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<article-title xml:lang="pt">CORPO E PARENTALIDADE NA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA</article-title>
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<bold>Teperman, D., Garrafa, T., &amp; Iaconelli, V. (2021). Corpo. Coleção Parentalidade &amp; Psicanálise. Belo Horizonte: Autêntica.</bold>
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<p>A obra intitulada “Corpo” abre para o campo de saberes psicológicos uma série de debates pertinentes ao atual momento histórico. Ao tomar o corpo e a parentalidade como eixos principais, o livro – dividido em três seções – aborda temas como gênero, saúde reprodutiva, classe social e questões étnico-raciais.</p>
<p>Em todos os textos, o corpo é concebido em sua complexidade e vinculado às dimensões psíquica, histórica e cultural, não se reduzindo à sua materialidade biológica. Afasta-se, assim, das visões tradicionais que marcaram os discursos sobre o corpo no Ocidente (Sennett, 2010). Em suma, os debates sobre o corpo implicam problematizar os diferentes marcadores sociais os quais afetam e constituem os sujeitos.</p>
<p>A perspectiva teórica adotada pelos diversos autores tem por referência as contribuições à psicanálise dadas por Jacques Lacan. Tal perspectiva foi fundamental para a reorientação ética da psicanálise, com ênfase na dimensão simbólica entre corpo e linguagem. Isso ajuda a entender a pergunta que norteia as discussões presente em todo o livro: “quais as relações do corpo com as imagens que nos rodeiam?” (Sanches, 2021, p. 17).</p>
<p>As demandas constantes impostas pelo modelo de produção econômica neoliberal atual tendem a  sobrecarregar os pais, principalmente as mães, por um sacrifício ininterrupto em prol dos filhos em nome de algo como um “bem maior”.</p>
<p>Muito além de tentar responder o que seja o corpo pela perspectiva psicanalítica, a obra problematiza de forma bastante contundente a corporalidade como ponto de partida da própria constituição da psicanálise: o enigma dos sintomas histéricos, o ato de falar sobre os próprios desejos, o descobrimento das zonas erógenas, a sexualidade infantil.</p>
<p>Pelo fato de articular o corpo e a parentalidade, a maioria dos autores optou pela maternidade como principal elemento de discussão. A escolha dessa ênfase, acaba por deixar ao largo a discussão sobre a paternidade e suas múltiplas derivações. Contudo, apesar de o laço mãe-bebê ser um assunto tradicional da psicanálise, os atravessamentos constantes no livro revelam ser essa uma temática muito pertinente, atual e ainda estar longe de se esgotar.</p>
<p>Um grande destaque da obra são as diferentes implicações entre a linguagem e o corpo. Neste sentido, a escuta e o olhar são algumas das principais ferramentas deste processo comunicacional. A relação entre olhar e ser olhado se articula a partir destes investimentos de desejo os quais emergem logo nos primeiros anos de vida: “o olhar e a voz participam como objetos que fixam uma promessa de satisfação” (Dias, 2021, p. 59). Os investimentos libidinais no corpo estão quase sempre ancorados na escuta e na percepção visual; fato revelador da importância desses aspectos não somente no trabalho analítico como também no âmbito do marketing e da propaganda.</p>
<p>Dentre as noções lacanianas que sustentam as argumentações, as noções de gozo e de castração figuram como as principais e fornecem os subsídios necessários para que sejam levantadas as diversas problematizações acerca dos impactos sobre os corpos. Parafraseando Simone de Beauvoir, ‘não se nasce mãe, torna-se mãe’, mas é importante enfatizar que este ‘vir-a-ser’ torna-se possível somente a partir de certa ressignificação corporal. Ainda tomando o caso da maternidade, necessário pontuar que a gravidez implica não só mudanças biológicas, mas sobretudo um grande investimento simbólico, muitas vezes romantizado, que busca transformar a mulher em mãe. Uma grávida que ousar dançar <italic>funk</italic> e publicar esse ato nas redes sociais, por exemplo, corre sérios riscos de sofrer um “cancelamento”, ou seja, seu corpo-mulher deve ser castrado para emergir dele um corpo de mãe. De onde se pode deduzir que durante o processo gestacional, a sociedade espera da mulher que seu gozo seja voltado exclusivamente para a maternidade.</p>
