de que a divisão de suas poucas posses ocorresse sem maiores conflitos, a falecida havia alertado que, além daquelas plantações ao redor da casa, “a dita minha escrava também têm vários pés de cafés perto ao de minha concessão, <bold>os quais são dela</bold> [grifo nosso], e por isso eu não doo”.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref></sup> O fato de um senhor reconhecer documentalmente a posse de qualquer bem de uma pessoa escravizada por ele não é comum, ainda mais quando esse senhor, como no caso de Vicência, estava em condições de pobreza. Contudo, motivações como a solidariedade entre duas mulheres que, talvez, com exceção do <italic>status</italic> jurídico, tivessem muito em comum, podem ter impulsionado Vicência em reconhecer a pequena parcela de plantação da cativa. Por outro lado, Francisca, que com a morte de sua senhora se tornava efetivamente livre, provavelmente tinha, na sua plantação de café, na qual pode ter labutado junto com sua senhora, a fonte de parte do dinheiro que pagou pela sua liberdade. A posse dessas roças, portanto, eram um investimento que os escravizados faziam tendo uma motivação muito clara: a conquista da alforria (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Reis, 1996</xref>, p. 364).</p>
			<p>Já o crioulo Luís, por pouco não viu frustrada a sua alforria. Desde pelo menos o ano de 1845, Luís encontrava-se em processo de liberdade após pagar 250$000, em várias parcelas, ao seu senhor, Fortunato Ribeiro de Couto, o que correspondia a uma parte (uma banda) de sua alforria, que totalizava 500$000. Ao que tudo indica, a partir daquela ocasião, o senhor deu a Luís a possibilidade de ter uma vida mais autônoma, certamente para conseguir ampliar o pecúlio, tanto que o crioulo praticamente já vivia como se fosse liberto, usando o nome de Luís Ribeiro. Em fevereiro de 1848, Fortunato ficou muito doente. Sabendo disso, Luís foi visitá-lo, quando o senhor teria dito que era sua vontade “que libertasse ‘uma banda’”. Porém, antes da chegada do tabelião para fazer o registro, Fortunato falecera.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref></sup></p>
			<p>O falecimento repentino daquele homem se transformou em angústia para Luís, pois ele não tinha nenhum registro do pagamento que já havia feito e, justificadamente, se preocupava com o seu destino. No entanto, quando da abertura do testamento e do levantamento do inventário <italic>post mortem</italic>, verificou-se que Fortunato havia não só deixado o registro dos pagamentos efetuados, como reconhecia a posse de Luís sobre um pedaço de terra na sua propriedade, onde o cativo plantava mandioca, o qual foi avaliado por 172$357. Para conseguir a carta de alforria, Luís entregou a terra e a produção aos herdeiros de Fortunato e, ao mesmo tempo, efetuou o pagamento de mais 77$643, totalizando os 250$00 restantes que devia. Ficou sem as terras, mas alcançou a sonhada liberdade.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref></sup></p>
			<p>Dados coletados em 75 alforrias nas vilas do entorno da Baía de Camamú, na primeira metade do século XIX, apontam que as mulheres conseguiam se alforriar em maior número do que os homens: 59% do total, sendo 80% crioulas.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn18">18</xref></sup> Ao considerarmos apenas as alforrias pagas, a porcentagem a favor delas alcançava a mesma proporção. A prevalência dessas alforrias superava a dos homens com qualquer perfil étnico e em qualquer condição que se desse o processo de alforria: condicionais ou incondicionais. Isso se explica, entre outras coisas, pelo fato da população feminina e crioula ser maioria naquelas terras, mas, também, pela maior prevalência das mulheres em atividades autônomas, fosse de modo permitido ou às escondidas de seus senhores. Alguns serviços, como lavar roupas nas fontes ou riachos, frequentar as vendas para comprar mantimentos, colher legumes ou raízes, recolher lenha nas matas ou mariscos nos mangues, podiam abrir brechas para que as mulheres ganhassem mais tempo para si, constituindo atos miúdos, mas relevantes de resistência.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn19">19</xref></sup></p>
			<p>No caso de africanas escravizadas, a principal modalidade de obtenção da alforria que conseguimos verificar na documentação também foi mediante o pagamento, como aconteceu com Rita, jeje, que em 1826 foi avaliada por 190$000. Ela, porém, se precipitou em oferecer o valor integral por sua liberdade, o que deve ter despertado a cobiça do senhor Domingos de Almeida Carmo, que, percebendo a “facilidade” que a cativa tinha em obter dinheiro, majorou o valor da alforria para 200$000. Sem o restante do valor para saldar a dívida de forma integral, ela se viu obrigada a esperar mais dois anos para enfim ter acesso à carta de alforria. Esse fato reafirma que, embora conseguissem acumular volumes consideráveis de dinheiro, a conquista desses valores era bastante lenta e qualquer mudança no preço poderia adiar de forma indefinida a liberdade.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn20">20</xref></sup> Situação semelhante se deu com a africana Kutonia, identificada como haussá, que foi alforriada, em 1843, mediante o pagamento de 230$000. Esse valor, porém, foi quitado de uma única vez, embora antes dessa oferta ela tivesse proposto ao senhor o pagamento de 200$000 e 215$000, valores sucessivamente negados.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn21">21</xref></sup> Nesses casos, é notória a percepção que os senhores tinham das “posses” dos escravizados e de como essas condições econômicas podiam ser exploradas, especialmente em situações decisivas como a alforria, quando os escravizados ficavam mais vulneráveis à cobiça dos senhores por revelarem as quantias que possuíam.</p>
			<p>Um detalhe que vale a pena destacar é que, das alforrias pesquisadas, apenas 6% das mulheres africanas negociaram em parcelas, contrapondo-se a 48% das respectivas alforrias negociadas por crioulas. É possível que a questão racial explique isso: a desconfiança com que parte da população livre tratava os africanos, de modo geral, tidos como mais propensos à rebeldia e à criminalidade, inclusive às fugas, pode ter impedido que esse grupo obtivesse meios parcelados de pagamento, devido ao receio de seus senhores de que eles fugissem sem quitar o restante do acordo, de modo que “os escravos africanos mantiveram os senhores em estado de insegurança constante” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Reis, 2003</xref>, p. 68-69). Outra possibilidade é que, sem maiores justificativas, a não ser o puro preconceito, optavam em não permitir às africanas negociarem a liberdade, por considerarem esse ato um benefício ou concessão que não era merecido a esse grupo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>PARCEIROS NO CATIVEIRO, AMPARO PARA A LIBERDADE</title>
			<p>Era noite, por volta das vinte e duas horas do dia nove de julho de 1858 e a Vila de Camamú dormia. O silêncio foi quebrado pelo pedido de socorro do português Manoel José Ribeiro Guimarães, conhecido como Manoel Barato, gritando ao seu filho, Cândido José Ribeiro, que a sua casa havia sido invadida por um ladrão. No mesmo instante, o outro filho de Barato, Manoel Ribeiro Filho, acompanhado de um português de nome Antônio, que morava na loja da mesma casa, correram em seu auxílio e, cercando pelo quintal da casa, capturaram o invasor de nome Marcelino que tentava escapar. Marcelino vivia naquela vila como pessoa escravizada, compartilhado por duas senhoras, Antônia Teixeira de Aguiar e Paula Vieira do Espírito Santo, provavelmente viúvas, com bens que mal davam para a própria sobrevivência.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn22">22</xref></sup></p>
			<p>Levado pelos policiais que com o barulho logo chegaram, Marcelino foi apresentado ao delegado, que procedeu ao interrogatório. Sobre o acontecido, Marcelino deu a seguinte explicação:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>Não entrara ali para matar nem roubar, mas sim pela escrava Sofia, do domínio daquele senhor. Sendo a primeira vez que ali entrou, não sabendo onde a escrava Sofia estava, vira o ressonar e supondo que fosse ela ou alguém que pudesse guiar para onde ela se achasse, infelizmente foi ter ao lugar onde estava o dono da casa e lhe tocara o braço. Nessa ação foi-lhe seguro no braço pelo mesmo dono da casa que lhe perguntara quem era, e ele não reconhecendo a voz respondeu: ‘sou eu’. A esta resposta, disse o mesmo dono da casa, ‘vá para o léu!’ [...] e logo gritou que era ladrão.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn23">23</xref></sup></p>
			</disp-quote></p>
			<p>Marcelino disse ainda que tentou fugir por um lugar que lhe parecia a porta da rua, mas dando voltas na chave não conseguiu abri-la, o que o obrigou a procurar o lugar por onde tinha entrado — um alçapão — por onde acabou sendo preso.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn24">24</xref></sup></p>
			<p>O depoimento de Marcelino parecia ser convincente quanto às suas intenções. Ele explicava que tudo teria sido planejado com Sofia, sua amada, escravizada por Manoel Barato, que o teria orientado para que “entrasse pelo alçapão e seguisse por uma tábua que lá tem e que serve de escada”.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn25">25</xref></sup></p>
			<p>Aparentemente era um caso de um sujeito apaixonado e azarado que invadiu uma casa, na calada da noite, para um relacionamento amoroso, e acabou sendo descoberto pelo dono da residência e senhor da amada. Essa também deve ter sido a intenção de Marcelino ao prestar o depoimento: convencer as autoridades de que o malfeito havia sido apenas uma loucura de amor.</p>
			<p>O discurso bem elaborado poderia ter convencido o juiz se o próprio escravizado não cometesse um erro crucial em seu depoimento: para justificar seu suposto romance com Sofia, Marcelino disse que conhecia um garoto de nome Balduíno e que o mesmo escrevia algumas cartas para ele.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn26">26</xref></sup> Acontece que já corria “a boca miúda”, na Vila de Camamú, que o mesmo Manoel Barato recebera meses antes uma carta falsa, em nome de um conhecido dele chamado José Pirajá, que lhe foi entregue durante a noite, por um negro que não foi reconhecido. A carta pedia que Barato mandasse pelo portador uma quantia de trezentos ou quatrocentos mil réis, cujo valor, supostamente, o tal José Pirajá precisava para quitar dívidas com alguns roceiros. Desconfiando do teor da carta e do portador, Manoel Barato não fez o empréstimo, mas o caso virou notícia por toda a localidade e agora, com a prisão de Marcelino, fora reavivado pela polícia.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn27">27</xref></sup></p>
			<p>Chamado para ser informante, o garoto Balduíno Francisco Alves, de apenas doze anos, não só confirmou que escrevia cartas a pedido de Marcelino, como relatou que em outro momento ele redigiu uma carta, ditada pelo escravizado, em nome de uma de suas senhoras e cujo destinatário era o frei Manoel de Santo Elias, residente em Salvador. Na carta havia o pedido para que o frei mandasse por Marcelino seiscentos mil réis em fazendas. Contou, ainda, que outra vez fora chamado por Marcelino para escrever uma carta na casa de uma mulher chamada Maria Mittoa, mas, como atrasara, ao chegar lá viu Marcelino ditando a carta para outra pessoa, de nome Plínio, vizinho dele.</p>
			<p>Sobre a carta que Manoel Barato recebeu, Balduíno disse que “foi ele quem escrevera a pedido do crioulo livre Guardiano, filho da também crioula Chiquinha”.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn28">28</xref></sup> Esse novo personagem que entra no enredo se chamava Guardiano Veloso, tinha 20 anos de idade e era filho da liberta Francisca Teixeira de Aguiar. Em depoimento, Guardiano disse trabalhar em lavouras de mandioca e “outro qualquer trabalho, como de tirar lenha de mangue”, apontando para uma vida de incertezas e poucas oportunidades de trabalho, situação marcante na vida da maioria dos libertos, especialmente em áreas rurais.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn29">29</xref></sup> Guardiano morava na localidade denominada Caibá, mas frequentemente ia até a Vila de Camamú e costumava dormir na casa de Laurentino José da Silva, que era padrinho de Balduíno, onde devem ter se conhecido.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn30">30</xref></sup></p>
			<p>Durante o segundo interrogatório, Marcelino revelou que negociava com fazendas, “com algum dinheiro seu” e que usava, ainda, dinheiro de Manoel Barato e de sua senhora, obtidos através das cartas falsas.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn31">31</xref></sup> A apuração da invasão de uma residência acabou revelando uma intricada rede de parcerias que desenvolviam negócios ilícitos baseados em golpes usando correspondências falsas, da qual participavam pessoas livres, libertas e escravizadas.</p>
			<p>Nessa história, Laurentino da Silva era o líder do grupo de trambiqueiros que falsificavam cartas para solicitar dinheiro emprestado, com o qual movimentavam seus pequenos negócios. Para ampliar o alcance de seus golpes, Laurentino arregimentava escravizados, libertos e crianças, ou seja, pessoas altamente vulneráveis e que viviam no limiar da pobreza, numa região em que as possibilidades para obter o sustento eram poucas, tornando-se extremamente suscetível à participação em atividades ilícitas em que pudessem obter algum ganho. Isso não quer dizer, no entanto, que a adesão dessas pessoas aos projetos de Laurentino tenha sido ingênua. Quando a historiografia incorporou o conceito de agência, em contraposição à passividade, foi para evidenciar que escravizados e subalternizados em geral possuíam vontades e agiam em conformidade a elas, não sendo meras peças que se moviam de forma irrefletida ou que eram movidas por outrem, sem vontade própria (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Machado, 1988</xref>). A participação de escravizados e libertos no grupo de golpistas liderados por Laurentino, portanto, deve ter sido uma escolha, talvez compelida pelas adversidades que atravessavam as suas existências, o que, de fato, toca todas as vidas humanas.</p>
			<p>Embora Guardiano, Laurentino e Plínio tenham sido citados no processo, somente Marcelino foi levado a julgamento. Laurentino e Plínio sequer foram interrogados. Mais do que uma punição pela invasão da residência ou pelos ganhos obtidos com a produção de cartas falsas, a condenação de Marcelino — oito anos de galés, convertidos em quatrocentos açoites e ferro ao pescoço por três anos — parece ter tido uma função pedagógica, sobretudo numa localidade onde a comunidade de escravizados reivindicava e conquistava espaços de autonomia.</p>
			<p>Antes de prosseguir, é importante entender qual o sentido que estava em uso para “parceiro” e “companheiro”, no século XIX. No Dicionário da Língua Portuguesa de Luís Maria da Silva <xref ref-type="bibr" rid="B17">Pinto (1832)</xref>, a palavra “parceiro” significa o “que tem parte com outro em alguma coisa, companheiro”. Essa definição corresponde àquilo que na prática se verifica nas relações constituídas entre os diversos sujeitos, de diferentes condições jurídicas e socioeconômicas: alianças feitas de modo precário, ou seja, temporárias e sem maiores vínculos de cunho afetivo, com o objetivo de atender demandas específicas das quais ambos pudessem tirar algum tipo de vantagem, como foi o envolvimento de Marcelino com Laurentino e seus parceiros e, também, se aplica ao grupo que se reuniu para construir a morada da africana Joaquina. Embora a definição de “parceiro” seja vista por alguns historiadores (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Mattos, 2013</xref>, p. 135) como uma identidade construída de fora para dentro, ou seja, das narrativas das autoridades sobre os escravizados tratados na documentação, parece razoável considerar que tal definição não estava limitada ao mundo das pessoas livres e que, mesmo sendo parte da “voz” dos redatores dos documentos, é uma interpretação que tem fundamento nas relações concretas estabelecidas pelos sujeitos.</p>
