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				<journal-title>Revista Psicologia e Saúde</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Universidade Católica Dom Bosco,
					Programa de Mestrado e Doutorado em Psicologia</abbrev-journal-title>
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				<publisher-name>Universidade Católica Dom Bosco, Programa de Mestrado e Doutorado em
					Psicologia</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.20435/pssa.v0i0.611</article-id>
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					<subject>ARTIGOS</subject>
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				<article-title>Aspectos punitivos do tratamento nas comunidades terapêuticas: o uso
					de drogas como dano social</article-title>
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					<trans-title>Punitive aspects of treatment in therapeutic communities: the use
						of drugs as social damage</trans-title>
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					<trans-title>Aspectos punitivos del tratamiento en las comunidades terapéuticas:
						el uso de drogas como daño social</trans-title>
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						<surname>Guareschi</surname>
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				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Rio Grande do
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			<author-notes>
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					<label>a</label><bold>Endereço de Contato:</bold> Luciana Barcellos Fossi, Rua
					Pistoia 820/70, Canoas, RS. CEP 92200-290, Fone: (51) 99828-4040. E-mail:
						<email>lubfossi@hotmail.com</email></corresp>
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					<label>*</label>
					<p>Psicóloga, Mestre em Psicologia Social e Institucional pela Universidade
						Federal do Rio Grande do Sul. Docente do Curso de Psicologia da Univates.
						E-mail: lubfossi@hotmail.com</p>
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					<label>**</label>
					<p>Psicóloga, Doutora em Educação pela Universidade de Wisconsin - Madison.
						Mestre em Psicologia Social e da Personalidade pela Pontifícia Universidade
						Católica do Rio Grande do Sul. Professora Adjunta da Universidade Federal do
						Rio Grande do Sul. E-mail: nmguares@gmail.com</p>
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				<season>Jan-Apr</season>
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			<issue>1</issue>
			<fpage>73</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
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			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Este artigo tem como objetivo discutir o caráter punitivo no tratamento para
					usuários de drogas em Comunidades Terapêuticas na região Sul do Brasil. Para
					isso analisamos os projetos terapêuticos dessas instituições que abordam a
					especificidade do tratamento de usuários de álcool e outras drogas pela vivência
					prescrita pelos doze passos. Tomando as concepções foucaultianas sobre poder
					psiquiátrico, disciplina e punição problematizamos o modo como essas
					instituições fundamentam e estruturam o modelo terapêutico sustentando-se numa
					lógica proibicionista a partir da moral do trabalho, da família e da religião.
					Apontamos, assim, as práticas punitivas no tratamento para usuários de drogas
					como uma biopolítica que compõem a política nacional no que tange aos cuidados
					de saúde no contexto das Comunidades Terapêuticas.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article has as goal argue the punitive treatment for drugs users in
					therapeutic community licensed under the Single Health System in Brazil's
					Southern region. For that analyzed the therapeutic projects of these
					institutions that treat the specificity of the treatment of young users of
					alcohol and other drugs by the experience prescribed by the twelve steps. Taking
					the conceptions Foucauldian of psychiatric power, discipline and punishment we
					problematize the way how these institutions justify and structure the
					therapeutic model of supporting itself in a prohibitionist logic based on
					morality of work and the family and institution religion values. We point this
					way the punitive practices in treatment for drugs users as a biopolitics that
					make up the health national policies in the context of in therapeutic
					community.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Este artículo tiene como objetivo discutir el carácter punitivo en el tratamiento
					para usuarios de drogas en Comunidades Terapéuticas en la región Sur de Brasil.
					Para ello analizamos los proyectos terapéuticos de esas instituciones que
					abordan la especificidad del tratamiento de usuarios de alcohol y otras drogas
					por la vivencia prescrita por los doce pasos. Tomando las concepciones
					foucaultianas sobre poder psiquiátrico, disciplina y castigo problematizamos el
					modo en que esas instituciones fundamentan y estructuran el modelo terapéutico
					sosteniéndose en una lógica prohibicionista a partir de la moral del trabajo, de
					la familia y de la religión. Por lo tanto, señalamos las prácticas punitivas en
					el tratamiento para usuarios de drogas como una biopolítica que componen la
					política nacional en lo que se refiere a la atención de salud en el contexto de
					las Comunidades Terapéuticas.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>tratamento</kwd>
				<kwd>punição</kwd>
				<kwd>comunidade terapêutica</kwd>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>treatment</kwd>
				<kwd>punishment</kwd>
				<kwd>therapeutic community</kwd>
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				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>tratamento</kwd>
				<kwd>castigo</kwd>
				<kwd>comunidad terapéutica</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>A inserção das comunidades terapêuticas na rede pública de atenção à saúde no Brasil
				tem se apresentado como questão a ser problematizada no campo da Psicologia. A
				partir de 2010, o governo federal passou a investir fortemente na questão das
				drogas, propondo novas estratégias e reforçando outras já existentes, bem como
				incrementando o orçamento para as ações propostas a fim de solucionar o 'problema'
				ou, pelo menos, minimizá-lo. As comunidades terapêuticas, serviços de internação na
				modalidade de moradia para usuários drogas, passaram a compor a rede de saúde
				pública através do financiamento estatal.</p>
			<p>Dentre os serviços previstos para usuários de substâncias psicoativas, as comunidades
				terapêuticas não faziam parte da rede de atenção à saúde, já que não eram
				consideradas serviços de saúde. As comunidades terapêuticas são instituições
				privadas e, muitas vezes, de caráter confessional, em que a religião é apresentada
				como estratégia de tratamento, independentemente das convicções religiosas do
				indivíduo anteriores ao ingresso nela. Elas possuem um programa específico de
				tratamento, que dura de seis a doze meses, conforme a instituição, regras rígidas e
				atividades obrigatórias, que devem ser seguidas por todos aqueles que ingressam na
				instituição. As visitas dos familiares são parcas e restritas e o contato com o
				mundo externo é inexistente, inclusive, no que diz respeito às atividades escolares
				e profissionais.</p>
			<sec>
				<title>A Lógica Proibicionista na Constituição das Políticas Públicas no
					Brasil</title>
				<p>Ao analisar o discurso do combate às drogas, <xref ref-type="bibr" rid="B4"
						>Bucher e Oliveira (1994)</xref> destacam os mecanismos de poder envolvidos
					nesse discurso, mecanismos que indicam formas de disciplinarização diante de um
					contexto autoritário e repressivo, pois ele vem atrelado a um amplo projeto
					normalizador das relações sociais. Diante da ameaça de condutas desviantes, "...