<p>Outra articulação relevante ocorre entre a maternidade e o imperativo do sucesso. Desde a revolução sexual ocasionada pelo advento da pílula anticoncepcional e da separação entre sexualidade e reprodução, as mulheres têm conseguido adiar a maternidade e até mesmo evitado sua ocorrência; sobretudo nas classes mais abastadas (Fernandes, 2021). A entrada feminina no mercado de trabalho formal implicou e ainda implica lidar diretamente com os privilégios masculinos. Tal fato tende a exigir que elas se tornem mais competitivas, o que acaba por colocar a gravidez em segundo plano. Embora para muitas seja possível conciliar maternidade e ascensão profissional, ainda permanecem os imperativos de ser uma mãe dedicada e ao mesmo tempo possuir um corpo saudável e esteticamente belo. Esse excesso de positividade tende a conformar o corpo em uma espécie de máquina de máximo desempenho, o que tende a cobrar um alto preço, pois “O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma” (Han, 2015, p. 38).</p>
<p>As interlocuções entre a psicanálise e as perspectivas de gênero, presentes no livro, possibilitam problematizar a força que o discurso falocêntrico ainda possui em nossa cultura. Segundo Brilhante (2001), tanto nos mitos de fertilidade quanto na ciência moderna, o corpo da mulher sempre esteve em uma posição subordinada. Seja pela Igreja que ressignificou as dores do parto como forma de penitência, seja pela ciência que sequer representava a vulva e o clitóris nos primeiros manuais de fisiologia, o corpo feminino permaneceu durante muito tempo esquecido e à margem do reconhecimento social. Tais discursos forjaram e ainda fomentam a antiga prática de exclusão das mulheres da vida pública.</p>
<p>Somente a partir do século XVIII, com o advento da biopolítica, os preconceitos religiosos foram ressignificados e tornados laicos. Surge então uma intensa medicalização do corpo da mulher, principalmente no que concerne à gestação e à amamentação, com vistas à produção de filhos saudáveis e produtivos. Contudo, a autora nos lembra que os corpos femininos recebem diferentes investimentos conforme a classe e a raça. Ainda hoje, no Brasil, embora tenha ocorrido, na década de 1990, a consolidação da política de humanização do parto (Brilhante, 2021), muitas mulheres pretas e pobres são vítimas de violências obstétricas.</p>
<p>A articulação entre maternidade e a problemática racial é, portanto, outro ponto forte da obra. Tema urgente se levarmos em conta o grande número de mortes maternas no Brasil, decorrentes de causas obstétricas, as quais acometem, de acordo com Brilhante (2021), duas vezes mais gestantes pobres e pretas que gestantes brancas.</p>
<p>Sabe-se que a origem desse problema remonta ao abominável e ainda não resolvido período de escravatura também presente em algumas práticas médicas. Esse processo histórico e social desembocará no racismo estrutural que aos moldes foucaultianos deixa um explícito “deixar morrer” em inúmeras práticas obstétricas.</p>
<p>Enfim, resta destacar a maestria com que os autores cumpriram a difícil tarefa de articular estudos clássicos da psicanálise com questões atuais sobre o corpo e a parentalidade. A obra tem tudo para se tornar uma importante referência sobre o tema.</p>
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<mixed-citation>Dias, M. M. (2021). O pior cego é aquele que não quer escutar: relações entre o olhar e a voz em psicanálise. In Teperman, D., Garrafa, T., &amp; Iaconelli, V. Corpo. Belo Horizonte: Autêntica.</mixed-citation>
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