			<p>Em situações distintas, essas parcerias surgiram a partir de uma demanda tangível sobre as condições materiais de sobrevivência que podia afetar a todos, ainda que de maneiras diferentes. Momentaneamente, deixaram de lado as possíveis diferenças de <italic>status</italic> jurídico, origem, cor ou de posses para implementarem a tarefa que lhes cabia e da qual tirariam algum tipo de vantagem, que nem sempre era financeira. A construção da morada ou aplicação de golpes dependia da autonomia sobre o seu tempo e de habilidades específicas, fatores que estimulavam a formação das parcerias. Assim, as parcerias são consequências do exercício da autonomia no dia a dia de pessoas que, majoritariamente, viviam em condições materiais muito parecidas. Estou falando de pessoas livres, libertas e escravizadas, na sua maioria vivendo no limiar da pobreza em zonas de economia voltada à alimentação básica, formada por pequenos e médios lavradores, senhores de poucos escravos. Esse perfil predomina em quase toda a extensão das vilas litorâneas, desde a Ilha de Itaparica até o Sul da Bahia, na primeira metade do século XIX. Lavradores, senhores e pessoas escravizadas, não raro, compartilhavam de condições de vida muito semelhantes, inclusive de moradia. O estabelecimento de parcerias no cotidiano, diferente do compadrio, não carecia da mediação ou regulação dos poderes constituídos, mas apenas das escolhas que os envolvidos faziam a partir da autonomia com que se revestiam, tendo como critério, na maioria das vezes, a proximidade.</p>
			<p>A segunda definição, a de “companheiro”, porém, agrega outros valores e sentimentos, mais ligados às escolhas feitas por afeição e cujos laços podem ter longa duração, estendendo-se, sobretudo, para o cotidiano dessas pessoas. O compadrio pode ser considerado uma forma de companheirismo amplamente difundida no Brasil, desde o período colonial, uma vez que, ao estabelecer um apadrinhamento, compadres e afilhados passam a tomar parte nas vidas um do outro. Entre os escravizados, por exemplo, o compadrio sempre foi objeto de escolhas muito bem refletidas. Tanto por parte do senhor, quando o apadrinhamento era imposto, quanto pelos escravizados, quando podiam escolher e elegiam aqueles em melhores condições de prover para o afilhado a proteção material e afetiva. O mesmo Dicionário de Luís <xref ref-type="bibr" rid="B17">Pinto (1832)</xref> apresenta como um dos sentidos para “compadre” o ato de “estar em boa amizade”, remetendo ao mesmo significado de “companheiro”.</p>
			<p>Bluteau (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Silva, 1789</xref>) definiu por companheiro “o que acompanha alguém em jornada, passeio, casa de vivenda, na guerra; o ofício do comércio; no sucesso, ou fortuna, o que também participa dele com outros. [...] companheiro nos furtos, crime”. Ser companheiro, portanto, adquiria um significado que abrangia vários aspectos da vida, envolvendo atos lícitos e ilícitos, cuja finalidade ia desde dividir as tarefas para erguer uma morada, ou fabricar a farinha de mandioca, até a associação para cometer furtos e roubos, como veremos a seguir.</p>
			<p>Por volta do meio-dia de uma terça-feira, vinte e oito de novembro de 1850, o crioulo forro Manoel José do Espírito Santo interrompeu repentinamente a tarefa de montar uma cova para fabricar carvão na localidade em que morava, chamada Monte Alegre, a qual também tinha a sugestiva alcunha de Campo dos Forros, situada na freguesia do Santíssimo Sacramento, na Ilha de Itaparica, nas franjas da cidade de Salvador. O motivo foi a chegada de uma conhecida sua dizendo que a casa em que o crioulo morava se achava arrombada. Ao mesmo tempo, o filho de Manoel já havia tomado conhecimento da notícia e, por estar mais próximo da casa de seu pai, correu imediatamente para verificar o ocorrido. Ao chegar ao local, deparou-se com um “preto que estava a roubar a casa, porém, por falta de ânimo”,<sup><xref ref-type="fn" rid="fn32">32</xref></sup> foi chamar um vizinho para que o socorresse. Quando retornou ao lugar com a ajuda, já não havia mais ninguém. Mas, junto com o vizinho, seguiu os supostos criminosos até a Fazenda Grande, “onde encontrou os pretos com parte do roubo que constava de toda a sua roupa e uma arca que já se achou arrombada no mato”.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn33">33</xref></sup></p>
			<p>Os dois acusados do furto, ambos identificados como nagô, foram: Gaspar, que trabalhava na lavoura e como mestre de lancha, e Aníbal, que era do serviço da roça. Os dois eram escravizados do capitão José da Costa Júnior, conhecido traficante da Bahia oitocentista, e viviam na Fazenda Grande, mesma localidade do Campo dos Forros, onde mantinham amplas relações com toda a vizinhança, a qual esteve envolvida nas buscas para encontrar os pertences furtados. Em depoimento, o crioulo liberto e carpina, Cipriano de Araújo, que também trabalhava na roça e era vizinho dos acusados, afirmou que o furto “fora praticado pelos escravos Aníbal e Gaspar [...] que há muito ele testemunha os conhece”,<sup><xref ref-type="fn" rid="fn34">34</xref></sup> e acrescentou que os escravos se dirigiram, após o furto, para a Fazenda Grande, onde moravam. Severino Francisco de Sant’Anna, cabra, liberto, também vizinho da vítima, ao saber da situação, foi à casa de Manoel José e disse que “encontrou a porta do fundo arrombada sem objeto algum dentro”.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn35">35</xref></sup></p>
			<p>Aquela localidade de Campo dos Forros, pelo que é possível perceber, era uma comunidade formada majoritariamente por libertos que trabalhavam como lavradores de mandioca, para si ou em outras propriedades, sendo que alguns mantinham outras pessoas escravizadas, mesmo que de modo compartilhado com outros vizinhos, como Severino Francisco de Sant’Anna, que dividia um escravizado com Estevão Pereira Soares, ambos libertos e identificados como cabras. Muitos desses libertos negociavam as suas produções com os lavradores da região, como também se utilizavam, de forma temporária, dos serviços de outros escravizados que por ali viviam em busca de algum pecúlio. Havia, ainda, um pequeno número de lavradores considerados brancos, como o senhor de Aníbal e Gaspar, mas que não moravam no Campo dos Forros, ainda que possuíssem suas lavouras naquele local.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn36">36</xref></sup></p>
			<p>Não é preciso se esforçar muito para imaginar que os escravizados que ainda viviam naquela região miravam-se no exemplo daqueles que, uma vez libertos, passaram a ter o acesso à terra “reconhecido” e, ainda, utilizavam-se de outros escravos em serviços diversos. Se a alforria ainda estivesse distante de ser alcançada, recorriam a estratégias de sobrevivência que abreviassem esse caminho, como parece ter sido a intenção de Gaspar e Aníbal com o furto.</p>
			<p>Enquanto os vizinhos localizavam os acusados, a vítima, Manoel José, que também tinha saído para procurar os seus bens, foi até a senzala da Fazenda Grande e lá encontrou uma pequena caixa que havia sumido de sua casa. Porém, estava vazia. Já outro vizinho, que também fez parte desse grupo de busca, Estevão Pereira Soares, cabra, dirigiu-se para os fundos da senzala, onde encontrou a trouxa de roupas que pertencia ao queixoso.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn37">37</xref></sup></p>
			<p>Encontrar a roupa e a caixa onde a vítima guardava seu dinheiro dava fortes indícios que confirmavam a autoria do crime, mas faltava o mais importante: o conteúdo da caixinha. Os vizinhos começaram a pressionar Gaspar e Aníbal para que dessem conta do dinheiro que a vítima alegou possuir, resultado de um acumulado ao longo do tempo e que estava na pequena arca de madeira. O valor, segundo o queixoso, “excedia trezentos mil réis”,<sup><xref ref-type="fn" rid="fn38">38</xref></sup> quantia bastante significativa, uma vez que quase 50% da população da região tinha seus bens avaliados em até um conto de réis. Naquele lugar, trezentos mil réis era quantia suficiente para comprar um escravo, conforme preço médio anotado em inventários daquele ano.</p>
			<p>Ao ser questionado sobre o dinheiro, Aníbal primeiramente negou qualquer participação no ocorrido, mas, pressionado, acabou confessando a posse, dizendo, porém, que não entregaria nada sem que Gaspar lhe autorizasse, e completou afirmando que: “não dizia nem entregava, porque tanto havia de sofrer entregando, como não”.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn39">39</xref></sup> A dramática resposta do escravo evidencia, por um lado, a consciência sobre o ato que praticara e suas possíveis consequências. Além do crime em si, deve-se considerar o fato de serem africanos, o que os colocava numa situação muito desfavorável. Independentemente de seu tempo no Brasil, eram vistos com maus olhos, inclusive por parte da comunidade a sua volta (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Brito, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Souza, 2009</xref>, p. 156). Aliás, como bem podemos notar pelos depoimentos, a comunidade de libertos estava toda ao lado da vítima, que também era um liberto. Do outro lado, ficaram isolados os dois africanos escravizados, o que reforça a existência de tensões “étnicas”, mesmo em comunidades menores, que não as de <italic>plantations</italic>. Nessas comunidades, embora houvesse maior proximidade nas condições econômicas das pessoas, havia variadas condições jurídicas e “étnicas”, o que agravava as divisões de trabalho, como vimos anteriormente no caso de Joaquina, e acirrava as disputas, que não eram só por sobrevivência, mas por reposicionamento social.</p>
			<p>A atitude do africano Aníbal também reflete o receio dos efeitos de um possível rompimento com o parceiro de cativeiro, alguém que, como ele, era um “estrangeiro” e carregava sofrimentos e sonhos em comum, sendo, talvez, uma de suas poucas referências e possibilidades de amparo naquela vida. Numa condição adversa e de risco iminente, escravizados podiam assumir, se não uma solidariedade, uma ética própria de comportamentos e obediências, talvez resultado dos anos de convívio no cativeiro. Aníbal não demonstrava esperança para com um melhor tratamento por parte dos seus acusadores, mesmo que entregasse o dinheiro. No fundo, ele percebia que sua condição de escravizado e de africano limitava os seus espaços de atuação e negociação.</p>
			<p>Enquanto tentavam fazer com que eles entregassem os produtos furtados, a vítima tomou a palavra e disse que “não se importava com os ‘mulambos’ e só com a boceta que tinha dentro dinheiro e que estava guardada dentro da dita caixa”.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn40">40</xref></sup> As falas fornecem muitos indícios sobre as condições materiais de vida do crioulo liberto Manoel José e dos escravos Gaspar e Aníbal. Praticamente todos os depoimentos das testemunhas apontaram para uma situação de grande pobreza. Ao entrar na morada do queixoso para verificar o furto, o vizinho Severino havia dito que estava vazia e os pertences se resumiam à trouxa de roupas que havia sido levada pelos escravos e o dinheiro sumido.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn41">41</xref></sup> A própria vítima confirmou a precariedade de sua vida quando caracterizou as roupas roubadas como “mulambos”, demonstrando pouco-caso pelos trapos com que se vestia; o que de fato importava era aquele dinheiro acumulado com sacrifício e mal guardado em sua morada — talvez parecida com a de Joaquina ou a da gravura de Rugendas — completamente vulnerável à ação de pessoas gananciosas ou, ainda mais, desvalidas, dispostas a cometer crimes.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn42">42</xref></sup></p>
			<p>Se alcançar a alforria era um desejo e representava uma vantagem significativa, ela não era sinônimo de melhoria imediata nas condições de vida de um recém-liberto. Com ela, apenas se iniciava uma nova etapa de enfretamentos e labutas. Isso fica evidente quando vemos que Manoel José e seus vizinhos, mesmo sendo libertos, viviam em condições duras de sobrevivência, como tantos outros libertos de que tratamos ao longo deste artigo.</p>
			<p>Voltando ao caso, ainda temos coisas a desvendar: a tentativa de Manoel José e seus vizinhos era reaver o dinheiro roubado ali mesmo, mas como a situação da devolução não se resolvia, Aníbal e Gaspar foram levados para a cidade para serem entregues ao delegado, quando, no caminho, encontraram Ana Joaquina, esposa de Manoel José. A mulher, ao ver os dois escravos que iam amarrados pelas mãos, passou a cobrar de Aníbal o pagamento de uma galinha que ele devia. No mesmo instante, o acusado pediu que lhe tirassem do bolso duas patacas e quatro vinténs para fazer o pagamento. Ao retirarem o dinheiro, Ana Joaquina viu uma moeda de prata que, segundo ela, lhe pertencia. A situação parecia complicada para Aníbal e Gaspar, tendo sido levados à prisão e pronunciados pelo juiz local. Quando tudo parecia se resolver, o capitão João da Costa Júnior, senhor dos dois africanos, entrou com um requerimento solicitando a soltura de ambos, por falta de provas. Também alegou que a prisão dos seus escravizados lhe causava prejuízos de dias de serviço, passando a cobrar do queixoso Manoel José o pagamento correspondente aos dias em que os dois ficaram parados. Numa decisão bastante célere e desconhecendo as provas contra Aníbal e Gaspar, cerca de trinta dias após a prisão, o juiz despronunciou os réus, alegando inconsistência nas provas, devolvendo-os à posse do seu senhor. Depois, ainda condenou o pobre queixoso a pagar as custas do processo, mas ele alegou não ter condição alguma de cumprir tal determinação devido ao seu estado de pobreza.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn43">43</xref></sup></p>
			<p>A rápida e esquisita decisão do juiz pode ter uma explicação: João da Costa Júnior, como já dito, era um conhecido traficante de escravizados da Bahia e tinha influência em diversos meios da sociedade baiana, o que o fez membro da poderosa irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Salvador. Além de atuar no tráfico atlântico, Costa Júnior teve inúmeros outros negócios de diferentes pesos, comercializando produtos por diferentes regiões do Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Tavares, 1983</xref>). Sua rede de influências, portanto, pode ter pressionado o juiz diretamente, ou mesmo feito com que ele se sentisse acuado, levando-o a tomar a decisão que beneficiou o senhor e seus escravizados. O perfil do cargo de juiz de paz, as condições políticas em vigor a partir da Lei Feijó e o distanciamento em relação ao poder central são fatores que contribuíram para que juízes se envolvessem com o contrabando de escravos, protegendo traficantes ou a si próprios, acabavam por garantir o funcionamento dessa lucrativa engrenagem da qual, certamente, alguns esperavam tirar proveito (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Costa, 2019</xref>).</p>
			<p>No que tange aos escravizados, apesar da historiografia mostrar casos de cativos que adquiriram melhores condições de vida ou até enriqueceram, essa não foi a regra na escravidão brasileira (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Faria, 2006</xref>). Majoritariamente, eles levavam uma vida com muitas limitações, mesmo após a alforria. Ser escravizado por um traficante de gente, como eram Aníbal e Gaspar, não tornava a situação mais favorável. Ao contrário, talvez pelo absenteísmo ou pela negligência do senhor, cabia a eles amealhar ganhos para complementar seu sustento, de tal forma que precisavam disputar cotidianamente a sobrevivência com pessoas livres, libertos e outros escravizados. Não era por outro motivo que eles deviam dinheiro de uma galinha, que haviam comprado provavelmente para sustento próprio.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn44">44</xref></sup> Da mesma forma, a trouxa de roupas velhas que afanaram, quase sem serventia, revela as condições miseráveis a que estavam submetidos naquele cativeiro. Em regiões pobres, buscar o próprio sustento exigia ações desesperadas. Assim, quando não se conseguia a alforria nem possibilidades de obter alguma renda, caminhos alternativos em direção à liberdade, como os delitos, não eram menosprezados (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Machado, 2014</xref>).</p>