					funda-se a prescrição normativa que desencadeia o controle, a intervenção e a
					exclusão" (Bucher &amp; Oliveira, 1994, p. 144). Os argumentos utilizados pelo
					discurso de combate às drogas, que impõem a manutenção da ordem moral, social e
					econômica vigente, dizem respeito às estruturas de poder e o sistema de normas
					dominantes. A norma, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B23">Veiga-Neto
						(2007)</xref>, é o elemento que individualiza, mas que, paralelamente,
					incide sobre o conjunto de indivíduos, permitindo a comparação entre eles. Com
					esta comparação, é possível designar como anormal aqueles cuja diferença em
					relação à maioria é excessiva, em que a diferença é considerada um desvio.</p>
				<p>No ensejo do paradigma proibicionista deflagrado pela política global de guerra
					às drogas, conforme <xref ref-type="bibr" rid="B7">Delmanto e Magri
						(2011)</xref>, a medicina construiu parâmetros que colocam a droga como
					causadora de dependência, que é entendida como doença. A ciência médica,
					articulada à proibição das drogas e ao poderio político-econômico da indústria
					farmacêutica, pretende a cura do que compreende como enfermidade, difundindo o
					ideário de uma sociedade medicalizada em sua totalidade. A política brasileira
					tem uma perspectiva, predominantemente, patologizadora do uso de drogas; se é
					doença, trata-se com remédio. Mas, para isso, é preciso que o usuário cesse o
					consumo de drogas para que ele possa ser tratado. É nesse ponto em que o
					discurso médico-biológico fortalece o tratamento nas comunidades terapêuticas,
					pautado pelo isolamento social e pela abstinência. De acordo com <xref
						ref-type="bibr" rid="B2">Alarcon (2012)</xref>, o proibicionismo tem sua
					sustentação no duplo elo constituído entre o discurso sanitário, em sua busca
					"moralizada" de saúde, e o discurso criminológico.</p>
				<p>A política de segurança pública no Brasil segue a lógica do proibicionismo,
					seguindo o caminho oposto à tentativa de construção do SUS e da Reforma
					Psiquiátrica, em que o cuidado à saúde não deveria estar atravessado pela visão
					moralizante daqueles que usam drogas. A lógica do tratamento para usuários de
					drogas na política pública de saúde estaria pautado pela Redução de Danos, que
					não prioriza, necessariamente, a abstinência. Existe, portanto, um embate entre
					os gestores e trabalhadores da saúde, implicados com o cuidado na lógica da
					Redução de Danos e na defesa do SUS devido ao caráter proibicionista do
					tratamento que é adotado pelas comunidades terapêuticas.</p>
				<p>A inserção da comunidade terapêutica na rede de cuidados está, diretamente,
					ligada à política de segurança já que é através de um edital da Secretaria
					Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), vinculado ao Ministério da Justiça,
					que elas passaram a ser conveniadas. Contudo, estas comunidades terapêuticas,
					antes mesmo de seu conveniamento, já funcionavam contando com os saberes e as
					práticas das disciplinas "psi" aliados à lógica religiosa de moralização dos
					sujeitos.</p>
				<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B17">Passos e Souza (2011)</xref>, o
					exercício de poder gerado no embate entre forças democráticas e forças
					totalitárias resultou em um jogo de contradições entre a Constituição Brasileira
					e o Código Penal: a primeira garantindo o direito a liberdades individuais e o
					segundo proibindo que os pessoas usem certas substâncias. Tal contradição remete
					à conciliação sinistra entre democracia e totalitarismo sobre o eixo das
					drogas.</p>
				<p>Uma problematização necessária no âmbito das políticas públicas diz respeito ao
					fato de que tanto o Ministério da Saúde quanto o Ministério da Justiça incidem
					sobre a temática, mas, em princípio, em perspectivas diferentes. Se de um lado,
					o Ministério da Saúde indicava a Redução de Danos como diretriz para a política
					de álcool e outras drogas, por outro, o Ministério da Justiça, através da SENAD
					prioriza a internação, inclusive a de longa duração, em comunidades
					terapêuticas, em uma perspectiva de abstinência. No entanto, a verba que
					financia os leitos nas comunidades terapêuticas é advinda do Ministério da
					Saúde, que deveria legislar, justamente, no sentido oposto do que está colocado
					pela SENAD, por preconizar a Redução de Danos como diretriz para o tratamento. A
					partir do Decreto n. 7.179 (Brasil, 2010) e do edital de conveniamento das
					comunidades terapêuticas subsequente ao decreto, SENAD e Ministério da Saúde se
					articulam na operacionalização da política de drogas.</p>
				<p>No final de 2011, através do plano "Crack, é possível vencer", o governo federal
					anunciou o investimento de R$ 4 bilhões em ações para enfrentar o crack,
					prevendo a criação de mais 2.462 leitos para internação de usuários de drogas e
					a abertura de 2.500 vagas em comunidades terapêuticas. O plano contou, ainda,
					com uma capacitação intitulada "Fé na Recuperação", para lideranças religiosas
					através de curso promovido pela SENAD. Portanto, estabelece formalmente o papel
					das instituições religiosas na execução da política nacional proposta pela
					SENAD.</p>
				<p>Com isso, faz-se importante compreender qual a proposta de tratamento das
					comunidades terapêuticas, sua estrutura e seu funcionamento, para que seja
					possível problematizar a inserção destas instituições como um serviço da rede
					pública de atenção aos usuários de substâncias psicoativas.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Estrutura e Funcionamento das Comunidades Terapêuticas</title>
				<p>A modalidade de tratamento em comunidade terapêutica surgiu na Grã-Bretanha na
					década de 1940. Inicialmente, foi utilizada para atenção a pessoas com problemas
					psiquiátricos crônicos a partir da experiência com militares que haviam
					retornado da guerra com problemas, predominantemente, psicológicos, que eram
					tratados por psiquiatras em alas especiais de hospitais gerais. O objetivo era
					que os pacientes doentes conhecessem melhor seu diagnóstico através de uma
					aprendizagem social resultante da interação entre profissionais e pacientes.