			<p>Mais do que um crime, esse processo ilumina a delicada situação dos grupos sociais situados no limiar da pobreza e como lidavam com questões urgentes para garantir a própria sobrevivência, buscando acesso a itens básicos como alimentação, vestimenta e moradia. Isso os fazia tomar decisões drásticas, que podiam comprometer o restante de suas vidas, mas das quais era quase impossível escapar.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>Regiões consideradas economicamente periféricas pela historiografia, ou seja, que não se estabeleceram como parte do complexo agrícola da grande lavoura e estiveram na retaguarda da produção de alimentos de subsistência, possuíam características muito diferentes na posse de escravos e na forma de controle senhorial. Essas regiões eram formadas, majoritariamente, por pequenos lavradores com poucos escravos que, não raro, trabalhavam lado a lado com seus senhores nas pequenas roças, gerando relações sociais e de trabalho diferentes daquelas das grandes plantações, sobretudo no que diz respeito ao controle senhorial sobre seu escravizado.</p>
			<p>Predominantemente, as áreas rurais da província da Bahia, na primeira metade do século XIX, eram ocupadas por pequenas e médias propriedades, com lavoura diversificada ou criação de gado. Mesmo nas vilas do Recôncavo, onde a lavoura açucareira havia se estabelecido no período colonial, a grande plantação não era mais hegemônica. Em se tratando das vilas litorâneas, indo do Sul do Recôncavo até a vila de Ilhéus, prevalecia a lavoura de mandioca, base da alimentação dos baianos, mas, também, fundamental para os negócios do tráfico de escravizados com regiões da África, como Angola, e, até mesmo, na alimentação das tropas em Lisboa. Somava-se à farinha uma outra variedade agrícola, das hortaliças ao café. Tudo isso era produzido, em sua maioria, em pequenas lavouras com poucos escravizados, sendo que os mais pobres não contavam com nenhum, ou tinham que alugar ou repartir um cativo com outros senhores.</p>
			<p>Escravizados e libertos, africanos ou nascidos no Brasil, formaram, naquele litoral, uma comunidade que compartilhava semelhantes condições de sobrevivência, marcadas pela contingência da vida, o que foi determinante no estabelecimento de parcerias, momentâneas ou mais duradouras. Essas parcerias se formavam pela necessidade de suprir demandas imediatas em torno da sobrevivência ou pelo sentimento de companheirismo, que tinha a ver com a formação de relações de caráter afetivo, mas sem descuidar do pragmatismo pela manutenção da própria vida.</p>
			<p>As redes de parceria e companheirismo fazem parte do roteiro de instituição da autonomia como um direito costumeiro entre escravizados e libertos. Essa maneira de conduzir suas vidas não foi resultado apenas das experiências obtidas com o cativeiro, e nem mesmo estão limitadas ao Brasil, mas sim como indício de que ali havia uma comunidade afrodiaspórica, a qual não é definida pelas fronteiras físicas, mas pelo compartilhamento de condições semelhantes de sobrevivência e um sentimento comum de pertencimento, nem sempre tão evidente. Essa comunidade utilizava os saberes e os traquejos acumulados da vida na África, antes da escravidão, por si ou por seus antepassados, e aqueles que foram construídos na relação com indígenas, com seus senhores e com outras pessoas livres, resultando nas técnicas usadas para a construção das moradas até às variadas formas de articulação coletiva, incluindo aquelas pela obtenção de pecúlio.</p>
			<p>A reivindicação por espaços de autonomia evocava a vida em liberdade, de modo que se constituía num ato de resistência em torno da memória de quem eles eram, de suas origens africanas, e do esforço em reconstruírem suas vidas com alguma dignidade. Numa comunidade com africanos de diferentes lugares da África Ocidental e Centro-Ocidental, somados aos sujeitos de todos os tipos nascidos no Brasil, a mescla de costumes era inevitável. Desse modo, como sabemos, para muitas comunidades africanas, tanto de origem iorubá quanto banto, a posse da terra e da morada era parte fundamental na definição sobre quem eram e na possibilidade de exercitar o governo de si mesmos. Assim, a autonomia não se limitava ao acesso à terra, a roças ou a uma morada, sem desprezar o papel que o acesso aos bens materiais proporcionava aos escravizados e libertos, mas era uma forma de reminiscência africana, uma maneira de ler o mundo à sua volta e, como sujeitos com plena posse de si, fazerem suas escolhas, nem sempre acertadas, reafirmando as suas agências.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>BARICKMAN, Bert. <italic>Um contraponto baiano: Açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860</italic>. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BARICKMAN</surname>
							<given-names>Bert</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Um contraponto baiano: Açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>Civilização Brasileira</publisher-name>
					<year>2003</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>BARROS, Rafael dos Santos. Os sertões em movimento: Sertanistas, indígenas e escravidão na Bahia Colonial. 1651-1720. 361 f. Tese (Doutorado em História) - Universidade Federal da Bahia. Salvador,, 2021.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="thesis">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BARROS</surname>
							<given-names>Rafael dos Santos</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Os sertões em movimento: Sertanistas, indígenas e escravidão na Bahia Colonial. 1651-1720</source>
					<size units="pages">361</size>
					<comment>Tese (Doutorado em História)</comment>
					<publisher-name>Universidade Federal da Bahia</publisher-name>
					<publisher-loc>Salvador</publisher-loc>
					<year>2021</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>BRITO, Luciana da Cruz. Temores da África: Segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista. Salvador: EdUfba, 2016.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BRITO</surname>
							<given-names>Luciana da Cruz</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Temores da África: Segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista</source>
					<publisher-loc>Salvador</publisher-loc>
					<publisher-name>EdUfba</publisher-name>
					<year>2016</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B4">
				<mixed-citation>CARDOSO, Ciro Flamario. Escravo ou camponês? O protocampesinato negro nas Américas. São Paulo: Brasiliense, 2004.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>CARDOSO</surname>
							<given-names>Ciro Flamario</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Escravo ou camponês? O protocampesinato negro nas Américas</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Brasiliense</publisher-name>
					<year>2004</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B5">
				<mixed-citation>CASTELLUCCI JÚNIOR, Wellington. Pescadores e roceiros: Escravos e forros em Itaparica na segunda metade do século XIX (1860-1888). São Paulo: Annanblume, 2008.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>CASTELLUCCI</surname>
							<given-names>Wellington</given-names>
							<suffix>JÚNIOR</suffix>
						</name>
					</person-group>
					<source>Pescadores e roceiros: Escravos e forros em Itaparica na segunda metade do século XIX (1860-1888)</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Annanblume</publisher-name>
					<year>2008</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B6">
				<mixed-citation>COSTA, A. Alex. &quot;Os juízes de paz são todos uns ladrões&quot;: Autoridades públicas e o tráfico de escravos no interior da província da Bahia (c.1831-c.1841). <italic>Estudos Históricos</italic>, v. 32, n. 66, p. 123-142, jan. 2019.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>COSTA</surname>
							<given-names>A. Alex</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>&quot;Os juízes de paz são todos uns ladrões&quot;: Autoridades públicas e o tráfico de escravos no interior da província da Bahia (c.1831-c.1841)</article-title>
					<source>Estudos Históricos</source>
					<volume>32</volume>
					<issue>66</issue>
					<fpage>123</fpage>
					<lpage>142</lpage>
					<month>01</month>
					<year>2019</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B7">
				<mixed-citation>COSTA, A. Alex. Pedro, escravo, &quot;mandado pelo Altíssimo para absolver os pecados&quot;: Religiosidades, insurgências e autonomia escrava (Bahia, c.1790 a c.1830). Tempo, v. 27, n. 2, p. 405-425, maio 2021.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>COSTA</surname>
							<given-names>A. Alex</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Pedro, escravo, &quot;mandado pelo Altíssimo para absolver os pecados&quot;: Religiosidades, insurgências e autonomia escrava (Bahia, c.1790 a c.1830)</article-title>
					<source>Tempo</source>
					<volume>27</volume>
					<issue>2</issue>
					<fpage>405</fpage>
					<lpage>425</lpage>
					<month>05</month>
					<year>2021</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B8">
				<mixed-citation>DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Forros e Brancos Pobres na Sociedade Colonial do Brasil, 1675-1835. In: CASTILLERO-CALVO, Alfredo; KUETHE, Allan. Historia General de América Latina, v. 3. Madri: Unesco, Trotta, 2001. p. 443-458.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>DIAS</surname>
							<given-names>Maria Odila Leite da Silva</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Forros e Brancos Pobres na Sociedade Colonial do Brasil, 1675-1835</chapter-title>
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>CASTILLERO-CALVO</surname>
							<given-names>Alfredo</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>KUETHE</surname>
							<given-names>Allan</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Historia General de América Latina</source>
					<volume>3</volume>
					<publisher-loc>Madri</publisher-loc>
					<publisher-name>Unesco, Trotta</publisher-name>
					<year>2001</year>
					<fpage>443</fpage>
					<lpage>458</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B9">
				<mixed-citation>ENGEMANN, Carlos. Da comunidade escrava e suas possibilidades, séculos XVII-XIX. In: FLORENTINO, Manolo. (org.) Tráfico, Cativeiro e Liberdade. Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 169-205.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ENGEMANN</surname>
							<given-names>Carlos</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Da comunidade escrava e suas possibilidades, séculos XVII-XIX</chapter-title>
					<person-group person-group-type="compiler">
						<name>
							<surname>FLORENTINO</surname>
							<given-names>Manolo</given-names>
						</name>
						<role>org</role>
					</person-group>
					<source>Tráfico, Cativeiro e Liberdade</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<season>séculos XVII-XIX</season>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>Civilização Brasileira</publisher-name>
					<year>2005</year>
					<fpage>169</fpage>
					<lpage>205</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B10">
				<mixed-citation>FARIA, Sheila. Francisca Maria Teresa e as Sinhás Pretas no Brasil colonial. In: VAINFAS, Ronaldo; SANTOS, Georgina Silva dos; NEVES, Guilherme Pereira das (org.). Retratos do Império. Trajetórias individuais no mundo português nos séculos XVI a XIX. Niterói: Ed. UFF, 2006. p. 219-232.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>FARIA</surname>
							<given-names>Sheila</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Francisca Maria Teresa e as Sinhás Pretas no Brasil colonial</chapter-title>
					<person-group person-group-type="compiler">
						<name>
							<surname>VAINFAS</surname>
							<given-names>Ronaldo</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>SANTOS</surname>
							<given-names>Georgina Silva dos</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>NEVES</surname>
							<given-names>Guilherme Pereira das</given-names>
						</name>
						<role>org</role>
					</person-group>
					<source>Retratos do Império. Trajetórias individuais no mundo português nos séculos XVI a XIX</source>
					<publisher-loc>Niterói</publisher-loc>
					<publisher-name>Ed. UFF</publisher-name>
					<year>2006</year>
					<fpage>219</fpage>
					<lpage>232</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B11">
				<mixed-citation>GRAHAM, Richard. Feeding the City: From Street Market to Liberal Reform in Salvador. Brazil. 1780-1860. Austin-TX: University of Texas Press, 2010.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>GRAHAM</surname>
							<given-names>Richard</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Feeding the City: From Street Market to Liberal Reform in Salvador. Brazil. 1780-1860</source>
					<publisher-loc>Austin-TX</publisher-loc>
					<publisher-name>University of Texas Press</publisher-name>
					<year>2010</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B12">
				<mixed-citation>HABSBURGO, Maximiliano de. Bahia 1860: Esboços de viagem. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1982.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>HABSBURGO</surname>
							<given-names>Maximiliano de</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Bahia 1860: Esboços de viagem</source>
					<publisher-loc>Salvador</publisher-loc>
					<publisher-name>Fundação Cultural do Estado da Bahia</publisher-name>
					<year>1982</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B13">
				<mixed-citation>HORA, Raiza C. C. da. Alforrias, relações de gênero e maternidade na Cidade da Bahia em meados do Setecentos. Afro-Ásia, v. 66, p. 77-115, 2022.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>HORA</surname>
							<given-names>Raiza C. C. da</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Alforrias, relações de gênero e maternidade na Cidade da Bahia em meados do Setecentos</article-title>
					<source>Afro-Ásia</source>
					<volume>66</volume>
					<fpage>77</fpage>
					<lpage>115</lpage>
					<year>2022</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B14">
				<mixed-citation>MACHADO, Maria Helena P. T. Em torno da autonomia escrava: Uma nova direção para a história social da escravidão. <italic>Revista Brasileira de História</italic>, v. 8, n. 16, p. 143-160, 1988.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MACHADO</surname>
							<given-names>Maria Helena P. T.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Em torno da autonomia escrava: Uma nova direção para a história social da escravidão</article-title>
					<source>Revista Brasileira de História</source>
					<volume>8</volume>
					<issue>16</issue>
					<fpage>143</fpage>
					<lpage>160</lpage>
					<year>1988</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B15">
				<mixed-citation>MACHADO, Maria Helena P. T. Crime e escravidão: Trabalho, luta e resistência nas lavouras paulistas. São Paulo: Edusp, 2014.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MACHADO</surname>
							<given-names>Maria Helena P. T.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Crime e escravidão: Trabalho, luta e resistência nas lavouras paulistas</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Edusp</publisher-name>
					<year>2014</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B16">
				<mixed-citation>MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio: Os significados da liberdade no Sudeste escravista - Brasil, século XIX. Edição revista. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MATTOS</surname>
							<given-names>Hebe</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Das cores do silêncio: Os significados da liberdade no Sudeste escravista - Brasil, século XIX</source>
					<edition>Edição revista</edition>
					<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
					<publisher-name>Editora da Unicamp</publisher-name>
					<year>2013</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B17">
				<mixed-citation>PINTO, Luís Morais da Silva. Diccionario da língua brasileira. Ouro Preto: Typografia de Silva, 1832.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>PINTO</surname>
							<given-names>Luís Morais da Silva</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Diccionario da língua brasileira</source>
					<publisher-loc>Ouro Preto</publisher-loc>
					<publisher-name>Typografia de Silva</publisher-name>
					<year>1832</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B18">
				<mixed-citation>MINTZ, Sidney. Caribbean Transformations. New York: Columbia University Press, 1974.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MINTZ</surname>
							<given-names>Sidney</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Caribbean Transformations</source>
					<publisher-loc>New York</publisher-loc>
					<publisher-name>Columbia University Press</publisher-name>
					<year>1974</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B19">
				<mixed-citation>PINHEIRO, Fernanda D. Nem liberto, nem escravo: Os coartados em disputas judiciais (Mariana/MG - 1750-1819). História, v. 37, p. e2018030, 2018.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>PINHEIRO</surname>
							<given-names>Fernanda D</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Nem liberto, nem escravo: Os coartados em disputas judiciais (Mariana/MG - 1750-1819)</article-title>
					<source>História</source>
					<volume>37</volume>
					<elocation-id>e2018030</elocation-id>
					<year>2018</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B20">
				<mixed-citation>REIS, João José. Escravos e coiteiros no quilombo do Oitizeiro - Bahia, 1806. In: REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos (org.). Liberdade por um fio: Histórias dos quilombolas no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 332-372.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>REIS</surname>
							<given-names>João José</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Escravos e coiteiros no quilombo do Oitizeiro - Bahia, 1806</chapter-title>
					<person-group person-group-type="compiler">
						<name>
							<surname>REIS</surname>
							<given-names>João José</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>GOMES</surname>
							<given-names>Flávio dos Santos</given-names>
						</name>
						<role>org</role>
					</person-group>
					<source>Liberdade por um fio: Histórias dos quilombolas no Brasil</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
					<year>1996</year>
					<fpage>332</fpage>
					<lpage>372</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B21">
				<mixed-citation>REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: A história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>REIS</surname>
							<given-names>João José</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Rebelião escrava no Brasil: A história do levante dos Malês em 1835</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
					<year>2003</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B22">
				<mixed-citation>RIBEIRO, Darcy. Suma Etnológica Brasileira. Edição atualizada do Handbook of South American Indians. v. 1. Etnobiologia 2. Petrópolis: Ed. Vozes/FINEP, 1987.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>RIBEIRO</surname>
							<given-names>Darcy</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Suma Etnológica Brasileira. Edição atualizada do Handbook of South American Indians</source>
					<volume>1</volume>
					<comment>Etnobiologia 2</comment>
					<publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
					<publisher-name>Ed. Vozes/FINEP</publisher-name>
					<year>1987</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B23">
				<mixed-citation>SILVA, António de Morais. Diccionario da língua portuguesa. Composto pelo Padre D. Rafael Bluteau, reformado e acrescentado por António de Moraes Silva. Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>SILVA</surname>
							<given-names>António de Morais</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Diccionario da língua portuguesa</source>
					<person-group person-group-type="compiler">
						<role>Composto pelo</role>
						<name>
							<surname>Rafael Bluteau</surname>
							<given-names>Padre D.</given-names>
						</name>
						<role>reformado e acrescentado por</role>
						<name>
							<surname>Silva</surname>
							<given-names>António de Moraes</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
					<publisher-name>Officina de Simão Thaddeo Ferreira</publisher-name>
					<year>1789</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B24">
				<mixed-citation>SLENES, Robert W. Na Senzala, uma Flor: Esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil Sudeste, século XIX. Campinas: Editora da Unicamp, 2011.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>SLENES</surname>
							<given-names>Robert W</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Na Senzala, uma Flor: Esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil Sudeste, século XIX</source>
					<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
					<publisher-name>Editora da Unicamp</publisher-name>
					<year>2011</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B25">
				<mixed-citation>SOUZA, Paulo Cesar. A Sabinada, a revolta separatista da Bahia 1837. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>SOUZA</surname>
							<given-names>Paulo Cesar</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>A Sabinada, a revolta separatista da Bahia 1837</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
					<year>2009</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B26">
				<mixed-citation>TAVARES, Luís Henrique Dias. Capitais e manufaturados no comércio de escravos. Universitas, v. 32, p. 37-58, 1983.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>TAVARES</surname>
							<given-names>Luís Henrique Dias</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Capitais e manufaturados no comércio de escravos</article-title>
					<source>Universitas</source>
					<volume>32</volume>
					<fpage>37</fpage>
					<lpage>58</lpage>
					<year>1983</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B27">
				<mixed-citation>VOLPE, Tony. Le logement des esclaves des plantations à la Martinique au XVIIIe siècle. In: MORICEAU, Jean-Marc; MADELINE, Philippe. Les petites gens de la terre: Paysans, ouvriers et domestiques (Moyen Âge - XXIe siècle),Caen, 4. Presse Universitaires de Caen, Bibliothèque du Pôle Rural, 2017. p. 223-234.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>VOLPE</surname>
							<given-names>Tony</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Le logement des esclaves des plantations à la Martinique au XVIIIe siècle</chapter-title>
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MORICEAU</surname>
							<given-names>Jean-Marc</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>MADELINE</surname>
							<given-names>Philippe</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Les petites gens de la terre: Paysans, ouvriers et domestiques (Moyen Âge - XXIe siècle)</source>
					<publisher-loc>Caen, 4</publisher-loc>
					<publisher-name>Presse Universitaires de Caen, Bibliothèque du Pôle Rural</publisher-name>
					<year>2017</year>
					<fpage>223</fpage>
					<lpage>234</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
		</ref-list>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p> Santarém teve sua origem numa aldeia indígena fundada por jesuítas às margens do rio Serinhaém, com uma capela dedicada a santo André. Ela foi elevada a vila a partir da Lei do Diretório dos Índios do Maranhão, em 1758.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p> ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA (APEB), Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Colonial e Provincial, Governo Geral, Ouvidoria geral do crime, maço 572-2. Traslado do inventário e sequestro de bens que se achavam no Oitizeiro (Barra do Rio de Contas – Comarca de Ilhéus), 1806.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p> Comunidade negra não se refere ao conjunto de pessoas que moravam relativamente próximas umas das outras, mas aqueles que dividiam condições de sobrevivência parecidas, ao mesmo tempo que experienciavam a solidariedade mútua.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p> Analisando 91 inventários <italic>post-mortem</italic> referentes às vilas de Valença, Camamú e Maraú, entre 1800 e 1850, o que corresponde a mais de 90% dos documentos disponíveis para pesquisa no Arquivo Público da Bahia sobre o período, foi possível notar que as fortunas contabilizadas em até um conto de réis alcançaram o estrondoso número de 48,7% dos inventários. Comparando com as vilas do Recôncavo Sul, esse mesmo grupo de fortunas chegou a 28% do total e em Salvador correspondia a menos de 14%. Já os inventários que alcançaram o valor máximo de quinhentos mil réis, o menor de todos os grupos, correspondendo a pessoas gravemente afetadas pela pobreza, representou 25% do total. A média da posse de escravizados na região estudada era de 4,8 escravizados por senhor, mas entre esses grupos mais pobres, esse número diminuía para 1,5 escravizados para cada inventariado.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B9">Engemann (2005</xref>, p. 338) utilizou a definição de “liberdade administrada” para se referir às diversas formas do escravizado exercitar sua autonomia. Ainda que reconheçamos que se trata de uma autonomia limitada, a definição do historiador não parece ser a mais adequada, posto que reivindica um lugar de controle das decisões para o senhor, o que não era tão comum, sobretudo nas pequenas propriedades com poucos escravos e de senhores pobres.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p> Sobre as práticas de parcelamento de alforria, também chamadas de coartação, há uma extensa produção historiográfica e que ajudam a entender como essa forma de acesso a liberdade estava fortemente conectada ao exercício da autonomia. Segundo Fernanda Pinheiro (2028), indivíduos que tiveram as relações de submissão rompidas desde o início de suas coartações conseguiram acessar níveis maiores de autonomia.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>13</label>
				<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 6, Camamú, 01/10/1828 a 06/04/1835, do tabelião Manoel Rodrigues de Souza.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>14</label>
				<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 6, Camamú, 01/10/1828 a 06/04/1835, do tabelião Manoel Rodrigues de Souza.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>15</label>
				<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 6, Camamú, 01/10/1828 a 06/04/1835, do tabelião Manoel Rodrigues de Souza.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>16</label>
				<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 12, Camamú, 10/01/1846 a 24/10/1850, do tabelião Vitoriano Gomes da Costa.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>17</label>
				<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 12, Camamú, 10/01/1846 a 24/10/1850, do tabelião Vitoriano Gomes da Costa.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>18</label>
				<p> Foram analisadas as alforrias correspondentes às seguintes vilas: Maraú, Camamú, Barra do Rio de Contas e Boipeba.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>19</label>
				<p> Embora a historiografia já tenha consolidado a prevalência de mulheres escravizadas tendo êxito nos processos de alforria, em comparação com os homens, a historiadora Raiza Canuta da <xref ref-type="bibr" rid="B13">Hora (2022</xref>, p.109) argumenta que ainda é preciso lançar luz para a dimensão produtiva e reprodutiva do trabalho das mulheres escravizadas, sobretudo o acúmulo de jornadas a que as mulheres sempre foram submetidas, com o sobrepeso das atividades impostas pela cultura do cuidado, que secularmente impõe às mulheres as tarefas reprodutivas e maternais com os bebês, crianças, doentes e idosos, bem como com o asseio dos ambientes, preparo de alimentos e a gestão dos lares.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>20</label>
				<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº4, Camamú, 18/07/1816 a 01/06/1831, do tabelião Domingos Luiz de Menezes.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn21">
				<label>21</label>
				<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 1, Camamú, 07/05/1843 a 09/11/1846, do tabelião Manoel Rodrigues de Souza.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn22">
				<label>22</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn23">
				<label>23</label>
				<p> APEB, Salvador. Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn24">
				<label>24</label>
				<p> APEB, Salvador. Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn25">
				<label>25</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn26">
				<label>26</label>
				<p> O documento, além da má redação, apresenta lapsos na ordem dos depoimentos e falta de páginas, por isso não fica muito claro quando o escravo Marcelino dá essa informação ao juiz. APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn27">
				<label>27</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn28">
				<label>28</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn29">
				<label>29</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn30">
				<label>30</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn31">
				<label>31</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn32">
				<label>32</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn33">
				<label>33</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn34">
				<label>34</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn35">
				<label>35</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn36">
				<label>36</label>
				<p> Na documentação, o nome do escravo Aníbal está grafado como Haníbal. Porém, para efeito de uma melhor leitura, atualizei a grafia.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn37">
				<label>37</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn38">
				<label>38</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn39">
				<label>39</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn40">
				<label>40</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn41">
				<label>41</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn42">
				<label>42</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn43">
				<label>43</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn44">
				<label>44</label>
				<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
	<!--<sub-article article-type="translation" id="TRen" xml:lang="en">
		<front-stub>
			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/0104-87752025v41e25028</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>SPECIAL ISSUE: SLAVERY, EVERYDAY LIFE, AND DYNAMICS OF MISCEGENATION IN THE IBERIAN WORLD (16<sup>TH</sup>-18<sup>TH</sup> CENTURIES): SPACES, MOBILITY, AGREEMENTS AND CONFLICTS</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>The Limits of Autonomy. Experiences of Freedom of Enslaved People in Litoral of Bahia, 19th Century</article-title>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-8974-9696</contrib-id>
					<name>
						<surname>COSTA</surname>
						<given-names>ALEX ANDRADE</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1001"><sup>*</sup></xref>
				</contrib>
			</contrib-group>
			<aff id="aff1001">
				<label>*</label>
				<country country="BR">Brazil</country>
				<institution content-type="original"> Universidade Federal da Bahia, Av. Reitor Miguel Calmon, Campus Canela, Salvador, Bahia, 40110-909, Brazil alex.costa@ufba.br</institution>
			</aff>
			<author-notes>
				<fn fn-type="edited-by">
					<label>Responsible editor:</label>
					<p>Alexandre Almeida Marcussi</p>
				</fn>
			</author-notes>
			<abstract>
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article examines the various strategies employed by both enslaved individuals and freed slaves to establish their own economy and utilize their generated wealth during the first half of the 19th century. It specifically focuses on some coastal regions of Bahia, where the economies were primarily geared towards producing subsistence foods. By leveraging multiple sources, prominently criminal records and notarial notebooks, the study delves into the daily lives of those within and outside of enslavement, highlighting their continuous struggle for survival. It posits that the nature of slavery in regions dominated by subsistence economies and economically disadvantaged masters provided increased, albeit relative, opportunities for slave autonomy. This autonomy was pursued despite the presence of adversity and despair.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<kwd>slave autonomy</kwd>
				<kwd>Bahia</kwd>
				<kwd>19th century</kwd>
			</kwd-group>
		</front-stub>
		<body>