					Para isso, eram realizadas reuniões diárias com todo o grupo de pacientes
					internados e equipe responsável (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Jones,
						1972)</xref>.</p>
				<p>Muitas comunidades terapêuticas para tratamento de usuários de substâncias
					psicoativas seguem o modelo de tratamento preconizado pelo Alcoólicos Anônimos
					(AA). O AA surgiu em 1935 nos Estados Unidos e se caracteriza por ser uma
					organização composta, exclusivamente, por ex-bebedores. O método do AA está
					fundamentado em Doze Passos e Doze Tradições, que, embora inalteráveis, se
					prestam a reinterpretações. O programa é baseado na abstinência completa e o
					eixo básico do tratamento é o intercâmbio da experiência etílica dos alcoolistas
						(<xref ref-type="bibr" rid="B16">Musumeci, 1994)</xref>.</p>
				<p>Em 1953, pessoas que faziam parte dos Alcoólicos Anônimos decidiram morar juntas
					a fim de se manterem em abstinência e fundaram a Comunidade Terapêutica
						<italic>Synanom,</italic> na Califórnia (EUA). A partir desta iniciativa,
					surgiram outras comunidades terapêuticas que seguiam o mesmo modo de
					funcionamento da precursora <italic>Synanom</italic>. No Brasil, as comunidades
					terapêuticas estão vinculadas, principalmente, às igrejas evangélicas e
					católicas. Em 1968, na cidade de Goiânia, surge no Brasil a primeira Comunidade
					Terapêutica denominada Desafio Jovem, oriunda de um movimento religioso
					evangélico. Em 1978, na cidade de Campinas, foi fundada a Comunidade Terapêutica
					Senhor Jesus, oriunda de um movimento religioso coordenado pelo Padre Haroldo
					Rham, missionário americano (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Fracasso,
						2008)</xref>.</p>
				<p>De acordo com o Glossário de álcool e drogas da SENAD (2010), as comunidades
					terapêuticas são caracterizadas por um ambiente estruturado onde os indivíduos
					com transtornos por uso de substâncias psicoativas residem para alcançar a
					reabilitação e são, em geral, isolados geograficamente. Elas possuem um modelo
					residencial: uma vez internado, o "residente" deverá comprometer-se com o
					programa de tratamento da instituição. Os tratamentos podem durar seis, nove ou
					doze meses, a critério da própria comunidade terapêutica. Os residentes são
					mantidos em atividades durante o transcorrer do dia, que podem variar entre
					atividades laborais, terapêuticas e religiosas. As famílias podem realizar
					visitas à comunidade terapêutica, geralmente, uma vez por mês, em data definida
					pelo local.</p>
				<p>As comunidades terapêuticas pretendem promover mudanças no comportamento dos
					indivíduos e favorecer sua reinserção na sociedade. Para que isso aconteça,
					valores como espiritualidade, responsabilidade, solidariedade, amor e
					honestidade são criados. As comunidades terapêuticas em seu modelo residencial e
					de funcionamento estão pautadas na premissa de que, diante da impossibilidade de
					promover mudanças no indivíduo 'dependente químico', é necessário alterar o meio
					onde ele vive e retirá-lo da situação em que se dá o consumo de drogas. O
					processo terapêutico preconiza intervenções individuais e sociais com atribuição
					de funções, direitos e responsabilidades ao 'indivíduo dependente químico', em
					um ambiente livre de substâncias psicoativas (<xref ref-type="bibr" rid="B19"
						>Sabino &amp; Cazenave, 2005)</xref>.</p>
				<p>A partir de tal descrição das comunidades terapêuticas, pode-se relacionar esse
					modelo com o manicômio, onde a exclusão dos loucos parecia estar justificada
					pela necessidade de um local 'protegido', com regramentos de horário na rotina
					dos asilados, que por séculos foram justificados pelas ciências como
					possibilidade única para os portadores de transtornos mentais.</p>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B18">Raupp e Milnitisky-Sapiro (2008)</xref>,
					o modelo moral que embasa o tratamento na comunidade terapêutica dificulta o
					desenvolvimento das singularidades e potencialidades dos internos, o que
					dificulta o alcance de uma recuperação duradoura. Nas comunidades terapêuticas
					pesquisadas por esta autora, não haviam distinções entre uso, abuso e
					dependência de substâncias psicoativas, sendo o mesmo programa terapêutico
					aplicado a todos os residentes das instituições.</p>
				<p>No que diz respeito à religião, <xref ref-type="bibr" rid="B18">Raupp e
						Milnitisky-Sapiro (2008)</xref> apontam que a moral cristã imposta como
					cerne do tratamento configura-se como doutrinação, uma vez que a questão
					religiosa não é uma resposta adequada às necessidades dos residentes na
					instituição. Tal imposição acaba limitando o desenvolvimento de recursos para
					que outras opções de vida possam ser feitas para além da questão religiosa.
					Sendo assim, o estilo de vida preconizado pela comunidade terapêutica fornece
					modelos muito rígidos para as características do mundo contemporâneo.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A Articulação entre Moral Religiosa, Disciplina e Biopolítica no Modelo das
					Comunidades Terapêuticas</title>
				<p>A psiquiatria, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B12">Foucault
						(2010)</xref>, funciona equacionando a vinculação de todo o diagnóstico de
					loucura à eminência de um perigo. Assim, ela se justifica como uma intervenção
					autoritária na sociedade, apoiada em um saber científico, funcionando como poder
					e ciência da higiene pública, pois demonstra ser capaz de perceber perigos onde
					ninguém ainda pode ver; e se pode percebê-lo, é por que se sustenta em um saber
					médico. Então, o poder psiquiátrico desloca-se, deixando de inferir sobre o
					pensamento doente, sobre a capacidade de compreensão do doente, sobre o querer
					consciente do doente, para investir sobre o que o doente faz, o que ele é capaz
					de cometer.</p>
				<p>As pequenas irregularidades de conduta, que não pertencem, especificamente, à
					loucura, puderam ser trazidas para o domínio da psiquiatria através do
					aparecimento da noção de instinto. É com essa noção que poderá se organizar a
					problemática do anormal na esfera das condutas cotidianas. A função do instinto
					dentro do jogo de saber-poder é a capacidade de transformar, do ponto de vista
					da ciência, a ausência de razão de um ato em um mecanismo patológico positivo.