			<p>Joaquina was born somewhere in West Africa, perhaps in the region of the Bay of Benin or further to the center of that continent, in the territory that came to be called Angola. Like many people of her time who were forcibly brought to Brazil, we only know her generic origin as “African.” She was a widow and, at around 58 years of age, still lived as a slave of João Caetano da Rocha, which must have left her very weak from all the time she had spent working as a slave. Joaquina lived in the locality of Capoeira Grande, belonging to the town of Santarém, about 30 km by land from the town of Camamú, in the district of Ilhéus, on the southern coast of Bahia.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1001">1</xref></sup> Like many others, Joaquina’s home was located on her master’s land, not in slave quarters, but in a small hut where she retired at night and perhaps kept her meager possessions.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn2001">2</xref></sup> Living on one’s own was not always an advantage for the enslaved person, as in this case, they had to guarantee their own survival, including a place to sleep, food, clothing, and also the services required of them by their master.</p>
			<p>Joaquina had a very precarious dwelling and certainly faced problems with the safety of the place due to the infrastructure, which made her scramble to build a new home. With only a 16-year-old daughter, enslaved by another master, and probably without the company of other relatives to help her, everything became even more difficult, so she resorted to the solidarity of her neighbors to carry out the construction, especially for the most exhausting task, which required more arms, which was making the siding. The buildings were made from a framework of wooden poles, tied together with vines, and covered with a mass of clay that was thrown with the hands. The roof was made from the straw available on the site and the floor was rammed earth. These buildings served as a temporary or permanent home for the poorest and were quick to build and inexpensive (Castellucci Junior, 2008, p. 115)</p>
			<p>This construction technique was very common and used the knowledge of indigenous groups who had long occupied the coast. Before being expelled to the interior or killed, they spread their knowledge among the local population, including their tormentors, becoming an important cultural heritage (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Barros, 2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">Ribeiro, 1987</xref>, p. 27-94). On the other hand, it is not possible to say that this type of construction was originally indigenous since it was also present in different parts of West Africa, so there was a combination of knowledge and cultures, which constituted an Afro-indigenous technology preserved over the long term, as a way of building dwellings, especially among the poorest. This type of construction made use of the resources offered by the nature of the place and, although apparently fragile, it was reasonably resistant to the elements and suitable for the hot and humid climate that prevailed in the region for most of the year. Another advantage was the speed with which it was built, not least because the dwelling usually consisted of a single room. On that day, for example, the construction of Joaquina’s house began early in the morning and by late afternoon it was practically finished.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3001">3</xref></sup></p>
			<p>Dating from 1827, the well-known work by the German painter Rugendas, entitled <italic>Habitation de Nègres</italic> (<xref ref-type="fig" rid="f01001">Figure 1</xref>), is an engraving produced as a result of the artist’s travels through various regions of Brazil, including the southern coast of Bahia. In the foreground, we see a group of enslaved people, apparently taking a break, in routine gestures: children playing and adults engaged in activities to provide for themselves or resting. This is a good imagistic translation of the meaning of “living for oneself,” in other words, exercising autonomy, albeit relative, by deciding what and how to do. It is relative for several reasons and one of them is represented in the engraving: the group of enslaved people lived on their own, but on manorial land, see the larger dwelling, drawn in the background, with a white woman monitoring the scene, confirming the contingency of the enslaved people’s experience of autonomy.</p>
			<p>
				<fig id="f01001">
					<label>Figure 1</label>
					<caption>
						<title>: Habitation de Nègres, Johann Moritz Rugendas (1827)</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="1982-4343-vh-41-e25027-gf01-en.jpg"/>
					<attrib>Source: Engelman, lithographer; second drawing by Rugendas (facsimile reproduction of the illustration in the French edition of 1835).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Rugendas’ attentive eye recorded the details of the structure in the engraving, similar to the descriptions of Joaquina’s building: mud walls and a roof made of the leaves of some kind of palm tree, perhaps the <italic>dendezeiro</italic>, so common in Bahia. <xref ref-type="fig" rid="f03001">Figure 3</xref>, a painting by the Austrian Joseph Selleny, who accompanied Archduke Ferdinand Maximilian on his travels through Brazil, is extremely rich in details of the dwellings and, above all, the lifestyles of freedmen, enslaved and poor free people on Itaparica Island. Robert <xref ref-type="bibr" rid="B24">Slenes (2011)</xref> has already explained the details and meanings of these buildings for the enslaved, and there is no need to repeat them here except to reaffirm the influence of Africans brought from parts of West Africa in spreading ideas, customs and techniques. In 1795, the French painter Nicolas Collibert produced a set of images with the aim of celebrating the newly established French republic and, at the same time, serving as anti-slavery propaganda. Among the images, the lithograph stands out, also called <italic>Habitation des Nègres</italic> (<xref ref-type="fig" rid="f02001">Figure 2</xref>), in which he idealized the daily life of some point in West Africa.</p>
			<p>
				<fig id="f03001">
					<label>Figure 3</label>
					<caption>
						<title>: Brasilianische familie am Strand von Itaparica, Josef Selleny (1863)</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="1982-4343-vh-41-e25027-gf03-en.jpg"/>
					<attrib>Source: Painting from the <italic>Flávia and Frank Abubakir collection.</italic> Photograph courtesy of the Flávia Abubakir Institute, <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://institutoflaviaabubakir.org/">https://institutoflaviaabubakir.org/</ext-link>.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f02001">
					<label>Figure 2</label>
					<caption>
						<title>: Habitation des Nègres, Collibert Nicolas (1795)</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="1982-4343-vh-41-e25027-gf02-en.jpg"/>
					<attrib>Source: <italic>Maps &amp; Atlases, Natural History &amp; Color Plate Books, p. 238.</italic> Available at: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.swanngalleries.com/3dcat/2481/238/">https://www.swanngalleries.com/3dcat/2481/238/</ext-link>. Accessed on: 18 Mar. 2024.</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>On a trip to Bahia in 1860, Archduke Ferdinand Maximilian noticed the details of the dwellings of the enslaved and freed people and wrote a rich description in his diary, which coincides with the drawings by Rugendas and Selleny:</p>
			<p><disp-quote>
				<p>When we crossed the mangrove swamp again, we saw one of those primitive black shacks. It was round. Tightly intertwined branches acted as walls. A cone-shaped roof made of palm leaves gave it the appearance of a large beehive, given its round shape. A single opening served as a door, window, and smokehouse [...]. The walls were made of dry branches and barely covered with clay and earth. The roof was made of dried palm leaves and the floor was dirt. As we approached, we chased away some thin chickens from the quiet cottage, which proved to us that it was inhabited (Habsburg, 1982, p. 152; p. 157).</p>
			</disp-quote></p>
			<p>The historiography of slavery has already recorded many other similarities in this type of construction in rural areas, using the same or similar materials to those narrated in the case of the African Joaquina or drawn by Rugendas, Selleny, and Collibert: on the island of Itaparica, in Bahia, freedmen and poor people in general used this type of construction to escape from rents (Castellucci Júnior, 2008, p. 115); on large estates in the coffee-growing Center-South, enslaved people in small groups or families lived in “huts” with similar structures (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Slenes, 2011</xref>); and in Martinique, in the 18th century, techniques similar to those described above were used to build homes for enslaved people on sugar estates (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Volpe, 2017</xref>). The result of the authorities’ recurrent attacks on the quilombos on the southern coast of Bahia, where their presence was endemic since the 17th century, recorded similar constructions and ways of life so that the vulgarization of these customs points to a previous, long-lasting and comprehensive influence.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4001">4</xref></sup></p>
			<p>Along with construction techniques, different ways of life based on the experiences of Africans from the Bantu and Yoruba macro-groups spread to the Americas through the slave trade, which was no different for the coastal strip south of the Recôncavo to the town of Ilhéus, combining Afro-diasporic ways of life. Both engravings, as well as Maximiliano’s description, in addition to the similarities in the structure and natural resources used in the construction of the dwellings, show the sociability that existed between the residents of those communities, especially in the collective work that was fundamental for the construction of the dwellings, but also for the planting of the gardens, raising animals around them, as well as for the tasks that each person carried out there. The different forms of work, the strategies that involved practices of solidarity, and the constitution of savings were re-signified, adapting to the conditions imposed by the experience of slavery and all that it had to offer, both physically and culturally.</p>
			<sec>
				<title>SLAVE FIELDS, PATHS OF FREEDOM</title>
				<p>At some point in 1872, someone took the initiative to gather a group of partners to build a new home for the African Joaquina. Paulo, the slave of Manoel Gonçalves de Santana; the freed Creole, Cipriano Francisco dos Santos; the Creole, Antônio, the slave of Donato Malta; Feliciana, a Creole slave shared by two masters, José Gomes de Castro and Dona Matildes; Manoel d’Alla, a slave of Joaquim Pinto de Oliveira; Gertrudes, also a slave of José Gomes de Castro; Joaquina’s daughter Cecília, under 16, and the Creole Manoel, both slaves of Joaquim Pinto de Oliveira.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn5001">5</xref></sup> The group, therefore, was made up of slaves from different masters and only one freedman. Most of these men and women, like Joaquina, also had their “own” homes in the same neighborhood, on land that belonged to their respective masters. These men and women formed a black community that shared similar material conditions of existence and whose closeness was certainly stimulated by the harshness of coping with daily life, the precariousness of life, and the dreams they shared, updating as Afrodiasporic a way of life already known and experienced by their ancestors in West Africa.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn6001">6</xref></sup> They worked together on this and many other tasks that required the division of labor in practices known as <italic>adjutórios</italic>. They shared the sweat and the joys of conquests through sociability, which was marked by singing, dancing, and drinking.</p>
				<p>It was during one of these moments of conviviality, when they were celebrating the completion of the construction of Joaquina’s dwelling, that, claiming to be under the influence of cachaça, the freedman Cipriano hit the slave Paulo, who was working in the adjutory on the head with a stick, knocking him to the ground, unconscious and “with his brains out.”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn7001">7</xref></sup> According to one of the witnesses, it all started because the freedman Cipriano offered Paulo two <italic>patacas</italic> for the day’s service of kneading clay, and Paulo was immediately questioned because of the low price. Cipriano, the only freedman in the group, was apparently a kind of “master builder,” a leader in the undertaking. However, the fact that Paulo considered the payment to be insufficient, coupled with the drinks they had already consumed, led to a disturbance, which resulted in Cipriano’s deadly aggression.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn8001">8</xref></sup></p>
				<p>Kneading clay for siding was not a light or easy job, but it was what was available at the time, and Paulo could not miss this opportunity to accumulate some savings. Although the practice of adjutancy presupposed that the work was unpaid, it was common for people with <italic>expertise</italic> in the area to be hired for some more specialized or heavy services, which may have been the case with Paulo. Enslaved people submitted themselves to the most diverse services that allowed them to earn some money, the accumulation of which could be used for various purposes, such as acquiring their freedom or that of a family member, buying food for their sustenance, or doing business. However, as Paulo’s payment supposedly did not go according to plan, the disagreement caused him serious injuries, which led to his death after agonizing for around three days.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn9001">9</xref></sup></p>
				<p>Enslaved people found ways to earn money through activities that went beyond what they did for their masters, whether they were legal or not. In places where the vast majority of masters had small farms with few enslaved people, as were the towns that stretched along the coast south of the Recôncavo to Ilhéus, likely, these “hidden” activities carried out by the enslaved were mostly known to the masters.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn10001">10</xref></sup> It was not uncommon for many masters, also living in a difficult economic situation, not only to allow but also to encourage their enslaved to find their means of support, from which they also hoped to gain advantages, either to get rid of the costs of maintaining the enslaved or to exploit the productions and savings of others.</p>
				<p>Even if the enslaved person saw the abuses on the part of the master, they had little choice, especially when their master was poor. There was nothing worse for an enslaved person than to have a master living in poverty because the material conditions which he had to be provided, such as food, housing and clothing, became much more limited. Furthermore, a master in poverty or drowning in debt could, in desperation for his own survival, put his main asset, the enslaved person, in risky situations in order to acquire more savings, sell them or mortgage them in order to pay off his debts, undoing the family and friendship ties that the enslaved person had built up so hard; as well as being more demanding and violent in relation to work. Even so, enslaved people took the risk of achieving any degree of autonomy. After all, this opened up the possibility of “owning” a dwelling or farm and expanding their areas of mobility, moving a wider region, establishing networks of contacts and accessing savings from various sources, experiencing aspects of freedom while still in slavery.</p>
				<p>Since the 16th century, the strip between the south of the Recôncavo and the former Captaincy of Ilhéus had been a major center for subsistence food production based on manioc flour, whose main destination was to supply the Recôncavo Açucareiro and Salvador (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Barickman, 2003</xref>). However, it was often diverted to other provinces or to equip ships going to Africa for the trafficking business (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Costa, 2021</xref>). This situation worried the government of Bahia due to the constant supply crises that hit the main towns of the Recôncavo and the city of Salvador, generating instability and a lot of confusion (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Graham, 2010</xref>). On the other hand, the manioc farmers, eager to free themselves from the control and centralization of sales prices imposed by the government through the Celeiro Público, found greedy merchants and middlemen to be the ideal way to make more advantageous deals.</p>