					No lugar do antigo domínio do delírio e da demência, o instinto é que passa a
					ocupar um lugar central na psiquiatria (<xref ref-type="bibr" rid="B12"
						>Foucault, 2010)</xref>.</p>
				<p>Sendo assim, o uso de drogas pode ser entendido sob a luz da ausência do controle
					dos instintos e da ausência de razão. Assim, podemos então dizer que aquele que
					usa drogas perde o controle de si mesmo e age movido por seus instintos, podendo
					colocar outras pessoas em risco, além de si mesmo. Com base nesse entendimento,
					o usuário de drogas pode ser tomado como objeto de intervenção da psiquiatria,
					devendo ser normalizado. A normalização do usuário de drogas tem se apresentado,
					especialmente, pela disseminação das instituições denominadas comunidades
					terapêuticas, que se propõem a produzir sujeitos abstêmios das substâncias
					psicoativas.</p>
				<p>As políticas sobre drogas que têm a abstinência como objetivo no tratamento são
					tomadas pela lógica do biopoder. O biopoder pode ser entendido como uma
					tecnologia que se dirige à multiplicidade dos homens, configurando uma massa
					global afetada por processos conjuntos da vida. É uma tecnologia que se dirige à
					vida do homem como um ser vivo (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Foucault,
						1999)</xref>.</p>
				<p>Nas tecnologias disciplinares, o foco é o corpo individual de cada sujeito em que
					se produz efeitos subjetivos individualizantes. Nas tecnologias de
					regulamentação, ou seja, no exercício do biopoder, o alvo é a própria vida.
					Através do controle da população por parte do Estado, controla-se a relação dos
					perigos internos à própria sociedade (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Scisleski
						&amp; Guareschi, 2010)</xref>.</p>
				<p>Com isso, a medicina desempenha o papel de manter a higiene pública. Assim,
					surgem organismos de coordenação dos tratamentos médicos, centralização de
					informações e de normalização do saber, assumindo também o aspecto de
					medicalização da população. Os acidentes, as enfermidades e as anomalias
					diversas são fenômenos que serão alvo de intervenção não somente por
					instituições de assistência, mas também por mecanismos mais sutis. Os fenômenos
					que se tornam pertinentes para intervenção da tecnologia do biopoder são aqueles
					que adquirem o status de fenômeno de nível de massa: fenômenos coletivos que só
					aparecem com efeitos econômicos e políticos (<xref ref-type="bibr" rid="B11"
						>Foucault, 2005)</xref>.</p>
				<p>O biopoder se mostra como poder sobre a vida, considerando as políticas da vida
					biológica e como poder sobre a morte, através do racismo do Estado. Desta forma,
					trata-se da estatização da vida. O biopoder foi um elemento fundamental para o
					desenvolvimento do capitalismo na medida em que serviu para assegurar a inserção
					controlada dos corpos no aparato produtivo e para que os fenômenos populacionais
					estivessem ajustados aos processos econômicos. Para Foucault, essa forma do
					poder que é, ao mesmo tempo, individualizante e totalizante é a característica
					fundamental do poder moderno (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Castro,
						2009)</xref>.</p>
				<p>O racismo a que <xref ref-type="bibr" rid="B11">Foucault (2005)</xref> refere-se
					não diz respeito ao ódio entre as raças ou uma operação ideológica cujas
					hostilidades seriam dirigidas a um adversário. O racismo a que o autor refere-se
					está ligado a tecnologia do poder, está ligado a um mecanismo que permite o
					exercício do biopoder. O racismo está relacionado ao funcionamento do Estado que
					é obrigado a utilizar a raça, sua eliminação e purificação, para que ele possa
					exercer seu poder soberano, que é o poder de fazer morrer. Portanto, o racismo
					assegura a função de morte na economia do biopoder, seguindo o princípio de que,
					mediante a morte do outro, fica garantido o fortalecimento biológico da raça da
					própria pessoa.</p>
				<p>A população é a finalidade e o instrumento do governo. Os interesses individuais
					e os interesses gerais da população constituem o instrumento fundamental do
					governo. O objetivo do governo é, portanto, melhorar a saúde da população, sua
					duração de vida, aumentar sua riqueza. Para que isso se efetive, o governo
					utiliza campanhas que agem diretamente sobre a população e usa técnicas que
					agem, indiretamente, sobre ela (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Foucault,
						1978)</xref>.</p>
				<p>Foucault utiliza o termo governamentalidade para se referir ao objeto de estudo
					das maneiras de governar, ou seja, de conduzir condutas. De acordo com Foucault
					(1978), a ideia de governamentalidade pode ser assim entendida: primeiramente,
					por um domínio composto pelo conjunto das instituições, procedimentos, análises,
					cálculos, táticas que permitem essa forma de exercício de poder sobre a
					população, tendo como forma central de saber a economia política e como
					instrumento técnico essencial os dispositivos de segurança, ou seja, a
					biopolítica. O estudo das formas de governamentalidade implica a análise de
					formas de racionalidade, de procedimentos técnicos, de formas de
					instrumentalização. Pode ser definida também pela tendência ocidental em que foi
					preeminente este tipo de poder chamado governo, que se exerce sobre os outros
					(soberania, disciplina) e que levou ao desenvolvimento de aparelhos específicos
					de governo e de um conjunto de saberes. As sociedades modernas não são
					sociedades apenas de disciplinarização, mas também de normalização dos
					indivíduos e das populações. E, ainda, é o resultado do processo através do qual
					o Estado de justiça da Idade Média, que se tornou, nos séculos XV e XVI, Estado
					administrativo, foi pouco a pouco governamentalizado.</p>
				<p>Essas estratégias engendram a biopolítica que governa o modo de pensar a saúde da
					população. As políticas públicas de saúde e de segurança desenham modos de
					viver, prescrevem práticas e conduzem a condutas no que diz respeito ao uso de
					drogas e ao tratamento daqueles que são considerados doentes ou dependentes
					químicos. A biopolítica pela segurança apresenta-se como estratégia atrelada ao
					poder disciplinar, colocando o usuário ora como um criminoso que deve ser punido
					ora como um doente que deve ser tratado dentro de uma perspectiva que encontra
					materialidade no regramento das comunidades terapêuticas. As políticas públicas
					de saúde, como uma biopolítica - pelo âmbito da legislação, estratégias de
					segurança e técnicas disciplinares, estabelecem a governamentalidade do usuário
					de drogas.</p>
				<p>As comunidades terapêuticas, por serem instituições fechadas, designadas a
					dispensar tratamento para usuários através da segregação social, com normas
					rígidas de funcionamento e controle sobre a vida dos indivíduos, remetem à
					memória de antigas instituições, como o leprosário e o manicômio. Essas,
					presentes no mundo ocidental desde a Idade Média, parecem reeditar-se em
					instituições que, ainda hoje, estão presentes nas diversas sociedades. As
					comunidades terapêuticas, assim, parecem ser como reedição deste modelo, agora
					sob a justificativa da dependência química como a doença que deve ser tratada
					através do isolamento. As práticas destas instituições, desde a Idade Média com
					as dos leprosários e hospícios, constituíram modos de tratamento e sujeitos, que
					alicerçou saberes que a Reforma Psiquiátrica contestou, mas que ainda encontram
					condição de existência por estarem arraigados aos saberes de disciplinas como a
					medicina, a psicologia, e o direito.</p>
				<p>Os espaços fechados de tratamento para pessoas com problemas com o uso de drogas
					como as comunidades terapêuticas podem ser consideradas como espaços onde se
					estabelecem relações de dominação daquele que exerce um poder dito terapêutico
					sobre um sujeito desprovido de seus direitos, "[...] abandonado à arbitrariedade
					institucional" (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Alarcon, Belmonte, &amp; Jorge,
						2012</xref>, p. 73). A institucionalização é o artifício para práticas
					desumanizadas, tornando-os sujeitos desprezíveis. Por isso, as críticas feitas
					aos leprosários e depois aos hospitais psiquiátricos podem se estender à
					instituições como as comunidades terapêuticas que nasceram à sombra da
					racionalidade manicomial, pois entendem saúde pela simplificação unicausal e
					institucionalizam o sujeito (Alarcon et al., 2012).</p>
				<p>A construção de políticas de saúde para usuários de drogas centradas no hospital
					psiquiátrico demarca a interferência significativa do Direito Penal sobre os
					procedimentos clínicos, assim como a aproximação entre práticas jurídicas e
					práticas médicas. É dentro deste jogo de poder que o usuário de drogas se vê ora
					perante o poder da criminologia, ora diante do poder da psiquiatria, ora
					encarcerado na prisão, ora internado no hospício. Esse conjunto institucional,
					de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B12">Foucault (2010)</xref>, está
					voltado para o indivíduo que não é nem exatamente doente nem propriamente
					criminoso, mas sim para o indivíduo, eventualmente, perigoso, nesse caso, os
					usuários de drogas. Porém, atualmente, não é só dentro das prisões e dos
					hospícios que os usuários de drogas estão confinados. As Comunidades
					Terapêuticas e Fazendas Terapêuticas trazem, além da disciplina, outro elemento
					que a complementa: a moral religiosa (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Passos
						&amp; Souza, 2011)</xref>.</p>
				<p>A justiça, a psiquiatria e a moral cristã compõem uma rede de instituições que
					tem como objetivo comum e único a abstinência, ou seja, a conformação de
					sujeitos que não tenham problema com o uso de drogas. Sujeitos esses que possam
					estar inseridos social e economicamente, fazendo 'girar a roda' de produção e
					consumo de nossa sociedade. A moral religiosa associa o prazer ao mal - associa
					o prazer da carne ao uso de drogas, que, historicamente, é objeto de intervenção
					do poder pastoral, que, atualmente, se alia ao poder disciplinar. A
					problematização moral do uso de drogas assenta-se sobre um conjunto de regras
					morais cristã, que situou o prazer sob o signo do mal e da morte (<xref
						ref-type="bibr" rid="B17">Passos &amp; Souza, 2011)</xref>.</p>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B21">Siqueira (2010)</xref>, existem três
					espaços destinados aos usuários de drogas, que são: cadeia, igreja e hospitais
					psiquiátricos. Lugares escolhidos a fim de desempenharem a função de 'controle
					da sociedade' por meio de leis que estão pautadas nos princípios morais. Assim,
					há uma produção de sujeitos com identidades padronizadas em que a singularidade
					e as diferenças não são respeitadas. Esses espaços oferecem a garantia de
					manutenção da invisibilidade dessas diferenças.</p>
				<p>As comunidades terapêuticas, em sua estrutura e funcionamento, organizam-se e
					articulam-se como cadeia, igreja e hospital psiquiátrico. As comunidades
					terapêuticas não podem ser caracterizadas unicamente nem como cadeia, nem como
					igreja, nem como hospital psiquiátrico, mas, justamente, é na articulação do
					funcionamento destas três instituições que elas encontram sua especificidade -
					que mais se aproxima dessas três instituições do que dos serviços que preconizam
					os princípios do SUS. Na cadeia, temos, principalmente, o caráter fechado, a
					impossibilidade do indivíduo preso circular na cidade, além do sentido de que o
					encarceramento é uma medida necessária para aquele que comete um crime. No caso
					dos usuários de drogas, seu crime (que, nesse caso, é moral) foi justamente o
					uso de substâncias ilícitas, que, portanto, será combatido com o encarceramento
					em um local para o tratamento da drogadição, a fim de devolver para a sociedade,
					um indivíduo abstêmio que consiga se inserir à lógica da moral. O método
					utilizado para recuperar moralmente este indivíduo para torná-lo produtivo se
					dá, principalmente, pela questão religiosa. É neste ponto que vemos como a
					comunidade terapêutica toma as características de instituição religiosa.</p>
				<p>Desta forma, e conforme <xref ref-type="bibr" rid="B22">Valderrutén
					(2008)</xref>, as comunidades terapêuticas em sua natureza social que segue a
					lógica do internamento são uma das tantas formas históricas contemporâneas do
					jogo de exclusão dos seres humanos, em que eclodem rituais de segregação e
					purificação por meio das práticas terapêuticas e dos discursos morais. As
					comunidades terapêuticas possuem um "híbrido" de concepções morais e éticas,
					conjugando "velhas" e "novas" visões e valores acerca do indivíduo e da
					sociedade.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Projetos Terapêuticos de Atenção aos Usuários de Álcool e Outras Drogas das
					Comunidades Terapêuticas: A Análise de Quatro Propostas de Tratamento</title>
				<p>A fim de visibilizar como as comunidades terapêuticas se organizam para receber e
					tratar os usuários de substâncias psicoativas, através de pactuação com a atual
					política de drogas no país, apresentamos os projetos de quatro comunidades
					terapêuticas. Dessa forma, apontamos como se constitui o entrelaçamento entre o
					poder psiquiátrico, a disciplina e a punição, dessas instituições a partir do
					conteúdo disponível em suas páginas na internet. Com a análise da proposta
					terapêutica dessas comunidades, discutimos os efeitos do modelo terapêutico
					sustentado a partir da moral do trabalho, da família e da religião nos modos de
					subjetivação do sujeito usuário de drogas. As instituições pesquisadas são as
					seguintes: Comunidade Terapêutica Fazenda Renascer<xref ref-type="fn" rid="fn3"
						>1</xref> (2012), Novo Hamburgo, RS; Centro de Reintegração Social
					Aprendendo a Viver<xref ref-type="fn" rid="fn4">2</xref> (2013), Sapiranga, RS;
					Comunidade Terapêutica Ferrabraz<xref ref-type="fn" rid="fn5">3</xref> (2013),
					Sapiranga, RS; e Fazenda do Senhor Jesus<xref ref-type="fn" rid="fn6">4</xref>
					(2013), Viamão, RS. Todas possuem página na internet e disponibilizam,
					publicamente, os projetos terapêuticos de tratamento para usuários de drogas bem
					como demais informações sobre a estrutura institucional e seu funcionamento. A
					escolha por estas quatro comunidades terapêuticas deu-se pela riqueza e