				<p>Part of the production of manioc and other foodstuffs, such as coffee, cocoa and rice, that left Camamú Bay, came from the production that slaves and quilombolas carried out under the most diverse conditions: in their free time, in the middle of the bush, on the master’s land and under his permission or, as described by Maximilian of Habsburg and Rugendas, on small strips of land around their homes. Although these plots were more common in impoverished areas, enslaved people from large estates also cultivated their own plots, at least occasionally, in the sugar districts of Bahia for their own consumption and for a marketable surplus. Both in Brazil and elsewhere in the Americas, the system of individual plots or plots cultivated by quilombola communities ended up accessing, even partially, the local markets, which gave these people a significant margin of autonomy (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Cardoso, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Mintz, 1974</xref>, p. 146-179).</p>
				<p>The “possession” of gardens by enslaved people in the Americas, as well as the constitution of a space to live in, had various meanings, including the relationship that was established with their own experiences or those of their ancestors prior to enslavement, perhaps still in African lands, where autonomy was fully exercised. In the context of slavery, this autonomy was partially employed in decisions about what and when to plant, to whom and for what price to sell - choices that had to be carefully considered and that no one but them could make. Therefore, in order to maintain control over that piece of land, which could be nothing more than a small plantation by the side of the road or a hidden field on manorial land, it was up to the enslaved to decide when and how to access the land to clear, prune and harvest, as well as to find ways to avoid theft or loss. All these measures were not imposed or delegated by a master, but actions taken autonomously by the subject. In this sense, the notion of autonomy was confused with the possibility of the enslaved person being in charge of themselves.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn11001">11</xref></sup></p>
				<p>The purchase of slaves’ freedom, as we know, was one of the purposes of the accumulated savings. Payment, however, was not always made in cash since the mechanisms for obtaining the savings varied and were very slow, making installments a solution for slaves who had difficulty accessing the means of obtaining the money.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn12001">12</xref></sup> Ignácia, a Creole, paid Francisco Ribeiro do Amaral 90$500 for her letter of freedom. Before that, however, she had already paid 40$500 to her mistress Arcângela Maria, Francisco’s wife, as recorded in the deceased woman’s inventory. We do not know the means Ignácia used to obtain this money, but the fact that the payment was made in installments and took place in a relatively short space of time points to a secure way of building up this savings account, even if the earnings were small. Thus, when Francisco inherited the captive, part of the road to freedom was already under construction. <sup><xref ref-type="fn" rid="fn13001">13</xref></sup></p>
				<p>In 1844, the Creole Francisca paid 150$000 for her freedom, but she was still freed by her mistress, Vicência da Conceição, on the condition that the captive would accompany her until her death, which did not take long. In 1846, when Vicência’s will was opened, there was a record of a few possessions, such as “the house of Taipa, covered with tiles, already old, with the insignificant junk that is inside it and the coffee plantation that is around it,”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn14001">14</xref></sup> which shows the poverty of this woman. In order for the division of her few possessions to take place without any major conflicts, the deceased had warned that, in addition to those plantations around the house, “the said slave also has several coffee trees near my concession, <bold>which are hers</bold> [emphasis added], and that is why I do not donate them.”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn15001">15</xref></sup> The fact that a master documentally recognizes the ownership of any property of a person enslaved by him is not common, especially when that master, as in Vicência’s case, was in poverty. However, motivations such as solidarity between two women who perhaps, with the exception of their legal <italic>status</italic>, had a lot in common, may have prompted Vicência to recognize the captive’s small plot of land. On the other hand, Francisca, who, with the death of her mistress, became effectively free, probably had in her coffee plantation, where she may have worked alongside her mistress, the source of part of the money she paid for her freedom. The ownership of these plantations, therefore, was an investment that the enslaved made with a very clear motivation: the conquest of freedom (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Reis, 1996</xref>, p. 364).</p>
				<p>Creole Luís, on the other hand, narrowly missed out on his freedom. Since at least 1845, Luís had been in the process of being freed after paying 250$000, in several installments, to his master, Fortunato Ribeiro de Couto, which corresponded to a part (a band) of his freedom, which totaled 500$000. It seems that from that moment on, the master gave Luís the chance to live a more independent life, certainly in order to increase his savings, so much so that the Creole was practically living as if he were freed, using the name Luís Ribeiro. In February 1848, Fortunato became very ill. Knowing this, Luís went to visit him when the master allegedly told him that it was his wish “to free a band.” However, before the notary arrived to make the registration, Fortunato had died.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn16001">16</xref></sup></p>
				<p>The man’s sudden death became a source of anguish for Luís, as he had no record of the payments he had already made and was justifiably worried about his fate. However, when the will was opened and the <italic>post-mortem</italic> inventory surveyed, it was found that Fortunato had not only left a record of the payments made but also recognized Luís’ ownership of a piece of land on his property, where the captive planted manioc, which was valued at 172$357. In order to obtain the letter of release, Luís handed over the land and the produce to Fortunato’s heirs and, at the same time, paid another 77$643, totaling the remaining 250$00 he owed. He was left without the land, but he achieved his dream of freedom.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn17001">17</xref></sup></p>
				<p>Data collected from 75 manumissions in the towns around Camamú Bay in the first half of the 19th century shows that women were able to be manumitted in greater numbers than men: 59% of the total, 80% of whom were Creole.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn18001">18</xref></sup> When we consider only paid freedoms, the percentage in their favor reached the same proportion. The prevalence of these manumissions exceeded that of men of any ethnic profile and in any condition in which the manumission process took place: conditional or unconditional. This is explained, among other things, by the fact that the female and Creole population was the majority in those lands, but also by the greater prevalence of women in autonomous activities, whether permitted or hidden from their masters. Some services, such as washing clothes in the fountains or streams, going to sales to buy groceries, harvesting vegetables or roots, collecting firewood in the forests or shellfish in the mangroves, could open gaps for women to gain more time for themselves, constituting small but relevant acts of resistance.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn19001">19</xref></sup></p>
				<p>In the case of enslaved Africans, the main method of obtaining freedom that we were able to verify in the documentation was also through payment, as happened with Rita, a Jeje, who in 1826 was valued at 190$000. However, she was quick to offer the full amount for her freedom, which must have aroused the greed of Domingos de Almeida Carmo, who, realizing how “easy” it was for the captive to obtain money, increased the value of her freedom to 200$000. Without the rest of the money to pay off the debt in full, she was forced to wait another two years to finally have access to the letter of freedom. This fact reaffirms that, although they managed to accumulate considerable amounts of money, the conquest of these values was very slow, and any change in price could postpone their freedom indefinitely.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn20001">20</xref></sup> A similar situation occurred with the African woman Kutonia, identified as Haussá, who was freed in 1843 by paying 230$000. This amount, however, was paid in a single lump sum, although prior to this offer, she had proposed to the master the payment of 200$000 and 215$000, which were successively denied.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn21001">21</xref></sup> In these cases, the masters’ perception of the “possessions” of the enslaved and how these economic conditions could be exploited is notorious, especially in decisive situations such as manumission, when the enslaved became more vulnerable to the masters’ greed by revealing the amounts they owned.</p>
				<p>One detail worth noting is that, of the freedoms surveyed, only 6% of African women negotiated in installments, as opposed to 48% of the respective freedoms negotiated by Creole women. The racial issue may explain this: the mistrust with which part of the free population treated Africans, who were generally considered to be more prone to rebellion and crime, including running away, may have prevented this group from obtaining payment in installments, due to their masters’ fear that they would run away without paying the rest of the agreement, so that “African slaves kept their masters in a constant state of insecurity” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Reis, 2003</xref>, p. 68-69). Another possibility is that, without further justification other than pure prejudice, they chose not to allow African women to negotiate their freedom because they considered this act to be a benefit or concession that was undeserved for this group.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>PARTNERS IN CAPTIVITY, SUPPORT FOR FREEDOM</title>
				<p>It was night, around twenty-two o’clock on July 9, 1858, and the town of Camamú was asleep. The silence was broken by the Portuguese Manoel José Ribeiro Guimarães, known as Manoel Barato, shouting to his son, Cândido José Ribeiro, that a thief had broken into his house. At the same moment, Barato’s other son, Manoel Ribeiro Filho, accompanied by a Portuguese man named Antônio, who lived in the store of the same house, rushed to his aid and, surrounding him in the backyard, captured the intruder named Marcelino, who was trying to escape. Marcelino lived in that village as an enslaved person, shared by two ladies, Antônia Teixeira de Aguiar and Paula Vieira do Espírito Santo, probably widows, with possessions that were barely enough to survive on.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn22001">22</xref></sup></p>
				<p>Taken away by the police, who soon arrived because of the noise, Marcelino was brought before the police chief, who questioned him. About what had happened, Marcelino gave the following explanation:</p>
				<p><disp-quote>
					<p>He had not gone in there to kill or steal but for the slave Sofia from that master’s domain. As it was the first time he had entered the house, not knowing where the slave Sofia was, he saw her snoring and assuming it was her or someone who could guide him to where she was, he, unfortunately, went to where the master of the house was and touched his arm. The owner of the house asked him who he was and, not recognizing the voice, he replied: “It’s me.” At this, the owner of the house said, “Go away!” [...] and then he shouted that he was a thief.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn23001">23</xref></sup></p>
				</disp-quote></p>
				<p>Marcelino also said that he tried to escape through a place that looked like the street door, but when he turned the key he could not open it, which forced him to look for the place where he had entered — a trap door — where he ended up being arrested.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn24001">24</xref></sup></p>
				<p>Marcelino’s testimony seemed to be convincing in terms of his intentions. He explained that everything had been planned with Sofia, his beloved, enslaved by Manoel Barato, who had instructed him to “enter through the trapdoor and follow a plank that is there and that serves as a ladder.”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn25001">25</xref></sup></p>
				<p>Apparently, it was a case of a passionate and unlucky guy who broke into a house in the dead of night for a romantic relationship and ended up being discovered by the owner of the house and the master of his beloved. This must also have been Marcelino’s intention when he gave his testimony: to convince the authorities that the misdeed was just a love affair.</p>
				<p>His well-crafted speech could have convinced the judge if the enslaved man had not made a crucial mistake in his testimony: to justify his supposed romance with Sofia, Marcelino said that he knew a boy called Balduíno and had written him some letters.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn26001">26</xref></sup> It turns out that “word of mouth” in the village of Camamú was already spreading that the same Manoel Barato had received a fake letter months before, in the name of an acquaintance of his called José Pirajá, which was delivered to him during the night by a black man who was not recognized. The letter asked Barato to send the bearer a sum of three or four hundred thousand réis, which José Pirajá supposedly needed to settle debts with some farmers. Suspicious of the content of the letter and the bearer, Manoel Barato did not make the loan, but the case made the local news, and now, with the arrest of Marcelino, it has been revived by the police.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn27001">27</xref></sup></p>
				<p>Called in as an informant, the boy Balduíno Francisco Alves, just twelve years old, not only confirmed that he wrote letters at Marcelino’s request but also reported that at another time, he had written a letter, dictated by the slave, on behalf of one of his mistresses and addressed to Friar Manoel de Santo Elias, who lived in Salvador. The letter asked the friar to send Marcelino six hundred thousand réis in farms. He also said that Marcellin had once asked him to write a letter at the house of a woman called Maria Mittoa, but as he had been late, when he got there, he saw Marcellin dictating the letter to someone else named Plínio, a neighbor of his.</p>
				<p>Regarding the letter that Manoel Barato received, Balduíno said, “it was he who had written it at the request of the free Creole Guardiano, son of the Creole Chiquinha.”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn28001">28</xref></sup> This new character in the plot was called Guardiano Veloso; he was 20 years old and the son of the freedwoman Francisca Teixeira de Aguiar. In his testimony, Guardiano said that he worked in manioc plantations and “any other job, like taking firewood from the mangrove swamp,” pointing to a life of uncertainty and few job opportunities, a situation that marked the lives of most freedmen, especially in rural areas.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn29001">29</xref></sup> Guardiano lived in the town called Caibá but often went to the village of Camamú and used to sleep at the house of Laurentino José da Silva, who was Balduíno’s godfather, where they must have met.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn30001">30</xref></sup></p>
				<p>During the second interrogation, Marcelino revealed that he traded with farms, “with some of his own money,” and that he also used money from Manoel Barato and his mistress, which he obtained through fake letters.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn31001">31</xref></sup> The investigation into the invasion of a residence ended up revealing an intricate network of partnerships that developed illicit businesses based on scams using false correspondence, in which free, freed and enslaved people participated.</p>
				<p>In this story, Laurentino da Silva was the leader of a group of scammers who forged letters to borrow money to run their small businesses. In order to expand the scope of his scams, Laurentino recruited slaves, freedmen, and children, in other words, highly vulnerable people who lived on the edge of poverty in a region where there were few opportunities to earn a living, making them extremely susceptible to participating in illicit activities where they could make a profit. This does not mean, however, that these people’s adherence to Laurentino’s projects was naive. When historiography incorporated the concept of agency, as opposed to passivity, it was to show that enslaved and subalternized people in general, had wills and acted in accordance with them, and were not mere pieces that moved thoughtlessly or were moved by others, without their own will (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Machado, 1988</xref>). The participation of enslaved and freed people in the group of coup plotters led by Laurentino, therefore, must have been a choice, perhaps compelled by the adversities that crossed their lives, which, in fact, touches all human lives.</p>
				<p>Although Guardiano, Laurentino and Plínio were named in the case, only Marcelino was brought to trial. Laurentino and Plínio were not even questioned. More than a punishment for breaking into the house or for the profits made from producing fake letters, Marcelino’s sentence — eight years in the galleys, converted into four hundred lashes and iron around the neck for three years — seems to have had a pedagogical function, especially in a place where the enslaved community was claiming and conquering spaces of autonomy.</p>
				<p>Before going any further, it is important to understand the meaning that was in use for “partner” and “companion” in the 19th century. In Luís Maria da Silva Pinto’s Dictionary of the Portuguese Language (1832), the word “partner” means “one who shares with another in something, companion.” This definition corresponds to what was seen in the practice in the relationships formed between the various subjects from different legal and socio-economic backgrounds: alliances made on a precarious basis, in other words, temporary and without major affective ties, intending to meet specific demands from which both could take some kind of advantage, as was the case with Marcelino’s involvement with Laurentino and his partners, and also applies to the group that came together to build the African Joaquina’s dwelling. Although the definition of “partner” is seen by some historians (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Mattos, 2013</xref>, p. 135) as an identity constructed from the outside in, in other words, from the authorities’ narratives about the enslaved people dealt with in the documentation, it seems reasonable to consider that this definition was not limited to the world of free people and that, even though it is part of the “voice” of the document’s writers, it is an interpretation that is based on the concrete relationships established by the subjects.</p>
				<p>In different situations, these partnerships arose from a tangible demand for material survival conditions that could affect everyone, albeit in different ways. Momentarily, they put aside possible differences in legal <italic>status</italic>, origin, color or possessions in order to implement the task that fell to them and from which they would derive some kind of advantage, which was not always financial. Building a home or running scams depended on autonomy over their time and specific skills, factors that encouraged the formation of partnerships. Thus, partnerships are consequences of the exercise of autonomy in the daily lives of people who mostly lived in very similar material conditions. I’m talking about free, freed and enslaved people, most of whom lived on the edge of poverty in areas with a basic food economy, made up of small and medium-sized farmers, masters of a few slaves. This profile predominated throughout most of the coastal towns, from the island of Itaparica to the south of Bahia, in the first half of the 19th century. Farmers, masters and enslaved people often shared very similar living conditions, including housing. The establishment of partnerships in everyday life, unlike cronyism, did not require the mediation or regulation of the powers that be, but only the choices made by those involved based on their autonomy, most often based on proximity.</p>
				<p>The second definition, “companion,” however, adds other values and feelings, more linked to choices made out of affection and whose ties can be long-lasting, extending, above all, into the daily lives of these people. Compadrio can be considered a form of companionship that has been widespread in Brazil since the colonial period. By establishing a sponsorship, compadres and godchildren take part in each other’s lives. Among the enslaved, for example, cronyism has always been the subject of well-considered choices. Both on the part of the master, when sponsorship was imposed, and on the part of the enslaved, when they could choose those who were best placed to provide their godchild with material and emotional protection. The same Dicionário de Luís <xref ref-type="bibr" rid="B17">Pinto (1832)</xref> presents one of the meanings of “compadre” as the act of “being in good friendship,” referring to the same meaning as “companion.”</p>
				<p>Bluteau (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Silva, 1789</xref>) defined a companion as “the one who accompanies someone on a journey, a walk, a house, in war; the trade of commerce; in success, or fortune, the one who also participates in it with others. [...] companion in thefts, crime.” Being a companion, therefore, acquired a meaning that encompassed various aspects of life, involving both licit and illicit acts, the purpose of which ranged from sharing the tasks of building a dwelling, or making manioc flour to the association of committing thefts and robberies, as we will see below.</p>
				<p>At around noon on a Tuesday, November 28, 1850, the Creole forro Manoel José do Espírito Santo suddenly interrupted the task of building a pit to make charcoal in the locality where he lived, called Monte Alegre, which also had the suggestive nickname of Campo dos Forros, located in the parish of Santíssimo Sacramento, on Itaparica Island, on the bangs of the city of Salvador. The reason was the arrival of an acquaintance, who said that the house where the Creole lived had been broken into. At the same time, Manoel’s son had already heard the news, and as he was closest to his father’s house, he immediately ran to check on what had happened. When he arrived at the scene, he came across a “black man who was robbing the house, but for lack of courage”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn32001">32</xref></sup> and went to call a neighbor to help him. When he returned with help, no one was there. Nevertheless, together with the neighbor, he followed the alleged criminals to Fazenda Grande, “where he found the blacks with part of the theft, which consisted of all their clothes and a chest that had already been broken into in the bush.”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn33001">33</xref></sup></p>
				<p>The two people accused of the theft, both identified as Nagô, were Gaspar, who worked in the fields and as a boat master, and Aníbal, who worked in the fields. The two were enslaved by Captain José da Costa Júnior, a well-known trafficker in 19th century Bahia, and lived in Fazenda Grande, the same town as Campo dos Forros, where they had extensive relations with the whole neighborhood, which was involved in the search to find the stolen belongings. In his testimony, the freed Creole and carpenter, Cipriano de Araújo, who also worked in the fields and was a neighbor of accused, said that the theft “had been carried out by the slaves Aníbal and Gaspar [...] whom he has known for a long time,”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn34001">34</xref></sup> and added that the slaves went to Fazenda Grande, where they lived, after the theft. When he heard about the situation, Severino Francisco de Sant’Anna, a freed goat who was also the victim’s neighbor, went to Manoel José’s house and said that he “found the back door broken down with no object inside.”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn35001">35</xref></sup></p>
				<p>As far as we can tell, Campo dos Forros was a community made up mostly of freedmen who worked as manioc farmers for themselves or on other properties. Some of them kept other enslaved people, even if they shared them with other neighbors, like Severino Francisco de Sant’Anna, who shared an enslaved person with Estevão Pereira Soares, both freedmen and identified as goats. Many of these freedmen traded their produce with farmers in the region and temporarily used the services of other enslaved people who lived there in search of savings. There were also a small number of farmers who were considered white, such as Aníbal and Gaspar’s master, but who did not live in Campo dos Forros, even though they had their crops there.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn36001">36</xref></sup></p>
				<p>One does not have to try very hard to imagine that the enslaved people who still lived in the region looked to the example of those who, once freed, had “recognized” access to land and also used other slaves for various services. If freedom was still a long way off, they resorted to survival strategies that would shorten this path, as seems to have been Gaspar and Aníbal’s intention with the theft.</p>
				<p>While the neighbors were tracking down the accused, the victim, Manoel José, who had also gone out to look for his possessions, went to the slave quarters of Fazenda Grande and found a small box that had disappeared from his house. However, it was empty. Another neighbor, who was also part of the search party, Estevão Pereira Soares, a goat, went to the back of the slave quarters, where he found the bundle of clothes that belonged to the complainant.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn37001">37</xref></sup></p>
				<p>Finding the clothes and the box where the victim kept his money provided strong evidence to confirm the perpetrator, but the most important thing was missing: the contents of the box. The neighbors began pressuring Gaspar and Aníbal to give an account of the money the victim claimed to have, which had accumulated over time and was in the small wooden chest. The amount, according to the complainant, “exceeded three hundred thousand réis,”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn38001">38</xref></sup> quite a significant sum, given that almost 50% of the population in the region had their assets valued at up to one tale of réis. In that place, three hundred thousand réis was enough to buy a slave, according to the average price noted in inventories from that year.</p>
				<p>When questioned about the money, Aníbal first denied any involvement in what had happened, but, under pressure, ended up confessing possession, saying, however, that he would not hand over anything without Gaspar’s permission, and added that: “he would not say it or hand it over because he would suffer as much by handing it over as not.”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn39001">39</xref></sup> The slave’s dramatic response shows, on the one hand, his awareness of the act he had committed and its possible consequences. In addition to the crime itself, one must consider the fact that they were Africans, which put them in a very unfavorable situation. Regardless of their time in Brazil, they were frowned upon, even by the community around them (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Brito, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Souza, 2009</xref>, p. 156). In fact, as we can see from the testimonies, the community of freedmen was all on the side of the victim, who was also a freedman. On the other side, the two enslaved Africans were isolated, which reinforces the existence of “ethnic” tensions, even in smaller communities other than plantations. In these communities, although there was greater proximity in people’s economic conditions, there were varied legal and “ethnic” conditions, which aggravated divisions of labor, as we saw earlier in Joaquina’s case, and intensified disputes, which were not just for survival, but for social repositioning.</p>
				<p>The attitude of the African Aníbal also reflects his fear of the effects of a possible break with his partner in captivity, someone who, like him, was a “foreigner” and carried common sufferings and dreams, perhaps being one of his few references and possibilities for support in that life. In adverse conditions and imminent risk, enslaved people could assume, if not solidarity, their own ethics of behavior and obedience, perhaps the result of years of living in captivity. Hannibal showed no hope of better treatment from his accusers, even if he handed over the money. Deep down, he realized that his condition as an enslaved African limited his scope for action and negotiation.</p>
				<p>While they were trying to get them to hand over the stolen goods, the victim spoke up and said that he “did not care about the <italic>mulambos</italic> and only about the pussy that had money in it and that was kept inside the said box.”<sup><xref ref-type="fn" rid="fn40001">40</xref></sup> The speeches provide many clues about the material living conditions of the freed Creole Manoel José and the slaves Gaspar and Aníbal. Almost all of the witnesses’ statements pointed to a situation of great poverty. When he entered the complainant’s house to check on the theft, his neighbor Severino said that it was empty and his belongings consisted of the bundle of clothes that the slaves and the missing money had taken.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn41001">41</xref></sup> The victim himself confirmed the precariousness of his life when he characterized the stolen clothes as <italic>mulambos</italic>, showing little concern for the rags he dressed in; what really mattered was that money accumulated with sacrifice and poorly stored in his home - perhaps similar to Joaquina’s or the one in Rugendas’ engraving - completely vulnerable to the action of greedy or, even more so, destitute people, willing to commit crimes.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn42001">42</xref></sup></p>
				<p>Although achieving freedom was a desire and represented a significant advantage, it was not synonymous with an immediate improvement in the living conditions of the newly freed. With it, a new stage of confrontations and toil began. This is evident when we see that Manoel José and his neighbors, even though they were freed, lived in harsh survival conditions, like so many other freedmen we have dealt with throughout this article.</p>