					detalhamento das informações contidas em seus sítios.</p>
				<p>A Comunidade Terapêutica Fazenda Renascer é direcionada para pessoas do sexo
					masculino na faixa dos 16 aos 60 anos, tendo capacidade para 60 residentes na
					instituição. Sua filosofia de trabalho está baseada em uma declaração feita pelo
					jornalista Richard Beauvais após sua internação na Comunidade Terapêutica
						<italic>Daytop Village</italic> nos EUA, que segue a premissa dos Alcoólicos
					Anônimos.</p>
				<p>A orientação do tratamento na Fazenda Renascer são os Doze Passos de Recuperação
					do AA. O programa terapêutico conta com três princípios básicos:
					espiritualidade, disciplina e trabalho e possui um cronograma para um ano de
					tratamento. A disciplina é promovida como um meio para dominar os impulsos, uma
					vez que, no entendimento da comunidade terapêutica, o dependente químico tem
					aversão à regras e normas e, por isso, foge dos padrões estabelecidos pela
					sociedade. Portanto, a comunidade terapêutica tem a pretensão de produzir
					sujeitos aptos aos padrões sociais, que insiram normativamente aos ditames da
					sociedade. O público da comunidade terapêutica são os sujeitos
					'desajustados'.</p>
				<p>Essa instituição considera que a dependência química é uma doença biopsicossocial
					e espiritual e, por esse motivo, o usuário de drogas precisa de ajuda externa
					para redirecionar sua vida, promovendo uma transformação através da mudança de
					seus valores e do seu estilo de vida. Em outros termos, no tratamento da
					comunidade terapêutica, opera-se uma constituição de novos valores através de
					práticas ditas 'espirituais' e, portanto, valores advindos de preceitos
					religiosos. Não há informações sobre quais profissionais atuam no local, mas são
					citados os seguintes recursos de tratamento: assistência psicológica (individual
					e em grupo), esporte e lazer, educação física, <italic>tai chi chuan</italic>,
					karatê, academia e prática de informática.</p>
				<p>O Centro de Reintegração Social Aprendendo a Viver está localizado em um centro
					urbano, seguindo o modelo residencial. A instituição refere que o tratamento é
					personalizado, sem crédulo religioso, mas espiritual, e destaca que não tem
					'trabalhos forçados'. O tratamento está dividido em três etapas: desintoxicação,
					tratamento de dependência química e pós-tratamento. Nestas etapas, o residente
					deve identificar sua doença, aceitar sua condição de pessoa doente que necessita
					de tratamento, formular uma programação pessoal de reabilitação, conhecer o
					programa de doze passos do AA e preparar-se para a sua reinserção social. Ainda
					que essa comunidade terapêutica afirme não ter crédulo religioso, ao impor o
					programa dos doze passos do AA, fica subentendido que o usuário deva, no mínimo,
					acreditar em um 'deus' ou em um 'poder superior'. Com isso, podemos inferir que
					há uma conformação 'espiritual' no tratamento, uma vez que, para tomar o método
					do AA como diretriz, o sujeito deve reconhecer como verdade as premissas dos
					doze passos.</p>
				<p>O pós-tratamento consiste em acompanhamento ambulatorial e participação em
					reuniões semanais de grupos de AA ou NA. O Centro possui uma equipe técnica
					formada por médico psiquiatra, médico clínico geral, psicóloga, assistente
					social e técnicos de enfermagem e oferece como atividades: terapia individual,
					terapia em grupo, terapia familiar, atendimento psiquiátrico, clínico e
					psicológico, oficinas terapêuticas, espiritualidade, atividades lúdicas e de
					lazer, grupos de AA e NA.</p>
				<p>A Comunidade Terapêutica Ferrabraz tem seu tratamento baseado na programação dos
					Doze Passos do AA, empregando métodos que decorrem da postura filosófica que têm
					como base o tripé: oração, trabalho e disciplina. A oração diz respeito ao
					desenvolvimento da espiritualidade, que é considerada o alicerce fundamental
					para a recuperação. O trabalho compreende as atividades de manutenção e
					funcionamento da instituição, resgatando o sentido e o gosto pelo trabalho. A
					disciplina está associada ao cumprimento rigoroso dos horários, compromissos,
					apresentação pessoal, tarefas, comunicação adequada e vocabulário. Dentre as
					três premissas de tratamento, a oração e o desenvolvimento da espiritualidade
					são considerados o alicerce para o tratamento. O desenvolvimento da
					espiritualidade diz respeito à construção de valores de ordem religiosa,
					inexistentes antes da internação, e que, sendo instituídos pelos sujeitos, os
					modificam, para assim obterem a recuperação.</p>
				<p>O funcionamento da instituição Ferrabraz constitui-se em sistema aberto com
					regime de residência em ambiente protegido. Esta comunidade terapêutica afirma
					que o dependente químico só tem condições de se manter abstêmio após um período
					de tempo afastado de seu meio original. O programa de tratamento é desenvolvido
					em nove meses, divididos em três etapas. A primeir trimestre é etapa de
					adaptação e desintoxicação. A segunda etapa, no segundo trimestre, é denominada
					conscientização. Na última fase, a da ressocialização, são permitidas visitas às
					famílias que duram uma semana. A instituição oferece atendimento com psicólogos,
					assistentes sociais e psiquiatras. A metodologia empregada consiste em diversas
					técnicas terapêuticas grupais: grupo dos doze passos dos Alcoólicos Anônimos,
					grupo de amor exigente, grupo de sentimento, grupo de auto-ajuda, grupo de
					socioterapia, grupo de espiritualidade, grupo de laborterapia, grupo
					psicológico, grupo de terapia racional emotiva.</p>
				<p>A Comunidade Terapêutica Fazenda do Senhor Jesus tem seu funcionamento
					estruturado a partir de valores físicos, éticos, morais, intelectuais e
					espirituais e entende que os valores de uma comunidade terapêutica estão para
					ela assim como sangue está para a vida. Os valores estão designados conforme os
					princípios fundamentais do código de ética da Federação Brasileira de
					Comunidades Terapêuticas (FEBRACT) e são definidos como: respeito à dignidade
					humana; permanência e aceitação do programa de forma livre e voluntária;
					permanência assegurada em ambiente livre de drogas, sexo e violência; amor
					responsável; honestidade; solidariedade; busca de um sentido de vida.</p>
				<p>A instituição determina um tratamento com duração de 9 meses e seu público é
					composto por pessoas do sexo masculino. Existem cerca de 96 vagas na comunidade
					terapêutica. Para o ingresso, é necessário que a pessoa se submeta a um processo
					de triagem e avaliação. Neste processo, inclui-se avaliação psicológica e
					avaliação socioeconômica, com a necessidade de acompanhamento de um responsável
					pela internação. A equipe de trabalho é formada por dependentes químicos em
					recuperação com estágio em comunidade terapêutica. Com isso, a instituição visa
					a articulação entre a experiência de vida dos dependentes químicos com a
					capacitação técnica de profissionais, que são voluntários, da área da
					toxicologia, psicologia, assistência social, saúde e administração. No que
					concerne às atividades terapêuticas, a comunidade terapêutica conta com:
					laborterapia, exercício de rígida disciplina individual e coletiva,
					desenvolvimento de vida comunitária, estudo e vivência dos doze passos do AA,
					estudo e vivência dos doze princípios do Amor Exigente, reuniões de grupo com
					várias destinações, atividades esportivas e lúdicas e oração sob todas as
					formas.</p>
				<p>A conformação de projetos terapêuticos para o tratamento pelo viés da disciplina,
					da espiritualidade e do trabalho operam sobre os sujeitos através de técnicas de
					cuidado de si, de práticas disciplinares e punitivas, aliançadas com os saberes
					da psicologia e do cristianismo valendo-se do mecanismo da punição para
					conseguir as metas do tratamento. Três eixos norteadores para a constituição de
					sujeitos socialmente ajustados, inseridos moralmente na instituição religiosa,
					no mercado de produção-consumo, nas instituições de ensino, na vida
					política-econômica. Eixos que com caráter punitivo, delegam os sujeitos a
					cumprirem os regramentos institucionais; sob pena de práticas físicas para a
					regulação e a constituição da volta um corpo saudável e produtivo.</p>
				<p>Os Doze Passos</p>
				<p>
					<list list-type="order">
						<list-item>
							<p>Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos
								perdido o domínio sobre nossas vidas.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia
								devolver-nos à sanidade.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus,
								na forma em que O concebíamos.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Admitimos, perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser
								humano, a natureza exata de nossas falhas.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses
								defeitos de caráter.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas
								imperfeições.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e
								nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre
								que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a
								outrem.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados,
								nós o admitíamos prontamente.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato
								consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o
								conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar
								essa vontade.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses Passos,
								procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes
								princípios em todas as nossas atividades (Vivência, 2011, p. 1).</p>
						</list-item>
					</list>
				</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Aspectos Punitivos do Tratamento nas Comunidades Terapêuticas: A Conformação
					do Uso de Drogas como Dano Social</title>
				<p>Em "A sociedade punitiva", <xref ref-type="bibr" rid="B9">Foucault (1997)</xref>
					afirma que, a partir do século XVIII, a nossa sociedade passou a enclausurar,
					trazendo a prisão como recurso para a punição daqueles que infringem a lei.
					Paralelo à sua construção, as prisões foram objeto de críticas alijadas em
					princípios fundamentais e nos desfuncionamentos possíveis que a prisão poderia
					trazer para o sistema penal e para a sociedade em geral. Sendo assim, a prisão
					foi apontada como um instrumento que fabrica aqueles que serão encarcerados.
					Essa crítica hoje é dada como fatalidade (Foucault, 1997).</p>
				<p>Os reformadores penais do século XVIII definiram, a partir do interesse da
					sociedade, a noção de crime e a necessidade de punição. Com isso, tem-se como
					consequência, o estabelecimento do castigo para o perigo ou dano causado à
					sociedade e não à falta em si. O papel da pena é voltado a impedir que o crime
					recomece, colocando o culpado fora da possibilidade de causar prejuízo. Com os
					princípios destes reformadores, outros modelos punitivos foram possíveis: o
					primeiro deles articulado à infâmia, outro associado a lei do talião e o último
					caracterizado pela escravização em benefício da sociedade (<xref ref-type="bibr"
						rid="B9">Foucault, 1997)</xref>.</p>
				<p>A infâmia diz respeito aos efeitos da opinião pública que incidem sobre o sujeito
					criminoso como uma reação espontânea da própria sociedade. É uma pena que se
					ajusta ao crime sem a necessidade de passar pelo código penal e pelo tribunal. O
					modelo do talião impõe um castigo equivalente à natureza do crime cometido e,
					apesar de nunca ter sido proposto de forma especificada, permitiu definir modos
					de punição. Esse modelo pode ser pensado sob a forma de um talião moral que pune
					o crime sem a intenção de reverter seu efeito, mas incidindo sobre os vícios que
					o motivaram. A escravização é estabelecida em intensidade e duração conforme o
					prejuízo causado. <xref ref-type="bibr" rid="B9">Foucault (1997)</xref>, fazendo
					referência a escritos de Brissot (sem referência da obra) afirma: "O que
					substitui à pena de morte? A escravidão que põe o culpado fora de condição de
					causar prejuízo à sociedade; trabalho que o torna útil; a dor longa e permanente
					que amedronta aqueles que ficariam tentados a imitá-la" (p. 35).</p>
				<p>Na análise dos Doze Passos dos Alcoólicos Anônimos, tomados como metodologia de
					tratamento nos projetos terapêuticos estudados, destacamos os seguintes itens
					como prescrições disciplinares e punitivas no tratamento das comunidades
					terapêuticas: os passos 6 (Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus
					removesse todos esses defeitos de caráter), 7 (Humildemente rogamos a Ele que
					nos livrasse de nossas imperfeições), 8 (Fizemos uma relação de todas as pessoas
					que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados) e
					9 (Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que
					possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem), trazem
					em sua discursividade os aspectos punitivos consequentes aos que fizeram uso de
					drogas. Nos passos 6 e 7, o uso de drogas é apontado como um defeito de caráter
					e imperfeição que necessitam ser removidos por 'Deus'. Essa remoção, no âmbito
					desta pesquisa, pode ser entendida como o sentido da comunidade terapêutica se
					estabelecer como uma instituição fechada, que enclausura o sujeito usuário de
					drogas. Enclausuramento para a remoção dos defeitos de caráter para que o
					sujeito possa retornar à sociedade, em que a comunidade terapêutica opera como
					prisão em sua característica punitiva e segregadora. Nesse caso, as comunidades
					terapêuticas funcionam como recurso de enclausuramento daqueles que são
					considerados ameaças para a ordem social, que vêm sendo apontados pela mídia -
					como já vimos anteriormente - como potenciais criminosos. Se, no âmbito da
					justiça e da segurança pública, os usuários de drogas não são necessariamente
					enquadrados como criminosos, um outro "enquadre" se constitui através do
					tratamento em instituições de longa permanência como as comunidades
					terapêuticas.</p>
				<p>Os passos 8 e 9 determinam que o uso de drogas produziu danos e prejuízos que
					devem ser reparados. Essas prescrições incidem sobre o uso de drogas enquanto
					dano social, ou seja, colocam o usuário de drogas enquanto alguém que, com uma
					prática individual de consumo de substâncias, desestabiliza a ordem social.
					Nesse entendimento, o sujeito usuário de drogas, em seu caráter improdutivo do
					ponto de vista da lógica neoliberal, deve reaver-se com a sociedade, retornando
					como um sujeito dotado de arrependimento por seus "erros" e que, por tê-los
					cometido, se compromete com a reparação através de uma conduta de
					abstinência.</p>
				<p>A partir do exposto acima, podemos entender do ponto de vista dos ensinamentos de
					Foucault, as atuais medidas governamentais para o tratamento de usuários de
					drogas como um exercício de biopoder. Diante do aumento da população usuária de
					drogas, do uso de drogas como um problema social apontado como produtor de
					violência nas cidades, do uso de drogas como impossibilidade de inserção na
					lógica de produção-consumo imposta pela sociedade, o consumo de drogas -
					especificamente o crack - foi tomado como ameaça à ordem social e econômica e
					como fenômeno coletivo, passou a ser alvo de investimento estatal. O Plano
					Integrado de Enfrentamento ao Crack e a campanha "Crack é possível vencer" se
					apresentam, então, como um investimento de biopoder sobre a população usuária de
					crack para que essa seja potencializada como vida produtiva. Esse investimento
					materializa-se como inserção das comunidades terapêuticas na rede pública de
					saúde.</p>
				<p>Sob esse entendimento, então, as comunidades terapêuticas se inserem como
					estratégia disciplinar e biopolítica através de um isolamento, que, ao mesmo
					tempo que produz a segregação dos sujeitos usuários de drogas, produz também uma
					conformação deles de modo que retornem ao seu andar da vida devidamente curados
					da necessidade de consumir drogas para que possam estabelecer outras relações de
					consumo, atravessadas pela lógica neoliberal.</p>
				<p>A internação em comunidade terapêutica pode ser entendida como uma medida
					punitiva. O tratamento que incide sobre o "vício" da droga, pretende a
					conformação de sujeitos que sejam produtivos economicamente no mercado formal de
					trabalho e que não venham a se tornar sujeitos inseridos no mercado do tráfico
					de drogas. A característica segregadora das comunidades terapêuticas encontra
					condição de existência e permanência em nosso tempo por conta do fenômeno
					coletivo do pânico moral em relação ao consumo e ao tráfico de drogas.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais</title>
			<p>Os doze passos das comunidades terapêuticas forjam o tratamento a partir de uma
				concepção proibicionista e, ao mesmo tempo, afirmam a abstinência como único modo de
				"lidar" com as substâncias, positivando técnicas que conformam como o sujeito se
				constituirá e se cuidará. O sujeito produzido por estas técnicas está 'alheio' de si
				mesmo, já que é um poder superior que o ajudará a alcançar o objetivo da
				abstinência. Esse assujeitamento, essas práticas conformam e produzem, como vimos,
				os modos como os usuários de drogas ao serem investidos por essa metodologia, por
				essas comunidades terapêuticas, acabam por se relacionar consigo e com o mundo
				conforme as prescrições moralizantes destas instituições.</p>
			<p>Conciliadas as duas lógicas - proibicionismo e Redução de Danos - uma outra política
				brasileira se constituiu. O Ministério da Saúde, além de financiar o credenciamento
				dos leitos em comunidades terapêuticas, criou um serviço público de acolhimento com
				caráter residencial para usuários de drogas, como vistas a manutenção da
				abstinência, conforme a apresentação da campanha "Crack é possível vencer", como
				vimos anteriormente. As comunidades terapêuticas, que pareciam entes externos a rede
				de saúde, que pareciam ser serviços inconjugáveis à rede estabelecida após a Reforma
				Psiquiátrica, passaram a ocupar o papel principal dentro da "nova política".</p>
			<p>Portanto, o contexto que precede a criação de uma política de saúde mental baseada em
				preceitos antimanicomiais é configurado por uma lógica proibicionista e moralista,
				em que nenhum consumo de drogas pode ser visto como possível. A abstinência, sendo
				assim, era tomada como a única medida cabível. Como meta, a redução da demanda
				possibilitou a entrada do poderio militar estadunidense em diversos territórios do
				globo terrestre, indicando que essa política de guerra às drogas serve aos
				interesses econômicos e mercadológicos de um país que é uma super potência e que
				trabalha em prol de sua hegemonia mundial.</p>
			<p>A metodologia de tratamento nas comunidades terapêuticas, em suas práticas punitivas,
				busca forjar sujeitos economicamente produtivos, inserindo-os novamente na lógica de
				consumo do neoliberalismo. Assim, além dos efeitos legislativos e jurídicos desta
				inserção, as comunidades terapêuticas conformam modos de subjetivação.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>1</label>
				<p>
					<ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="http://www.fazendarenascer.org.br/novo/"
						>http://www.fazendarenascer.org.br/novo/</ext-link></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>2</label>
				<p>
					<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.aprendendoaviver.com/"
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				<label>3</label>
				<p>
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						xlink:href="http://www.comunidadeferrabraz.com.br/"
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			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>4</label>
				<p>
					<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.pactopoa.com.br/"
						>http://www.pactopoa.com.br/</ext-link></p>
			</fn>
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				<mixed-citation>Valderrutén, M. del C. C. (2008). Entre "teoterapias" y
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						en Colombia y modelos de sujetos sociales</article-title>
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