				<p>Returning to the case, we still have things to unravel: Manoel José and his neighbors were trying to get the stolen money back right there, but as the situation of the return was not resolved, Aníbal and Gaspar were taken to the city to be handed over to the delegate, when, on the way, they met Ana Joaquina, Manoel José’s wife. Seeing the two slaves tied up by their hands, the woman began to demand payment from Aníbal for a chicken he owed. At the same moment, the accused asked for two <italic>patacas</italic> and four <italic>vinténs</italic> to be taken from his pocket to make the payment. When they took the money out, Ana Joaquina saw a silver coin which, according to her, belonged to him. The situation seemed complicated for Aníbal and Gaspar and they were taken to prison and sentenced by the local judge. When everything seemed to be resolved, Captain João da Costa Júnior, the master of the two Africans, filed a petition asking for them to be released, due to lack of evidence. He also claimed that the imprisonment of his slaves had caused him to lose days of service, and began to demand payment from the plaintiff, Manoel José, for the days the two had been idle. In a very swift decision and unaware of the evidence against Aníbal and Gaspar, about thirty days after the arrest, the judge dismissed the defendants, citing inconsistent evidence, returning them to the possession of their master. He then ordered the poor plaintiff to pay the costs of the case, but he claimed he was unable to do so due to his state of poverty.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn43001">43</xref></sup></p>
				<p>The judge’s quick and strange decision may have an explanation: João da Costa Júnior, as already mentioned, was a well-known slave trader in Bahia and had influence in various parts of Bahian society, which made him a member of the powerful brotherhood of the Santa Casa de Misericórdia in Salvador. As well as operating in the Atlantic slave trade, Costa Júnior had numerous other businesses of varying sizes, selling products in different regions of Brazil (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Tavares, 1983</xref>). His network of influences, therefore, may have pressured the judge directly or even made him feel cornered, leading him to take the decision that benefited the master and his enslaved people. The profile of the position of justice of the peace, the political conditions in force since the Feijó Law, and the distance from central power are factors that contributed to judges becoming involved in slave smuggling, protecting traffickers or themselves, and ended up guaranteeing the functioning of this lucrative mechanism from which some certainly hoped to profit (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Costa, 2019</xref>).</p>
				<p>With regard to the enslaved, although historiography shows cases of captives who acquired better living conditions or even became rich, this was not the rule in Brazilian slavery (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Faria, 2006</xref>). For the most part, they lived a life with many limitations, even after being freed. Being enslaved by a people trafficker, as Aníbal and Gaspar were, did not make the situation any more favorable. On the contrary, perhaps due to absenteeism or negligence on the part of the master, it was up to them to earn money to supplement their livelihood, so much so that they had to compete daily for survival with free people, freedmen and other enslaved people. It was for this reason that they owed money for a chicken, which they had probably bought for their own sustenance.<sup><xref ref-type="fn" rid="fn44001">44</xref></sup> In the same way, the bundle of old clothes they scavenged, almost useless, reveals the miserable conditions to which they were subjected in that captivity. In poor regions, seeking one’s own sustenance required desperate actions. Thus, when they could not get freedom or earn any income, alternative paths to freedom, such as crime, were not overlooked (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Machado, 2014</xref>).</p>
				<p>More than a crime, this process sheds light on the delicate situation of social groups on the brink of poverty and how they dealt with urgent issues to ensure their survival, seeking access to basic items such as food, clothing, and housing. This led them to make drastic decisions that could jeopardize the rest of their lives, but from which it was almost impossible to escape.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>FINAL CONSIDERATIONS</title>
				<p>Regions considered economically peripheral by historiography, i.e. those that were not established as part of the large-scale agricultural complex and were at the back of subsistence food production, had very different characteristics in terms of slave ownership and the form of manorial control. These regions were mostly made up of small farmers with a few slaves who often worked side by side with their masters on the small plantations, generating social and working relationships that were different from those of the large plantations, especially with regard to the master’s control over his enslaved.</p>
				<p>Predominantly, the rural areas of the province of Bahia in the first half of the 19th century were occupied by small and medium-sized properties, with diversified farming or cattle breeding. Even in the towns of the Recôncavo, where sugar plantations had been established in the colonial period, large plantations were no longer the dominant feature. When it came to the coastal towns, from the south of the Recôncavo to the town of Ilhéus, manioc plantations prevailed, the basis of the Bahians’ diet, but also essential for the slave trade with regions in Africa, such as Angola, and even for feeding the troops in Lisbon. In addition to flour, there were other agricultural varieties, from vegetables to coffee. All of this was produced, for the most part, on small farms with few enslaved people, and the poorest had none, or had to rent or share a captive with other masters.</p>
				<p>Slaves and freedmen, Africans or born in Brazil, formed a community on the coast that shared similar conditions of survival, marked by the contingency’s life, which was a determining factor in the establishment of partnerships, whether momentary or more lasting. These partnerships were formed because of the need to meet immediate demands for survival or because of the feeling of companionship, which had to do with the formation of affective relationships, but without neglecting the pragmatism of maintaining one’s own life.</p>
				<p>Networks of partnership and companionship are part of the roadmap for establishing autonomy as a customary right among enslaved and freed people. This way of conducting their lives was not just the result of their experiences in captivity, nor is it limited to Brazil, but rather an indication that there was an Afro-diasporic community there, which is not defined by physical borders, but by sharing similar conditions of survival and a common sense of belonging, which is not always so obvious. This community used the knowledge and skills accumulated from life in Africa, before slavery, by themselves or their ancestors, and those built up in relationships with indigenous people, their masters and other free people, resulting in the techniques used to build the dwellings up to the various forms of collective articulation, including those for obtaining savings.</p>
				<p>The demand for spaces of autonomy evoked life in freedom, so it was an act of resistance around the memory of who they were, their African origins, and the effort to rebuild their lives with some dignity. In a community with Africans from different parts of West and Central West Africa, plus people of all kinds born in Brazil, the mixture of customs was inevitable. Thus, as we know, for many African communities, of both Yoruba and Bantu origin, the possession of land and housing was a fundamental part of defining who they were and the possibility of exercising self-government. Thus, autonomy was not limited to access to land, gardens or a dwelling, without disregarding the role that access to material goods played for the enslaved and freed. However, it was a form of African reminiscence, a way of reading the world around them and, as subjects with full self-possession, making their choices, which were not always correct, reaffirming their agency.</p>
			</sec>
		</body>
		<back>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn1001">
					<label>1</label>
					<p> Santarém originated as an indigenous village founded by Jesuits on the banks of the Serinhaém River, with a chapel dedicated to Saint André. It was elevated to a town by the Law of the Directory of Indians of Maranhão in 1758.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn2001">
					<label>2</label>
					<p> ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA (APEB), Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn3001">
					<label>3</label>
					<p> APEB, Salvador. Judicial Section, Criminal Procedure, Santarém: shelf 6, box 223, doc. 1.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn4001">
					<label>4</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Colonial e Provincial, Governo Geral, Ouvidoria geral do crime, maço 572-2. Transcript of the inventory and sequestration of goods found in Oitizeiro (Barra do Rio de Contas - Comarca de Ilhéus), 1806.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn5001">
					<label>5</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn6001">
					<label>6</label>
					<p> Black community does not refer to the group of people who lived relatively close to each other, but to those who shared similar conditions of survival, while at the same time experiencing mutual solidarity.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn7001">
					<label>7</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn8001">
					<label>8</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn9001">
					<label>9</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo Crime, Santarém: estante 6, cx. 223, doc. 1.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn10001">
					<label>10</label>
					<p> Analyzing 91 <italic>post-mortem</italic> inventories relating to the towns of Valença, Camamú and Maraú, between 1800 and 1850, which corresponds to more than 90% of the documents available for research in the Bahia Public Archives for the period, it was possible to see that fortunes of up to one conto de réis reached a staggering 48.7% of the inventories. Compared to the towns of the Recôncavo Sul, this same group of fortunes amounted to 28% of the total and in Salvador it corresponded to less than 14%. The inventories that reached the maximum value of five hundred thousand réis, the smallest of all the groups, corresponding to people seriously affected by poverty, represented 25% of the total. The average number of slaves owned in the region studied was 4.8 slaves per master, but among these poorer groups, this number fell to 1.5 slaves for each inventoried.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn11001">
					<label>11</label>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B9">Engemann (2005</xref>, p. 338) used the definition of “managed freedom” to refer to the various ways in which enslaved people exercised their autonomy. Although we recognize that this is limited autonomy, the historian’s definition does not seem to be the most appropriate, since it claims a place of control over decisions for the master, which was not so common, especially on small estates with few slaves and poor masters.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn12001">
					<label>12</label>
					<p> There is an extensive body of historiographical work on the practice of parceling out freedoms, also known as <italic>coartação</italic>, which helps us to understand how this form of access to freedom was strongly connected to the exercise of autonomy. According to Fernanda Pinheiro (2028), individuals who had their submissive relationships broken from the beginning of their <italic>coartações</italic> were able to access greater levels of autonomy.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn13001">
					<label>13</label>
					<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 6, Camamú, 01/10/1828 a 06/04/1835, do tabelião Manoel Rodrigues de Souza.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn14001">
					<label>14</label>
					<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 6, Camamú, 01/10/1828 a 06/04/1835, do tabelião Manoel Rodrigues de Souza.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn15001">
					<label>15</label>
					<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 6, Camamú, 01/10/1828 a 06/04/1835, do tabelião Manoel Rodrigues de Souza.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn16001">
					<label>16</label>
					<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 12, Camamú, 10/01/1846 a 24/10/1850, do tabelião Vitoriano Gomes da Costa.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn17001">
					<label>17</label>
					<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 12, Camamú, 10/01/1846 a 24/10/1850, do tabelião Vitoriano Gomes da Costa.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn18001">
					<label>18</label>
					<p> The following towns were analyzed: Maraú, Camamú, Barra do Rio de Contas and Boipeba.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn19001">
					<label>19</label>
					<p> Although historiography has already consolidated the prevalence of enslaved women succeeding in the process of being freed, compared to men, historian Raiza Canuta da <xref ref-type="bibr" rid="B13">Hora (2022</xref>, p.109) argues that it is still necessary to shed light on the productive and reproductive dimension of the work of enslaved women, especially the accumulation of working hours to which women have always been subjected, with the overweight of activities imposed by the culture of care, which has secularly imposed on women reproductive and maternal tasks with babies, children, the sick and the elderly, as well as with cleaning the environment, preparing food and managing homes.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn20001">
					<label>20</label>
					<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 4, Camamú, 18/07/1816 a 01/06/1831, do tabelião Domingos Luiz de Menezes.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn21001">
					<label>21</label>
					<p> APEB, Salvador. Livro de Notas nº 1, Camamú, 07/05/1843 a 09/11/1846, do tabelião Manoel Rodrigues de Souza.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn22001">
					<label>22</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn23001">
					<label>23</label>
					<p> APEB, Salvador. Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn24001">
					<label>24</label>
					<p> APEB, Salvador. Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn25001">
					<label>25</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn26001">
					<label>26</label>
					<p> The document, in addition to being poorly written, has lapses in the order of the testimonies and missing pages, so it is not very clear when the slave Marcelino gives this information to the judge. APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn27001">
					<label>27</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn28001">
					<label>28</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn29001">
					<label>29</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn30001">
					<label>30</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn31001">
					<label>31</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime: estante 6, cx. 241, doc. 2.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn32001">
					<label>32</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn33001">
					<label>33</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn34001">
					<label>34</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn35001">
					<label>35</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn36001">
					<label>36</label>
					<p> In the documentation, the slave Aníbal’s name is spelled as Haníbal. However, for the sake of a better reading, I updated the spelling.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn37001">
					<label>37</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn38001">
					<label>38</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn id="fn39001">
					<label>39</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn40001">
					<label>40</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn41001">
					<label>41</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn42001">
					<label>42</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn43001">
					<label>43</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn44001">
					<label>44</label>
					<p> APEB, Salvador. Seção Judiciária, Processo crime, Itaparica: estante 22, cx. 778, doc. 7.</p>
				</fn>
			</fn-group>
		</back>
	</sub-article>-->
</article>